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Fandom: bts
Criado: 13/07/2026
Tags
FantasiaDistopiaPós-ApocalípticoAlmas GêmeasAngústiaDramaAçãoTragédiaSombrio
O Eco de uma Promessa de Sangue
O céu sobre a Academia de Ébano nunca era verdadeiramente azul. Era de um cinza perolado, a cor de cinzas frias que flutuavam sobre as torres de pedra negra, um lembrete constante de que o mundo, tal como era conhecido, havia queimado décadas atrás. A Grande Guerra não apenas redesenhou as fronteiras; ela domesticou o sobrenatural. A magia, que antes corria livre pelas veias da terra, agora pertencia ao Estado. E o Estado não aceitava nada que não pudesse controlar.
Park Jimin sentia o peso das algemas de ferro frio em seus pulsos enquanto cruzava o pátio central. Elas não eram algemas comuns; eram gravadas com runas de supressão que faziam sua pele formigar e sua mente parecer envolta em névoa. Ao seu redor, outros jovens, todos com a mesma expressão de choque e desolação, eram empurrados por guardas em uniformes cinza-escuros.
A Academia de Ébano não era uma escola. Era um moedor de carne para a alma.
— Olhe para frente, 813 — rosnou um guarda, empurrando Jimin pelo ombro.
Jimin tropeçou, seus dedos roçando brevemente a parede de pedra da entrada principal. O contato durou apenas um segundo, mas foi o suficiente.
Um clarão de agonia atravessou sua mente. Ele ouviu gritos de séculos atrás, sentiu o cheiro de fumaça e o gosto de ferro. Viu o rosto de uma mulher chorando enquanto escondia um livro sob as lajes do piso.
Jimin recolheu a mão como se tivesse se queimado, o coração martelando contra as costelas. Ele apertou os punhos, escondendo os dedos trêmulos nas mangas da túnica áspera. Seu dom, a psicometria — a habilidade de ler as memórias dos objetos —, era o seu maior segredo e sua sentença de morte. Em Ébano, poderes raros eram "extraídos" para o uso do Exército Nacional. Ninguém sobrevivia à extração.
— Mantenha a cabeça baixa — sussurrou uma voz ao seu lado.
Jimin olhou de relance. Era um garoto magro, de olhos arregalados, cujo nome ele ainda não sabia.
— Se eles notarem que você é sensível ao toque, vão te levar para a Ala Norte no primeiro dia — o garoto murmurou, sem mover os lábios.
Jimin assentiu imperceptivelmente. Ele sabia. Todos sabiam o que acontecia na Ala Norte.
O grupo de novatos foi conduzido ao Grande Salão, um espaço vasto e claustrofóbico, onde o teto se perdia nas sombras e as janelas eram estreitas como fendas de vigia. O silêncio ali era absoluto, quebrado apenas pelo som rítmico de botas pesadas contra o mármore.
No centro do salão, um grupo de alunos veteranos aguardava. Eles eram diferentes dos novatos. Vestiam uniformes pretos com detalhes em prata, a postura ereta, os olhos desprovidos de qualquer brilho de humanidade. Eram os Cães de Caça da Academia.
E, à frente deles, estava Jeon Jungkook.
Jimin sentiu o ar abandonar seus pulmões antes mesmo de saber quem ele era. Jungkook não era apenas bonito; ele possuía uma beleza perigosa, afiada como uma lâmina recém-amolada. Seus cabelos negros caíam sobre olhos que pareciam buracos negros, capazes de engolir qualquer luz que ousasse brilhar perto dele. Ele carregava uma aura de autoridade que não vinha apenas de sua linhagem de caçadores de bruxos, mas de uma crueldade inerente, polida pela disciplina militar.
Quando os olhos de Jungkook encontraram os de Jimin, o mundo pareceu desacelerar. Não houve reconhecimento, apenas uma análise fria e predatória. Jungkook inclinou a cabeça levemente, um gesto quase imperceptível, como se estivesse farejando uma presa que cheirava a algo incomum.
— Silêncio — a voz do Diretor ecoou do palanque, mas Jimin não conseguia desviar o olhar de Jungkook.
O veterano deu um passo à frente, suas botas ecoando como batidas de um relógio de execução. Ele parou diante da fila de novatos. O medo era palpável, um suor frio que empestiava o ar.
Jungkook parou exatamente na frente de Jimin.
