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Briga
Fandom: Magi
Criado: 11/07/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoHistória DomésticaCrimeRealismo MágicoCiúmes
Sombras de Magnostadt
O condomínio onde morávamos era um dos poucos lugares onde o silêncio parecia ser um privilégio real. O sol da manhã, agora mais alto e brilhante, refletia-se nas janelas das casas modernas, criando um jogo de luzes que, em qualquer outro dia, eu consideraria poético. Mas, enquanto eu caminhava pelas calçadas arborizadas, sentia uma inquietação estranha no peito.
O café da manhã tinha sido maravilhoso, e a ligação de Giovanna, embora doce, deixara aquele rastro de dúvida. Eu conhecia o tom de voz dela. Seria "burocracia" ou algo que ela estava tentando filtrar para me proteger?
Decidi caminhar um pouco para arejar a mente. O ar fresco ajudava a diminuir o cansaço que ainda persistia. Coloquei as mãos nos bolsos do casaco leve e segui em direção à área comum, onde o paisagismo era impecável. Eu precisava de um pouco de normalidade antes de voltar para a rotina de exames e consultas, mesmo que hoje fosse meu dia de folga.
No entanto, a paz durou pouco.
Ao dobrar a esquina que levava ao pequeno lago artificial, avistei uma figura que fez meus passos vacilarem. Cabelos perfeitamente alinhados, postura rígida e um sorriso que nunca chegava aos olhos. Júlia.
Ela também era médica no hospital, mas nossa relação era pautada por uma civilidade forçada que, às vezes, beirava a hostilidade. Júlia sempre teve uma fixação não tão secreta por Giovanna, e o fato de eu estar com a inspetora era uma ferida aberta no ego dela.
— Maya? — A voz dela ecoou, carregada de uma falsa surpresa. — Não sabia que você morava por aqui. Ou será que está apenas... de passagem?
Parei, respirando fundo para manter a calma.
— Eu moro aqui, Júlia. Com a Giovanna. Mas acho que você já sabia disso — respondi, tentando manter o tom neutro.
Júlia aproximou-se, os olhos avaliando cada detalhe do meu rosto, parando por um segundo a mais na minha barriga, que a roupa leve ainda conseguia disfarçar.
— Ah, sim. A famosa "residência oficial". — Ela soltou uma risadinha anasalada que me deu náuseas. — É um lugar lindo. Uma pena que as sombras do passado sempre acabem alcançando condomínios tão bem vigiados, não é?
— O que você quer dizer com isso? — perguntei, sentindo o sangue esfriar.
— Nada demais. Só que o hospital inteiro comenta sobre como você tem estado... sensível. E sobre como a Giovanna tem passado tempo demais na delegacia ultimamente. — Ela deu um passo à frente, cruzando os braços. — Inclusive, ela já sarou do machucado?
Franzi a testa, o coração dando um solavanco.
— Machucado? Do que você está falando?
Júlia fingiu um olhar de choque, levando a mão à boca de forma teatral.
— Oh, ela não te contou? Que descuido. Ontem à noite, antes de ir para casa, ela teve um "incidente" durante uma averiguação de rotina. Nada grave, claro, apenas um corte feio no braço e alguns hematomas. Eu estava no pronto-atendimento quando ela passou por lá para fazer um curativo rápido.
Senti o chão fugir sob meus pés. Giovanna tinha chegado em casa tarde, mas estava escuro, e ela foi direto para o banho. Ela agiu normalmente, me abraçou, me beijou... e escondeu que estava ferida.
— Ela está bem — afirmei, mais para mim mesma do que para Júlia.
— Se você diz... — Júlia sorriu, um brilho malicioso nos olhos. — Mas é curioso, não é? Ela prefere ser atendida por uma colega de trabalho do que pela própria namorada médica. Talvez ela não queira que você veja o quão perigoso o mundo dela realmente é. Ou talvez ela só quisesse a minha companhia por alguns minutos.
— Chega, Júlia — cortei, a voz tremendo de raiva. — Se o seu objetivo era plantar dúvida ou ciúme, você está perdendo seu tempo.
— Será? — Ela deu de ombros, virando-se para sair. — Só um conselho, Maya: em Magnostadt, os segredos pesam mais que a magia. E a Giovanna está carregando muitos deles nas suas costas... feridas.
Ela se afastou, deixando para trás um rastro de perfume caro e uma tempestade dentro de mim. Eu não conseguia mais caminhar. Dei meia-volta e rumei para casa, cada passo impulsionado por uma mistura de preocupação e uma fúria crescente.
(...)
