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professora e aluna
Fandom: adolescentes
Criado: 12/07/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoRealismoEstudo de PersonagemCiúmesPsicológicoCrimeSuspenseDiscriminaçãoConserto
Entre o Giz e o Silêncio
O sol da tarde atravessava as venezianas da sala 302, criando um padrão de listras douradas sobre a mesa de madeira escura da professora Adriana. Aos 53 anos, ela carregava uma elegância que o tempo parecia apenas refinar. Seus óculos de leitura repousavam na ponta do nariz enquanto ela corrigia alguns ensaios sobre a Revolução Francesa, alheia ao turbilhão de sentimentos que orbitava ao seu redor.
Izadora, sentada na segunda fileira, não havia escrito uma única linha nos últimos dez minutos. Seu olhar estava fixo no movimento das mãos de Adriana — mãos que folheavam o papel com uma delicadeza que fazia o coração da adolescente de 17 anos errar a batida.
— Iza, você vai acabar furando a nuca dela com esse olhar — sussurrou Anna Helena, inclinando-se para o lado.
Izadora sobressaltou-se, sentindo o rosto esquentar instantaneamente.
— Cala a boca, Anna — murmurou de volta, fingindo interesse súbito em seu caderno.
— Eu só estou dizendo… — Anna Helena sorriu, aquela confiança de quem era a "queridinha" da professora brilhando nos olhos. — Ela é casada, Iza. Vinte anos de um casamento que ela jura que é perfeito.
— Eu sei disso. Não sou idiota. É só… admiração.
Anna Helena soltou uma risadinha baixa, mas parou abruptamente quando Adriana levantou o olhar.
— Algum problema, Anna Helena? — A voz da professora era aveludada, firme, mas tingida com um carinho óbvio pela sua melhor aluna.
— Nenhum, Adriana. Só tirando uma dúvida com a Iza sobre a queda da Bastilha — mentiu Anna com uma naturalidade invejável.
Adriana sorriu, um daqueles sorrisos que iluminavam o rosto e faziam as pequenas rugas ao redor de seus olhos dançarem.
— Fico feliz com o interesse de vocês. Mas tentem manter o foco no papel, o sinal já vai bater.
Izadora baixou a cabeça, sentindo um misto de inveja e admiração. Anna Helena tinha aquela facilidade, aquela ponte direta com Adriana. Para Izadora, a professora era uma divindade intocável, um segredo guardado a sete chaves no fundo de seu peito, alimentado por suspiros nos corredores e sonhos que ela não ousava contar a ninguém — exceto para Anna.
O sinal tocou, estridente, rompendo o feitiço da tarde. Os alunos começaram a recolher o material às pressas, ansiosos pela liberdade do fim de semana. Izadora demorou-se de propósito, guardando cada caneta como se fosse um ritual sagrado.
— Iza! — Uma voz autoritária, mas suave, chamou da porta.
Era Camila, a coordenadora da escola. Ela era jovem, na casa dos trinta, e possuía uma energia vibrante que muitos alunos adoravam. O que poucos percebiam — mas Anna Helena já tinha notado — era a forma como Camila sempre parecia estar onde Izadora estava.
— Oi, Camila — disse Izadora, colocando a mochila no ombro.
— Você tem um minuto? Queria falar sobre a organização do grêmio para o próximo mês.
— Ah, claro. Eu encontro vocês lá fora? — Izadora olhou para Anna.
— Vai lá, Iza. Eu espero no portão — Anna Helena deu uma piscadela discreta e saiu, deixando Izadora sozinha na sala com Adriana e Camila.
Adriana ainda estava organizando seus papéis. Ela olhou para cima e acenou para Camila.
— Boa tarde, Camila. Levando minha melhor aluna de história para mais tarefas burocráticas?
Camila sorriu, um sorriso que não chegava totalmente aos olhos quando olhava para Adriana.
— O grêmio precisa dela, Adriana. A Izadora tem uma liderança natural que precisamos aproveitar.
Izadora sentiu-se desconfortável sob o olhar intenso de Camila. Havia algo ali que ela não sabia retribuir, uma atenção excessiva que a deixava nervosa.
