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Gelo ardente

Fandom: Figure skating

Criado: 10/07/2026

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Gelo Quebrado e Sangue Frio

O ar da pista de patinação na Virgínia era exatamente como Yulia se lembrava de todos os rinques do mundo: seco, metálico e carregado com o cheiro de suor e polimento de lâminas. Mas, para ela, aquele frio tinha um gosto amargo. Não era o gelo de Moscou, onde as ordens eram gritadas em russo e a perfeição era o único idioma aceito. Aquele era o gelo da sua última chance.

Yulia Karenina ajustou as luvas pretas, sentindo a leve pressão no quadril. A cicatriz física estava escondida sob a calça térmica, mas a memória da queda no Mundial Junior de três anos atrás ainda latejava em sua mente como um fantasma. Aos treze anos, ela era o "cisne de ferro". Aos dezessete, após reaprender a andar, a respirar e a deslizar, ela era uma incógnita sob a bandeira dos Estados Unidos.

Sua mãe, Elena, estava de pé junto à mureta, com os braços cruzados e uma expressão que poderia congelar a própria água da pista. Ela não estava feliz por estar ali. Para Elena, trocar a Rússia pelos EUA era uma traição necessária, um sacrifício de sangue para que o talento da filha não morresse no isolamento das competições domésticas.

— Lembre-se, Yulia — disse Elena, sua voz cortante como uma lâmina recém-afiada. — Roman é o melhor treinador deste país medíocre. Se ele não conseguir te devolver o seu quádruplo, ninguém mais conseguirá. Não me faça sentir vergonha de ter atravessado o oceano.

Yulia apenas assentiu. Ela não tinha palavras para a mãe. Todo o seu fôlego estava guardado para o gelo.

Ela entrou na pista, sentindo o deslize suave. Aos poucos, começou a ganhar velocidade, testando o peso sobre o quadril operado. Um crossover, dois, uma espiral de mudança de borda. O movimento era fluido, mas havia uma cautela invisível em seus ombros. Ela era "The Lost Girl", a garota que o mundo esqueceu enquanto os novos prodígios russos surgiam como ondas incessantes.

De repente, um rastro de gelo foi lançado em sua direção por uma frenagem brusca. Yulia parou bruscamente, o coração disparado, a mão instintivamente indo ao quadril.

— Olha só quem o gato acabou de trazer da Sibéria. Ou devo dizer, quem a política trouxe para o meu quintal?

Yulia fechou os olhos por um segundo, inspirando profundamente. Ela reconheceria aquela voz em qualquer lugar do mundo. Era uma voz que carregava uma arrogância natural, uma autoconfiança que beirava o insuportável.

Ela se virou lentamente. Ilia Malinin estava parado a poucos metros dela, apoiado casualmente em seus patins, um sorriso torto e provocador brincando em seus lábios. Ele tinha crescido. O menino magricela que ela conhecia das competições internacionais infantis dera lugar a um jovem atleta de ombros largos, com o cabelo levemente bagunçado e um olhar que dizia que ele era o dono do mundo. O "Quad God" em pessoa.

— Ilia — disse ela, a voz fria e controlada. — Vejo que sua falta de educação continua sendo seu salto mais consistente.

Ilia soltou uma risada curta, deslizando em círculos ao redor dela, como um predador avaliando uma presa.

— E você continua sendo a "Miss Perfect", embora eu tenha ouvido dizer que a perfeição quebrou um pouco em 2020. — Ele parou na frente dela, invadindo seu espaço pessoal. — Bem-vinda à Virgínia, Karenina. Aqui a gente não patina por medo de treinador. A gente patina porque quer ser o melhor. Mas acho que você já sabe disso, não é? Ou veio apenas para ser a sombra do que já foi?

— Eu vim para treinar, Ilia. Algo que você deveria estar fazendo em vez de gastar saliva — rebateu Yulia, os olhos brilhando com uma fúria contida.

— Que agressiva! — Ele deu de ombros, fingindo ofensa. — Meu pai me disse que teríamos uma "convidada especial", só não achei que ele estava falando de uma relíquia histórica. Você ainda consegue girar sem quebrar ao meio?

Yulia sentiu o sangue subir ao rosto. A competitividade que ela tentara enterrar sob camadas de fisioterapia e cautela explodiu.

— Quer descobrir? — perguntou ela, desafiadora.

Ilia arqueou uma sobrancelha, um brilho de diversão genuína surgindo em seus olhos azuis.

— Um desafio? No seu primeiro dia? Cuidado, Karenina, eu não sou um dos seus bonecos russos que você costumava derrotar. Eu sou o cara que faz o que ninguém mais faz.

— Você é um egocêntrico que acha que quatro voltas e meia no ar compensam a falta de alma na patinação — disse ela, aproximando-se dele.

