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hogwarts dr

Fandom: harry potter

Criado: 10/07/2026

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Acordes, Caos e Cachecóis Perdidos

A luz da manhã de outubro filtrava-se pelas janelas altas do Salão Comunal da Slytherin, lançando um brilho esverdeado e aquático sobre o pergaminho em branco à minha frente. Eu estava sentada numa das poltronas de couro, com as pernas cruzadas de qualquer jeito, tentando ignorar o fato de que tinha um ensaio de Poções para entregar em duas horas e a minha única linha escrita era o meu nome: *Caroline Fields*.

— Sabes, se olhares para o pergaminho com mais intensidade, pode ser que as palavras apareçam por magia. Literalmente. — A voz arrastada e divertida veio de cima.

Levantei os olhos e deparei-me com o Noah. Ele parecia ter acabado de acordar, com o cabelo preto ainda mais bagunçado do que o costume, mas já exibia aquele sorriso de quem sabia exatamente como me irritar.

— Engraçadinho — respondi, soltando um suspiro dramático e largando a pena. — Eu não estou a procrastinar. Estou a... refletir sobre a estrutura molecular dos ingredientes.

— Ah, claro. E eu sou o próximo Ministro da Magia — Noah sentou-se na beira da mesa, ignorando o olhar reprovador de um monitor do quinto ano que passava por ali. — Tu és apenas preguiçosa, Carol. Admite. Se fosse uma letra de música ou um solo de guitarra, já tinhas terminado há três dias.

— Inglês e música são úteis — retorqui, ajeitando uma mecha do meu cabelo ruivo que teimava em cair sobre os olhos. — Saber a diferença entre o muco de verme e a bile de tatu não vai ajudar-me a tocar o solo de *Do I Wanna Know?* perfeitamente.

— Mas vai ajudar-te a não reprovar e a não teres o teu irmão a dar-te sermões sobre "responsabilidade Slytherin" — Noah apontou com o polegar para o canto da sala.

Lá estava o Louis. O meu irmão mais velho parecia uma estátua de serenidade, lendo um livro grosso sobre Feitiços Avançados. Ele nem sequer olhou para cima, mas eu sabia que ele estava a ouvir. Louis tinha esse superpoder: ele não precisava de falar para que soubéssemos que ele estava a julgar o nosso caos.

— O Louis nasceu com quarenta anos — sussurrei para o Noah. — É uma condição médica rara.

Noah soltou uma gargalhada alta, o que nos valeu um "Psiu!" coletivo da mesa de estudos ao lado. Antes que eu pudesse responder, algo peludo e cor de laranja saltou para o meu colo, derrubando o meu tinteiro (que, felizmente, estava fechado, ou eu estaria agora a viver num mar de tinta).

— Barny! — exclamei, tentando segurar o gato.

O Barny não era um gato comum. Ele era um cleptomaníaco de quatro patas. Na boca, ele trazia orgulhosamente uma gravata de seda verde e prata que, definitivamente, não era minha.

— De quem é que roubaste isso agora? — perguntei, tentando tirar o troféu das garras dele.

— Acho que é do Malfoy — comentou Noah, observando a etiqueta. — Deixa-o ficar com ela. Seria um serviço comunitário.

— Não podemos ter o Barny a ser expulso por roubo qualificado — murmurei, finalmente recuperando a gravata. — Ele já roubou três cachecóis da Hufflepuff esta semana. A Sophie quase teve um colapso a tentar devolvê-los sem que ninguém percebesse.

Falar na Sophie lembrou-me de que tínhamos ensaio da banda marcado para o meio-dia na Sala Precisa. Olhei para o relógio de pulso — um presente da minha mãe que eu vivia a esquecer-me de dar corda — e percebi que estava atrasada. Para variar.

— O ensaio! — Levantei-me de um salto, derrubando metade dos meus pergaminhos no chão. — Noah, ajuda-me a apanhar isto.

— Tu és um desastre ambulante, Fields — disse ele, rindo, mas agachando-se para recolher a confusão. — Como é que consegues ser tão boa em Feitiços e tão má em... bem, em existir sem derrubar coisas?

— É um equilíbrio cósmico — respondi, enfiando tudo na mochila de qualquer maneira. — Vamos, se chegarmos depois dos Sterling, o James vai achar que tem o direito de decidir o setlist sozinho.