— Bom, eu vou indo — disse Adriana, pegando sua bolsa de couro. — Bom fim de semana, meninas. Alex está me esperando para um jantar especial. Vinte anos não são vinte dias, afinal.
— Parabéns, professora — disse Izadora, a voz quase falhando.
— Obrigada, querida.
Adriana saiu da sala com passos decididos. Izadora ficou olhando para a porta vazia por um segundo a mais do que o necessário, até ser trazida de volta pela voz de Camila.
— Ela parece muito feliz, não é? — comentou a coordenadora, aproximando-se de Izadora. — Às vezes eu me pergunto se essa felicidade toda é real ou apenas rotina.
— Por que você diz isso? — Izadora perguntou, confusa.
— Ah, Izadora… as pessoas da idade dela costumam prezar mais a aparência do que a verdade. Mas enfim, sobre o grêmio…
Enquanto Camila falava, Izadora não conseguia tirar da cabeça a imagem de Adriana indo ao encontro de Alex.
***
Do outro lado da cidade, em um restaurante discreto e mal iluminado, Alex não estava pensando em bodas de porcelana. Ele segurava a mão de uma mulher muito mais jovem, rindo de algo que ela dissera. O celular em seu bolso vibrou com uma mensagem de Adriana: *"Estou saindo da escola, meu amor. Mal posso esperar pelo nosso jantar. Te amo."*
Ele visualizou a mensagem pela barra de notificações e voltou a guardar o aparelho, sem responder.
— É ela? — perguntou a mulher à mesa.
— É. A mesma história de sempre — Alex deu de ombros, tomando um gole de vinho. — Ela vive no século XIX com os livros dela. Mal percebe o que acontece debaixo do próprio nariz.
***
Na segunda-feira, o clima na escola estava pesado. Uma chuva fina caía sobre o pátio, e Izadora estava sentada em um banco coberto com Anna Helena.
— Você viu a cara da Adriana hoje? — perguntou Anna, abrindo um pacote de bolachas.
— Não, ela ainda não chegou para a aula. Por quê?
— Ela parece… cansada. Ou triste. Eu passei pela sala dos professores e ela estava olhando para o nada. O marido dela, o Alex, passou aqui para deixar uma pasta que ela esqueceu, e o clima estava estranho.
O coração de Izadora apertou. A ideia de Adriana sofrendo era insuportável.
— Talvez seja só o cansaço do fim de semana — Izadora tentou se convencer.
— Talvez. Ou talvez o "casamento perfeito" esteja com rachaduras.
Mais tarde, no intervalo, Izadora precisou ir até a biblioteca buscar um livro de referência. No caminho, passou pelo corredor dos laboratórios, um local pouco frequentado àquela hora. Ela parou abruptamente ao ouvir vozes vindas de uma das salas entreabertas.
— Você não pode continuar agindo assim, Alex! — Era a voz de Adriana, mas não a voz doce que ela usava em aula. Era uma voz quebrada, carregada de uma dor que Izadora nunca imaginou ouvir.
— Agindo como, Adriana? Eu vim te trazer a droga da pasta! — A voz de Alex era áspera, impaciente.
— Você mal falou comigo no nosso jantar. Você passou o tempo todo no celular. Eu sinto que você está em outro lugar, com outra pessoa…
— Você está paranoica. É o excesso de trabalho. Eu tenho que ir, tenho uma reunião.
Izadora se encolheu contra a parede quando ouviu os passos pesados de Alex saindo da sala. Ela esperou, o coração martelando contra as costelas. O silêncio que se seguiu foi pior do que a discussão. Então, veio o som: um soluço baixo e abafado.
Sem pensar nas consequências, sem pensar na hierarquia ou no fato de que era apenas uma aluna, Izadora empurrou a porta.
Adriana estava sentada em um banco de laboratório, com o rosto escondido nas mãos. Seus ombros tremiam.
— Professora? — a voz de Izadora saiu como um sussurro.
Adriana levantou a cabeça rapidamente, tentando limpar as lágrimas com as costas das mãos, mas o rímel borrado denunciava o estrago.
— Izadora! O que… o que faz aqui? O intervalo ainda não acabou.
— Eu… eu ouvi. Desculpe. Eu não queria bisbilhotar, mas… — Izadora aproximou-se, a coragem vindo de um lugar desconhecido. — A senhora está bem?