Passei as horas seguintes andando de um lado para o outro na sala. Tentei ler, tentei ver televisão, mas as palavras de Júlia e a omissão de Giovanna queimavam. Christopher, o julgamento, a gravidez, o perigo... e agora um ferimento escondido.
Quando ouvi o som da chave na fechadura, meu corpo todo se retesou.
Giovanna entrou com o semblante cansado, a jaqueta de couro pendurada no ombro. Assim que seus olhos encontraram os meus, ela tentou abrir um sorriso, mas ele vacilou ao ver minha expressão.
— Oi, meu amor... — começou ela, dando um passo em minha direção. — Aconteceu alguma coisa? Você está pálida.
— Tira a jaqueta, Giovanna — eu disse, a voz fria e direta.
Ela parou no lugar, a confusão estampada no rosto.
— O quê? Maya, eu acabei de chegar, tive um dia exaustivo na delegacia...
— Tira a jaqueta e levanta a manga da camisa. Agora.
Giovanna suspirou, fechando os olhos por um segundo. Ela sabia. Ela jogou a jaqueta no sofá e, com movimentos lentos, desabotoou o punho da camisa esquerda, revelando um curativo profissional cobrindo boa parte do antebraço.
— Quem te contou? — perguntou ela, a voz baixa.
— Encontrei a Júlia no condomínio. Ela fez questão de me dar os detalhes que você "esqueceu" de mencionar. — Cruzei os braços, sentindo as lágrimas de frustração pinicarem meus olhos. — Por que você mentiu para mim? Por que escondeu que se machucou?
— Eu não menti, Maya. Eu só... omiti. Você estava tão feliz ontem, tão relaxada. Eu não queria que você ficasse preocupada com um arranhão de trabalho.
— Um arranhão? — explodi, dando um passo à frente. — Você foi ao hospital! Você deixou que aquela mulher te atendesse e voltou para casa fingindo que nada tinha acontecido! Nós combinamos, Giovanna! Sem segredos, principalmente agora!
— Eu estava tentando te proteger! — ela aumentou o tom de voz, a frustração transbordando. — Você tem noção da pressão que eu estou sofrendo? O Christopher vai a julgamento, o Ministério Público quer que você deponha, eles querem usar a nossa vida, a sua gravidez, tudo contra nós! Eu só queria que, dentro desta casa, você pudesse respirar sem pensar em crime ou perigo!
O silêncio que se seguiu foi pesado. A revelação sobre o depoimento me atingiu como um soco no estômago.
— Eles querem que eu deponha? — perguntei, a voz agora apenas um sussurro.
Giovanna passou as mãos pelo rosto, visivelmente exausta. Ela se aproximou e, desta vez, eu não recuei. Ela segurou meus ombros com delicadeza.
— Querem. Mas eu não vou deixar, Maya. Eu disse a eles que você não tem condições. Eu vou lutar contra isso com todas as minhas forças.
— E para lutar contra isso você acha que precisa se mutilar e esconder de mim? — Olhei para o curativo no braço dela. — Eu sou médica, Giovanna. Eu cuido de pessoas todos os dias. Mas quem cuida de você se você não me deixa entrar?
— Eu só não queria ser mais um problema na sua lista — confessou ela, encostando a testa na minha. — Eu sinto que o mundo está desabando lá fora e eu só quero manter este lugar seguro.
— Este lugar só é seguro se formos nós duas contra o resto — respondi, deixando uma lágrima cair. — Não me exclua da sua dor para tentar preservar a minha alegria. Isso não funciona. Só me faz sentir sozinha.
Giovanna envolveu-me em um abraço apertado, escondendo o rosto no meu pescoço. Eu sentia a tensão saindo do corpo dela aos poucos.
— Me desculpa — sussurrou ela contra minha pele. — Eu fui uma idiota. A Júlia... ela só queria te atingir. Ela me atendeu porque era a médica de plantão, eu nem tive escolha.
— Eu sei — suspirei, retribuindo o abraço. — Mas se você fizer isso de novo, se esconder qualquer coisa, por menor que seja... eu juro que te coloco para dormir no sofá por um mês. E sem direito a café da manhã vegano.
Ela soltou uma risada abafada, o som que eu tanto amava.
— Justo. Prometo que não escondo mais nada. Nem os cortes, nem as intimações judiciais.
— Ótimo. Agora, senta ali. — Apontei para o sofá. — Vou pegar meu kit de primeiros socorros. Vou trocar esse curativo e você vai me contar exatamente o que aconteceu naquela delegacia. Cada detalhe.
Giovanna obedeceu, sentando-se com um sorriso rendido.
— Sim, doutora.
