Fanfy
.studio
Imagem de fundo

paixões proibidas

Fandom: adolescentes

Criado: 12/07/2026

Tags

DramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoPsicológicoRealismoEstudo de PersonagemRomance
Índice

Entre o Giz e o Silêncio

O sol da tarde batia implacável no pátio do Colégio Emílio Massot, criando sombras longas que pareciam dançar conforme o ritmo da música que vinha da sala multifuncional. Izadora, de apenas 15 anos, tentava manter o passo da coreografia que ensinava para as crianças do 3º ano do fundamental, mas seus olhos, quase que por instinto magnético, desviavam constantemente para a janela do segundo andar.

Lá estava ela. Adriana.

Aos 53 anos, a vice-diretora exalava uma autoridade serena que Izadora achava fascinante e aterrorizante ao mesmo tempo. Adriana era o sol em torno do qual o sistema solar de Iza orbitava. No WhatsApp, as conversas com Anna Helena, sua melhor amiga de 17 anos, eram um repositório interminável de fanfics e teorias. Anna, que cursava o 3º ano do médio e tinha aulas de história com Adriana no Colégio Romano Santa Marta pela manhã, era a principal fonte de informações — e a cúmplice perfeita.

— Iza, você perdeu o passo de novo — sussurrou Anna Helena, aproximando-se da amiga enquanto as crianças tentavam imitar um movimento de braços. — Para de secar a mulher, ela vai notar.

— Eu não estou secando — mentiu Izadora, sentindo as bochechas arderem. — Só estou... vendo se ela está observando o projeto. Foi ela quem criou, afinal.

— Sei. E eu sou a Rainha da Inglaterra — debochou Anna. — Foca aqui, o Lucca não para de te olhar e você nem deu bola.

Lucca, um aluno do Emílio que costumava ficar por perto durante os ensaios de dança, estava encostado em um pilar, claramente interessado em qualquer coisa que Izadora fizesse. Mas para Iza, Lucca era apenas um ruído de fundo. O mundo real, o mundo que importava, tinha cabelos bem cortados, óculos de leitura pendurados no decote da blusa e vinte anos de um casamento que Izadora preferia fingir que não existia.

Do alto da janela, Adriana observava. Ela não era ingênua. Vinte e cinco anos de magistério e a convivência diária com adolescentes haviam aguçado seus sentidos. Ela via o brilho exagerado nos olhos de Izadora, a forma como a menina travava sempre que cruzavam o corredor e, principalmente, a intensidade do silêncio que a cercava quando Adriana estava por perto. Ela também via Lucca, o interesse juvenil e óbvio do rapaz, e a indiferença quase cruel de Izadora para com ele.

Adriana suspirou, sentindo uma pontada aguda no estômago. O dia no Romano Santa Marta tinha sido exaustivo, e a tarde no Emílio parecia não ter fim. Uma náusea súbita a atingiu, mas ela a ignorou, atribuindo-a ao café forte e ao estresse da coordenação.

O ensaio terminou. Anna Helena se despediu apressada, pois tinha um compromisso com Camila, a coordenadora do Santa Marta que, apesar da diferença de idade, tornara-se uma espécie de mentora e amiga para as duas meninas.

— Iza, vou indo! Juízo e não fica babando no corredor! — gritou Anna, saindo pelo portão.

Izadora ficou sozinha no pátio, sentada em um banco de cimento, esperando o Uber. A escola começava a esvaziar. O silêncio da tarde era quebrado apenas pelo som distante do trânsito.

— Você ainda está aqui, Izadora? — A voz de Adriana soou atrás dela, profunda e calma.

Iza deu um pulo, o coração disparando contra as costelas. Ela se levantou rapidamente, mas não conseguiu sustentar o olhar por mais de dois segundos.

— Estou... esperando o carro, professora. Quer dizer, vice-diretora.

Adriana esboçou um sorriso cansado, levando a mão à testa.

— "Adriana" está bom. Fora da sala de aula, somos apenas pessoas.

A menina assentiu, fixando os olhos nos próprios tênis. Ela conhecia cada detalhe daquelas mãos, cada tom de voz que Adriana usava, mas estar ali, a sós com ela, era como tentar respirar sem oxigênio.

De repente, a expressão de Adriana mudou. A palidez que a acompanhava desde cedo se transformou em um tom acinzentado. Ela cambaleou levemente, apoiando-se no pilar onde Lucca estivera momentos antes.

— Adriana? Está tudo bem? — Izadora deu um passo à frente, o pânico começando a surgir.

