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Amor sombrio
Fandom: Wednesday
Criado: 13/07/2026
Tags
SombrioPsicológicoAngústiaNoir GóticoEstudo de PersonagemRomanceDivergênciaDramaSuspense
A Anatomia do Caos e o Silêncio da Lâmina
O caminho de volta para a Academia Nunca Mais nunca pareceu tão longo. Wandinha Addams caminhava com a coluna tão ereta que parecia feita de ferro forjado, seus pés atingindo o solo com a cadência rítmica e impiedosa de um metrônomo fúnebre. A luz do sol, que ela tanto desprezava, parecia zombar de sua palidez, expondo a poeira da garagem que ainda se agarrava ao seu casaco cinza.
Ela não olhava para trás. Olhar para trás era um sinal de fraqueza sentimental, uma inclinação para a nostalgia que ela reservava apenas para cemitérios antigos. No entanto, o peso em sua maleta — o kit de embalsamamento que Tyler mencionara — parecia estranhamente mais pesado.
Ao cruzar os portões de ferro forjado da escola, a atmosfera mudou. O ar de Nunca Mais era carregado de magia residual e segredos centenários, mas para Wandinha, tudo parecia subitamente estéril. Ela subiu as escadas em direção ao dormitório Opala, ignorando os olhares curiosos dos alunos que ainda a viam como a salvadora sombria ou a pária definitiva.
Dentro do quarto, o silêncio foi quebrado apenas pelo som de Mãozinha datilografando furiosamente em sua máquina de escrever. O apêndice parou instantaneamente quando ela entrou, os dedos tamborilando em um sinal de interrogação ansioso.
— O interrogatório foi inconclusivo, Mãozinha — respondeu ela, sem que ele precisasse perguntar. — O espécime está sofrendo de uma sobrecarga emocional que compromete sua utilidade tática.
Mãozinha gesticulou freneticamente, as juntas estalando.
— Eu não o "quebrei" — rebateu Wandinha, colocando a maleta sobre a escrivaninha com um baque seco. — Eu apenas apliquei a verdade. Se ele prefere o conforto de uma mentira romântica à clareza de uma aliança funcional, a falha reside em sua própria constituição biológica.
Ela se sentou diante do violoncelo, mas não o tocou. Seus olhos se fixaram na janela circular, na divisão perfeita entre o seu lado escuro e as cores vibrantes de Enid. As cores de Enid pareciam mais irritantes do que o habitual hoje.
— Ele disse que eu sou pior do que a Laurel — murmurou ela, as palavras saindo como um suspiro de veneno.
Mãozinha parou de se mover. Ele sabia que, no vocabulário de Wandinha, ser comparada a Laurel Gates era o insulto supremo. Laurel era o caos descontrolado, a manipulação barata, a obsessão cega. Wandinha era a ordem, o cálculo, a frieza cirúrgica.
— A comparação é logicamente falha — continuou ela, embora sua voz não tivesse a convicção habitual. — Laurel queria um escravo. Eu quero um aliado. A diferença é fundamental. No entanto, Tyler parece incapaz de distinguir entre a submissão por medo e a lealdade por propósito.
Ela finalmente pegou o arco. As primeiras notas de *Paint It Black* saíram arranhadas, uma dissonância que a fez franzir a testa. Seus dedos, geralmente tão precisos, pareciam rígidos.
— A fisiologia é traidora — repetiu ela para o quarto vazio, lembrando-se da sensação do peito de Tyler sob sua palma. — O coração dele batia como o de um animal encurralado. E o meu...
Ela parou. O arco permaneceu suspenso sobre as cordas. O que ela sentira na garagem não fora apenas a observação de um fenômeno. Fora um eco. Uma ressonância magnética que ela se recusava a admitir.
***
Enquanto isso, na garagem, a escuridão havia se tornado a única companhia de Tyler. Ele não acendeu as luzes. Ele não limpou a graxa das mãos. Ele apenas se sentou no chão, as costas apoiadas contra o metal frio do Mustang que estivera consertando.
