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Fandom: Estilhaça-me

Criado: 12/07/2026

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Sombras de Vidro e Segredos de Sangue

O Setor 45 nunca pareceu tão frio, e Clara sabia que isso não tinha nada a ver com o sistema de ventilação defeituoso das alas inferiores. O gelo vinha do olhar de Aaron Warner. Mas não era um gelo direcionado a ela por ódio ou desprezo; era algo muito pior: a indiferença.

Clara ajustou o cinto do seu uniforme, sentindo o tecido apertar mais do que o habitual em sua cintura. Ela sempre fora consciente de suas curvas, do modo como seu corpo não se encaixava no molde esguio e letal das outras soldadas. Aaron nunca pareceu se importar com isso nas madrugadas em que seus corpos se perdiam entre lençóis de seda e urgência. Ele a tocava com uma intensidade que a fazia acreditar, mesmo que por um segundo, que ela era o centro do seu universo. Mas agora, o centro do universo de Warner tinha um nome: Juliette.

Desde que a garota de toque letal chegara, Clara se tornara um fantasma. Ela observava de longe, escondida sob o capacete de guarda, enquanto Aaron dedicava cada grama de sua obsessão à prisioneira. Ele não via mais Clara. Ele não ouvia mais os conselhos daquela que fora sua única amiga e confidente durante anos.

Uma onda súbita de náusea atingiu Clara, fazendo-a se apoiar na parede de metal do corredor. Ela respirou fundo, tentando afastar a tontura que parecia nublar sua visão. Não podia ser. Não agora.

— Você está bem, Soldada? — A voz de Victor, um dos oficiais de baixo escalão, soou próxima.

Clara engoliu em seco, forçando um sorriso pálido.

— Apenas o cansaço, Victor. As rondas duplas estão acabando comigo.

— Você deveria descansar — disse ele, aproximando-se com uma preocupação genuína que Aaron não demonstrava há semanas. — Warner está exigindo demais de todos nós por causa daquela... garota.

Clara sentiu um aperto no peito. Warner deixou claro, em inúmeras ocasiões, que o mundo poderia queimar, desde que Juliette estivesse segura. E ele também deixara claro, em conversas passadas, que jamais desejaria trazer uma criança a este mundo quebrado. "Um filho seria apenas mais uma fraqueza, Clara", ele dissera uma vez, com a voz desprovida de emoção.

Ela levou a mão ao ventre, sentindo um pavor gélido. Se ele soubesse... ele a odiaria. Ou pior, ele a obrigaria a se livrar do que quer que estivesse crescendo ali.

— Victor — disse ela, uma ideia desesperada começando a tomar forma em sua mente. — Você... você gostaria de me acompanhar até o refeitório?

Victor pareceu surpreso, mas sorriu.

— Seria uma honra.

***

As semanas seguintes foram um borrão de dissimulação. Clara começou a circular com Victor pelo Setor 45, permitindo que ele segurasse sua mão em público, rindo de suas piadas sem graça sempre que sentia o olhar de Aaron por perto. Era uma estratégia de sobrevivência. Se todos pensassem que o filho era de Victor, talvez ela pudesse salvar a si mesma e à criança da fúria ou do descarte de Warner.

No entanto, o relacionamento físico com Aaron não havia cessado completamente. De forma esporádica, nas horas mais sombrias da madrugada, ele ainda aparecia em seu quarto. Ele não falava sobre Juliette. Ele não falava sobre sentimentos. Ele apenas a possuía com uma fome silenciosa, como se estivesse tentando punir a si mesmo ou encontrar algum conforto que a garota na cela de vidro ainda não podia lhe dar.

Certa noite, após um desses encontros, Aaron se vestia em silêncio sob a luz fraca do abajur. Clara estava sentada na cama, enrolada no lençol, observando as cicatrizes nas costas dele.

— Você está passando muito tempo com aquele soldado — disse ele subitamente, a voz fria como uma lâmina. — O oficial de terceira classe.

Clara sentiu o coração disparar.

— O nome dele é Victor, Aaron. E ele é gentil comigo.

Aaron se virou, os olhos verdes brilhando com uma intensidade perigosa.

— Gentil? — Ele soltou uma risada curta e sem humor. — Você é uma soldada do Setor 45, Clara. Não precisa de gentileza. Precisa de disciplina.

— Talvez eu precise de algo que você não pode me dar — retrucou ela, a coragem surgindo do desespero. — Você está obcecado pela Juliette. Você mal olha para mim, a menos que seja para me usar quando ela te rejeita.

O clima no quarto mudou instantaneamente. A pressão do ar pareceu aumentar. Aaron caminhou até a cama e se inclinou sobre ela, as mãos apoiadas no colchão, cercando-a.

— Não mencione o nome dela — sussurrou ele, a voz carregada de uma ameaça latente. — O que eu sinto por Juliette é algo que você jamais compreenderia. Ela é... única.

— E eu? — Clara sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. — O que eu sou, Aaron? Sua melhor amiga? Sua amante gordinha que serve para as horas de tédio?

Aaron desviou o olhar por um milésimo de segundo, uma rachadura em sua máscara de perfeição.

— Você é minha, Clara. De uma forma ou de outra. E eu não gosto de ver o que é meu sendo tocado por mãos inferiores.

— Eu não sou um objeto — disse ela, embora soubesse que, para ele, talvez fosse. — Victor me faz sentir... humana. E eu estou com ele agora.

