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Central Da Morte
Fandom: Central da morte
Criado: 13/07/2026
Tags
DistopiaFicção CientíficaDramaAngústiaDor/ConfortoEstudo de PersonagemNoirFilme de AmigosMorte do Protagonista
O Som de um Disco Arranhado
Às 00h04, o silêncio do quarto de Arlie Beaumont foi estilhaçado pelo toque estridente e impessoal que ninguém no mundo queria ouvir. Ninguém, exceto ele.
Ele estava deitado no chão de madeira, o braço direito jogado sobre os olhos, enquanto a vitrola antiga de seu pai girava um disco de jazz cujas notas pareciam flutuar pesadamente no ar carregado de fumaça. O visor do celular brilhava sobre a mesa de cabeceira, iluminando a poeira que dançava no quarto.
Arlie não hesitou. Ele estendeu a mão, pegou o aparelho e encarou a notificação.
*Central da Morte: Lamentamos informar que, nas próximas vinte e quatro horas, você sofrerá uma morte prematura. Sente-se, relaxe e aproveite o seu Dia Final.*
Um sorriso pálido e quase imperceptível surgiu em seus lábios. Ele não sentiu o coração disparar, nem as mãos tremerem. Pela primeira vez em dezenove anos, o peso no seu peito — aquela âncora invisível que o puxava para o fundo de um oceano escuro — pareceu um pouco mais leve.
Ele se levantou, os movimentos lentos e deliberados de um INTJ que já havia calculado todas as variáveis. Arlie caminhou até a janela. Lá fora, a chuva batia contra o vidro, distorcendo as luzes dos prédios de Nova York. Ele amava a chuva. Era o único momento em que o mundo parecia tão triste quanto ele se sentia por dentro.
Ele acendeu um cigarro, o primeiro do seu último maço. Tragou fundo, sentindo o veneno queimar os pulmões, e soltou a fumaça contra o vidro embaçado.
— Finalmente — sussurrou para o vazio. — Você demorou.
Arlie pegou sua câmera de fotografia de cima da escrivaninha. Ele não tinha intenção de se despedir de ninguém. Seus pais estavam ocupados demais com suas próprias vidas perfeitas, e a faculdade de fotografia era apenas um lugar onde ele ia para se sentir um fantasma entre os vivos. Ele não apagaria as mensagens da Central. Iria relê-las até que seus olhos não pudessem mais focar.
Mas, por um impulso que nem ele mesmo soube explicar, ele abriu o aplicativo *Encontro de Deckers*. Talvez fosse a curiosidade técnica, ou talvez o desejo de ver quem mais estava no mesmo barco furado.
***
A quilômetros dali, em um apartamento pequeno e bagunçado acima de uma cafeteria, Orion Vega estava tendo um ataque de pânico.
O celular ainda vibrava em sua mão, mas ele o segurava como se fosse uma granada prestes a explodir. 00h04. O número da morte.
— Não, não, não... — Orion murmurava, andando de um lado para o outro, tropeçando em pilhas de livros de astronomia e manuais de psicologia. — Eu tenho dezenove anos! Eu nem decidi se quero ser astrônomo ou psicólogo! Eu nem aprendi a fazer um *latte art* decente!
Ele correu até a janela e olhou para o céu. Estava chovendo. Ele odiava chuva; a chuva era silenciosa demais, melancólica demais. Orion precisava de barulho, de gente, de vida. Ele odiava o silêncio porque era no silêncio que os pensamentos ruins o alcançavam.
Ele pegou sua câmera analógica descartável — aquela que ele carregava para todo canto, cheia de fotos de estranhos, de sorrisos de atendentes de mercado e de cachorros de rua — e a apertou contra o peito.
— Eu não vou morrer sozinho — ele declarou para as paredes. — Eu me recuso.
Com os dedos trêmulos, ele abriu o *Encontro de Deckers*. Ele precisava de alguém. Alguém que o ajudasse a enfrentar o abismo. Ele deslizou por dezenas de perfis: pessoas chorando, pessoas querendo saltar de paraquedas, pessoas querendo sexo de despedida.