Adriana soltou um riso amargo, olhando para o teto para evitar que mais lágrimas caíssem.
— É apenas a vida real, Izadora. Às vezes, a história que construímos não é tão sólida quanto os monumentos que estudamos.
— Ele não merece a senhora — as palavras saíram da boca de Izadora antes que ela pudesse filtrá-las.
Adriana olhou para a aluna, surpresa com a audácia, mas também tocada pela sinceridade nos olhos castanhos da menina. Havia uma intensidade ali, uma devoção que Adriana sempre notara, mas que nunca soubera classificar.
— Você é muito jovem para entender essas coisas, querida. Vinte anos é muito tempo para simplesmente… desistir.
— Mas tempo não é desculpa para ser infeliz — rebateu Izadora, dando mais um passo à frente. — Se alguém tivesse a sorte de ter você… de estar com você… essa pessoa deveria passar cada segundo agradecendo.
O silêncio caiu sobre a sala novamente, mas desta vez era um silêncio carregado de algo novo. Adriana observou a jovem à sua frente. Izadora não era apenas uma aluna esforçada; ela era uma força da natureza, com olhos que pareciam enxergar através das camadas de fingimento que Adriana usava para sobreviver.
— Izadora… — Adriana começou, mas sua voz falhou.
Nesse momento, a porta se abriu totalmente e Camila entrou. Seus olhos alternaram rapidamente entre Adriana em prantos e Izadora parada perigosamente perto da professora.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou a coordenadora, o tom de voz subindo uma oitava.
— Nada, Camila — Adriana recompôs-se rapidamente, assumindo sua postura profissional, embora seus olhos ainda estivessem vermelhos. — Tive um pequeno problema pessoal e a Izadora foi gentil o suficiente para oferecer ajuda.
Camila caminhou até Izadora e colocou a mão em seu ombro, um gesto de posse que não passou despercebido por nenhuma das três.
— Izadora, você deveria estar no pátio. Eu cuido da professora Adriana agora.
— Eu estou bem, Camila, obrigada — disse Adriana, a voz voltando a ser fria e distante.
— Tenho certeza que sim. Mas as regras são as regras. Vá, Iza. Eu te vejo depois da aula? Queria terminar aquela conversa sobre o grêmio.
Izadora olhou para Adriana, buscando algum sinal, algum pedido para ficar. Mas a professora apenas assentiu levemente, voltando a organizar seus pertences, fechando-se novamente em sua concha de vidro.
— Sim, Camila. Até depois — disse Izadora, sentindo um peso no estômago.
Ao sair da sala, Izadora encontrou Anna Helena esperando no final do corredor.
— E aí? O que aconteceu? Eu vi o Alex saindo bufando e a Camila entrando como se fosse a dona do lugar.
— O casamento dela está desmoronando, Anna — disse Izadora, a voz carregada de tristeza. — E a Camila… eu acho que a Camila sabe.
— Sabe o quê?
— Sabe que eu faria qualquer coisa para ser a pessoa a consertar o coração da Adriana.
Anna Helena olhou para a amiga com preocupação.
— Isso vai acabar mal, Iza. Para todo mundo.
— Eu não me importo — sussurrou Izadora, olhando para trás uma última vez, vendo a sombra de Adriana através do vidro da porta do laboratório. — Pela primeira vez, eu vi quem ela é de verdade. E eu não posso simplesmente ignorar isso.
Enquanto isso, na sala, Camila observava Adriana.
— Você deveria tomar cuidado, Adriana — disse a coordenadora, cruzando os braços. — As alunas são impressionáveis. E a Izadora… ela é especial. Não estrague a cabeça da menina com seus dramas matrimoniais.
Adriana levantou o olhar, uma faísca de desafio surgindo.
— Meus dramas, como você diz, são meus, Camila. E a Izadora tem mais maturidade em um dedo do que muita gente que eu conheço. Agora, se me der licença, eu tenho uma aula para preparar.
Camila saiu sem dizer mais nada, mas seu plano estava traçado. Ela não deixaria que o encanto de Izadora por Adriana se tornasse algo mais. E Alex, em seu escritório, recebia outra mensagem, desta vez de sua amante, marcando um encontro para aquela noite, sem imaginar que o castelo de cartas que ele e Adriana construíram estava prestes a sofrer o primeiro grande abalo.