Enquanto eu buscava os materiais, senti que, apesar das sombras de Christopher e das provocações de Júlia, a luz entre nós ainda era forte o suficiente para guiar o caminho. O julgamento viria, a tempestade estava se formando, mas pela primeira vez no dia, eu não estava mais com medo. Estávamos juntas, e em Magnostadt ou em qualquer lugar do mundo, essa era a nossa maior magia.
O café da manhã tinha sido maravilhoso, e a ligação de Giovanna, embora doce, deixara aquele rastro de dúvida. Eu conhecia o tom de voz dela. Seria "burocracia" ou algo que ela estava tentando filtrar para me proteger?
Decidi caminhar um pouco para arejar a mente. O ar fresco ajudava a diminuir o cansaço que ainda persistia. Coloquei as mãos nos bolsos do casaco leve e segui em direção à área comum, onde o paisagismo era impecável. Eu precisava de um pouco de normalidade antes de voltar para a rotina de exames e consultas, mesmo que hoje fosse meu dia de folga.
No entanto, a paz durou pouco.
Ao dobrar a esquina que levava ao pequeno lago artificial, avistei uma figura que fez meus passos vacilarem. Cabelos perfeitamente alinhados, postura rígida e um sorriso que nunca chegava aos olhos. Júlia.
Ela também era médica no hospital, mas nossa relação era pautada por uma civilidade forçada que, às vezes, beirava a hostilidade. Júlia sempre teve uma fixação não tão secreta por Giovanna, e o fato de eu estar com a inspetora era uma ferida aberta no ego dela.
— Maya? — A voz dela ecoou, carregada de uma falsa surpresa. — Não sabia que você morava por aqui. Ou será que está apenas... de passagem?
Parei, respirando fundo para manter a calma.
— Eu moro aqui, Júlia. Com a Giovanna. Mas acho que você já sabia disso — respondi, tentando manter o tom neutro.
Júlia aproximou-se, os olhos avaliando cada detalhe do meu rosto, parando por um segundo a mais na minha barriga, que a roupa leve ainda conseguia disfarçar.
— Ah, sim. A famosa "residência oficial". — Ela soltou uma risadinha anasalada que me deu náuseas. — É um lugar lindo. Uma pena que as sombras do passado sempre acabem alcançando condomínios tão bem vigiados, não é?
— O que você quer dizer com isso? — perguntei, sentindo o sangue esfriar.
— Nada demais. Só que o hospital inteiro comenta sobre como você tem estado... sensível. E sobre como a Giovanna tem passado tempo demais na delegacia ultimamente. — Ela deu um passo à frente, cruzando os braços. — Inclusive, ela já sarou do machucado?
Franzi a testa, o coração dando um solavanco.
— Machucado? Do que você está falando?
Júlia fingiu um olhar de choque, levando a mão à boca de forma teatral.
— Oh, ela não te contou? Que descuido. Ontem à noite, antes de ir para casa, ela teve um "incidente" durante uma averiguação de rotina. Nada grave, claro, apenas um corte feio no braço e alguns hematomas. Eu estava no pronto-atendimento quando ela passou por lá para fazer um curativo rápido.
Senti o chão fugir sob meus pés. Giovanna tinha chegado em casa tarde, mas estava escuro, e ela foi direto para o banho. Ela agiu normalmente, me abraçou, me beijou... e escondeu que estava ferida.
— Ela está bem — afirmei, mais para mim mesma do que para Júlia.
— Se você diz... — Júlia sorriu, um brilho malicioso nos olhos. — Mas é curioso, não é? Ela prefere ser atendida por uma colega de trabalho do que pela própria namorada médica. Talvez ela não queira que você veja o quão perigoso o mundo dela realmente é. Ou talvez ela só quisesse a minha companhia por alguns minutos.
— Chega, Júlia — cortei, a voz tremendo de raiva. — Se o seu objetivo era plantar dúvida ou ciúme, você está perdendo seu tempo.
— Será? — Ela deu de ombros, virando-se para sair. — Só um conselho, Maya: em Magnostadt, os segredos pesam mais que a magia. E a Giovanna está carregando muitos deles nas suas costas... feridas.
Ela se afastou, deixando para trás um rastro de perfume caro e uma tempestade dentro de mim. Eu não conseguia mais caminhar. Dei meia-volta e rumei para casa, cada passo impulsionado por uma mistura de preocupação e uma fúria crescente.
(...)
Passei as horas seguintes andando de um lado para o outro na sala. Tentei ler, tentei ver televisão, mas as palavras de Júlia e a omissão de Giovanna queimavam. Christopher, o julgamento, a gravidez, o perigo... e agora um ferimento escondido.
Quando ouvi o som da chave na fechadura, meu corpo todo se retesou.