***

Caminhar pelos corredores de Hogwarts com o Noah era sempre uma aventura. Ele era quase duas cabeças mais alto do que eu e parecia ocupar todo o espaço com a sua energia vibrante. Quando chegámos ao sétimo andar, em frente à tapeçaria de Barnabás, o Totó, as portas da Sala Precisa já estavam abertas.

O som de uma guitarra elétrica distorcida ecoou pelo corredor.

— Ele está a fazer de propósito — resmunguei, entrando na sala.

Lá dentro, o cenário era o nosso refúgio particular. Amplificadores mágicos, uma bateria completa que Noah enfeitiçara para não ensurdecer o castelo inteiro, e um piano de cauda onde a Sophie estava sentada, lendo calmamente uma partitura enquanto o caos se desenrolava ao seu redor.

James Sterling estava no centro da sala, com a sua guitarra loira pendurada no ombro, os cabelos loiros desalinhados e um sorriso convencido no rosto. Ao lado dele, a Emma, a sua gémea, estava a ajustar os pedais da sua própria guitarra, rindo de alguma coisa que o irmão dissera.

— Chegaram as celebridades — exclamou James, parando de tocar assim que me viu. — Estava a começar a achar que a Fields tinha ficado presa num armário de vassouras de novo.

— Foi uma vez, Sterling. Uma. Vez. — Lancei-lhe o meu melhor olhar sarcástico. — E a fechadura estava enfeitiçada.

— Claro que estava — James aproximou-se, com aquele jeito de quem é dono do mundo. — E eu sou um unicórnio.

— Bem, tens o cabelo oxigenado para isso — retorqui, passando por ele e sentindo aquele perfume irritantemente bom de sândalo e grama cortada que ele usava.

— Ei! É loiro natural, ouviste? — Ele deu um passo atrás, fingindo-se ofendido, mas os seus olhos azuis brilhavam de diversão. — Estás pronta para as notas altas hoje, Carol? Ou a preguiça de domingo já se instalou?

— Eu canto melhor com sono do que tu acordado, Jay — respondi, tirando a minha guitarra da capa.

James abriu a boca para retrucar, mas a Emma interrompeu-nos com um acorde alto.

— Parem de namoriscar com insultos, vocês os dois. Temos trabalho — disse ela, piscando o olho para mim.

— Nós não estamos a namoriscar — dissemos James e eu, em uníssono.

Noah sentou-se atrás da bateria, girando as baquetas com uma habilidade irritante.

— Terceiro ano e eles ainda acham que nos enganam — murmurou Noah para a Sophie.

A Sophie, a alma mais gentil da Hufflepuff e a única que impedia este grupo de se matar ou de incendiar o castelo, apenas sorriu.

— Vamos começar? — perguntou ela, com a sua voz doce mas firme. — Louis, estás pronto?

O meu irmão, que tinha entrado na sala silenciosamente logo atrás de nós, já estava com o seu baixo afinado. Ele apenas assentiu com a cabeça, a imagem da calma.

— Um, dois... um, dois, três, quatro! — Noah deu o comando.

A música preencheu a sala. Naqueles momentos, todas as implicâncias, as aulas de História da Magia aborrecidas e as pressões de ser uma "Fields na Slytherin" desapareciam. Eu e o James partilhávamos o microfone central para o refrão. Ele era a força, a voz principal que carregava a melodia com uma confiança absoluta; eu era o contraste, as notas altas e os detalhes que davam cor à música.

Enquanto cantávamos, os nossos ombros roçaram. James olhou para mim e, por um segundo, o sarcasmo desapareceu. Havia algo ali, uma intensidade que me fazia querer desviar o olhar e, ao mesmo tempo, ficar ali para sempre. Ele sorriu, um sorriso de verdade, não o convencido, e eu senti aquela pontada familiar no estômago que eu teimava em dizer a mim mesma que era apenas fome.

— Estás desafinada — sussurrou ele, entre um verso e outro, apenas para eu ouvir.

— Vai-te catar — respondi, no mesmo tom, antes de subir uma oitava e calá-lo com a técnica.

