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Recaída

Fandom: Magi

Criado: 10/07/2026

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Jurisdição do Desejo

O auditório da escola estava lotado, abafado pelo cheiro de perfume barato e a ansiedade de dezenas de pais munidos de celulares a postos. Giovanna ajustou o colarinho da camisa social, sentindo o coldre velado incomodar levemente na cintura. Ela odiava eventos sociais, mas por Luísa, ela enfrentaria um batalhão. O que ela não esperava era que o verdadeiro inimigo estivesse sentado na terceira fileira.

Quando seus olhos focaram, o sangue de Giovanna gelou. Maya estava lá, radiante em um vestido verde-água, mas não estava sozinha. Mariana Costa, a agente federal que parecia ter se tornado a sombra de sua vida nos últimos dias, estava sentada ao lado dela, inclinada, sussurrando algo no ouvido de Maya que a fazia rir.

Giovanna sentiu uma pontada de fúria tão nítida que precisou fechar os punhos para não marchar até lá. Ela se acomodou em um assento mais ao fundo, observando a interação. Mariana tocou o ombro de Maya com uma familiaridade que queimava a retina da delegada. Era um jogo de poder, e Mariana estava ganhando território em um terreno que, por direito e história, pertencia a Giovanna.

A peça começou. Luísa apareceu no palco vestida de sol, e por alguns minutos, o mundo lá fora — a delegacia, os Colins, a traição implícita — desapareceu. Mas, ao final do espetáculo, a realidade caiu como uma cortina de ferro.

Ao sair, o fluxo de pessoas empurrou Giovanna diretamente para o corredor lateral, justamente onde Maya e Mariana tentavam sair. O destino, ou talvez o azar, resolveu intervir. Um estalo alto ecoou, seguido pelo som de metal batendo contra metal. A porta de emergência, uma relíquia de ferro de uma escola antiga, travou após a passagem de um grupo barulhento, deixando Giovanna, Maya e Mariana presas em um pequeno vestíbulo que dava para o estacionamento dos fundos, mas cuja tranca externa estava obstruída.

— Mas o que foi isso? — Mariana perguntou, forçando a maçaneta. — Travou.

— Está emperrada por fora — disse Giovanna, a voz saindo mais grossa do que pretendia. — E o trinco interno quebrou.

Maya olhou para as duas, o pânico começando a surgir nos olhos castanhos.

— Giovanna, faz alguma coisa. A Luísa está lá fora com a minha mãe, ela vai ficar preocupada.

— Eu já chamei o zelador pelo rádio da segurança — mentiu Giovanna, querendo apenas um momento de confronto. — Mariana, por que você não tenta forçar aquela janela ali em cima? Você é a Federal, não é? Deve ter algum treinamento para invasões.

Mariana estreitou os olhos, percebendo o tom sarcástico.

— Eu vou tentar. Fiquem aí e tentem não se matar.

Enquanto Mariana se afastava para subir em uns caixotes velhos no canto do depósito, o silêncio entre Giovanna e Maya tornou-se ensurdecedor.

— Você trouxe ela para a peça da nossa filha, Maya? — Giovanna explodiu em um sussurro sibilante. — Você perdeu a noção do perigo ou é apenas crueldade?

— Ela se ofereceu para vir, e eu não queria vir sozinha! — Maya rebateu, aproximando-se, o rosto a centímetros do de Giovanna. — Você nunca está presente, Giovanna. Você é a Delegada Torres 24 horas por dia. Mariana me ouve.

— Ela te olha como se fosse um troféu! — Giovanna segurou o braço de Maya, puxando-a para o canto mais escuro do vestíbulo, longe da visão de Mariana. — E você sabe que isso entre nós não acabou. Não minta para mim.

— Acabou no dia em que você colocou o distintivo acima da nossa família — Maya disse, mas sua voz falhou. As lágrimas que ela segurava desde a delegacia começaram a cair. — Eu sinto sua falta todos os dias, e você me trata como uma suspeita.

— Eu te trato como a mulher que eu ainda amo e que está se jogando nos braços de uma estranha para me atingir!

O toque de Giovanna mudou. A mão que segurava o braço de Maya subiu para a nuca dela, os dedos se enroscando nos cabelos bem cuidados. A tensão de meses de divórcio, de noites em claro e da presença irritante de Mariana culminou ali.

— Você é minha, Maya. Sempre foi — Giovanna rosnou, a voz carregada de uma possessividade que ela não conseguia mais esconder.

— Eu não sou de ninguém... — A frase de Maya morreu quando os lábios de Giovanna esmagaram os seus.