O Hyde estava inquieto. Ele podia sentir as garras metafóricas arranhando o interior de seu crânio, uma risada gutural ecoando em sua mente.
— *Ela nos descartou, Tyler* — a voz do monstro era um sussurro de lodo e dentes. — *Ela nos usou como um bisturi e agora nos guardou na gaveta porque o corte foi profundo demais.*
— Cale a boca — rosnou Tyler, apertando as têmporas.
— *Por que você chora por ela?* — o Hyde insistia. — *Nós somos o ápice da cadeia alimentar. Nós poderíamos rasgar aquela garganta pálida antes que ela pudesse dizer "veneno".*
— Eu não quero matá-la — sussurrou Tyler para as sombras. — Eu quero que ela me veja. Realmente me veja.
Ele se lembrou da noite anterior. Do calor da pele dela, da forma como Wandinha, por um breve e glorioso momento, pareceu perder o controle. Não fora apenas uma "transação". Ele vira o brilho nos olhos dela, um incêndio negro que não podia ser apenas química. Ou talvez estivesse apenas projetando seus próprios desejos em uma tela perfeitamente vazia.
Ele se levantou, cambaleando levemente. Seus olhos brilharam em um tom âmbar não natural por um segundo antes de voltarem ao azul humano. Ele precisava de algo. Precisava provar que não era apenas uma ferramenta.
Ele caminhou até a bancada de ferramentas onde Wandinha estivera. Lá, esquecido em um canto, estava um pequeno frasco que ela não colocara na maleta. Era um extrato de acônito, destilado até uma pureza letal.
Tyler pegou o frasco. O vidro estava frio.
— Você quer uma arma, Wandinha? — ele perguntou à garagem vazia. — Então você terá uma arma que nem mesmo você poderá segurar pelo cabo.
***
Vinte e quatro horas. Esse era o prazo que ela lhe dera.
Wandinha passou esse tempo em uma espécie de transe analítico. Ela revisou os mapas de Vermont, estudou as linhagens do Círculo de Sangue e até escreveu três páginas de seu romance, embora a protagonista, Viper, estivesse agindo de forma irritantemente errática, tomando decisões baseadas em impulsos que Wandinha não conseguia justificar.
— Ela está apaixonada? — Enid perguntou, espiando por cima do ombro de Wandinha com um entusiasmo perigoso.
Wandinha fechou o caderno com um estalo.
— Viper não conhece o conceito. Ela está sofrendo de uma infecção parasitária cerebral que afeta suas funções cognitivas. É a única explicação lógica para o seu comportamento.
Enid suspirou, rolando os olhos.
— Wandinha, às vezes um charuto é apenas um charuto, e um beijo é apenas um beijo. Você e o Tyler...
— O que aconteceu entre Tyler e eu é um assunto de segurança nacional e integridade metafísica — interrompeu Wandinha, levantando-se. — E agora, o prazo de carência expirou.
Ela saiu do quarto antes que Enid pudesse lançar mais uma de suas teorias cor-de-rosa. O sol estava se pondo, tingindo o céu de um tom de sangue coagulado que Wandinha achava quase tolerável.
Ela retornou à garagem. A porta estava entreaberta. Um convite ou uma armadilha? Para Wandinha, ambos eram igualmente atraentes.
Ao entrar, o cheiro de graxa havia sido substituído por algo mais metálico. Mais doce.
Tyler estava de pé no centro do espaço, iluminado por uma única lâmpada pendurada no teto. Ele não usava camisa, e as cicatrizes de suas transformações anteriores estavam expostas, marcas brancas e vermelhas que contavam a história de sua dor.
— Você voltou — disse ele. Sua voz não tinha mais o tremor do dia anterior. Estava oca.
— Sou pontual — respondeu Wandinha, parando a uma distância segura. — Espero que o isolamento tenha servido para restaurar sua objetividade. Vermont nos espera.
Tyler deu um passo à frente. A luz da lâmpada balançou, fazendo as sombras dançarem em seu rosto.
— Eu tomei uma decisão, Wandinha.
