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O amor e o tempo

Fandom: Nenhum

Criado: 10/07/2026

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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoFatias de VidaRealismoEstudo de PersonagemCiúmes
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O Aroma de Café e o Peso do Passado

O corredor do Hospital Central tinha aquele cheiro característico de antisséptico e café requentado, um aroma que Marcos já havia aprendido a ignorar após dez anos de plantões intermináveis. Ele ajustou o estetoscópio no pescoço, sentindo o peso do cansaço acumulado não apenas pelas doze horas de serviço na urgência, mas pelos anos de um casamento que se arrastava como uma sentença.

Sua esposa, Letícia, era uma mulher boa, mas o silêncio entre eles à mesa do jantar era ensurdecedor. Marcos vivia no automático, um enfermeiro exemplar que cuidava da dor dos outros para não ter que encarar a sua própria. Ele frequentemente se pegava olhando para o nada, perguntando-se em que momento a vida tinha tomado aquele rumo cinzento.

— Marcos, o paciente do leito 4 precisa de uma reavaliação na mobilidade antes da alta — disse a enfermeira-chefe, passando apressada. — A fisioterapeuta da nova equipe de apoio já está lá.

Ele assentiu, respirando fundo. Pegou o prontuário e caminhou em direção à ala de recuperação. O sol da tarde entrava pelas janelas altas, criando feixes de luz que dançavam sobre o piso de linóleo. Ao se aproximar do leito, ele parou bruscamente.

O tempo parecia ter dobrado sobre si mesmo.

De costas para ele, uma mulher de cabelos castanhos ondulados, presos em um coque frouxo, ajudava o paciente a se sentar. Ela falava com uma voz suave, mas firme, uma voz que Marcos reconheceria em qualquer lugar do mundo, mesmo depois de duas décadas.

— Isso mesmo, Sr. Jorge. Um movimento de cada vez. O corpo tem seu próprio tempo para perdoar — disse ela.

Marcos sentiu o coração bater contra as costelas, um ritmo descompassado que ele não sentia desde os dezesseis anos.

— Com licença — ele disse, com a voz falhando levemente.

A mulher se virou. O olhar de Tamires encontrou o dele, e por um instante, o hospital desapareceu. Não havia mais o barulho dos monitores cardíacos, nem o cheiro de remédios. Havia apenas o pátio da escola, o som de uma canção antiga de rock nacional e a dor dilacerante de um adeus que nunca foi devidamente explicado.

— Marcos? — O nome saiu dos lábios dela como um sopro, carregado de uma incredulidade que espelhava a dele.

— Tamires... — Ele deu um passo à frente, incerto. — Você... você está trabalhando aqui?

Ela forçou um sorriso, embora seus olhos, ainda tão expressivos e sonhadores quanto ele lembrava, estivessem marejados.

— Comecei hoje — respondeu ela, ajeitando o jaleco com as mãos trêmulas. — Sou da equipe de fisioterapia terceirizada. Eu não fazia ideia de que você...

— Sou enfermeiro da urgência — completou ele.

Houve um silêncio carregado de vinte anos de perguntas não feitas. O Sr. Jorge, percebendo a tensão, pigarreou, mas nenhum dos dois desviou o olhar. Tamires parecia mais madura, com pequenas linhas de expressão ao redor dos olhos que só a tornavam mais real, mais palpável. Ela carregava a aura de alguém que já havia enfrentado tempestades, mas que ainda guardava um brilho de esperança.

— Eu soube que você se casou — disse ela, baixando o tom de voz, como se estivesse confessando um segredo.

— Sim. E você? — Marcos perguntou, embora soubesse a resposta por amigos em comum que, ocasionalmente, mencionavam seu nome.

— Divorciada há um ano — ela respondeu, com uma pontada de tristeza. — Tenho uma filha, a Sofia. Ela é o meu mundo.

Marcos sentiu uma mistura de alívio e melancolia. Ele queria dizer tantas coisas. Queria perguntar por que ela tinha mudado de ideia sobre eles na formatura, por que tinha enviado aquela carta cruel através de Marcelo, dizendo que nunca o amara e que ele era apenas um passatempo de verão.

— Precisamos conversar, Tamires — disse ele, a urgência em sua voz superando o profissionalismo. — Não aqui. No café da esquina, quando meu turno acabar? Daqui a trinta minutos?

Tamires hesitou. Ela se lembrou da dor que sentiu quando Marcos simplesmente parou de falar com ela, quando ele começou a namorar outra garota apenas uma semana depois de terem jurado amor eterno. Ela acreditava que ele a tinha traído com a ajuda de Marcelo.

— Tudo bem — disse ela, por fim. — Trinta minutos.

***

O café estava quase vazio. O sol estava se pondo, tingindo o céu de laranja e roxo. Marcos e Tamires sentaram-se em uma mesa nos fundos, dois estranhos que conheciam a alma um do outro.

— Por que, Tamires? — Marcos começou, sem rodeios. — Por que você mandou aquela mensagem pelo Marcelo? Eu estava pronto para ir para a mesma faculdade que você. Eu teria ido até o fim do mundo por nós.

Tamires franziu a testa, a confusão nublando seus olhos claros.

— Do que você está falando, Marcos? — Ela colocou a xícara de lado. — Foi o Marcelo quem me disse que você não queria mais me ver. Ele disse que você tinha dito que eu era "grudenta" e que precisava de uma mulher de verdade, não de uma menina sonhadora.