— Alma não ganha ouro olímpico, Yulia. Rotação, sim — ele sussurrou, o tom de voz mudando para algo mais baixo e perigoso. — Mas se você quer tanto me impressionar... tente me acompanhar.

Antes que ela pudesse responder, Roman Malinin entrou no rinque, batendo palmas para chamar a atenção.

— Chega de conversa! — gritou Roman, sua voz ecoando pelo ginásio. — Ilia, pare de importunar nossa nova colega de equipe. Yulia, venha aqui.

Ilia piscou para ela antes de se afastar em alta velocidade, executando um triplo Axel sem esforço algum no meio do caminho, apenas para exibir-se. Yulia deslizou até Roman, sentindo o olhar pesado de sua mãe vindo das arquibancadas.

— Yulia, fico feliz que tenha vindo — disse Roman, com um tom muito mais ameno que o de Elena, mas com olhos que analisavam cada detalhe de sua postura. — Eu conheço sua história. Sei o que você passou. Aqui, vamos trabalhar a técnica americana, mas não vou tirar de você a disciplina que a Rússia lhe deu. Só que há uma condição.

— Qual seria, treinador? — perguntou ela.

— Você e Ilia vão dividir a maior parte do tempo de gelo. Ele precisa de alguém que o desafie tecnicamente, e você precisa perder o medo de cair. Vocês são os dois maiores talentos que já vi. Se não se matarem nos primeiros cinco minutos, podem levar este país ao topo juntos.

Yulia olhou para o fundo da pista, onde Ilia estava flertando com uma das patinadoras do grupo de dança, rindo de algo que ela dissera. Ele era tudo o que ela detestava: barulhento, convencido e aparentemente desleixado com a tradição do esporte.

— Eu não vim aqui para fazer amigos, Roman — afirmou Yulia.

— Ótimo — respondeu o treinador com um sorriso enigmático. — Porque o Ilia também não. Ele só quer vencer. E, pelo que me lembro daquela menina de doze anos que fazia triplos como se respirasse, você também quer.

— Eu não quero apenas vencer — corrigiu ela, ajustando o rabo de cavalo. — Eu quero o que me tiraram.

— Então vá para o centro. Vamos ver o que sobrou desse seu Lutz.

Yulia deslizou para o ponto de partida. Ela sentia o olhar de Ilia nela agora. Ele não estava mais rindo. Estava observando, com aquela intensidade competitiva que o tornava um monstro no gelo.

Ela começou a ganhar velocidade. O mundo ao redor desapareceu. Não havia mãe rígida, não havia banimento russo, não havia dor no quadril. Havia apenas o gelo. Ela preparou a entrada para o triplo Lutz, a borda externa profunda, o braço firme. Ela saltou.

No ar, o tempo pareceu congelar. Um, dois, três giros.

A aterrissagem foi sólida, a lâmina cortando o gelo com um som nítido e limpo. Ela fluiu para fora do salto com uma elegância que era sua marca registrada.

— Nada mal para uma aposentada! — gritou Ilia do outro lado, embora seus olhos mostrassem que ele estava surpreso com a altura do salto.

Yulia não respondeu com palavras. Ela simplesmente deslizou até onde ele estava, parando a centímetros de distância, deixando que o gelo levantado por seus patins sujasse as botas impecáveis dele.

— A aposentada acabou de começar, Malinin — disse ela em voz baixa. — Tente não ficar para trás.

Ilia soltou um assobio baixo, um sorriso predatório cruzando seu rosto.

— É, Karenina... acho que a Virgínia vai ficar pequena para nós dois.

Ele se afastou, mas Yulia percebeu que, pela primeira vez em anos, o frio do rinque não parecia tão solitário. A competição estava acesa. E se havia algo que Yulia Karenina sabia fazer, era sobreviver ao fogo — mesmo que ele viesse disfarçado de um patinador americano de olhos azuis e ego inflado.

A jornada de volta ao topo seria longa e dolorosa, mas enquanto Ilia Malinin estivesse lá para irritá-la, ela teria um motivo para não desistir. Ela provaria para ele, para sua mãe e para o mundo que "The Lost Girl" tinha finalmente se encontrado. E que, desta vez, ela não cairia.

— Yulia! — gritou Roman. — De novo! E desta vez, coloque mais velocidade na entrada!

Ela respirou fundo, o ar gelado queimando seus pulmões. Era bom estar de volta.

— Sim, senhor — respondeu ela, já se lançando em direção ao centro da pista, sentindo o olhar de Ilia queimando em suas costas como uma promessa de que os dias de paz tinham chegado ao fim.

E, no fundo, era exatamente disso que ela precisava.
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