— Decisões baseadas em lógica são sempre bem-vindas — disse ela, embora sua mão estivesse discretamente próxima à adaga escondida em sua bota.
— Eu não vou ser sua arma — disse ele, a voz subindo de tom, mas mantendo uma calma aterrorizante. — E eu não vou ser seu espécime. Se você me quer, você tem que me aceitar como o monstro e como o homem. Sem divisões. Sem "manutenção".
Wandinha inclinou a cabeça.
— Você está tentando renegociar os termos do nosso pacto sob coação emocional? Isso é infantil, Tyler.
— Não é uma renegociação — disse ele, aproximando-se até que os dedos de seus pés quase tocassem os dela. — É um ultimato.
Ele estendeu a mão e, antes que Wandinha pudesse reagir, ele a puxou para perto. Não foi um abraço. Foi uma colisão. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, seus dedos manchados de óleo e algo mais escuro.
— Olhe para mim — ele comandou.
Wandinha não desviou o olhar. Ela viu o Hyde logo abaixo da superfície, os olhos dele mudando de cor como uma tempestade se formando.
— Eu vejo um indivíduo instável com tendências autodestrutivas — disse ela, embora sua respiração tivesse falhado por um milésimo de segundo.
— Mentirosa — sussurrou Tyler. — Você vê o único ser neste mundo que não tem medo da sua escuridão, porque a minha é maior. Você vê a única pessoa que tocou você e não se queimou.
Ele se inclinou, seus lábios roçando o ouvido dela.
— Você diz que o seu coração não acelera por mim. Mas eu posso sentir o seu pulso agora, Wandinha. Aqui na sua garganta. Ele está martelando como um tambor de guerra.
Wandinha sentiu uma onda de irritação. Ele estava certo. A fisiologia era, de fato, uma traidora desprezível.
— A adrenalina é uma resposta natural à ameaça — respondeu ela, sua voz saindo mais rouca do que pretendia.
— Então me trate como uma ameaça — desafiou Tyler, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. — Me odeie. Me tema. Mas não me chame de objeto. Porque se você fizer isso de novo... eu vou mostrar a você o que um objeto quebrado pode fazer com o seu dono.
Ele soltou o rosto dela, mas não se afastou. O ar entre eles estava saturado de uma eletricidade estática que fazia os cabelos da nuca de Wandinha se arrepiarem.
— O Círculo de Sangue — começou Wandinha, tentando recuperar o controle da situação. — Eles possuem um artefato que pode estabilizar a sua transformação. Se formos bem-sucedidos...
— Esqueça o artefato — cortou Tyler. — Eu não quero ser estabilizado. Eu quero ser livre. E a única forma de ser livre é se você parar de tentar me consertar.
Wandinha observou-o em silêncio por um longo tempo. Ela viu a selvageria em sua postura, a dor em seu olhar e a lealdade distorcida que ainda o prendia a ela. Ele era uma criatura de caos, e ela era uma criatura de ordem. Mas, naquele momento, na penumbra da garagem, as linhas pareciam borradas.
— Você é um elemento imprevisível, Tyler Galpin — disse ela finalmente. — E a imprevisibilidade é o maior risco em qualquer operação.
— E é por isso que você gosta de mim — rebateu ele com um sorriso sombrio que não chegava aos olhos. — Porque eu sou o único enigma que você ainda não conseguiu resolver.
Wandinha deu um passo à frente, diminuindo a distância que ele criara. Ela estendeu a mão e, desta vez, não tocou o peito dele. Ela tocou a mandíbula, onde uma pequena cicatriz ainda estava fresca.
— Se você falhar comigo em Vermont — sussurrou ela, sua voz fria como o gelo de um túmulo —, eu mesma farei a sua dissecação. E não haverá anestesia.
Tyler riu, um som seco e perigoso.
— Eu não esperaria nada menos de você, Wandinha.
Ele pegou a mão dela, pressionando a palma contra sua bochecha. Por um momento, o monstro e a pária ficaram imóveis, unidos por um vínculo que nenhum dos dois conseguia nomear, mas que ambos temiam.