Giovanna entrou com o semblante cansado, a jaqueta de couro pendurada no ombro. Assim que seus olhos encontraram os meus, ela tentou abrir um sorriso, mas ele vacilou ao ver minha expressão.
— Oi, meu amor... — começou ela, dando um passo em minha direção. — Aconteceu alguma coisa? Você está pálida.
— Tira a jaqueta, Giovanna — eu disse, a voz fria e direta.
Ela parou no lugar, a confusão estampada no rosto.
— O quê? Maya, eu acabei de chegar, tive um dia exaustivo na delegacia...
— Tira a jaqueta e levanta a manga da camisa. Agora.
Giovanna suspirou, fechando os olhos por um segundo. Ela sabia. Ela jogou a jaqueta no sofá e, com movimentos lentos, desabotoou o punho da camisa esquerda, revelando um curativo profissional cobrindo boa parte do antebraço.
— Quem te contou? — perguntou ela, a voz baixa.
— Encontrei a Júlia no condomínio. Ela fez questão de me dar os detalhes que você "esqueceu" de mencionar. — Cruzei os braços, sentindo as lágrimas de frustração pinicarem meus olhos. — Por que você mentiu para mim? Por que escondeu que se machucou?
— Eu não menti, Maya. Eu só... omiti. Você estava tão feliz ontem, tão relaxada. Eu não queria que você ficasse preocupada com um arranhão de trabalho.
— Um arranhão? — explodi, dando um passo à frente. — Você foi ao hospital! Você deixou que aquela mulher te atendesse e voltou para casa fingindo que nada tinha acontecido! Nós combinamos, Giovanna! Sem segredos, principalmente agora!
— Eu estava tentando te proteger! — ela aumentou o tom de voz, a frustração transbordando. — Você tem noção da pressão que eu estou sofrendo? O Christopher vai a julgamento, o Ministério Público quer que você deponha, eles querem usar a nossa vida, a sua gravidez, tudo contra nós! Eu só queria que, dentro desta casa, você pudesse respirar sem pensar em crime ou perigo!
O silêncio que se seguiu foi pesado. A revelação sobre o depoimento me atingiu como um soco no estômago.
— Eles querem que eu deponha? — perguntei, a voz agora apenas um sussurro.
Giovanna passou as mãos pelo rosto, visivelmente exausta. Ela se aproximou e, desta vez, eu não recuei. Ela segurou meus ombros com delicadeza.
— Querem. Mas eu não vou deixar, Maya. Eu disse a eles que você não tem condições. Eu vou lutar contra isso com todas as minhas forças.
— E para lutar contra isso você acha que precisa se mutilar e esconder de mim? — Olhei para o curativo no braço dela. — Eu sou médica, Giovanna. Eu cuido de pessoas todos os dias. Mas quem cuida de você se você não me deixa entrar?
— Eu só não queria ser mais um problema na sua lista — confessou ela, encostando a testa na minha. — Eu sinto que o mundo está desabando lá fora e eu só quero manter este lugar seguro.
— Este lugar só é seguro se formos nós duas contra o resto — respondi, deixando uma lágrima cair. — Não me exclua da sua dor para tentar preservar a minha alegria. Isso não funciona. Só me faz sentir sozinha.
Giovanna envolveu-me em um abraço apertado, escondendo o rosto no meu pescoço. Eu sentia a tensão saindo do corpo dela aos poucos.
— Me desculpa — sussurrou ela contra minha pele. — Eu fui uma idiota. A Júlia... ela só queria te atingir. Ela me atendeu porque era a médica de plantão, eu nem tive escolha.
— Eu sei — suspirei, retribuindo o abraço. — Mas se você fizer isso de novo, se esconder qualquer coisa, por menor que seja... eu juro que te coloco para dormir no sofá por um mês. E sem direito a café da manhã vegano.
Ela soltou uma risada abafada, o som que eu tanto amava.
— Justo. Prometo que não escondo mais nada. Nem os cortes, nem as intimações judiciais.
— Ótimo. Agora, senta ali. — Apontei para o sofá. — Vou pegar meu kit de primeiros socorros. Vou trocar esse curativo e você vai me contar exatamente o que aconteceu naquela delegacia. Cada detalhe.
Giovanna obedeceu, sentando-se com um sorriso rendido.
— Sim, doutora.
Enquanto eu buscava os materiais, senti que, apesar das sombras de Christopher e das provocações de Júlia, a luz entre nós ainda era forte o suficiente para guiar o caminho. O julgamento viria, a tempestade estava se formando, mas pela primeira vez no dia, eu não estava mais com medo. Estávamos juntas, e em Magnostadt ou em qualquer lugar do mundo, essa era a nossa maior magia.
