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Te quero

Fandom: Magi

Criado: 10/07/2026

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Entre o Dever e o Desejo

O silêncio na delegacia após a saída de Maya era quase ensurdecedor. Eu sentia o peso de cada palavra trocada, cada olhar carregado de mágoa que ainda queimava sob minha pele. Mariana, do outro lado do vidro, era uma presença constante e incômoda, uma peça de um quebra-cabeça que eu mesma não sabia se queria montar. Tentei me concentrar nos documentos do caso Colins, mas as letras pareciam dançar diante dos meus olhos, transformando-se em imagens de Maya e Mariana juntas.

Passei o restante do dia em um estado de torpor funcional. Assinei mandados, despachei relatórios e dei ordens automáticas, mas meu coração estava em outro lugar. Estava no teatro, para onde Helena queria tanto ir. Eu tinha dito que "veria", uma resposta clássica de quem está tentando se proteger da decepção, mas a verdade é que a ideia de ver Maya com Mariana em um ambiente familiar, compartilhando um momento com a minha filha, era um tipo de tortura que eu não sabia se conseguiria suportar.

No entanto, o olhar de expectativa de Helena naquela manhã não saía da minha mente. "Você vai também?", ela perguntou. Como eu poderia dizer não para aquela carinha?

Saí da delegacia às pressas, ignorando o olhar curioso de Mariana quando passei por sua mesa sem dizer boa noite. O trânsito do Rio de Janeiro parecia conspirar contra mim, cada sinal vermelho era uma eternidade de questionamentos internos. Por que eu estava fazendo isso? Para vigiar Maya? Para marcar território? Ou simplesmente porque eu não aguentava ficar longe delas, mesmo que estivéssemos desmoronando?

Cheguei ao teatro quando as luzes do saguão já estavam começando a piscar, anunciando o início da sessão. Meu coração martelava contra as costelas. Varri o local com o olhar, a postura de delegada ainda rígida, até que as vi perto da bomboniere.

Helena estava saltitante, usando seu vestido favorito, segurando um balde de pipoca quase do tamanho dela. Maya estava ao lado dela, com um sorriso suave, mas seus ombros estavam tensos. E então, lá estava ela. Mariana. A agente federal estava sem o distintivo à mostra, vestindo roupas casuais que a deixavam ainda mais atraente de um jeito irritante. Ela ria de algo que Helena dizia e tocou levemente o ombro de Maya.

Respirei fundo, ajeitei o blazer e caminhei em direção a elas.

— Mamãe! Você realmente veio! — O grito de Helena ecoou pelo saguão antes mesmo que eu chegasse perto.

Ela correu em minha direção, abandonando a pipoca com Maya, e se jogou nas minhas pernas. O impacto foi o único momento de pureza genuína em meio ao caos de sentimentos que me inundavam.

— Eu disse que tentaria, não disse, meu amor? — falei, baixando-me para beijar o topo da cabeça dela, sentindo o cheiro de xampu de maçã que era tão característico dela.

Quando me levantei, encontrei o olhar de Maya. Ela parecia em choque, uma mistura de alívio e pavor atravessando seus olhos castanhos. Mariana, por outro lado, arqueou uma sobrancelha, o sorriso de quem acabara de confirmar uma suspeita perigosa.

— Ora, ora... Torres. Não sabia que você era fã de teatro infantil — disse Mariana, cruzando os braços com uma naturalidade que me dava vontade de prendê-la por desacato.

— Eu sou fã da minha filha, Costa. O que acontece fora da delegacia é assunto pessoal — respondi, mantendo a voz o mais neutra possível.

— Mãe, a Mariana é muito legal! Ela conhece histórias de detetive de verdade! — Helena exclamou, puxando minha mão para nos aproximarmos do grupo.

— Imagino que sim — murmurei, lançando um olhar afiado para Maya, que permanecia calada, apertando a alça da bolsa.

— Giovanna, eu não esperava... — Maya finalmente falou, sua voz falhando levemente. — Achei que você estivesse ocupada com o depoimento do caso Colins.

— Algumas coisas são mais importantes que o trabalho, Dra. Garcia. Pensei que você soubesse disso — rebati, a ironia pingando de cada palavra.

O clima ficou pesado instantaneamente. Helena, com a sensibilidade aguçada das crianças, olhou de uma para a outra, sentindo a eletricidade no ar. Mariana, percebendo que a dinâmica ali era muito mais profunda do que um simples encontro casual, deu um passo à frente, tentando suavizar a tensão.

— Bom, já que a família — ela enfatizou a palavra com uma precisão cirúrgica — está reunida, por que não entramos? A peça vai começar.

Caminhamos para dentro da sala escura. Helena insistiu em ficar no meio, entre eu e Maya. Mariana sentou-se ao lado de Maya, completando a fileira. Durante toda a apresentação, eu não consegui prestar atenção em um único minuto do que acontecia no palco. Meus sentidos estavam todos voltados para a mulher sentada à minha direita.