A professora não respondeu. Ela apenas levou a mão à boca, os olhos arregalados em um pedido mudo de desculpas antes de se curvar. O som do mal-estar físico ecoou no pátio vazio. Adriana vomitou, incapaz de conter a reação violenta do corpo. Alguns respingos atingiram o tênis e a barra da calça de Izadora, mas a menina sequer notou.

O choque inicial de Iza foi substituído por um instinto de cuidado puro. Ela se aproximou, esquecendo a timidez, e segurou os cabelos de Adriana, afastando-os do rosto da mulher, enquanto passava a mão livre pelas costas dela, em círculos lentos.

— Calma... respira. Eu estou aqui — sussurrou Izadora, a voz surpreendentemente firme.

Quando o episódio passou, Adriana estava trêmula, as lágrimas de esforço limpando o rímel nos cantos dos olhos. Ela se encostou na parede, respirando com dificuldade, a mão no peito.

— Meu Deus... Izadora, me perdoe. Que vergonha... eu sujei você.

— Não se preocupe com isso — disse Iza, tirando um pacote de lenços de papel da mochila. Ela entregou um para Adriana e usou outro para limpar o que podia do chão e de si mesma, sem qualquer sinal de nojo. — A senhora está pálida. Vamos sentar.

Com uma delicadeza que Adriana nunca esperaria de uma menina de 15 anos, Izadora a guiou até o banco. A vice-diretora parecia ter murchado; a armadura de autoridade caíra por terra.

— É a pressão — confessou Adriana, a voz rouca, fechando os olhos. — Ou o peso de tudo. Às vezes, o corpo simplesmente desiste de carregar o que a mente insiste em segurar.

Izadora permaneceu em silêncio, apenas sentada ao lado dela, oferecendo sua presença.

— Vinte anos de casada, Izadora — continuou Adriana, em um desabafo que parecia mais destinado ao vento do que à menina. — E às vezes sinto que sou uma estranha na minha própria casa. O colégio, os alunos, essa correria... eu criei esse projeto de dança para ver vida, para ver movimento, porque por dentro, às vezes, sinto que tudo parou.

Iza ouvia cada palavra como se fosse um segredo sagrado. A dor de Adriana era palpável, e a ironia de ser a confidente da mulher que ela idealizava em histórias fictícias não passava despercebida. Mas ali, no mundo real, não havia fanfic. Havia apenas uma mulher exausta e uma adolescente que a amava o suficiente para apenas ouvir.

— A senhora é a pessoa mais forte que eu conheço — disse Izadora, finalmente encontrando coragem para olhar nos olhos dela. — Anna Helena me conta como suas aulas são incríveis. E o projeto... ele mudou o meu ano. A senhora não está parada, Adriana. A senhora é o movimento de muita gente aqui.

Adriana abriu os olhos e encarou a menina. Pela primeira vez, ela não viu apenas a aluna tímida ou a obsessão adolescente. Viu uma alma antiga, empática.

— Você é uma menina especial, Izadora. E me desculpe por te envolver nisso. Eu devia ser a adulta aqui.

— Às vezes — Iza sorriu fraco —, a gente só precisa de alguém que segure o cabelo e não faça perguntas difíceis.

Adriana soltou uma risada curta, ainda fraca, e tocou levemente o ombro de Izadora.

— O seu Uber chegou — notou a professora, apontando para o carro que parava no portão. — Vá. Eu vou ficar bem. Vou ligar para o meu marido vir me buscar.

— Tem certeza? Eu posso cancelar, posso ficar...

— Vá, querida. E obrigada. De verdade.

Izadora se levantou, a mochila pesando nos ombros, mas o coração estranhamente leve. Ela caminhou até o portão, mas parou antes de sair.

— Adriana?

A professora olhou para cima.

— Melhore. O colégio fica cinza sem a senhora circulando por aqui.

Ao entrar no carro, Izadora viu pelo vidro traseiro Adriana ainda sentada no banco, observando o horizonte. O celular de Iza vibrou no bolso. Era uma mensagem de Anna Helena no grupo: *"E aí, a Deusa Adriana ainda tá na escola? Manda foto se vir ela saindo!"*

Izadora olhou para a tela, depois para o próprio tênis sujo. Ela desligou a tela do celular sem responder. Algumas histórias eram reais demais para serem compartilhadas, e aquele momento de vulnerabilidade entre o giz e o silêncio pertenceria, para sempre, apenas às duas.
Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic