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Mais Que Amigas

Fandom: Wandinha

Criado: 11/07/2026

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RomanceFofuraFatias de VidaCenário CanônicoEstudo de PersonagemHumorNoir Gótico
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Cinco Horas de Penumbra

O dormitório de Ophelia Hall parecia dividido por uma fronteira invisível entre um arco-íris explosivo e um funeral interminável. De um lado, Enid Sinclair organizava seus bichos de pelúcia e postava vídeos em suas redes sociais; do outro, Wandinha Addams escrevia em sua máquina de datilografia, cada batida nas teclas soando como um pequeno tiro de misericórdia no silêncio do quarto.

A amizade entre as duas era um mistério para a ciência e para o bom senso, mas ali estavam elas. Wandinha, aos dezesseis anos, descobria que sua aversão ao contato humano tinha uma exceção irritante e loira. Enid, aos quinze, era a única pessoa capaz de fazer a Addams não considerar o homicídio como primeira opção de diálogo.

Naquela tarde de sábado, o quarto estava mais lotado que o habitual. Bianca Barclay e Agnes, uma sereia e uma metamorfa cujas línguas eram tão afiadas quanto suas mentes, estavam sentadas no chão, entediadas.

— Este lugar está parado demais — comentou Agnes, girando uma garrafa de refrigerante vazia no tapete. — Se eu ficar mais cinco minutos olhando para a Wandinha encarando o nada, vou acabar entrando em coma induzido.

— Eu concordo — Bianca deu um sorriso malicioso, cruzando os braços. — Que tal um jogo para animar as coisas? Verdade ou Desafio. O clássico dos desesperados.

Wandinha parou de digitar. Seus olhos escuros se fixaram em Bianca com a intensidade de um predador.

— Jogos sociais são o refúgio de mentes medíocres que não suportam a própria companhia — declarou Wandinha, embora não tenha se levantado para expulsá-las.

— Ah, qual é, Wandinha! — Enid saltou da cama, os olhos brilhando. — Vai ser divertido! Por favor, por favor, por favor?

Wandinha suspirou. O som era quase imperceptível, mas para Enid, era uma vitória.

— Se alguém chorar, eu ganho o jogo — sentenciou a Addams, sentando-se no chão com o grupo.

As primeiras rodadas foram repletas de sarcasmo. Agnes desafiou Bianca a admitir qual era o segredo mais ridículo do clube de esgrima; Bianca fez Enid confessar que ainda tinha medo do bicho-papão (o que Wandinha considerou uma futilidade, já que ela mesma era mais assustadora que qualquer monstro sob a cama).

No entanto, o clima mudou quando a garrafa parou, apontando de Agnes para Wandinha.

— Ora, ora... — Agnes sorriu, trocando um olhar cúmplice com Bianca. — Wandinha Addams. Eu te desafio a passar cinco minutos com a Enid.

Wandinha franziu o cenho, uma leve ruga se formando entre suas sobrancelhas.

— O que exatamente é "passar cinco minutos"? — perguntou ela. — Nós já dividimos este quarto há meses. Isso não é um desafio, é um destino trágico.

— Não é só ficar no quarto — Bianca explicou, inclinando-se para frente. — É ficar cinco minutos trancada dentro de um cômodo fechado. O armário de suprimentos no fim do corredor serve. Duas pessoas, um espaço minúsculo, escuridão total e silêncio absoluto.

Enid sentiu o rosto esquentar. Ela olhou para Wandinha, esperando que a amiga descartasse a ideia como uma perda de tempo.

— Cinco minutos é um insulto — disse Wandinha subitamente.

Agnes piscou, surpresa.

— Como assim?

— Se o objetivo é que as pessoas fiquem sozinhas para confrontar a presença uma da outra, cinco minutos é o tempo que se leva para uma autópsia superficial — Wandinha levantou-se, mantendo a expressão gélida. — Eu sugiro cinco horas.

— Cinco horas?! — Enid exclamou, a voz subindo uma oitava. — Wandinha, isso é muito tempo! O que a gente vai fazer lá dentro?

— As pessoas que estão dentro do cômodo devem ficar bem sozinhas e, para isso, precisam de tempo — respondeu Wandinha, usando um tom lógico que escondia o turbilhão em seu estômago. — Menos que isso é apenas uma distração. Mais que isso seria um sequestro. Cinco horas é o equilíbrio perfeito para o desconforto.

Wandinha virou-se para Enid, seus olhos negros perfurando a alma da loba.

— A menos que você não queira, Enid. Você tem medo do escuro ou da minha companhia?

Enid engoliu em seco. Ela sabia que Bianca e Agnes estavam armando algo, mas o desafio nos olhos de Wandinha era irresistível. Além disso, a ideia de ter Wandinha só para si, sem interrupções, era estranhamente atraente.

— Eu não tenho medo de nada que venha de você — Enid respondeu, tentando parecer corajosa. — Tudo bem. Cinco horas.

Agnes e Bianca trocaram um hi-five mental. Elas conduziram as duas até o pequeno depósito de limpeza no final do corredor, um lugar apertado, com cheiro de pinho e cera de chão.

— Vejo vocês daqui a cinco horas, pombinhas — zombou Bianca, fechando a porta e girando a chave por fora. — Não se matem.

O silêncio caiu sobre elas como um manto pesado. Estava escuro, exceto por uma fresta de luz que vinha debaixo da porta.

A primeira hora passou em um silêncio absoluto. Wandinha sentou-se no chão, encostada em um balde de metal, parecendo perfeitamente confortável na obscuridade. Enid, por outro lado, não parava de mexer nas cutículas.

A segunda hora foi marcada pelo som da respiração de ambas. Enid tentou puxar assunto sobre as aulas de botânica, mas Wandinha respondeu com monossílabos que encerravam qualquer possibilidade de diálogo.

Na terceira hora, a tensão era quase palpável. Enid sentia que ia explodir. O espaço era tão pequeno que seus joelhos ocasionalmente esbarravam nos de Wandinha.

— Wandinha? — Enid sussurrou, a voz trêmula.

— Sim, Enid.

— Por que você pediu cinco horas? Eu sei que você disse aquela coisa sobre o tempo ser necessário, mas... você odeia perder tempo. Você poderia estar escrevendo seu romance agora.

Houve uma pausa longa. Wandinha mudou de posição, o tecido de seu uniforme roçando no de Enid.

— Eu não considero este tempo perdido — disse Wandinha. Sua voz estava diferente, menos cortante, mais profunda.

— Não? — Enid sentiu o coração acelerar. — Mas a gente não está fazendo nada. Está escuro, está apertado e eu tenho quase certeza de que tem uma aranha no meu ombro.

— A aranha é inofensiva — Wandinha afirmou. — E quanto ao motivo... a verdade é que o barulho do mundo lá fora me irrita. A cor das coisas me irrita. Mas aqui, no escuro, eu consigo focar no que realmente importa.

— E o que importa? — perguntou Enid, quase sem fôlego.

— Você — a palavra saiu da boca de Wandinha como uma confissão proibida. — Eu passei os últimos meses tentando entender por que sua presença não me causa a vontade habitual de cometer um crime violento. Cheguei à conclusão de que você é uma anomalia irritante no meu sistema. Eu gosto de como você sorri para as coisas estúpidas. Gosto do fato de você ser a única pessoa que não recua quando eu mostro minhas garras.

Enid ficou paralisada. O silêncio que se seguiu não era mais frio; era carregado de uma eletricidade que fazia os pelos de seus braços se arrepiarem.

— Wandinha... você está dizendo que...

— Estou dizendo que eu desenvolvi sentimentos por você que desafiam minha lógica e minha natureza — interrompeu Wandinha, as palavras saindo rápidas agora. — É uma tortura, Enid. Uma tortura deliciosa que eu não quero que acabe. Eu queria cinco horas porque queria ver se, no isolamento, eu teria coragem de admitir que você é a luz que eu, infelizmente, decidi que quero seguir.

O silêncio retornou, mas desta vez era ensurdecedor. Enid sentiu lágrimas de alívio e alegria picarem seus olhos. Ela tateou no escuro até encontrar a mão de Wandinha. Para sua surpresa, a Addams não se afastou; seus dedos se entrelaçaram com os dela.

— Eu sinto o mesmo — confessou Enid, a voz embargada. — Eu achei que estava ficando louca, porque você é tão... você. E eu sou toda colorida e barulhenta. Eu achei que você me achasse um estorvo.

— Você é um estorvo — Wandinha aproximou-se, Enid podia sentir o calor vindo dela. — Mas é o meu estorvo favorito.

No escuro do depósito, sem que ninguém pudesse ver, Enid guiou o rosto de Wandinha em sua direção. Quando seus lábios se encontraram, foi como se o mundo fizesse sentido pela primeira vez. O beijo foi calmo no início, uma exploração tímida de territórios desconhecidos, mas logo se tornou intenso, carregado de toda a tensão acumulada nos últimos meses.

Wandinha, que sempre pregou o desapego, segurou o rosto de Enid com uma urgência que dizia mais do que qualquer poema macabro.

De repente, o som de uma chave girando na fechadura ecoou pelo corredor. A porta foi escancarada, inundando o pequeno cômodo com a luz forte do corredor.

Agnes e Bianca estavam paradas ali, com sorrisos de orelha a orelha. Elas não precisaram de muito tempo para notar as mãos dadas e os lábios levemente avermelhados das duas.

— EU SABIA! — gritou Agnes, pulando de alegria. — Eu disse que ia funcionar!

— Cinco horas, hein, Wandinha? — Bianca cruzou os braços, rindo. — Admita, foi o melhor desafio da sua vida.

Wandinha levantou-se com sua dignidade habitual, embora houvesse um brilho diferente em seus olhos. Ela ajudou Enid a se levantar e limpou a poeira da saia da loira.

— Se vocês contarem isso para alguém — Wandinha disse, encarando as duas com sua promessa de morte favorita —, eu vou garantir que o próximo cômodo fechado que vocês visitarem seja um caixão.

— Valeu a pena! — Agnes comemorou, ignorando a ameaça enquanto ela e Bianca saíam saltitando pelo corredor em comemoração ao sucesso do plano.

Enid olhou para Wandinha e sorriu, apertando sua mão.

— Então... ainda faltam duas horas para completar o seu desafio de cinco horas. O que fazemos agora?

Wandinha olhou para o corredor vazio e depois de volta para Enid.

— Eu conheço um lugar no telhado onde ninguém vai nos incomodar — disse a Addams. — E lá, o silêncio é opcional.

Enid riu, puxando Wandinha para longe das risadas de Agnes e Bianca, sabendo que, a partir daquele dia, a Academia Nunca Mais nunca mais seria a mesma para nenhuma das duas.
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