E então, ele viu a foto de Arlie.
Era uma imagem em preto e branco de um prédio abandonado sob um céu nublado. A descrição era curta: "Apenas esperando o relógio parar. Não me peça para pular de um prédio com você."
Orion sentiu uma faísca de interesse. Aquilo era... diferente. Era o oposto de tudo o que ele sentia. Ele enviou uma mensagem na mesma hora.
***
Arlie ouviu o bipe do celular. Ele esperava uma mensagem automática de conforto do governo, mas era um convite de chat.
*OrionV: Oi. Eu sou o Orion. Eu também recebi a ligação. E eu estou morrendo de medo. Você parece o tipo de pessoa que sabe como ficar calmo. Quer passar o fim do mundo comigo?*
Arlie bufou, soltando a fumaça do cigarro.
— Que garoto irritante — resmungou.
Ele ia ignorar, mas o perfil de Orion tinha uma foto de uma nebulosa tirada de um telescópio e uma descrição que dizia: "Eu falo demais e odeio silêncio. Se você me deixar sozinho, eu vou assombrar seu cadáver."
Arlie deu um sorrisinho cínico. Ele detestava barulho, mas havia algo na honestidade brutal daquele estranho que o intrigou.
— Por que não? — Arlie digitou. — Me encontra na esquina da 42 com a Broadway. Traga um guarda-chuva se não quiser morrer resfriado antes do tempo.
***
Quando Orion chegou ao ponto de encontro, ele estava encharcado. O guarda-chuva que ele pegara estava quebrado em uma das hastes, o que o fazia parecer uma água-viva murcha. Ele olhava para todos os lados, a ansiedade pulsando em suas veias como cafeína pura.
Então ele o viu.
Arlie estava encostado contra a parede de uma loja fechada, protegido por um pequeno recuo do telhado. Ele usava um sobretudo escuro, tinha olheiras profundas e segurava um cigarro entre os lábios. Ele parecia uma pintura de um filme *noir*.
Orion correu até ele, quase tropeçando nos próprios pés.
— Você é o Arlie? — perguntou Orion, ofegante. — Graças a Deus. Eu achei que você ia me dar um bolo e eu ia morrer num beco sendo comido por ratos nova-iorquinos.
Arlie tirou o cigarro da boca e o encarou de cima a baixo.
— Você é muito barulhento — disse Arlie, a voz rouca e fria. — E está todo molhado.
— É o que acontece quando o céu decide chorar no dia da sua execução — rebateu Orion, tentando sorrir, embora seus lábios tremessem. — Eu sou o Orion. Prazer em te conhecer, embora as circunstâncias sejam... bem, fatais.
Arlie deu um passo para fora do abrigo, ignorando a mão estendida de Orion.
— Vamos andar. Eu não quero ficar parado esperando o Ceifador chegar.
— Para onde vamos? — Orion perguntou, seguindo-o como um filhote de cachorro persistente. — Temos uma lista de desejos? Queremos comer o melhor hambúrguer da cidade? Ou talvez invadir o Planetário? Eu sempre quis ver as estrelas de perto sem as luzes da cidade atrapalhando.
— Eu quero fotografar — respondeu Arlie curto e grosso. — O mundo fica mais interessante quando está prestes a desaparecer.
— Isso foi profundo — comentou Orion, tirando sua câmera descartável do bolso. — Eu tiro fotos também. Mas as minhas são de pessoas. Pessoas são mais imprevisíveis que prédios.
— Prédios não te decepcionam — disse Arlie.
Eles caminharam em silêncio por alguns minutos, o que era uma tortura para Orion. Ele olhava para Arlie de soslaio. O garoto era bonito de um jeito sombrio, mas parecia que já estava morto por dentro há muito tempo.
— Por que você não parece triste? — perguntou Orion de repente. — Todo mundo no aplicativo está postando testamentos e vídeos chorando. Você parece que está indo comprar pão.
Arlie parou diante de uma fachada de ferro fundido de um edifício antigo. Ele ergueu sua câmera profissional, ajustou o foco e disparou. O clique do obturador foi o único som entre eles.
— Eu já esperava por isso — disse Arlie, sem olhar para ele. — Viver é cansativo, Orion. A Central da Morte só me deu um prazo de validade oficial. É um alívio não ter que me preocupar com o amanhã.
Orion sentiu um aperto no peito que não tinha nada a ver com o aviso da Central.
— Mas o amanhã é a melhor parte! — exclamou Orion. — É onde moram as possibilidades. Eu nem sei o que eu quero ser! Eu estudo psicologia porque quero entender as pessoas, e astronomia porque quero entender o universo, e trabalho numa cafeteria porque... bem, porque o café é bom. Eu tenho tanta coisa para descobrir.
— E agora você não precisa mais descobrir nada — disse Arlie, voltando a andar. — O mistério acabou.
— Você é muito pessimista — resmungou Orion. — Como você pode gostar de fotografia e não ver a beleza em... sei lá, em tudo?
— Eu vejo a beleza no que é real — Arlie parou e apontou para uma poça de água que refletia os letreiros de neon. — Isso é real. Vai secar em algumas horas. Como nós.
Orion olhou para a poça e depois para Arlie. Ele sentiu uma vontade súbita de sacudir aquele garoto até que ele sentisse algo além de apatia.
— Sabe o que eu acho? — disse Orion, aproximando-se. — Eu acho que você está usando esse niilismo como um escudo. Você finge que não se importa porque assim a morte não pode te tirar nada que você já não tenha jogado fora.
Arlie travou. Ele olhou para Orion, e pela primeira vez, seus olhos INTJ, analíticos e frios, mostraram uma faísca de irritação. Ou talvez fosse reconhecimento.
— Você mal me conhece — disparou Arlie.
— Eu sou bom em ler pessoas — Orion deu de ombros, recuperando um pouco de sua confiança habitual. — É a parte da psicologia. E eu vejo um cara que gosta de música antiga, de chuva e de fotografia, mas que está tentando se convencer de que não vai sentir falta de nada disso.
Arlie ficou em silêncio. O som da chuva parecia aumentar de volume. Ele odiava que aquele estranho hiperativo tivesse acertado um ponto tão sensível em menos de uma hora.
— Quer saber? — Arlie suspirou, jogando a bituca do cigarro na água. — O que você quer fazer, Orion? Já que você tem tanta "vida" para gastar em vinte horas.
Orion abriu um sorriso radiante, o tipo de sorriso que parecia capaz de iluminar toda a ilha de Manhattan.
— Eu quero ir ao topo do Empire State. Eu sei, é clichê de turista, mas eu quero ver a cidade de cima antes de... você sabe. E depois, eu quero que você me mostre o seu lugar favorito. Aquele que você nunca contou para ninguém.
Arlie hesitou. Seu lugar favorito era um telhado no Brooklyn, onde ele passava as noites ouvindo os trens passarem e fumando. Era seu santuário de solidão.
— Por que eu faria isso? — perguntou Arlie.
— Porque eu sou a sua última amizade — disse Orion, inclinando a cabeça para o lado. — E porque, lá no fundo, você não quer passar suas últimas horas sozinho com os seus pensamentos sombrios. Você quer alguém que te distraia do silêncio.
Arlie olhou para a câmera descartável na mão de Orion. Era barata, de plástico, e provavelmente as fotos sairiam granuladas e mal iluminadas. Mas Orion a segurava como se fosse um tesouro.
— Tudo bem — cedeu Arlie. — Mas se você começar a cantar músicas da Disney no elevador, eu te empurro lá de cima e a Central da Morte ganha o dia mais cedo.
Orion soltou uma risada alta e genuína.
— Fechado! Sem Disney. Talvez apenas um pouco de Queen.
Eles começaram a caminhar em direção ao sul. A cidade ao redor deles fervilhava com a tragédia silenciosa de milhares de Deckers vivendo seus últimos momentos, mas ali, entre o garoto que queria morrer e o garoto que se recusava a partir, algo novo estava começando.
— Arlie? — chamou Orion, enquanto atravessavam a rua.
— O quê?
— Obrigado por responder minha mensagem.
Arlie não respondeu de imediato. Ele apenas ajustou a alça da câmera no ombro e sentiu o vento frio da madrugada bater em seu rosto.
— Não me agradeça ainda — disse ele. — O dia mal começou.
Enquanto caminhavam, Orion tirou uma foto de Arlie de perfil, distraído com a paisagem. O flash da câmera analógica brilhou rapidamente, capturando um momento que nunca chegaria a ser revelado em um porta-retratos de família, mas que, naquele instante, era a coisa mais importante do mundo.
Arlie olhou para Orion, vendo-o gesticular freneticamente enquanto falava sobre a distância entre a Terra e Proxima Centauri. Pela primeira vez em anos, Arlie não sentiu vontade de acender um cigarro para preencher o vazio.
Ele apenas observou o brilho nos olhos de Orion e pensou que, talvez, o amanhã não fosse tão ruim assim, se houvesse alguém para falar sobre as estrelas enquanto o mundo acabava.
Mas o relógio não parava. 01h15.
Eles tinham menos de vinte e três horas. E, ironicamente, Arlie começou a desejar que o tempo passasse um pouco mais devagar.
— Ei, Orion — disse Arlie, interrompendo um monólogo sobre o comportamento humano em situações de estresse.
— Sim?
— Me fala mais sobre as estrelas. Aquelas que a gente não consegue ver por causa das nuvens.
Orion sorriu, e por um momento, a chuva não parecia mais tão triste.
— Com prazer, Arlie. Com todo o prazer do mundo.
Eles seguiram em frente, dois pontos minúsculos em uma metrópole indiferente, unidos pela certeza do fim e pela descoberta súbita de que, às vezes, é preciso saber que você vai morrer para finalmente começar a entender o que significa estar vivo.
Ele estava deitado no chão de madeira, o braço direito jogado sobre os olhos, enquanto a vitrola antiga de seu pai girava um disco de jazz cujas notas pareciam flutuar pesadamente no ar carregado de fumaça. O visor do celular brilhava sobre a mesa de cabeceira, iluminando a poeira que dançava no quarto.
Arlie não hesitou. Ele estendeu a mão, pegou o aparelho e encarou a notificação.
*Central da Morte: Lamentamos informar que, nas próximas vinte e quatro horas, você sofrerá uma morte prematura. Sente-se, relaxe e aproveite o seu Dia Final.*
Um sorriso pálido e quase imperceptível surgiu em seus lábios. Ele não sentiu o coração disparar, nem as mãos tremerem. Pela primeira vez em dezenove anos, o peso no seu peito — aquela âncora invisível que o puxava para o fundo de um oceano escuro — pareceu um pouco mais leve.
Ele se levantou, os movimentos lentos e deliberados de um INTJ que já havia calculado todas as variáveis. Arlie caminhou até a janela. Lá fora, a chuva batia contra o vidro, distorcendo as luzes dos prédios de Nova York. Ele amava a chuva. Era o único momento em que o mundo parecia tão triste quanto ele se sentia por dentro.
Ele acendeu um cigarro, o primeiro do seu último maço. Tragou fundo, sentindo o veneno queimar os pulmões, e soltou a fumaça contra o vidro embaçado.
— Finalmente — sussurrou para o vazio. — Você demorou.
Arlie pegou sua câmera de fotografia de cima da escrivaninha. Ele não tinha intenção de se despedir de ninguém. Seus pais estavam ocupados demais com suas próprias vidas perfeitas, e a faculdade de fotografia era apenas um lugar onde ele ia para se sentir um fantasma entre os vivos. Ele não apagaria as mensagens da Central. Iria relê-las até que seus olhos não pudessem mais focar.
Mas, por um impulso que nem ele mesmo soube explicar, ele abriu o aplicativo *Encontro de Deckers*. Talvez fosse a curiosidade técnica, ou talvez o desejo de ver quem mais estava no mesmo barco furado.
***
A quilômetros dali, em um apartamento pequeno e bagunçado acima de uma cafeteria, Orion Vega estava tendo um ataque de pânico.
O celular ainda vibrava em sua mão, mas ele o segurava como se fosse uma granada prestes a explodir. 00h04. O número da morte.
— Não, não, não... — Orion murmurava, andando de um lado para o outro, tropeçando em pilhas de livros de astronomia e manuais de psicologia. — Eu tenho dezenove anos! Eu nem decidi se quero ser astrônomo ou psicólogo! Eu nem aprendi a fazer um *latte art* decente!
Ele correu até a janela e olhou para o céu. Estava chovendo. Ele odiava chuva; a chuva era silenciosa demais, melancólica demais. Orion precisava de barulho, de gente, de vida. Ele odiava o silêncio porque era no silêncio que os pensamentos ruins o alcançavam.
Ele pegou sua câmera analógica descartável — aquela que ele carregava para todo canto, cheia de fotos de estranhos, de sorrisos de atendentes de mercado e de cachorros de rua — e a apertou contra o peito.
— Eu não vou morrer sozinho — ele declarou para as paredes. — Eu me recuso.
Com os dedos trêmulos, ele abriu o *Encontro de Deckers*. Ele precisava de alguém. Alguém que o ajudasse a enfrentar o abismo. Ele deslizou por dezenas de perfis: pessoas chorando, pessoas querendo saltar de paraquedas, pessoas querendo sexo de despedida.
E então, ele viu a foto de Arlie.
Era uma imagem em preto e branco de um prédio abandonado sob um céu nublado. A descrição era curta: "Apenas esperando o relógio parar. Não me peça para pular de um prédio com você."
Orion sentiu uma faísca de interesse. Aquilo era... diferente. Era o oposto de tudo o que ele sentia. Ele enviou uma mensagem na mesma hora.
***
Arlie ouviu o bipe do celular. Ele esperava uma mensagem automática de conforto do governo, mas era um convite de chat.
*OrionV: Oi. Eu sou o Orion. Eu também recebi a ligação. E eu estou morrendo de medo. Você parece o tipo de pessoa que sabe como ficar calmo. Quer passar o fim do mundo comigo?*
Arlie bufou, soltando a fumaça do cigarro.
— Que garoto irritante — resmungou.
Ele ia ignorar, mas o perfil de Orion tinha uma foto de uma nebulosa tirada de um telescópio e uma descrição que dizia: "Eu falo demais e odeio silêncio. Se você me deixar sozinho, eu vou assombrar seu cadáver."
Arlie deu um sorrisinho cínico. Ele detestava barulho, mas havia algo na honestidade brutal daquele estranho que o intrigou.
— Por que não? — Arlie digitou. — Me encontra na esquina da 42 com a Broadway. Traga um guarda-chuva se não quiser morrer resfriado antes do tempo.
***
Quando Orion chegou ao ponto de encontro, ele estava encharcado. O guarda-chuva que ele pegara estava quebrado em uma das hastes, o que o fazia parecer uma água-viva murcha. Ele olhava para todos os lados, a ansiedade pulsando em suas veias como cafeína pura.
Então ele o viu.
Arlie estava encostado contra a parede de uma loja fechada, protegido por um pequeno recuo do telhado. Ele usava um sobretudo escuro, tinha olheiras profundas e segurava um cigarro entre os lábios. Ele parecia uma pintura de um filme *noir*.
Orion correu até ele, quase tropeçando nos próprios pés.
