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Fandom: Nenhum

Criado: 13/07/2026

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Equilíbrio em Fio de Navalha

O sol da tarde filtrava-se pelas cortinas de linho cru do imenso apartamento de Emanuel, no vigésimo andar de um dos prédios mais luxuosos da cidade. O silêncio, algo raro naquela casa, era apenas aparente. No centro da sala, Emanuel massageava as têmporas, sentindo o peso de uma semana administrando três novos estúdios de tatuagem na Europa e, mais difícil ainda, a dinâmica volátil de sua vida pessoal.

Ele era um homem de lógica. Um tatuador que transformava caos em arte geométrica e um empresário que geria milhões. Mas ali, entre o perfume suave de baunilha de Eduarda e o rastro de fragrância importada e forte de Sara, a lógica parecia uma ferramenta cega.

— Benício, desça daí agora! — A voz de Eduarda soou fina, tingida de um desespero doce.

Emanuel abriu os olhos a tempo de ver o pequeno Benício, de apenas dois anos, escalando o encosto do sofá de couro italiano com a agilidade de um pequeno macaco. Eduarda, com seu vestido de algodão claro e os cabelos castanhos caindo em ondas naturais sobre os ombros esguios, corria de um lado para o outro. Em seu quadril, ela equilibrava Amélie, a gêmea que parecia uma extensão física da mãe: silenciosa, com os olhos grandes e úmidos, escondendo o rosto no pescoço de Eduarda ao menor sinal de movimento brusco.

— Eu pego ele, Duda — disse Emanuel, levantando-se com a precisão de quem está acostumado a lidar com máquinas de tatuar e peles delicadas.

Com um movimento firme, ele interceptou o filho no ar. Benício soltou uma gargalhada estridente, chutando o ar com suas perninhas enérgicas.

— Papai! Papai! — gritava o menino, cujos olhos brilhavam com a mesma intensidade que os de Emanuel quando ele estava focado em um projeto.

— Você vai acabar caindo, campeão — murmurou Emanuel, o tom de voz baixando alguns oitavas, a rigidez de seus ombros relaxando apenas um pouco ao sentir o peso do filho.

Eduarda aproximou-se, suspirando de alívio. Ela encostou a cabeça no ombro livre de Emanuel, buscando aquele contato físico que era seu oxigênio.

— Ele não para um segundo, Manu... — sussurrou ela, manhosa. — Acho que ele só quer o peito, mas eu estou exausta.

Emanuel beijou o topo da cabeça dela, sentindo a maciez de seus cabelos.

— Descanse um pouco. Eu fico com eles.

A cena de paz doméstica foi interrompida pelo som metálico de saltos agulha batendo contra o piso de porcelanato. O cheiro de perfume caro anunciou a chegada de Sara antes mesmo que ela dobrasse o corredor.

— Mas que creche adorável se tornou a minha tarde — disse Sara, a voz carregada de uma ironia vibrante.

Ela entrou na sala como se estivesse em uma passarela. O vestido vermelho era justo, curto e deixava claro que o investimento em silicone e procedimentos estéticos tinha valido cada centavo. O cabelo loiro estava impecavelmente escovado, e a maquiagem, mesmo para uma tarde de terça-feira, era digna de um evento de gala. Pelo braço, ela conduzia Valentina.

A pequena Valentina, também de dois anos, era a imagem esculpida da mãe. Usava um vestido de grife em miniatura e caminhava com o queixo erguido, uma expressão de superioridade precoce que faria qualquer um rir, se não fosse tão intimidante.

— Valentina, diga olá para o seu pai e para a... — Sara fez uma pausa dramática, olhando para Eduarda com um sorriso que não chegava aos olhos, mas que não era exatamente hostil — ...doce Duda.

— Oi, Sara — respondeu Eduarda, encolhendo-se levemente, apertando Amélie contra o peito. Ela não tinha raiva de Sara; na verdade, admirava a confiança da outra, mas a presença da loira sempre a fazia se sentir minúscula, como um rascunho a lápis ao lado de uma pintura a óleo vibrante.

— Oi, papai — disse Valentina, estendendo a mãozinha para que Emanuel a pegasse, ignorando completamente os irmãos.