Eu conseguia ouvir a respiração de Maya. Conseguia sentir o calor que emanava dela. E, mais do que tudo, eu conseguia ver, pelo canto do olho, Mariana se inclinando ocasionalmente para sussurrar algo no ouvido de Maya, fazendo-a dar aquele risinho nervoso que eu conhecia tão bem. Cada vez que isso acontecia, eu apertava o braço da poltrona com tanta força que meus dedos ficavam brancos.

— Você está bem? — Helena sussurrou para mim, encostando a cabeça no meu braço.

— Estou sim, querida. Só um pouco cansada — menti, acariciando o cabelo dela.

Quando as luzes se acenderam para o intervalo, o confronto era inevitável. Mariana levantou-se primeiro, alegando que precisava de água, e Maya aproveitou para levar Helena ao banheiro. Fiquei sozinha por alguns segundos antes de decidir que não ficaria sentada esperando o golpe final.

Encontrei Maya no corredor lateral, perto da saída de emergência, enquanto Helena lavava as mãos com a supervisão de uma das monitoras do teatro que conhecíamos.

— O que você está tentando provar, Giovanna? — Maya perguntou, encostando-se na parede, a exaustão visível em seu rosto.

— Eu não estou tentando provar nada. Eu vim ver a minha filha.

— Você veio marcar território. Eu vi o jeito que você olhou para a Mariana o tempo todo. Você está agindo como se eu fosse sua propriedade.

— Você é a mãe da minha filha, Maya! — sussurrei com urgência. — E você está saindo com a mulher que está dividindo a mesa comigo na delegacia! Você tem noção do quanto isso é doentio? Do quanto isso complica a minha vida e a segurança da Helena?

— A Mariana não é um perigo! Ela é uma mulher incrível que me tratou com gentileza quando eu me sentia um lixo por causa do nosso divórcio! — Maya rebateu, as lágrimas agora rolando livremente. — Você me afastou, Giovanna. Você escolheu a delegacia, as operações, o sigilo... Você escolheu tudo, menos a gente.

— Eu fiz tudo para proteger vocês! — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia.

— E olha como estamos protegidas. Você está aqui, espumando de ciúmes, e a Mariana está lá fora, sem entender por que a "colega de trabalho" dela parece querer matá-la com os olhos.

Antes que eu pudesse responder, Mariana apareceu no fim do corredor. Ela não se aproximou, apenas ficou ali, observando a cena com uma expressão ilegível. Ela tinha visto as lágrimas de Maya. Ela tinha visto a minha proximidade agressiva.

— Maya? Helena está chamando — disse Mariana, sua voz calma, mas firme.

Maya limpou o rosto rapidamente e passou por mim sem dizer mais nada. Eu fiquei ali, sentindo o vazio deixado pelo seu perfume e pela amargura das suas palavras.

Mariana esperou que Maya se afastasse antes de caminhar até mim. Ela parou a poucos centímetros, desafiando meu espaço pessoal.

— Casadas, não é? — perguntou ela, sem rodeios.

Eu sustentei o olhar dela. Não havia mais sentido em mentir.

— Sim. Por sete anos.

Mariana soltou um assobio baixo, balançando a cabeça.

— Você deveria ter me dito, Torres. Eu não sou de talaricar ninguém, muito menos uma parceira de investigação. Mas agora eu entendo o seu desespero. Ela é maravilhosa. E a garota... a Helena é a sua cara.

— Fique longe delas, Costa. Isso não é um aviso de delegada. É um aviso de uma mãe que não tem nada a perder.

Mariana deu um sorriso triste, algo que eu não esperava ver nela.

— O problema, Giovanna, é que a Maya não parece querer que eu fique longe. E, pelo que eu vi hoje, você é quem está forçando a entrada em uma porta que você mesma trancou por fora.

Ela se virou e voltou para a sala de espetáculos.

Fiquei sozinha no corredor frio. O som dos aplausos vindo de dentro do teatro indicava que o segundo ato estava começando. Eu tinha duas escolhas: entrar e sentar ao lado da mulher que eu ainda amava, fingindo que não doía vê-la com outra, ou sair por aquela porta de emergência e aceitar que o meu mundo, aquele que eu tanto tentei proteger, já tinha mudado de dono.

Olhei para a porta de saída e depois para a entrada da sala. Helena estava lá dentro. Maya estava lá dentro.

Respirei fundo, engoli o orgulho que queimava na minha garganta e caminhei de volta para a escuridão do teatro. Eu não ia desistir. Não hoje. Não enquanto Helena ainda estivesse chamando por "mamãe" e enquanto houvesse aquela faísca de dor nos olhos de Maya que dizia que, apesar de tudo, ela ainda se importava.

Sentei-me novamente. Helena pegou minha mão. Do outro lado, vi Mariana passar o braço pelo encosto da cadeira de Maya. O jogo estava apenas começando, e no Rio de Janeiro, ninguém jogava mais sujo do que uma delegada que tinha tudo a recuperar.
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