— Vamos — disse Wandinha, retirando a mão com uma agilidade calculada. — O carro está pronto?
— O Mustang está sempre pronto — respondeu Tyler, voltando-se para o veículo. — E eu também.
Wandinha caminhou até o lado do passageiro, mas parou antes de abrir a porta. Ela olhou para o céu noturno, para a lua que começava a surgir entre as nuvens.
— Tyler?
Ele parou, a mão na maçaneta da porta do motorista.
— Você disse que eu quero sua alma, mas não quero cuidar dela.
— Foi o que eu disse.
Wandinha entrou no carro, fechando a porta com um som surdo. Ela olhou para a frente, para a estrada escura que levava para fora de Jericho.
— Almas são fardos pesados demais para serem carregados — disse ela, enquanto ele entrava no carro. — Mas eu suponho que, para uma arma de seu calibre, eu possa abrir uma exceção no meu inventário.
Tyler ligou o motor. O ronco do Mustang preencheu a garagem, vibrando no peito de ambos. Ele olhou para ela, e por um breve segundo, a máscara de Wandinha vacilou. Não foi um sorriso, nem uma lágrima. Foi apenas um reconhecimento. Um vislumbre da escuridão mútua que os tornava, de forma terrível e irremediável, um só.
— Vermont — disse Tyler, engatando a marcha.
— Vermont — repetiu Wandinha.
O carro saiu da garagem em alta velocidade, deixando para trás o cheiro de graxa e as cinzas de uma conversa que nunca terminaria realmente. Enquanto Jericho desaparecia no espelho retrovisor, Wandinha Addams abriu sua maleta e verificou suas adagas. Elas estavam afiadas. Mas, pela primeira vez em sua vida, ela se perguntou se seriam afiadas o suficiente para o que estava por vir.
Porque o veneno que Tyler Galpin injetara em seu sistema não era algo que pudesse ser curado com um antídoto. Era o veneno da humanidade, cruel e persistente, e ele estava correndo por suas veias com cada batida de seu coração traidor.
E no silêncio do carro, sob o olhar da lua, Wandinha Addams percebeu que o verdadeiro perigo não era o Hyde. Era o fato de que, se ele caísse, ela poderia, pela primeira vez, sentir o desejo de cair junto com ele.
E essa era a história mais aterrorizante que ela já havia escrito.
Ela não olhava para trás. Olhar para trás era um sinal de fraqueza sentimental, uma inclinação para a nostalgia que ela reservava apenas para cemitérios antigos. No entanto, o peso em sua maleta — o kit de embalsamamento que Tyler mencionara — parecia estranhamente mais pesado.
Ao cruzar os portões de ferro forjado da escola, a atmosfera mudou. O ar de Nunca Mais era carregado de magia residual e segredos centenários, mas para Wandinha, tudo parecia subitamente estéril. Ela subiu as escadas em direção ao dormitório Opala, ignorando os olhares curiosos dos alunos que ainda a viam como a salvadora sombria ou a pária definitiva.
Dentro do quarto, o silêncio foi quebrado apenas pelo som de Mãozinha datilografando furiosamente em sua máquina de escrever. O apêndice parou instantaneamente quando ela entrou, os dedos tamborilando em um sinal de interrogação ansioso.
— O interrogatório foi inconclusivo, Mãozinha — respondeu ela, sem que ele precisasse perguntar. — O espécime está sofrendo de uma sobrecarga emocional que compromete sua utilidade tática.
Mãozinha gesticulou freneticamente, as juntas estalando.
— Eu não o "quebrei" — rebateu Wandinha, colocando a maleta sobre a escrivaninha com um baque seco. — Eu apenas apliquei a verdade. Se ele prefere o conforto de uma mentira romântica à clareza de uma aliança funcional, a falha reside em sua própria constituição biológica.
Ela se sentou diante do violoncelo, mas não o tocou. Seus olhos se fixaram na janela circular, na divisão perfeita entre o seu lado escuro e as cores vibrantes de Enid. As cores de Enid pareciam mais irritantes do que o habitual hoje.