— Você — disse Jungkook. A voz era baixa, um barítono que vibrava nos ossos de Jimin. — Está tremendo. Por quê?
Jimin engoliu em seco, sentindo o suor escorrer por sua nuca. Ele manteve o olhar fixo no botão de prata do uniforme de Jungkook, temendo que, se olhasse nos olhos dele, o caçador veria a magia dançando em suas pupilas.
— O frio, senhor — mentiu Jimin, a voz saindo mais firme do que esperava.
Jungkook deu um passo para mais perto, invadindo o espaço pessoal de Jimin. O cheiro dele era de sândalo e metal frio.
— Não há frio aqui que o medo não possa justificar — Jungkook disse, aproximando o rosto do ouvido de Jimin. — Mas o medo é uma confissão. O que você está escondendo, 813?
— Nada, senhor.
Jungkook soltou um riso seco, sem humor, e se afastou.
— Veremos. As paredes de Ébano não guardam segredos por muito tempo.
***
As semanas seguintes foram um borrão de exaustão e terror. A rotina na Academia era desenhada para quebrar a vontade. Treinamentos físicos exaustivos, aulas de teoria mágica onde aprendiam que seus dons eram "doenças a serem curadas pelo serviço ao Estado" e a vigilância constante dos Cães de Caça.
Jimin aprendeu a usar luvas de couro o tempo todo, alegando uma alergia crônica ao metal das mesas. Era a única forma de evitar o bombardeio de memórias que cada objeto daquele castelo amaldiçoado tentava lhe impor.
No entanto, havia um lugar que o chamava.
O Salão das Relíquias era uma ala interditada, uma biblioteca de objetos apreendidos de bruxos executados durante a guerra. Era protegida por selos e guardas, mas, em uma noite de tempestade, Jimin encontrou a brecha que precisava. Um dos guardas havia se afastado para conter um incidente nas celas inferiores, e a porta, por um erro humano ou destino cruel, não fora trancada magneticamente.
Jimin entrou, o coração martelando. O ar ali era pesado, carregado com o estático de mil magias silenciadas. Ele caminhou entre as prateleiras, sentindo os ecos sussurrarem em sua mente mesmo através das luvas.
No fundo da sala, sobre um pedestal de veludo podre, repousava uma espada.
Não era uma arma cerimonial. Era uma lâmina de combate, gasta, com o punho envolto em couro escurecido pelo tempo. Jimin sentiu uma atração magnética. Era como se a espada estivesse gritando seu nome.
Ele hesitou. Tocar naquilo sem proteção seria um suicídio sensorial. Mas a curiosidade, ou talvez algo mais profundo, uma fome que ele não entendia, o dominou.
Jimin puxou a luva da mão direita com os dentes. Sua pele estava pálida, vulnerável.
Ele estendeu a mão e fechou os dedos sobre o punho da espada.
O mundo desapareceu.
Não foi um flash de memória. Foi uma submersão total.
Ele não estava mais na Academia de Ébano. Ele estava em um campo de batalha. O céu estava em chamas, um vermelho visceral que manchava as nuvens. O cheiro de sangue e ozônio era sufocante.
Jimin olhou para baixo e viu que suas mãos estavam cobertas de sangue, mas não era apenas o dele. Ele segurava a mesma espada, mas ela brilhava com uma luz azulada e feroz.
— Jimin! — Alguém gritou.
Ele virou-se e seu coração parou.
Lá estava ele. Mas não era o Jungkook da Academia. Este homem tinha os cabelos mais longos, presos em um coque desfeito, e usava uma armadura de couro batido, marcada por cortes profundos. Seus olhos, no entanto, eram os mesmos. Mas não havia crueldade neles. Havia um desespero devastador.
— Jungkook... — a voz de Jimin saiu como um suspiro quebrado.
Jungkook tropeçou em sua direção, caindo de joelhos. Ele tinha uma ferida aberta no peito, o sangue jorrando entre seus dedos. Jimin caiu ao lado dele, largando a espada, puxando o corpo do outro para seu colo.
— Eles estão vindo — Jungkook tossiu, o sangue manchando seus lábios. — O ritual... Jimin, você tem que terminar.
— Não sem você — Jimin chorava, as lágrimas abrindo sulcos na sujeira de seu rosto. — Eu não vou deixar você.
Ao redor deles, o exército inimigo avançava, sombras gigantescas que pareciam devorar a luz. O mundo estava acabando.