A tempestade lá fora estava apenas começando, e dentro dos muros da escola, os corações de três mulheres e a traição de um homem estavam prestes a colidir de uma forma que a história de nenhum livro poderia prever.
Izadora, sentada na segunda fileira, não havia escrito uma única linha nos últimos dez minutos. Seu olhar estava fixo no movimento das mãos de Adriana — mãos que folheavam o papel com uma delicadeza que fazia o coração da adolescente de 17 anos errar a batida.
— Iza, você vai acabar furando a nuca dela com esse olhar — sussurrou Anna Helena, inclinando-se para o lado.
Izadora sobressaltou-se, sentindo o rosto esquentar instantaneamente.
— Cala a boca, Anna — murmurou de volta, fingindo interesse súbito em seu caderno.
— Eu só estou dizendo… — Anna Helena sorriu, aquela confiança de quem era a "queridinha" da professora brilhando nos olhos. — Ela é casada, Iza. Vinte anos de um casamento que ela jura que é perfeito.
— Eu sei disso. Não sou idiota. É só… admiração.
Anna Helena soltou uma risadinha baixa, mas parou abruptamente quando Adriana levantou o olhar.
— Algum problema, Anna Helena? — A voz da professora era aveludada, firme, mas tingida com um carinho óbvio pela sua melhor aluna.
— Nenhum, Adriana. Só tirando uma dúvida com a Iza sobre a queda da Bastilha — mentiu Anna com uma naturalidade invejável.
Adriana sorriu, um daqueles sorrisos que iluminavam o rosto e faziam as pequenas rugas ao redor de seus olhos dançarem.
— Fico feliz com o interesse de vocês. Mas tentem manter o foco no papel, o sinal já vai bater.
Izadora baixou a cabeça, sentindo um misto de inveja e admiração. Anna Helena tinha aquela facilidade, aquela ponte direta com Adriana. Para Izadora, a professora era uma divindade intocável, um segredo guardado a sete chaves no fundo de seu peito, alimentado por suspiros nos corredores e sonhos que ela não ousava contar a ninguém — exceto para Anna.
O sinal tocou, estridente, rompendo o feitiço da tarde. Os alunos começaram a recolher o material às pressas, ansiosos pela liberdade do fim de semana. Izadora demorou-se de propósito, guardando cada caneta como se fosse um ritual sagrado.
— Iza! — Uma voz autoritária, mas suave, chamou da porta.
Era Camila, a coordenadora da escola. Ela era jovem, na casa dos trinta, e possuía uma energia vibrante que muitos alunos adoravam. O que poucos percebiam — mas Anna Helena já tinha notado — era a forma como Camila sempre parecia estar onde Izadora estava.
— Oi, Camila — disse Izadora, colocando a mochila no ombro.
— Você tem um minuto? Queria falar sobre a organização do grêmio para o próximo mês.
— Ah, claro. Eu encontro vocês lá fora? — Izadora olhou para Anna.
— Vai lá, Iza. Eu espero no portão — Anna Helena deu uma piscadela discreta e saiu, deixando Izadora sozinha na sala com Adriana e Camila.
Adriana ainda estava organizando seus papéis. Ela olhou para cima e acenou para Camila.
— Boa tarde, Camila. Levando minha melhor aluna de história para mais tarefas burocráticas?
Camila sorriu, um sorriso que não chegava totalmente aos olhos quando olhava para Adriana.
— O grêmio precisa dela, Adriana. A Izadora tem uma liderança natural que precisamos aproveitar.
Izadora sentiu-se desconfortável sob o olhar intenso de Camila. Havia algo ali que ela não sabia retribuir, uma atenção excessiva que a deixava nervosa.
— Bom, eu vou indo — disse Adriana, pegando sua bolsa de couro. — Bom fim de semana, meninas. Alex está me esperando para um jantar especial. Vinte anos não são vinte dias, afinal.
— Parabéns, professora — disse Izadora, a voz quase falhando.
— Obrigada, querida.
Adriana saiu da sala com passos decididos. Izadora ficou olhando para a porta vazia por um segundo a mais do que o necessário, até ser trazida de volta pela voz de Camila.