Emanuel suspirou, equilibrando agora o caos em seus braços. Benício tentava puxar o cabelo de Valentina, que o olhava com profundo desdém.

— Sara, você está atrasada para buscar as coisas da Valentina — disse Emanuel, sua voz assumindo o tom prático e levemente autoritário que usava nos estúdios.

— O trânsito estava um horror, querido. E minha manicure teve um imprevisto — Sara deu de ombros, caminhando até o bar e servindo-se de um copo de água mineral premium. — Além disso, sei que a Duda adora cuidar de todo mundo. Não é, querida? Você tem esse instinto de "mãe galinha" que eu simplesmente não nasci com ele.

— Eu só... eu gosto de estar com eles — murmurou Eduarda, os olhos baixos.

Sara aproximou-se de Eduarda. Para surpresa de quem não conhecia a dinâmica, ela não a atacou. Em vez disso, ajeitou uma mecha do cabelo de Eduarda que estava fora do lugar.

— Você precisa de um corretivo nessas olheiras, Duda. Está parecendo um fantasma de museu de arte. Se quiser, te dou o contato do meu esteticista. Ele faz milagres, até em rostos tão... naturais quanto o seu.

— Obrigado, Sara — respondeu Eduarda, sentindo o toque da outra. Era uma relação estranha. Sara a tratava como um animal de estimação exótico: inofensivo, bonitinho, mas que precisava de direção.

Emanuel observava a interação, sentindo a tensão subir pela sua espinha. Ele amava a paz que Eduarda trazia, a forma como ela o ancorava emocionalmente e como entendia seus silêncios. Mas também era viciado na energia de Sara, na forma como ela o desafiava e como sua ambição espelhava a dele. Ter as duas era como viver entre o mar calmo e um vulcão ativo.

— Chega de avaliações cosméticas — interveio Emanuel, colocando Benício no chão. O menino imediatamente correu em direção a Valentina, tentando tirar a boneca de porcelana que ela segurava.

— Não! É minha! — gritou Valentina, empurrando o irmão com uma força surpreendente.

Benício, frustrado, começou a chorar. O choro dele, potente e agudo, assustou Amélie, que começou a soluçar no colo de Eduarda.

Em segundos, o apartamento luxuoso transformou-se em um campo de batalha sonoro.

— Emanuel, resolva isso — disse Sara, tapando os ouvidos com as unhas perfeitamente feitas. — Eu não aguento esse barulho de bebês carentes.

— Eles são crianças, Sara! — Eduarda exclamou, sua voz falhando pela emoção, as lágrimas já surgindo nos olhos sensíveis. — O Benício só quer brincar e a Amélie está assustada.

Emanuel sentiu a pressão. O controle que ele tanto prezava estava escorrendo por seus dedos.

— Eduarda, leve a Amélie para o quarto. Sara, por favor, pegue a Valentina e pare de provocar a situação.

— Eu não estou provocando nada, Emanuel! — Sara retrucou, cruzando os braços, o que realçava seu decote. — Eu apenas existo e o ambiente desmorona porque a sua outra namorada tem a estabilidade emocional de uma gelatina.

Eduarda soltou um soluço baixo e virou-se, caminhando rapidamente em direção ao corredor, com Amélie choramingando em seu ombro.

— Viu o que você fez? — Emanuel rosnou para Sara, a voz baixa e perigosa.

— Ah, por favor. Ela vai ficar bem depois de um chá de camomila e um carinho na cabeça — Sara revirou os olhos, mas havia uma pequena centelha de culpa que ela mascarava com arrogância. Ela não odiava Eduarda. Na verdade, achava a garota de 20 anos necessária para manter Emanuel são, já que ela mesma não tinha paciência para os dramas existenciais dele. Mas sua natureza competitiva não a deixava recuar.

Emanuel ignorou Sara por um momento e foi atrás de Eduarda. Ele a encontrou no quarto das crianças, sentada na poltrona de amamentação, tentando acalmar Amélie enquanto Benício, que a seguira, puxava a barra de seu vestido.

Ele se ajoelhou à frente dela, colocando as mãos em seus joelhos.

— Ei... olhe para mim.

Eduarda levantou o rosto, as bochechas coradas, os olhos castanhos transbordando.