Jungkook alcançou o rosto de Jimin com uma mão trêmula, deixando um rastro de sangue em sua bochecha.
— Em outra vida — Jungkook sussurrou, a voz falhando enquanto a luz em seus olhos começava a apagar. — Eu vou te encontrar. Em todos os mundos. Em todos os corpos. Em todas as guerras. Eu prometo.
Jimin inclinou a cabeça, unindo sua testa à dele.
— Eu vou esperar por você — respondeu Jimin, sentindo a vida de Jungkook se esvair. — Mesmo que eu tenha que destruir o mundo para nos encontrar de novo.
Eles morreram assim. De mãos dadas, enquanto a magia explodia ao redor deles em um último ato de rebeldia contra o destino.
Jimin foi arrancado da visão com um solavanco violento. Ele caiu de costas no chão frio do Salão das Relíquias, ofegante, o rosto molhado de lágrimas reais. A espada jazia ao seu lado, silenciosa e inerte.
— O que você está fazendo aqui?
A voz era um chicote.
Jimin congelou. Ele olhou para cima e viu Jungkook parado na entrada da sala. Ele segurava uma lanterna tática, a luz branca cegando Jimin momentaneamente. O uniforme preto de Jungkook parecia uma mancha de escuridão contra a porta.
Jimin tentou se levantar, mas suas pernas estavam fracas. Ele rapidamente escondeu a mão nua atrás das costas.
— Eu... eu me perdi — gaguejou Jimin, a mente ainda dividida entre o campo de batalha sangrento e a frieza da academia.
Jungkook caminhou em sua direção com passos lentos e deliberados. Ele guardou a lanterna e puxou uma adaga de contenção da cintura.
— Ninguém se perde no setor proibido, 813. E ninguém toca nos itens sem ser destruído pela carga residual.
Jungkook parou a poucos centímetros dele e se inclinou, pegando a luva que Jimin havia deixado cair. Ele olhou para a luva e depois para Jimin. Seus olhos se estreitaram.
— Você tocou na lâmina — afirmou Jungkook. Não era uma pergunta.
Jimin não respondeu. Ele estava olhando para o pescoço de Jungkook, onde, sob a gola alta do uniforme, ele sabia que havia uma cicatriz exatamente no lugar onde, na visão, a armadura havia falhado.
Jungkook percebeu o olhar. Por um breve segundo, a máscara de frieza do caçador vacilou. Uma sombra de dúvida, de algo antigo e enterrado, atravessou suas íris escuras.
Ele agarrou o pulso de Jimin com força. Onde suas peles se tocaram — a palma de Jungkook contra o pulso nu de Jimin —, uma faísca azul saltou, visível e violenta.
Ambos recuaram como se tivessem levado um choque elétrico.
Jungkook olhou para a própria mão, a expressão de choque substituindo a crueldade. Ele olhou para Jimin, e desta vez, não havia o Diretor, não havia o Estado, não havia a Academia. Havia apenas dois estranhos reconhecendo um eco que não deveria existir.
— Você... — Jungkook começou, a voz trêmula pela primeira vez.
— Você prometeu — sussurrou Jimin, as palavras saindo antes que ele pudesse contê-las.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que as pedras da Academia. Jungkook deu um passo à frente, sua mão pairando no ar, hesitante entre agarrar o pescoço de Jimin para silenciá-lo ou puxá-lo para perto para confirmar que ele era real.
Lá fora, o trovão rugiu, e as luzes da Academia piscaram.
— Se alguém souber o que você é — Jungkook disse, a voz agora um sussurro urgente e perigoso —, eles vão te matar. E se souberem o que eu vi... eles vão nos apagar.
— Você viu também — Jimin não perguntou. Ele sabia.
Jungkook fechou os olhos por um momento, a mandíbula tensa. Quando os abriu, a frieza havia voltado, mas era uma fachada fina, escondendo um incêndio.
— Saia daqui. Agora — ordenou Jungkook, empurrando a luva contra o peito de Jimin. — Se eu te encontrar fora do dormitório novamente, eu mesmo entregarei você aos inquisidores.
Jimin pegou a luva, mas não se moveu imediatamente.
— Por que está me deixando ir, Jeon?
Jungkook deu as costas para ele, escondendo o rosto nas sombras.
— Porque eu não sei se estou te salvando ou se estou esperando o momento certo para terminar o que começamos naquela vida.