O ensaio durou horas. Entre erros de ritmo do James (que ele nunca admitia) e as minhas entradas atrasadas porque me perdia a observar a forma como a Sophie tocava piano, a música da H6 estava a ganhar forma. Éramos uma mistura improvável: dois Slytherins, dois Gryffindors, uma Hufflepuff e... bem, o Louis, que era uma categoria à parte.

Quando finalmente fizemos uma pausa, desabei num dos sofás da sala.

— Estou exausta — declarei, fechando os olhos.

— É o que acontece quando se passa a noite a ler romances trouxas em vez de dormir — disse James, sentando-se no chão ao lado do sofá, apoiando as costas contra o estofado, mesmo ao lado do meu braço.

— Eram clássicos, Sterling. Coisa que tu não entenderias.

— Eu entendo de música. E de Quadribol. O resto é detalhe.

Abri um olho para olhá-lo. Ele estava a observar as próprias mãos, calejadas pelas cordas da guitarra.

— Tu és um idiota — disse eu, mas sem qualquer veneno.

— E tu és a pessoa mais teimosa que eu já conheci — ele retorquiu, olhando para mim. — Mas a tua voz... não é má.

— "Não é má"? — Sentei-me, indignada. — Eu acabei de carregar aquela ponte musical nas costas!

James riu, aquele som rico e genuíno que fazia o meu coração fazer coisas estranhas.

— Está bem, Fields. Tu és incrível. Satisfeita?

Fiquei em silêncio por um momento, pega de surpresa pela honestidade repentina.

— Um pouco — admiti, voltando a encostar-me. — Mas não te habitues. Eu ainda te odeio por teres comido o meu último sapo de chocolate no comboio.

— Isso foi há dois meses!

— Eu não esqueço injustiças, James. Está no meu DNA.

Ele abanou a cabeça, rindo, e por um instante a mão dele roçou na minha. Ele não a retirou imediatamente, e eu também não. Ficámos ali, no meio do caos de instrumentos e amigos, protegidos pelas paredes da Sala Precisa.

— Ei, pombinhos! — A voz da Emma quebrou o transe. — A Sophie trouxe bolinhos da cozinha. Se não vierem agora, o Noah vai comer tudo. Incluindo os guardanapos.

— Ele não está a brincar! — gritou Noah, com a boca já cheia.

James levantou-se e estendeu-me a mão. Olhei para ela por um segundo, hesitante.

— Vais ficar aí a procrastinar a comida também, Caroline?

Agarrei a mão dele e deixei que ele me puxasse para cima. Por um breve momento, ficámos demasiado perto. O cheiro de sândalo e a eletricidade do ensaio ainda pairavam entre nós. James limpou a garganta, parecendo subitamente interessado nos seus sapatos.

— Vamos — disse ele. — Antes que o Bennett entre em combustão espontânea de tanto açúcar.

Caminhámos em direção aos outros. Eu sabia que, no dia seguinte, voltaríamos a implicar um com o outro nas aulas de Poções. Sabia que eu continuaria a ser a Slytherin desastrada que perdia a varinha dentro da própria mochila, e ele continuaria a ser o Gryffindor impulsivo que ganhava detenções por desportismo excessivo.

Mas ali, com o som da risada da Sophie e as piadas do Noah ao fundo, eu percebi que Hogwarts não era sobre os grandes feitos ou sobre as casas a que pertencíamos. Era sobre aquelas pessoas. Era sobre a banda. Era sobre o crescimento lento, como uma música que começa com um simples acorde e se transforma em algo complexo e belo.

E talvez, apenas talvez, fosse sobre o rapaz loiro que, naquele momento, estava a tentar roubar um bolinho da mão da Emma e a falhar miseravelmente.

— Fields! — James chamou, atirando-me um pedaço de bolo que eu quase não consegui apanhar. — Tenta não deixar cair. Seria uma tragédia para a gastronomia mágica.

— Cala-te, Sterling! — respondi, sorrindo contra a minha vontade.

Sim, a vida em Hogwarts era exatamente como devia ser. Caótica, barulhenta e absolutamente perfeita. E, algures entre um acorde de guitarra e um insulto sarcástico, eu estava a começar a achar que o meu lugar era exatamente ali. Mesmo que o meu quarto continuasse uma desarrumação e eu ainda não tivesse escrito uma única palavra sobre a bile de tatu.

O ensaio de Poções podia esperar. A música, e eles, não.
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