Marcos sentiu o sangue fugir do rosto.

— O quê? Eu nunca disse isso! — Ele bateu levemente na mesa. — O Marcelo me entregou um bilhete, com a sua letra, dizendo que você tinha conhecido um cara mais velho na praia e que eu era um erro de adolescência.

Tamires levou a mão à boca, os olhos arregalados de horror.

— Eu nunca escrevi bilhete nenhum. Eu passei semanas chorando, esperando uma ligação sua que nunca veio. Eu liguei para a sua casa, e o Marcelo atendeu uma vez, dizendo que você não queria falar comigo porque estava com a sua nova namorada.

O silêncio que se seguiu foi pesado como chumbo. A traição de Marcelo, o melhor amigo de Marcos na época, agora se revelava em toda a sua crueldade. Marcelo, que sempre nutriu uma inveja silenciosa do relacionamento dos dois, havia tecido uma teia de mentiras tão perfeita que durou duas décadas.

— Ele nos destruiu — sussurrou Marcos, sentindo uma raiva fria percorrer suas veias, seguida por uma tristeza avassaladora. — Vinte anos, Tamires. Vinte anos vivendo uma mentira.

— Eu sempre me perguntei o que eu tinha feito de errado — disse ela, uma lágrima solitária escorrendo por seu rosto. — Eu me casei tentando encontrar aquele sentimento de novo, mas nunca encontrei. Eu sempre comparei cada homem com a lembrança que eu tinha de você.

Marcos estendeu a mão sobre a mesa, cobrindo a mão dela. A pele dela era quente, exatamente como ele se lembrava em seus sonhos mais recorrentes.

— Eu também — confessou ele. — Meu casamento é uma casca vazia. Eu sinto que estou apenas esperando o tempo passar. Quando vi você hoje no hospital, foi como se eu tivesse voltado a respirar depois de anos debaixo d'água.

Tamires olhou para as mãos unidas. Havia tanto tempo perdido, tantas escolhas feitas baseadas em enganos.

— O que fazemos agora? — perguntou ela. — Não somos mais aqueles adolescentes. Temos vidas, responsabilidades, cicatrizes.

— Eu não sei — admitiu Marcos, apertando a mão dela com suavidade. — Mas eu sei que passei vinte anos tentando te esquecer e falhei miseravelmente. A vida nos deu um choque de realidade hoje. Não acho que foi por acaso.

Tamires olhou nos olhos dele, procurando o rapaz que ela amara e encontrando o homem que ele se tornara. O cansaço no olhar de Marcos espelhava o seu, mas havia ali uma faísca nova, algo que o cinismo dos anos não fora capaz de apagar.

— O Marcelo... por que ele faria isso? — perguntou ela, ainda tentando processar a magnitude da mentira.

— Ele sempre quis o que eu tinha — respondeu Marcos com amargura. — Mas não vamos dar a ele mais nenhum segundo do nosso presente. Ele já roubou o nosso passado.

O garçom trouxe a conta, mas nenhum dos dois se moveu. O mundo lá fora continuava girando, o trânsito da cidade rugia, mas naquela mesa de café, o tempo parecia ter parado para permitir que dois corações se reconhecessem novamente.

— Eu preciso ir buscar a Sofia na escola — disse Tamires, embora não fizesse menção de se levantar.

— Eu entendo — disse Marcos. — Mas... você me daria o seu número? Desta vez, eu mesmo vou ligar. Sem intermediários. Sem bilhetes.

Tamires sorriu, um sorriso que iluminou o rosto dela e fez Marcos sentir que, talvez, a felicidade não fosse um conceito tão distante assim. Ela pegou um guardanapo e escreveu o número com uma caneta que tirou da bolsa.

— Não demore vinte anos para ligar — brincou ela, embora houvesse uma nota de seriedade em sua voz.

— Eu vou ligar hoje à noite — prometeu ele.

Marcos a observou caminhar até o carro. Ela andava com a mesma elegância de antes, mas com uma força que só a maturidade traz. Ele ficou sentado ali por um longo tempo, olhando para o guardanapo em sua mão.

A mentira de Marcelo tinha moldado suas vidas, afastando-os por caminhos tortuosos e cheios de espinhos. Mas o destino, ou talvez apenas a insistência de um amor que se recusava a morrer, os havia colocado no mesmo corredor de hospital.

Marcos levantou-se, sentindo o peso em seus ombros um pouco mais leve. Ele ainda tinha um casamento para resolver, uma vida para reorganizar e muitas feridas para curar. No entanto, pela primeira vez em duas décadas, ele não estava apenas sobrevivendo. Ele estava ansioso pelo amanhã.

Ao sair do café, o ar da noite parecia mais fresco. Ele pegou o celular e salvou o contato de Tamires. O nome dela brilhava na tela, uma promessa de que nunca é tarde demais para retomar a história de onde ela foi injustamente interrompida.

— Vinte anos — murmurou ele para si mesmo, olhando para as estrelas que começavam a surgir. — Mas quem está contando?

Ele caminhou em direção ao seu carro, já planejando o que diria na ligação. Não haveria mais espaço para mentiras. Apenas a verdade, crua e esperançosa, de dois corações que finalmente haviam encontrado o caminho de volta para casa.
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