— Ele disse que eu sou pior do que a Laurel — murmurou ela, as palavras saindo como um suspiro de veneno.
Mãozinha parou de se mover. Ele sabia que, no vocabulário de Wandinha, ser comparada a Laurel Gates era o insulto supremo. Laurel era o caos descontrolado, a manipulação barata, a obsessão cega. Wandinha era a ordem, o cálculo, a frieza cirúrgica.
— A comparação é logicamente falha — continuou ela, embora sua voz não tivesse a convicção habitual. — Laurel queria um escravo. Eu quero um aliado. A diferença é fundamental. No entanto, Tyler parece incapaz de distinguir entre a submissão por medo e a lealdade por propósito.
Ela finalmente pegou o arco. As primeiras notas de *Paint It Black* saíram arranhadas, uma dissonância que a fez franzir a testa. Seus dedos, geralmente tão precisos, pareciam rígidos.
— A fisiologia é traidora — repetiu ela para o quarto vazio, lembrando-se da sensação do peito de Tyler sob sua palma. — O coração dele batia como o de um animal encurralado. E o meu...
Ela parou. O arco permaneceu suspenso sobre as cordas. O que ela sentira na garagem não fora apenas a observação de um fenômeno. Fora um eco. Uma ressonância magnética que ela se recusava a admitir.
***
Enquanto isso, na garagem, a escuridão havia se tornado a única companhia de Tyler. Ele não acendeu as luzes. Ele não limpou a graxa das mãos. Ele apenas se sentou no chão, as costas apoiadas contra o metal frio do Mustang que estivera consertando.
O Hyde estava inquieto. Ele podia sentir as garras metafóricas arranhando o interior de seu crânio, uma risada gutural ecoando em sua mente.
— *Ela nos descartou, Tyler* — a voz do monstro era um sussurro de lodo e dentes. — *Ela nos usou como um bisturi e agora nos guardou na gaveta porque o corte foi profundo demais.*
— Cale a boca — rosnou Tyler, apertando as têmporas.
— *Por que você chora por ela?* — o Hyde insistia. — *Nós somos o ápice da cadeia alimentar. Nós poderíamos rasgar aquela garganta pálida antes que ela pudesse dizer "veneno".*
— Eu não quero matá-la — sussurrou Tyler para as sombras. — Eu quero que ela me veja. Realmente me veja.
Ele se lembrou da noite anterior. Do calor da pele dela, da forma como Wandinha, por um breve e glorioso momento, pareceu perder o controle. Não fora apenas uma "transação". Ele vira o brilho nos olhos dela, um incêndio negro que não podia ser apenas química. Ou talvez estivesse apenas projetando seus próprios desejos em uma tela perfeitamente vazia.
Ele se levantou, cambaleando levemente. Seus olhos brilharam em um tom âmbar não natural por um segundo antes de voltarem ao azul humano. Ele precisava de algo. Precisava provar que não era apenas uma ferramenta.
Ele caminhou até a bancada de ferramentas onde Wandinha estivera. Lá, esquecido em um canto, estava um pequeno frasco que ela não colocara na maleta. Era um extrato de acônito, destilado até uma pureza letal.
Tyler pegou o frasco. O vidro estava frio.
— Você quer uma arma, Wandinha? — ele perguntou à garagem vazia. — Então você terá uma arma que nem mesmo você poderá segurar pelo cabo.
***
Vinte e quatro horas. Esse era o prazo que ela lhe dera.
Wandinha passou esse tempo em uma espécie de transe analítico. Ela revisou os mapas de Vermont, estudou as linhagens do Círculo de Sangue e até escreveu três páginas de seu romance, embora a protagonista, Viper, estivesse agindo de forma irritantemente errática, tomando decisões baseadas em impulsos que Wandinha não conseguia justificar.
— Ela está apaixonada? — Enid perguntou, espiando por cima do ombro de Wandinha com um entusiasmo perigoso.
Wandinha fechou o caderno com um estalo.