— Ela parece muito feliz, não é? — comentou a coordenadora, aproximando-se de Izadora. — Às vezes eu me pergunto se essa felicidade toda é real ou apenas rotina.
— Por que você diz isso? — Izadora perguntou, confusa.
— Ah, Izadora… as pessoas da idade dela costumam prezar mais a aparência do que a verdade. Mas enfim, sobre o grêmio…
Enquanto Camila falava, Izadora não conseguia tirar da cabeça a imagem de Adriana indo ao encontro de Alex.
***
Do outro lado da cidade, em um restaurante discreto e mal iluminado, Alex não estava pensando em bodas de porcelana. Ele segurava a mão de uma mulher muito mais jovem, rindo de algo que ela dissera. O celular em seu bolso vibrou com uma mensagem de Adriana: *"Estou saindo da escola, meu amor. Mal posso esperar pelo nosso jantar. Te amo."*
Ele visualizou a mensagem pela barra de notificações e voltou a guardar o aparelho, sem responder.
— É ela? — perguntou a mulher à mesa.
— É. A mesma história de sempre — Alex deu de ombros, tomando um gole de vinho. — Ela vive no século XIX com os livros dela. Mal percebe o que acontece debaixo do próprio nariz.
***
Na segunda-feira, o clima na escola estava pesado. Uma chuva fina caía sobre o pátio, e Izadora estava sentada em um banco coberto com Anna Helena.
— Você viu a cara da Adriana hoje? — perguntou Anna, abrindo um pacote de bolachas.
— Não, ela ainda não chegou para a aula. Por quê?
— Ela parece… cansada. Ou triste. Eu passei pela sala dos professores e ela estava olhando para o nada. O marido dela, o Alex, passou aqui para deixar uma pasta que ela esqueceu, e o clima estava estranho.
O coração de Izadora apertou. A ideia de Adriana sofrendo era insuportável.
— Talvez seja só o cansaço do fim de semana — Izadora tentou se convencer.
— Talvez. Ou talvez o "casamento perfeito" esteja com rachaduras.
Mais tarde, no intervalo, Izadora precisou ir até a biblioteca buscar um livro de referência. No caminho, passou pelo corredor dos laboratórios, um local pouco frequentado àquela hora. Ela parou abruptamente ao ouvir vozes vindas de uma das salas entreabertas.
— Você não pode continuar agindo assim, Alex! — Era a voz de Adriana, mas não a voz doce que ela usava em aula. Era uma voz quebrada, carregada de uma dor que Izadora nunca imaginou ouvir.
— Agindo como, Adriana? Eu vim te trazer a droga da pasta! — A voz de Alex era áspera, impaciente.
— Você mal falou comigo no nosso jantar. Você passou o tempo todo no celular. Eu sinto que você está em outro lugar, com outra pessoa…
— Você está paranoica. É o excesso de trabalho. Eu tenho que ir, tenho uma reunião.
Izadora se encolheu contra a parede quando ouviu os passos pesados de Alex saindo da sala. Ela esperou, o coração martelando contra as costelas. O silêncio que se seguiu foi pior do que a discussão. Então, veio o som: um soluço baixo e abafado.
Sem pensar nas consequências, sem pensar na hierarquia ou no fato de que era apenas uma aluna, Izadora empurrou a porta.
Adriana estava sentada em um banco de laboratório, com o rosto escondido nas mãos. Seus ombros tremiam.
— Professora? — a voz de Izadora saiu como um sussurro.
Adriana levantou a cabeça rapidamente, tentando limpar as lágrimas com as costas das mãos, mas o rímel borrado denunciava o estrago.
— Izadora! O que… o que faz aqui? O intervalo ainda não acabou.
— Eu… eu ouvi. Desculpe. Eu não queria bisbilhotar, mas… — Izadora aproximou-se, a coragem vindo de um lugar desconhecido. — A senhora está bem?
Adriana soltou um riso amargo, olhando para o teto para evitar que mais lágrimas caíssem.
— É apenas a vida real, Izadora. Às vezes, a história que construímos não é tão sólida quanto os monumentos que estudamos.
— Ele não merece a senhora — as palavras saíram da boca de Izadora antes que ela pudesse filtrá-las.