Jimin saiu da sala, o coração disparado. Ele sabia que nada mais seria o mesmo. O governo queria soldados, queria armas, queria obediência.
Mas Ébano acabara de despertar algo muito mais perigoso que a magia.
Ela despertara a memória. E, como Jimin agora sabia, o amor deles era a única força capaz de queimar aquele mundo de cinzas até o chão.
Park Jimin sentia o peso das algemas de ferro frio em seus pulsos enquanto cruzava o pátio central. Elas não eram algemas comuns; eram gravadas com runas de supressão que faziam sua pele formigar e sua mente parecer envolta em névoa. Ao seu redor, outros jovens, todos com a mesma expressão de choque e desolação, eram empurrados por guardas em uniformes cinza-escuros.
A Academia de Ébano não era uma escola. Era um moedor de carne para a alma.
— Olhe para frente, 813 — rosnou um guarda, empurrando Jimin pelo ombro.
Jimin tropeçou, seus dedos roçando brevemente a parede de pedra da entrada principal. O contato durou apenas um segundo, mas foi o suficiente.
Um clarão de agonia atravessou sua mente. Ele ouviu gritos de séculos atrás, sentiu o cheiro de fumaça e o gosto de ferro. Viu o rosto de uma mulher chorando enquanto escondia um livro sob as lajes do piso.
Jimin recolheu a mão como se tivesse se queimado, o coração martelando contra as costelas. Ele apertou os punhos, escondendo os dedos trêmulos nas mangas da túnica áspera. Seu dom, a psicometria — a habilidade de ler as memórias dos objetos —, era o seu maior segredo e sua sentença de morte. Em Ébano, poderes raros eram "extraídos" para o uso do Exército Nacional. Ninguém sobrevivia à extração.
— Mantenha a cabeça baixa — sussurrou uma voz ao seu lado.
Jimin olhou de relance. Era um garoto magro, de olhos arregalados, cujo nome ele ainda não sabia.
— Se eles notarem que você é sensível ao toque, vão te levar para a Ala Norte no primeiro dia — o garoto murmurou, sem mover os lábios.
Jimin assentiu imperceptivelmente. Ele sabia. Todos sabiam o que acontecia na Ala Norte.
O grupo de novatos foi conduzido ao Grande Salão, um espaço vasto e claustrofóbico, onde o teto se perdia nas sombras e as janelas eram estreitas como fendas de vigia. O silêncio ali era absoluto, quebrado apenas pelo som rítmico de botas pesadas contra o mármore.
No centro do salão, um grupo de alunos veteranos aguardava. Eles eram diferentes dos novatos. Vestiam uniformes pretos com detalhes em prata, a postura ereta, os olhos desprovidos de qualquer brilho de humanidade. Eram os Cães de Caça da Academia.
E, à frente deles, estava Jeon Jungkook.
Jimin sentiu o ar abandonar seus pulmões antes mesmo de saber quem ele era. Jungkook não era apenas bonito; ele possuía uma beleza perigosa, afiada como uma lâmina recém-amolada. Seus cabelos negros caíam sobre olhos que pareciam buracos negros, capazes de engolir qualquer luz que ousasse brilhar perto dele. Ele carregava uma aura de autoridade que não vinha apenas de sua linhagem de caçadores de bruxos, mas de uma crueldade inerente, polida pela disciplina militar.
Quando os olhos de Jungkook encontraram os de Jimin, o mundo pareceu desacelerar. Não houve reconhecimento, apenas uma análise fria e predatória. Jungkook inclinou a cabeça levemente, um gesto quase imperceptível, como se estivesse farejando uma presa que cheirava a algo incomum.
— Silêncio — a voz do Diretor ecoou do palanque, mas Jimin não conseguia desviar o olhar de Jungkook.
O veterano deu um passo à frente, suas botas ecoando como batidas de um relógio de execução. Ele parou diante da fila de novatos. O medo era palpável, um suor frio que empestiava o ar.
Jungkook parou exatamente na frente de Jimin.
— Você — disse Jungkook. A voz era baixa, um barítono que vibrava nos ossos de Jimin. — Está tremendo. Por quê?
Jimin engoliu em seco, sentindo o suor escorrer por sua nuca. Ele manteve o olhar fixo no botão de prata do uniforme de Jungkook, temendo que, se olhasse nos olhos dele, o caçador veria a magia dançando em suas pupilas.
