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Realeza

Fandom: Realeza

Criado: 11/07/2026

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RomanceDramaHistóricoEstudo de PersonagemAventuraFatias de VidaRomance
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O Eco das Montanhas e o Vento do Norte

A luz do entardecer sobre o Castelo de Peles, nos Cárpatos, tinha uma tonalidade de ouro velho, quase melancólica. Dentro dos salões de pedra e madeira entalhada, a Princesa Maria da Romênia observava a paisagem através de uma das janelas em arco da biblioteca. Ela herdara não apenas o nome de sua lendária bisavó, mas também aquele olhar penetrante, de um azul quase cinzento, que parecia ver além do horizonte.

Maria ajustou o xale sobre os ombros. O ar da montanha estava ficando gelado, um lembrete constante de que o outono romeno não perdoava os despreparados. No entanto, sua mente não estava no clima, mas sim no convidado que acabara de chegar de Copenhague.

A visita do Príncipe Vincent da Dinamarca não era puramente diplomática, embora os jornais insistissem em chamá-la de "missão de boa vontade entre casas reais". Havia algo mais profundo, um acordo silencioso entre famílias que Maria ainda não tinha certeza se desejava cumprir.

— Dizem que a vista daqui é a mais bela de toda a Europa Oriental. — A voz masculina, com um sotaque suave mas firme, ecoou pelo salão.

Maria virou-se lentamente e encontrou Vincent parado à entrada da biblioteca. Ele não usava o uniforme militar formal que ostentava na cerimônia de recepção horas antes; em vez disso, vestia um suéter de lã escura e calças de corte impecável. Ele parecia menos um herdeiro de um trono nórdico e mais um homem comum, exceto pela postura que denunciava anos de protocolo.

— As fotos não fazem justiça, Alteza — respondeu Maria, esboçando um sorriso contido. — Mas suspeito que o senhor sinta falta da costa dinamarquesa. Nossas montanhas podem ser um pouco... claustrofóbicas para quem está acostumado com o mar aberto.

Vincent caminhou até ela, parando a uma distância respeitosa, mas próxima o suficiente para que Maria sentisse o aroma de sândalo e ar fresco que ele trazia consigo.

— Pelo contrário — disse ele, voltando o olhar para os picos nevados. — Há uma força aqui que o mar não possui. O mar muda a cada segundo. As montanhas, no entanto, permanecem. Elas guardam segredos.

— E o senhor gosta de segredos, Príncipe Vincent? — perguntou Maria, arqueando uma sobrancelha.

— Prefiro a verdade — admitiu ele, voltando os olhos para ela. — Mas no nosso mundo, a verdade é muitas vezes o segredo mais bem guardado.

Houve um silêncio confortável entre eles por alguns instantes. Maria sentia o peso das expectativas sobre seus ombros. Ela sabia o que seus pais esperavam, o que o governo romeno esperava. Uma união entre a Romênia e a Dinamarca fortaleceria laços europeus em um momento de incerteza geopolítica. Mas Vincent era uma incógnita. Ele era conhecido por sua discrição, por sua dedicação aos deveres e por uma vida longe dos escândalos dos tabloides.

— Minha mãe me contou que a Rainha Maria costumava escrever aqui — comentou Vincent, apontando para a escrivaninha de carvalho no canto. — Ela dizia que o espírito da Romênia estava nestas paredes.

— Ela estava certa — Maria caminhou até a mesa, passando os dedos pela superfície polida. — Minha bisavó não era apenas uma rainha; ela era a alma deste país. Às vezes, sinto que o nome que carrego é um uniforme que nunca poderei tirar.

— Eu entendo — disse Vincent, sua voz baixando de tom. — O nome Vincent significa "aquele que vence". Mas, às vezes, sinto que a única coisa que venci foi a minha própria vontade, em favor da coroa.

Maria olhou para ele com surpresa. Não esperava tal franqueza logo no primeiro encontro privado.

— É uma confissão perigosa para um príncipe — observou ela.

— Talvez — Vincent deu um passo à frente. — Mas se vamos passar as próximas duas semanas sendo fotografados juntos, fingindo um interesse que o mundo quer ver, achei que deveríamos, pelo menos, ser honestos um com o outro quando as câmeras não estiverem por perto.

Maria sentiu uma pontada de admiração. A honestidade dele era desarmante.

— E o que a sua honestidade diz sobre este... arranjo? — perguntou ela, cruzando os braços.

— Diz que eu não pretendo forçar nada — respondeu ele, com seriedade. — Eu vim para conhecer a mulher por trás do título. Se descobrirmos que somos estranhos vivendo em mundos diferentes, voltarei para a Dinamarca e direi que somos grandes amigos e nada mais. Minha lealdade é ao meu país, mas minha vida ainda é minha.

— Você é mais romântico do que eu imaginava, Vincent — Maria riu baixo, o som ecoando suavemente pelos livros antigos.

— Não é romance, Maria. É sobrevivência — corrigiu ele, embora houvesse um brilho divertido em seus olhos. — Agora, diga-me... se você pudesse fugir deste castelo por uma hora, sem seguranças, sem damas de companhia, para onde iria?

Maria hesitou. Ela pensou nas trilhas escondidas que conhecia desde criança, nos vilarejos onde o tempo parecia ter parado no século XIX.

— Há um pequeno santuário de ursos a dez quilômetros daqui — disse ela, os olhos brilhando. — Eles cuidam de animais que foram resgatados. Não há tapetes vermelhos lá, apenas lama, floresta e o som do rio.

Vincent sorriu, um sorriso verdadeiro que mudou completamente a expressão de seu rosto, tornando-o mais jovem e acessível.

— Parece perfeito. Quando partimos?

— Você está falando sério? — Maria olhou para a porta, preocupada com o chefe da segurança que certamente estaria no corredor. — Se formos pegos, haverá um incidente diplomático. "Príncipe herdeiro da Dinamarca desaparecido nas florestas da Transilvânia".

— Deixe que se preocupem — disse Vincent, aproximando-se ainda mais. — Eu sei dirigir um off-road e sou excelente em ler mapas. E, se nos perdermos, pelo menos teremos uma história melhor para contar do que o jantar de Estado de amanhã.

Maria sentiu um frio na barriga que não sentia há anos. Não era apenas a ideia da aventura, mas a presença de Vincent. Ele não era o príncipe rígido que ela imaginara. Havia uma centelha de rebeldia nele que espelhava a sua própria.

— Há uma saída pelas cozinhas que leva à garagem antiga — sussurrou ela, sentindo o coração acelerar. — Mas você terá que trocar esse suéter caro por algo menos... real.

— Tenho uma jaqueta de couro na mala que deve servir — Vincent piscou para ela. — Encontre-me na garagem em vinte minutos.

— Vinte minutos — concordou ela.

Enquanto Vincent saía da biblioteca com passos silenciosos, Maria ficou parada por um momento, tentando recuperar o fôlego. Ela olhou para o retrato de sua bisavó na parede. A velha rainha parecia aprovar com um olhar enigmático.

A fuga foi mais fácil do que Maria previra. O castelo estava em polvorosa com os preparativos para o banquete do dia seguinte, e a troca de turnos da guarda facilitou a saída. Quando ela chegou à garagem, Vincent já estava lá, vestindo uma jaqueta de couro desgastada e jeans, debruçado sobre um antigo Land Rover que pertencia à frota de serviço do castelo.

— Você sabe mesmo dirigir isso? — perguntou ela, aproximando-se das sombras.

— Meu pai me ensinou nas dunas da Jutlândia — respondeu ele, abrindo a porta do passageiro para ela. — Suba. Antes que alguém decida verificar se o príncipe está lendo filosofia no quarto.

O motor rugiu, um som que pareceu alto demais no silêncio da noite, mas logo eles estavam deslizando pelos portões laterais, ganhando a estrada de terra que serpenteava a montanha.

O vento entrava pelas frestas das janelas, trazendo o cheiro de pinheiros e terra úmida. Maria sentiu uma liberdade avassaladora. Ao seu lado, Vincent dirigia com confiança, as mãos firmes no volante, o olhar focado na estrada iluminada pelos faróis.

— Por que você aceitou vir para a Romênia, Vincent? — perguntou ela após alguns quilômetros de silêncio. — A Dinamarca tem alianças melhores a fazer.

Vincent olhou para ela rapidamente antes de voltar a atenção para uma curva fechada.

— Porque eu vi uma foto sua em um evento de caridade em Londres, no ano passado — confessou ele. — Você não estava sorrindo para as câmeras. Estava conversando com uma criança, e parecia que o resto do mundo não existia. Naquele momento, eu soube que você não era apenas uma princesa de papel. Eu quis conhecer a pessoa que tinha aquele olhar.

Maria sentiu o rosto esquentar. Ela se lembrava daquele dia; o cansaço era imenso, mas a conexão com aquela criança fora a única coisa real em horas de protocolo vazio.

— E o que você encontrou até agora? — perguntou ela, a voz quase um sussurro.

Vincent parou o carro em um mirante natural, onde a floresta se abria para mostrar o vale iluminado pela lua. Ele desligou o motor e o silêncio da montanha os envolveu.

— Encontrei alguém que é tão prisioneira quanto eu — disse ele, voltando-se para ela no espaço confinado do carro. — Mas que tem a coragem de fugir no meio da noite para ver ursos na lama.

— Nós ainda não chegamos aos ursos — lembrou ela, tentando manter o tom leve, apesar da eletricidade no ar.