Adriana olhou para a aluna, surpresa com a audácia, mas também tocada pela sinceridade nos olhos castanhos da menina. Havia uma intensidade ali, uma devoção que Adriana sempre notara, mas que nunca soubera classificar.
— Você é muito jovem para entender essas coisas, querida. Vinte anos é muito tempo para simplesmente… desistir.
— Mas tempo não é desculpa para ser infeliz — rebateu Izadora, dando mais um passo à frente. — Se alguém tivesse a sorte de ter você… de estar com você… essa pessoa deveria passar cada segundo agradecendo.
O silêncio caiu sobre a sala novamente, mas desta vez era um silêncio carregado de algo novo. Adriana observou a jovem à sua frente. Izadora não era apenas uma aluna esforçada; ela era uma força da natureza, com olhos que pareciam enxergar através das camadas de fingimento que Adriana usava para sobreviver.
— Izadora… — Adriana começou, mas sua voz falhou.
Nesse momento, a porta se abriu totalmente e Camila entrou. Seus olhos alternaram rapidamente entre Adriana em prantos e Izadora parada perigosamente perto da professora.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou a coordenadora, o tom de voz subindo uma oitava.
— Nada, Camila — Adriana recompôs-se rapidamente, assumindo sua postura profissional, embora seus olhos ainda estivessem vermelhos. — Tive um pequeno problema pessoal e a Izadora foi gentil o suficiente para oferecer ajuda.
Camila caminhou até Izadora e colocou a mão em seu ombro, um gesto de posse que não passou despercebido por nenhuma das três.
— Izadora, você deveria estar no pátio. Eu cuido da professora Adriana agora.
— Eu estou bem, Camila, obrigada — disse Adriana, a voz voltando a ser fria e distante.
— Tenho certeza que sim. Mas as regras são as regras. Vá, Iza. Eu te vejo depois da aula? Queria terminar aquela conversa sobre o grêmio.
Izadora olhou para Adriana, buscando algum sinal, algum pedido para ficar. Mas a professora apenas assentiu levemente, voltando a organizar seus pertences, fechando-se novamente em sua concha de vidro.
— Sim, Camila. Até depois — disse Izadora, sentindo um peso no estômago.
Ao sair da sala, Izadora encontrou Anna Helena esperando no final do corredor.
— E aí? O que aconteceu? Eu vi o Alex saindo bufando e a Camila entrando como se fosse a dona do lugar.
— O casamento dela está desmoronando, Anna — disse Izadora, a voz carregada de tristeza. — E a Camila… eu acho que a Camila sabe.
— Sabe o quê?
— Sabe que eu faria qualquer coisa para ser a pessoa a consertar o coração da Adriana.
Anna Helena olhou para a amiga com preocupação.
— Isso vai acabar mal, Iza. Para todo mundo.
— Eu não me importo — sussurrou Izadora, olhando para trás uma última vez, vendo a sombra de Adriana através do vidro da porta do laboratório. — Pela primeira vez, eu vi quem ela é de verdade. E eu não posso simplesmente ignorar isso.
Enquanto isso, na sala, Camila observava Adriana.
— Você deveria tomar cuidado, Adriana — disse a coordenadora, cruzando os braços. — As alunas são impressionáveis. E a Izadora… ela é especial. Não estrague a cabeça da menina com seus dramas matrimoniais.
Adriana levantou o olhar, uma faísca de desafio surgindo.
— Meus dramas, como você diz, são meus, Camila. E a Izadora tem mais maturidade em um dedo do que muita gente que eu conheço. Agora, se me der licença, eu tenho uma aula para preparar.
Camila saiu sem dizer mais nada, mas seu plano estava traçado. Ela não deixaria que o encanto de Izadora por Adriana se tornasse algo mais. E Alex, em seu escritório, recebia outra mensagem, desta vez de sua amante, marcando um encontro para aquela noite, sem imaginar que o castelo de cartas que ele e Adriana construíram estava prestes a sofrer o primeiro grande abalo.
A tempestade lá fora estava apenas começando, e dentro dos muros da escola, os corações de três mulheres e a traição de um homem estavam prestes a colidir de uma forma que a história de nenhum livro poderia prever.