Aaron se afastou abruptamente, abotoando a túnica militar com movimentos precisos.

— Faça o que quiser. Mas lembre-se de que as escolhas têm consequências.

***

As consequências vieram mais rápido do que Clara imaginava.

Três dias depois, o Setor 45 foi mergulhado no caos. O boato de que Clara e Victor estavam seriamente envolvidos — e de que ela poderia estar esperando um filho dele — espalhou-se como fogo em palha seca. Clara não confirmara a gravidez a ninguém, mas as mudanças em seu corpo e os enjoos matinais eram difíceis de esconder.

Ela estava no pátio de treinamento quando os gritos começaram.

Aaron Warner havia perdido o controle.

Não foi um ataque de raiva comum. Foi um massacre metódico. Ele atravessou a ala dos soldados com uma fúria silenciosa, eliminando qualquer um que cruzasse seu caminho com uma precisão assustadora. Quando Clara chegou ao corredor principal, o chão estava manchado de vermelho.

— Aaron! — ela gritou, a voz falhando ao ver o estado dele.

Ele estava parado no centro do corredor, a farda respingada de sangue, segurando Victor pelo pescoço. O oficial estava pálido, lutando para respirar, os pés mal tocando o chão.

— Aaron, pare! O que você está fazendo? — Clara correu em direção a eles, mas foi impedida por dois guardas que pareciam aterrorizados demais para intervir, mas treinados o suficiente para não deixá-la passar.

Warner virou o rosto lentamente para ela. Seus olhos não eram mais os do homem que compartilhava sua cama; eram os olhos de um monstro.

— Ele acha que pode tirar algo de mim — disse Aaron, a voz estranhamente calma, o que era muito mais assustador do que um grito. — Ele acha que pode plantar uma semente em solo que me pertence.

— Solte-o! — Clara implorou, as lágrimas correndo livremente. — Ele não fez nada!

— Ele tocou em você — sibilou Aaron. — Ele ousou pensar que poderia substituir o lugar que eu ocupo.

Com um movimento rápido e brutal, Aaron quebrou o pescoço de Victor. O corpo do soldado caiu no chão como um boneco de pano descartado.

Clara soltou um grito de horror, caindo de joelhos. O mundo girou violentamente. A náusea voltou com força total, e ela mal conseguiu evitar o desmaio.

Aaron caminhou até ela, ignorando os corpos ao redor. Ele se agachou em sua frente, limpando uma gota de sangue do próprio rosto com o polegar.

— Por que você fez isso? — ela soluçou, olhando para o corpo sem vida de Victor. — Você ama a Juliette! Você disse que ela era a única mulher que você desejava!

Aaron segurou o queixo de Clara com firmeza, forçando-a a olhar para ele.

— Juliette é o meu sol, Clara. Ela é o ideal que eu persigo, a luz que eu não mereço. — Ele se aproximou do ouvido dela, sua respiração quente enviando arrepios de pavor por sua espinha. — Mas você... você é a minha terra. Você é a realidade onde eu descanso meus pés. Eu posso desejar as estrelas, mas eu nunca permitirei que outro homem caminhe sobre o meu chão.

Clara estremeceu, sentindo o peso daquela possessividade doentia.

— Eu estou grávida — confessou ela num sussurro quebrado, esperando o golpe, esperando a rejeição final.

Aaron parou. Seus olhos desceram para o ventre dela e depois voltaram para o seu rosto. Por um momento, o silêncio foi absoluto.

— Eu sei — disse ele, surpreendendo-a. — Eu soube no momento em que seu cheiro mudou.

— Você vai me matar? Vai me fazer tirar? — As palavras saíram apressadas, carregadas de medo.

Aaron soltou um suspiro longo, e por um breve instante, a máscara de monstro vacilou, revelando o homem quebrado por baixo. Ele acariciou a bochecha dela, o gesto estranhamente terno em meio ao massacre que ele acabara de causar.

— Não seja tola. É o meu sangue que corre aí, não é?

Clara piscou, confusa.

— Mas... Victor...

— Victor foi um erro que eu acabei de corrigir — interrompeu ele, levantando-se e oferecendo a mão para ajudá-la a levantar. — Você tentou me enganar, Clara. Tentou me fazer acreditar que outra pessoa poderia ter o que me pertence. Nunca mais faça isso.

Ela aceitou a mão dele, trêmula, levantando-se em meio ao sangue alheio. Ela olhou para Aaron e percebeu, com uma clareza aterrorizante, que ele nunca a deixaria ir. Ele continuaria obcecado por Juliette, perseguindo a luz inalcançável daquela garota, mas voltaria para Clara na escuridão, exigindo sua lealdade, seu corpo e agora, seu filho.

— Você é um monstro — ela sussurrou.

Aaron deu um meio sorriso, frio e desprovido de arrependimento, enquanto a puxava para perto de seu peito manchado de sangue.

— Eu sou o seu monstro, Clara. E você vai aprender a amar o caos que criamos juntos.

Enquanto ele a conduzia para longe dali, Clara sentiu o movimento sutil em seu ventre. Ela estava presa em uma gaiola de vidro e aço, amarrada a um homem que amava uma ideia, mas que mataria o mundo para manter sua posse sobre ela. E o pior de tudo, enquanto caminhava ao lado dele, ela percebeu que, apesar do horror, uma parte dela ainda não conseguia soltar a mão dele.
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