— O frio, senhor — mentiu Jimin, a voz saindo mais firme do que esperava.
Jungkook deu um passo para mais perto, invadindo o espaço pessoal de Jimin. O cheiro dele era de sândalo e metal frio.
— Não há frio aqui que o medo não possa justificar — Jungkook disse, aproximando o rosto do ouvido de Jimin. — Mas o medo é uma confissão. O que você está escondendo, 813?
— Nada, senhor.
Jungkook soltou um riso seco, sem humor, e se afastou.
— Veremos. As paredes de Ébano não guardam segredos por muito tempo.
***
As semanas seguintes foram um borrão de exaustão e terror. A rotina na Academia era desenhada para quebrar a vontade. Treinamentos físicos exaustivos, aulas de teoria mágica onde aprendiam que seus dons eram "doenças a serem curadas pelo serviço ao Estado" e a vigilância constante dos Cães de Caça.
Jimin aprendeu a usar luvas de couro o tempo todo, alegando uma alergia crônica ao metal das mesas. Era a única forma de evitar o bombardeio de memórias que cada objeto daquele castelo amaldiçoado tentava lhe impor.
No entanto, havia um lugar que o chamava.
O Salão das Relíquias era uma ala interditada, uma biblioteca de objetos apreendidos de bruxos executados durante a guerra. Era protegida por selos e guardas, mas, em uma noite de tempestade, Jimin encontrou a brecha que precisava. Um dos guardas havia se afastado para conter um incidente nas celas inferiores, e a porta, por um erro humano ou destino cruel, não fora trancada magneticamente.
Jimin entrou, o coração martelando. O ar ali era pesado, carregado com o estático de mil magias silenciadas. Ele caminhou entre as prateleiras, sentindo os ecos sussurrarem em sua mente mesmo através das luvas.
No fundo da sala, sobre um pedestal de veludo podre, repousava uma espada.
Não era uma arma cerimonial. Era uma lâmina de combate, gasta, com o punho envolto em couro escurecido pelo tempo. Jimin sentiu uma atração magnética. Era como se a espada estivesse gritando seu nome.
Ele hesitou. Tocar naquilo sem proteção seria um suicídio sensorial. Mas a curiosidade, ou talvez algo mais profundo, uma fome que ele não entendia, o dominou.
Jimin puxou a luva da mão direita com os dentes. Sua pele estava pálida, vulnerável.
Ele estendeu a mão e fechou os dedos sobre o punho da espada.
O mundo desapareceu.
Não foi um flash de memória. Foi uma submersão total.
Ele não estava mais na Academia de Ébano. Ele estava em um campo de batalha. O céu estava em chamas, um vermelho visceral que manchava as nuvens. O cheiro de sangue e ozônio era sufocante.
Jimin olhou para baixo e viu que suas mãos estavam cobertas de sangue, mas não era apenas o dele. Ele segurava a mesma espada, mas ela brilhava com uma luz azulada e feroz.
— Jimin! — Alguém gritou.
Ele virou-se e seu coração parou.
Lá estava ele. Mas não era o Jungkook da Academia. Este homem tinha os cabelos mais longos, presos em um coque desfeito, e usava uma armadura de couro batido, marcada por cortes profundos. Seus olhos, no entanto, eram os mesmos. Mas não havia crueldade neles. Havia um desespero devastador.
— Jungkook... — a voz de Jimin saiu como um suspiro quebrado.
Jungkook tropeçou em sua direção, caindo de joelhos. Ele tinha uma ferida aberta no peito, o sangue jorrando entre seus dedos. Jimin caiu ao lado dele, largando a espada, puxando o corpo do outro para seu colo.
— Eles estão vindo — Jungkook tossiu, o sangue manchando seus lábios. — O ritual... Jimin, você tem que terminar.
— Não sem você — Jimin chorava, as lágrimas abrindo sulcos na sujeira de seu rosto. — Eu não vou deixar você.
Ao redor deles, o exército inimigo avançava, sombras gigantescas que pareciam devorar a luz. O mundo estava acabando.
Jungkook alcançou o rosto de Jimin com uma mão trêmula, deixando um rastro de sangue em sua bochecha.
— Em outra vida — Jungkook sussurrou, a voz falhando enquanto a luz em seus olhos começava a apagar. — Eu vou te encontrar. Em todos os mundos. Em todos os corpos. Em todas as guerras. Eu prometo.