— Você é o Arlie? — perguntou Orion, ofegante. — Graças a Deus. Eu achei que você ia me dar um bolo e eu ia morrer num beco sendo comido por ratos nova-iorquinos.
Arlie tirou o cigarro da boca e o encarou de cima a baixo.
— Você é muito barulhento — disse Arlie, a voz rouca e fria. — E está todo molhado.
— É o que acontece quando o céu decide chorar no dia da sua execução — rebateu Orion, tentando sorrir, embora seus lábios tremessem. — Eu sou o Orion. Prazer em te conhecer, embora as circunstâncias sejam... bem, fatais.
Arlie deu um passo para fora do abrigo, ignorando a mão estendida de Orion.
— Vamos andar. Eu não quero ficar parado esperando o Ceifador chegar.
— Para onde vamos? — Orion perguntou, seguindo-o como um filhote de cachorro persistente. — Temos uma lista de desejos? Queremos comer o melhor hambúrguer da cidade? Ou talvez invadir o Planetário? Eu sempre quis ver as estrelas de perto sem as luzes da cidade atrapalhando.
— Eu quero fotografar — respondeu Arlie curto e grosso. — O mundo fica mais interessante quando está prestes a desaparecer.
— Isso foi profundo — comentou Orion, tirando sua câmera descartável do bolso. — Eu tiro fotos também. Mas as minhas são de pessoas. Pessoas são mais imprevisíveis que prédios.
— Prédios não te decepcionam — disse Arlie.
Eles caminharam em silêncio por alguns minutos, o que era uma tortura para Orion. Ele olhava para Arlie de soslaio. O garoto era bonito de um jeito sombrio, mas parecia que já estava morto por dentro há muito tempo.
— Por que você não parece triste? — perguntou Orion de repente. — Todo mundo no aplicativo está postando testamentos e vídeos chorando. Você parece que está indo comprar pão.
Arlie parou diante de uma fachada de ferro fundido de um edifício antigo. Ele ergueu sua câmera profissional, ajustou o foco e disparou. O clique do obturador foi o único som entre eles.
— Eu já esperava por isso — disse Arlie, sem olhar para ele. — Viver é cansativo, Orion. A Central da Morte só me deu um prazo de validade oficial. É um alívio não ter que me preocupar com o amanhã.
Orion sentiu um aperto no peito que não tinha nada a ver com o aviso da Central.
— Mas o amanhã é a melhor parte! — exclamou Orion. — É onde moram as possibilidades. Eu nem sei o que eu quero ser! Eu estudo psicologia porque quero entender as pessoas, e astronomia porque quero entender o universo, e trabalho numa cafeteria porque... bem, porque o café é bom. Eu tenho tanta coisa para descobrir.
— E agora você não precisa mais descobrir nada — disse Arlie, voltando a andar. — O mistério acabou.
— Você é muito pessimista — resmungou Orion. — Como você pode gostar de fotografia e não ver a beleza em... sei lá, em tudo?
— Eu vejo a beleza no que é real — Arlie parou e apontou para uma poça de água que refletia os letreiros de neon. — Isso é real. Vai secar em algumas horas. Como nós.
Orion olhou para a poça e depois para Arlie. Ele sentiu uma vontade súbita de sacudir aquele garoto até que ele sentisse algo além de apatia.
— Sabe o que eu acho? — disse Orion, aproximando-se. — Eu acho que você está usando esse niilismo como um escudo. Você finge que não se importa porque assim a morte não pode te tirar nada que você já não tenha jogado fora.
Arlie travou. Ele olhou para Orion, e pela primeira vez, seus olhos INTJ, analíticos e frios, mostraram uma faísca de irritação. Ou talvez fosse reconhecimento.
— Você mal me conhece — disparou Arlie.
— Eu sou bom em ler pessoas — Orion deu de ombros, recuperando um pouco de sua confiança habitual. — É a parte da psicologia. E eu vejo um cara que gosta de música antiga, de chuva e de fotografia, mas que está tentando se convencer de que não vai sentir falta de nada disso.