Foi um beijo desesperado, violento, com gosto de mágoa e desejo reprimido. Maya tentou empurrá-la no início, mas suas mãos logo encontraram o peito de Giovanna, agarrando a camisa social com a mesma urgência. O calor entre elas era instantâneo, uma combustão que nenhuma das duas conseguia controlar.

Giovanna a prensou contra a parede de concreto frio. O contraste do corpo quente de Maya com a parede era inebriante.

— A Mariana... ela está logo ali... — Maya arquejou, a cabeça pendendo para trás enquanto Giovanna distribuía beijos fervorosos pelo seu pescoço.

— Deixe que ela ouça. Deixe que ela saiba quem você realmente deseja.

Giovanna não perdeu tempo. Com uma agilidade nascida do conhecimento profundo daquele corpo, ela desabotoou a própria calça. Maya soltou um gemido abafado quando sentiu a rigidez de Giovanna pressionando contra sua coxa. Sim, Giovanna possuía aquela particularidade que sempre a fizera sentir-se completa, uma força da natureza que Maya nunca conseguiu esquecer.

— Gio... por favor — suplicou Maya, as pernas fraquejando.

Giovanna a ergueu, prendendo as pernas de Maya em sua cintura. O vestido verde-água subiu, revelando a lingerie de renda que Giovanna conhecia tão bem. Com um movimento firme e decidido, ela se posicionou. A entrada foi intensa, preenchendo o vazio que meses de solidão haviam cavado no peito de ambas.

— Droga, Maya... — Giovanna sibilou, os olhos fechados, sentindo o aperto familiar e acolhedor de sua ex-esposa.

Os movimentos eram rápidos, rítmicos, movidos por uma raiva latente que se transformava em puro prazer carnal. Elas não eram apenas duas profissionais no auge da carreira; eram dois seres feridos tentando se encontrar no meio dos destroços de um casamento.

No fundo do corredor, Mariana chamou:

— Maya? Giovanna? A janela está travada, vou tentar chutar a porta!

As duas pararam por um segundo, os corações batendo em uníssono contra as costelas. O perigo de serem pegas só aumentou a adrenalina. Giovanna cobriu a boca de Maya com a sua, abafando os gemidos enquanto aumentava a intensidade das estocadas. Cada movimento era um protesto, uma declaração silenciosa de que, apesar de tudo, a conexão física delas era inabalável.

Maya enterrou as unhas nos ombros de Giovanna, buscando âncora naquele mar de sensações. Ela odiava o quanto ainda precisava disso, o quanto o toque de Giovanna a fazia esquecer de toda a racionalidade que pregava no tribunal.

O ápice veio rápido, uma explosão de cores e espasmos que as deixou exaustas, encostadas uma na outra, o suor misturando-se ao perfume. Giovanna a colocou no chão devagar, o olhar escuro e fixo em Maya enquanto se recompunha.

— Isso não muda nada — Maya sussurrou, a voz trêmula, enquanto ajeitava o vestido e tentava recuperar o fôlego.

— Eu sei — respondeu Giovanna, fechando o cinto com um clique seco. — Mas agora você sabe. E ela também vai saber, assim que olhar para o seu rosto.

Um estrondo alto ecoou. Mariana finalmente conseguira arrombar a trava externa com a ajuda de um segurança que passava. A porta se abriu, inundando o pequeno vestíbulo com a luz alaranjada do estacionamento.

Mariana entrou, ofegante, olhando de uma para a outra. O clima no ambiente era denso, carregado de um cheiro que ela, como investigadora, reconheceu imediatamente. Ela olhou para o batom borrado de Maya e para a postura defensiva, porém vitoriosa, de Giovanna.

— Vocês estão bem? — Mariana perguntou, a voz fria, os olhos semicerrados ao focar em Giovanna.

— Perfeitamente, Agente Costa — Giovanna passou por ela, parando apenas por um segundo para sussurrar perto do ouvido da outra: — A próxima vez que quiser investigar alguém, certifique-se de que não está entrando em propriedade privada.

Giovanna caminhou em direção ao seu carro sem olhar para trás. Ela sabia que aquela recaída era um erro tático, um desvio no caminho da cura. Mas, enquanto segurava o volante com força, sentindo o eco do corpo de Maya ainda presente em suas mãos, ela soube que, pelo menos por aquela noite, a jurisdição sobre o coração de Maya Garcia ainda era dela.

Maya ficou para trás, sendo amparada por uma Mariana visivelmente desconfiada e ferida. O passado não tinha morrido; ele tinha apenas mostrado os dentes, lembrando a todas que, no jogo do amor e do dever, as cicatrizes nunca param de sangrar.
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