Jimin inclinou a cabeça, unindo sua testa à dele.
— Eu vou esperar por você — respondeu Jimin, sentindo a vida de Jungkook se esvair. — Mesmo que eu tenha que destruir o mundo para nos encontrar de novo.
Eles morreram assim. De mãos dadas, enquanto a magia explodia ao redor deles em um último ato de rebeldia contra o destino.
Jimin foi arrancado da visão com um solavanco violento. Ele caiu de costas no chão frio do Salão das Relíquias, ofegante, o rosto molhado de lágrimas reais. A espada jazia ao seu lado, silenciosa e inerte.
— O que você está fazendo aqui?
A voz era um chicote.
Jimin congelou. Ele olhou para cima e viu Jungkook parado na entrada da sala. Ele segurava uma lanterna tática, a luz branca cegando Jimin momentaneamente. O uniforme preto de Jungkook parecia uma mancha de escuridão contra a porta.
Jimin tentou se levantar, mas suas pernas estavam fracas. Ele rapidamente escondeu a mão nua atrás das costas.
— Eu... eu me perdi — gaguejou Jimin, a mente ainda dividida entre o campo de batalha sangrento e a frieza da academia.
Jungkook caminhou em sua direção com passos lentos e deliberados. Ele guardou a lanterna e puxou uma adaga de contenção da cintura.
— Ninguém se perde no setor proibido, 813. E ninguém toca nos itens sem ser destruído pela carga residual.
Jungkook parou a poucos centímetros dele e se inclinou, pegando a luva que Jimin havia deixado cair. Ele olhou para a luva e depois para Jimin. Seus olhos se estreitaram.
— Você tocou na lâmina — afirmou Jungkook. Não era uma pergunta.
Jimin não respondeu. Ele estava olhando para o pescoço de Jungkook, onde, sob a gola alta do uniforme, ele sabia que havia uma cicatriz exatamente no lugar onde, na visão, a armadura havia falhado.
Jungkook percebeu o olhar. Por um breve segundo, a máscara de frieza do caçador vacilou. Uma sombra de dúvida, de algo antigo e enterrado, atravessou suas íris escuras.
Ele agarrou o pulso de Jimin com força. Onde suas peles se tocaram — a palma de Jungkook contra o pulso nu de Jimin —, uma faísca azul saltou, visível e violenta.
Ambos recuaram como se tivessem levado um choque elétrico.
Jungkook olhou para a própria mão, a expressão de choque substituindo a crueldade. Ele olhou para Jimin, e desta vez, não havia o Diretor, não havia o Estado, não havia a Academia. Havia apenas dois estranhos reconhecendo um eco que não deveria existir.
— Você... — Jungkook começou, a voz trêmula pela primeira vez.
— Você prometeu — sussurrou Jimin, as palavras saindo antes que ele pudesse contê-las.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que as pedras da Academia. Jungkook deu um passo à frente, sua mão pairando no ar, hesitante entre agarrar o pescoço de Jimin para silenciá-lo ou puxá-lo para perto para confirmar que ele era real.
Lá fora, o trovão rugiu, e as luzes da Academia piscaram.
— Se alguém souber o que você é — Jungkook disse, a voz agora um sussurro urgente e perigoso —, eles vão te matar. E se souberem o que eu vi... eles vão nos apagar.
— Você viu também — Jimin não perguntou. Ele sabia.
Jungkook fechou os olhos por um momento, a mandíbula tensa. Quando os abriu, a frieza havia voltado, mas era uma fachada fina, escondendo um incêndio.
— Saia daqui. Agora — ordenou Jungkook, empurrando a luva contra o peito de Jimin. — Se eu te encontrar fora do dormitório novamente, eu mesmo entregarei você aos inquisidores.
Jimin pegou a luva, mas não se moveu imediatamente.
— Por que está me deixando ir, Jeon?
Jungkook deu as costas para ele, escondendo o rosto nas sombras.
— Porque eu não sei se estou te salvando ou se estou esperando o momento certo para terminar o que começamos naquela vida.
Jimin saiu da sala, o coração disparado. Ele sabia que nada mais seria o mesmo. O governo queria soldados, queria armas, queria obediência.
Mas Ébano acabara de despertar algo muito mais perigoso que a magia.
Ela despertara a memória. E, como Jimin agora sabia, o amor deles era a única força capaz de queimar aquele mundo de cinzas até o chão.