— Eu me sinto tão... insuficiente, Manu. A Sara é tão forte, tão decidida. E eu só sei chorar quando as crianças gritam.

— Você não é insuficiente — disse ele, a voz firme, o olhar fixo no dela. — Você é o coração desta casa, Duda. A Sara é o motor, mas você é o que faz o caminho valer a pena. Eu preciso dessa sua doçura. Se eu tivesse duas Saras, eu já teria enlouquecido. E se tivesse duas de você, talvez nunca saíssemos do lugar.

Eduarda esboçou um sorriso fraco, limpando o rosto com as costas da mão.

— Ela é tão... loira. E tão alta.

Emanuel riu baixo, um som raro e rouco.

— E você é macia, cheira a flores e estuda História da Arte enquanto ela estuda como gastar meu dinheiro em bolsas de grife. Eu amo o que você é.

Nesse momento, Sara apareceu na porta do quarto, carregando Valentina no colo. A bebê soberba olhava para os gêmeos como se estivesse observando plebeus de sua carruagem.

— O momento sentimental acabou? — perguntou Sara, embora seu tom estivesse mais brando. Ela entrou no quarto e sentou-se na beirada da cama de solteiro decorada. — Escute aqui, Duda. Eu não vou pedir desculpas porque não fiz nada errado, mas... Valentina tem um conjunto de brinquedos novos que ela não usa. Vou mandar entregar aqui amanhã. Talvez assim o seu pequeno selvagem deixe a boneca dela em paz.

Eduarda olhou para Sara, surpresa. Era assim que a loira demonstrava afeto ou trégua: através de bens materiais e sugestões práticas.

— Obrigada, Sara — respondeu Eduarda baixinho.

— De nada. Agora, Emanuel, eu estou com fome. E quero comida de verdade, não essas papinhas orgânicas que a Eduarda faz.

Emanuel levantou-se, sentindo que o equilíbrio, embora precário, havia sido restaurado. Ele era o eixo entre essas duas mulheres tão distintas, o ponto de convergência entre a vulnerabilidade sensível de Eduarda e a agressividade protetora de Sara.

— Vou pedir o jantar — disse ele, passando a mão pelo pescoço, sentindo a tensão da tatuagem que subia por sua nuca. — Duda, pegue o Benício. Sara, por favor, tente não ensinar a Valentina a olhar para os irmãos como se fossem subordinados dela por pelo menos dez minutos.

— Não prometo nada — Sara piscou, levantando-se com a elegância de uma rainha. — Ela tem o meu sangue, afinal.

Eduarda riu, um som leve que fez Amélie finalmente relaxar e soltar um suspiro profundo.

Enquanto Emanuel caminhava para a sala, ele olhou para trás. Eduarda e Sara agora trocavam algumas palavras sobre o desenvolvimento dos dentes das crianças — Sara com seu pragmatismo frio, Eduarda com suas observações emocionais e detalhadas.

Ele era um homem rico, influente e poderoso. Tinha estúdios em Londres, Nova York e Paris. Mas seu maior desafio, e sua maior recompensa, era manter aquele ecossistema impossível funcionando. Entre a seda e o espinho, entre a timidez e a vulgaridade, Emanuel encontrava a única forma de caos que ele realmente desejava controlar.

— Benício, solte o sapato da Sara! — Emanuel gritou, quando viu o filho engatinhando velozmente em direção aos Louboutins da loira.

— Se ele arranhar o solado, Emanuel, eu juro que desconto do seu cartão! — Sara exclamou, mas havia um sorriso de canto de boca enquanto ela observava o menino.

Eduarda abraçou Amélie, sentindo-se segura sob o teto que Emanuel construíra para todos eles. Era uma vida estranha, fora dos padrões, marcada por conflitos de personalidade e disputas de espaço, mas enquanto Emanuel estivesse ali, sendo a rocha onde as ondas de ambas quebravam, ela sabia que pertenciam um ao outro.

A noite caiu sobre a cidade, e dentro daquele apartamento, o silêncio finalmente se instalou, costurado pelo som da respiração das crianças e pelo murmúrio de três adultos que, à sua maneira torta e complexa, tinham aprendido a ser uma família.
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