— Os ursos podem esperar — disse Vincent. Ele estendeu a mão e, com uma hesitação incomum, tocou uma mecha do cabelo escuro de Maria. — Maria, eu não sei o que o futuro reserva para nós. Nossas vidas são decididas por parlamentos e tradições de séculos. Mas, aqui e agora, eu só quero saber se há espaço para mim na sua história. Não como o Príncipe da Dinamarca, mas como Vincent.

Maria olhou para a mão dele e depois para os olhos verdes, que agora pareciam profundos como a floresta ao redor. Ela percebeu que, pela primeira vez em sua vida adulta, não estava pensando no que era certo para a dinastia Hohenzollern-Sigmaringen. Estava pensando no calor da mão de Vincent e na sinceridade de suas palavras.

— Há muito espaço, Vincent — respondeu ela, cobrindo a mão dele com a sua. — Mas aviso logo: a minha história costuma ter muitas tempestades.

— Eu venho do Norte, Maria — ele sorriu, aproximando o rosto do dela. — Eu não tenho medo de tempestades. Eu nasci nelas.

Quando seus lábios finalmente se encontraram, não foi um beijo de contos de fadas, coreografado e frio. Foi um beijo real, com gosto de aventura e a promessa de uma rebelião compartilhada. Naquela noite, nas sombras dos Cárpatos, a Romênia e a Dinamarca deixaram de ser apenas nomes em um mapa político para se tornarem o pano de fundo de algo que nenhum protocolo poderia prever.

O rádio do carro soltou um pequeno chiado estático, e uma música folclórica romena antiga começou a tocar baixinho, vinda de alguma estação local perdida nas montanhas.

— Acho que o carro está tentando nos dizer que é hora de seguir — comentou Maria, afastando-se relutante, com um brilho nos olhos que Vincent nunca tinha visto em nenhuma fotografia.

— Ou está nos dizendo que a noite está apenas começando — retrucou ele, ligando o motor novamente. — Para onde agora, Princesa?

— Siga em frente — disse ela, apontando para a estrada que sumia entre as árvores. — Onde a estrada terminar, a nossa verdadeira jornada começa.

Vincent engatou a marcha e o Land Rover avançou pela escuridão. Atrás deles, o Castelo de Peles brilhava como uma joia distante, mas para Maria, o verdadeiro tesouro estava ali, naquele veículo barulhento, ao lado de um homem que ousara ver a mulher por trás da coroa.

Eles não chegaram ao santuário de ursos naquela noite. Perderam-se em uma estrada secundária, riram das direções erradas de Maria e terminaram tomando café em uma pequena estalagem de beira de estrada que ainda estava aberta, onde ninguém os reconheceu sob as jaquetas pesadas e o cansaço feliz.

Sentados em um banco de madeira rústica, dividindo um prato de *papanasi* quente, eles conversaram sobre tudo o que não era permitido em jantares oficiais: seus medos, seus livros favoritos e o desejo simples de, às vezes, sumir no mundo.

— Sabe — disse Vincent, limpando um pouco de creme de leite do canto da boca —, se meu secretário pessoal visse isso, ele teria um colapso nervoso.

— O meu provavelmente já acionou a Interpol — riu Maria. — Mas vale a pena.

— Vale — concordou ele, segurando a mão dela sobre a mesa. — Cada segundo.

Quando o sol começou a despontar no horizonte, pintando o céu de rosa e violeta, eles souberam que precisavam voltar. O mundo real, com seus deveres e expectativas, estava prestes a acordar. Mas algo havia mudado. O peso da coroa parecia um pouco mais leve, agora que sabiam que não precisavam carregá-la sozinhos.

Ao estacionarem o carro de volta na garagem oculta, Vincent ajudou Maria a descer.

— O banquete de hoje à noite será insuportável — sussurrou ele enquanto caminhavam de volta para as passagens internas.

— Sim, será — Maria sorriu, ajeitando o cabelo bagunçado. — Mas eu estarei olhando para você e lembrando do gosto deste café horrível e da lama nos seus sapatos.

— E eu estarei olhando para você — disse Vincent, parando diante da porta que levava aos aposentos privados dela — e sabendo que, por trás de toda essa pompa, existe uma mulher que não tem medo de se perder na floresta.

Ele beijou a mão dela com uma reverência que era metade protocolo e metade promessa, e então desapareceu no corredor. Maria entrou em seu quarto, fechando a porta e encostando-se nela. O ar frio da montanha ainda estava em sua pele. Ela caminhou até o espelho e viu uma mulher diferente daquela que saíra horas antes.

A Princesa Maria da Romênia estava pronta para o banquete. Mas a Maria que Vincent conhecera naquela noite... essa pertenceria apenas a ele, e às montanhas que guardavam seus segredos.
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