Arlie ficou em silêncio. O som da chuva parecia aumentar de volume. Ele odiava que aquele estranho hiperativo tivesse acertado um ponto tão sensível em menos de uma hora.
— Quer saber? — Arlie suspirou, jogando a bituca do cigarro na água. — O que você quer fazer, Orion? Já que você tem tanta "vida" para gastar em vinte horas.
Orion abriu um sorriso radiante, o tipo de sorriso que parecia capaz de iluminar toda a ilha de Manhattan.
— Eu quero ir ao topo do Empire State. Eu sei, é clichê de turista, mas eu quero ver a cidade de cima antes de... você sabe. E depois, eu quero que você me mostre o seu lugar favorito. Aquele que você nunca contou para ninguém.
Arlie hesitou. Seu lugar favorito era um telhado no Brooklyn, onde ele passava as noites ouvindo os trens passarem e fumando. Era seu santuário de solidão.
— Por que eu faria isso? — perguntou Arlie.
— Porque eu sou a sua última amizade — disse Orion, inclinando a cabeça para o lado. — E porque, lá no fundo, você não quer passar suas últimas horas sozinho com os seus pensamentos sombrios. Você quer alguém que te distraia do silêncio.
Arlie olhou para a câmera descartável na mão de Orion. Era barata, de plástico, e provavelmente as fotos sairiam granuladas e mal iluminadas. Mas Orion a segurava como se fosse um tesouro.
— Tudo bem — cedeu Arlie. — Mas se você começar a cantar músicas da Disney no elevador, eu te empurro lá de cima e a Central da Morte ganha o dia mais cedo.
Orion soltou uma risada alta e genuína.
— Fechado! Sem Disney. Talvez apenas um pouco de Queen.
Eles começaram a caminhar em direção ao sul. A cidade ao redor deles fervilhava com a tragédia silenciosa de milhares de Deckers vivendo seus últimos momentos, mas ali, entre o garoto que queria morrer e o garoto que se recusava a partir, algo novo estava começando.
— Arlie? — chamou Orion, enquanto atravessavam a rua.
— O quê?
— Obrigado por responder minha mensagem.
Arlie não respondeu de imediato. Ele apenas ajustou a alça da câmera no ombro e sentiu o vento frio da madrugada bater em seu rosto.
— Não me agradeça ainda — disse ele. — O dia mal começou.
Enquanto caminhavam, Orion tirou uma foto de Arlie de perfil, distraído com a paisagem. O flash da câmera analógica brilhou rapidamente, capturando um momento que nunca chegaria a ser revelado em um porta-retratos de família, mas que, naquele instante, era a coisa mais importante do mundo.
Arlie olhou para Orion, vendo-o gesticular freneticamente enquanto falava sobre a distância entre a Terra e Proxima Centauri. Pela primeira vez em anos, Arlie não sentiu vontade de acender um cigarro para preencher o vazio.
Ele apenas observou o brilho nos olhos de Orion e pensou que, talvez, o amanhã não fosse tão ruim assim, se houvesse alguém para falar sobre as estrelas enquanto o mundo acabava.
Mas o relógio não parava. 01h15.
Eles tinham menos de vinte e três horas. E, ironicamente, Arlie começou a desejar que o tempo passasse um pouco mais devagar.
— Ei, Orion — disse Arlie, interrompendo um monólogo sobre o comportamento humano em situações de estresse.
— Sim?
— Me fala mais sobre as estrelas. Aquelas que a gente não consegue ver por causa das nuvens.
Orion sorriu, e por um momento, a chuva não parecia mais tão triste.
— Com prazer, Arlie. Com todo o prazer do mundo.
Eles seguiram em frente, dois pontos minúsculos em uma metrópole indiferente, unidos pela certeza do fim e pela descoberta súbita de que, às vezes, é preciso saber que você vai morrer para finalmente começar a entender o que significa estar vivo.