— Viper não conhece o conceito. Ela está sofrendo de uma infecção parasitária cerebral que afeta suas funções cognitivas. É a única explicação lógica para o seu comportamento.
Enid suspirou, rolando os olhos.
— Wandinha, às vezes um charuto é apenas um charuto, e um beijo é apenas um beijo. Você e o Tyler...
— O que aconteceu entre Tyler e eu é um assunto de segurança nacional e integridade metafísica — interrompeu Wandinha, levantando-se. — E agora, o prazo de carência expirou.
Ela saiu do quarto antes que Enid pudesse lançar mais uma de suas teorias cor-de-rosa. O sol estava se pondo, tingindo o céu de um tom de sangue coagulado que Wandinha achava quase tolerável.
Ela retornou à garagem. A porta estava entreaberta. Um convite ou uma armadilha? Para Wandinha, ambos eram igualmente atraentes.
Ao entrar, o cheiro de graxa havia sido substituído por algo mais metálico. Mais doce.
Tyler estava de pé no centro do espaço, iluminado por uma única lâmpada pendurada no teto. Ele não usava camisa, e as cicatrizes de suas transformações anteriores estavam expostas, marcas brancas e vermelhas que contavam a história de sua dor.
— Você voltou — disse ele. Sua voz não tinha mais o tremor do dia anterior. Estava oca.
— Sou pontual — respondeu Wandinha, parando a uma distância segura. — Espero que o isolamento tenha servido para restaurar sua objetividade. Vermont nos espera.
Tyler deu um passo à frente. A luz da lâmpada balançou, fazendo as sombras dançarem em seu rosto.
— Eu tomei uma decisão, Wandinha.
— Decisões baseadas em lógica são sempre bem-vindas — disse ela, embora sua mão estivesse discretamente próxima à adaga escondida em sua bota.
— Eu não vou ser sua arma — disse ele, a voz subindo de tom, mas mantendo uma calma aterrorizante. — E eu não vou ser seu espécime. Se você me quer, você tem que me aceitar como o monstro e como o homem. Sem divisões. Sem "manutenção".
Wandinha inclinou a cabeça.
— Você está tentando renegociar os termos do nosso pacto sob coação emocional? Isso é infantil, Tyler.
— Não é uma renegociação — disse ele, aproximando-se até que os dedos de seus pés quase tocassem os dela. — É um ultimato.
Ele estendeu a mão e, antes que Wandinha pudesse reagir, ele a puxou para perto. Não foi um abraço. Foi uma colisão. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, seus dedos manchados de óleo e algo mais escuro.
— Olhe para mim — ele comandou.
Wandinha não desviou o olhar. Ela viu o Hyde logo abaixo da superfície, os olhos dele mudando de cor como uma tempestade se formando.
— Eu vejo um indivíduo instável com tendências autodestrutivas — disse ela, embora sua respiração tivesse falhado por um milésimo de segundo.
— Mentirosa — sussurrou Tyler. — Você vê o único ser neste mundo que não tem medo da sua escuridão, porque a minha é maior. Você vê a única pessoa que tocou você e não se queimou.
Ele se inclinou, seus lábios roçando o ouvido dela.
— Você diz que o seu coração não acelera por mim. Mas eu posso sentir o seu pulso agora, Wandinha. Aqui na sua garganta. Ele está martelando como um tambor de guerra.
Wandinha sentiu uma onda de irritação. Ele estava certo. A fisiologia era, de fato, uma traidora desprezível.
— A adrenalina é uma resposta natural à ameaça — respondeu ela, sua voz saindo mais rouca do que pretendia.
— Então me trate como uma ameaça — desafiou Tyler, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. — Me odeie. Me tema. Mas não me chame de objeto. Porque se você fizer isso de novo... eu vou mostrar a você o que um objeto quebrado pode fazer com o seu dono.
Ele soltou o rosto dela, mas não se afastou. O ar entre eles estava saturado de uma eletricidade estática que fazia os cabelos da nuca de Wandinha se arrepiarem.
— O Círculo de Sangue — começou Wandinha, tentando recuperar o controle da situação. — Eles possuem um artefato que pode estabilizar a sua transformação. Se formos bem-sucedidos...
— Esqueça o artefato — cortou Tyler. — Eu não quero ser estabilizado. Eu quero ser livre. E a única forma de ser livre é se você parar de tentar me consertar.
Wandinha observou-o em silêncio por um longo tempo. Ela viu a selvageria em sua postura, a dor em seu olhar e a lealdade distorcida que ainda o prendia a ela. Ele era uma criatura de caos, e ela era uma criatura de ordem. Mas, naquele momento, na penumbra da garagem, as linhas pareciam borradas.
— Você é um elemento imprevisível, Tyler Galpin — disse ela finalmente. — E a imprevisibilidade é o maior risco em qualquer operação.
— E é por isso que você gosta de mim — rebateu ele com um sorriso sombrio que não chegava aos olhos. — Porque eu sou o único enigma que você ainda não conseguiu resolver.
Wandinha deu um passo à frente, diminuindo a distância que ele criara. Ela estendeu a mão e, desta vez, não tocou o peito dele. Ela tocou a mandíbula, onde uma pequena cicatriz ainda estava fresca.
— Se você falhar comigo em Vermont — sussurrou ela, sua voz fria como o gelo de um túmulo —, eu mesma farei a sua dissecação. E não haverá anestesia.
Tyler riu, um som seco e perigoso.
— Eu não esperaria nada menos de você, Wandinha.
Ele pegou a mão dela, pressionando a palma contra sua bochecha. Por um momento, o monstro e a pária ficaram imóveis, unidos por um vínculo que nenhum dos dois conseguia nomear, mas que ambos temiam.
— Vamos — disse Wandinha, retirando a mão com uma agilidade calculada. — O carro está pronto?
— O Mustang está sempre pronto — respondeu Tyler, voltando-se para o veículo. — E eu também.
Wandinha caminhou até o lado do passageiro, mas parou antes de abrir a porta. Ela olhou para o céu noturno, para a lua que começava a surgir entre as nuvens.
— Tyler?
Ele parou, a mão na maçaneta da porta do motorista.
— Você disse que eu quero sua alma, mas não quero cuidar dela.
— Foi o que eu disse.
Wandinha entrou no carro, fechando a porta com um som surdo. Ela olhou para a frente, para a estrada escura que levava para fora de Jericho.
— Almas são fardos pesados demais para serem carregados — disse ela, enquanto ele entrava no carro. — Mas eu suponho que, para uma arma de seu calibre, eu possa abrir uma exceção no meu inventário.
Tyler ligou o motor. O ronco do Mustang preencheu a garagem, vibrando no peito de ambos. Ele olhou para ela, e por um breve segundo, a máscara de Wandinha vacilou. Não foi um sorriso, nem uma lágrima. Foi apenas um reconhecimento. Um vislumbre da escuridão mútua que os tornava, de forma terrível e irremediável, um só.
— Vermont — disse Tyler, engatando a marcha.
— Vermont — repetiu Wandinha.
O carro saiu da garagem em alta velocidade, deixando para trás o cheiro de graxa e as cinzas de uma conversa que nunca terminaria realmente. Enquanto Jericho desaparecia no espelho retrovisor, Wandinha Addams abriu sua maleta e verificou suas adagas. Elas estavam afiadas. Mas, pela primeira vez em sua vida, ela se perguntou se seriam afiadas o suficiente para o que estava por vir.
Porque o veneno que Tyler Galpin injetara em seu sistema não era algo que pudesse ser curado com um antídoto. Era o veneno da humanidade, cruel e persistente, e ele estava correndo por suas veias com cada batida de seu coração traidor.
E no silêncio do carro, sob o olhar da lua, Wandinha Addams percebeu que o verdadeiro perigo não era o Hyde. Era o fato de que, se ele caísse, ela poderia, pela primeira vez, sentir o desejo de cair junto com ele.
E essa era a história mais aterrorizante que ela já havia escrito.
