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Sequestro
Fandom: Magi
Criado: 13/07/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaSuspenseAçãoCrimeCiúmesDor/ConfortoSobrevivênciaViolência Gráfica
Sombras sob o Sol Tropical
A luz que entrava pelas janelas da mansão Torres Garcia naquela manhã de retorno parecia carregar uma promessa de renovação. O ar condicionado mantinha a temperatura amena, contrastando com o calor vibrante do lado de fora, mas dentro do quarto principal, o clima era de uma intimidade suave. Giovanna observou Maya terminar de se arrumar, sentindo uma satisfação que o dinheiro jamais pudera comprar. O império que construíra com punho de ferro agora tinha uma alma, e essa alma atendia pelo nome de Maya.
— Você tem certeza de que não quer que eu te espere para irmos juntas à empresa? — perguntou Giovanna, ajustando o relógio de pulso enquanto observava a esposa pelo reflexo do espelho.
— Absoluta, Gi — respondeu Maya, sorrindo e ajeitando uma mecha de cabelo. — Vá na frente, resolva aquelas reuniões burocráticas que só você sabe dominar. Eu vou revisar os rascunhos dos projetos sociais e chego em duas horas. Quero entrar naquela sala de reuniões com tudo pronto para impressionar a diretoria.
Giovanna caminhou até ela, envolvendo sua cintura e depositando um beijo casto em seu pescoço.
— Você já os impressionou no momento em que aceitou o cargo. Eles só não sabem disso ainda.
Após a partida de Giovanna, o silêncio da mansão foi gradualmente preenchido pelo som dos passos de Maya. Ela se sentia revigorada. A viagem à Suíça não fora apenas um refúgio, mas um renascimento. Ela não era mais a moeda de troca de Soraya; era uma Torres Garcia, com voz, poder e, acima de tudo, amor.
No entanto, nos corredores de serviço, o clima era de tempestade. Lorena, escondida atrás de uma das pilastras do átrio, observava Maya com um ódio que latejava em suas têmporas. O eco dos gemidos que ouvira na noite anterior ainda a torturava. Para Lorena, cada sorriso de Maya era uma afronta, cada gesto de carinho de Giovanna era um roubo de algo que, em sua mente distorcida, pertencia a ela por direito de devoção.
Maya desceu as escadas, carregando sua pasta de couro com os novos projetos. Ao chegar ao pé da escada, deu de cara com Lorena. A governanta parecia diferente; não havia a máscara de servidão habitual, apenas uma rigidez fria.
— Maya — chamou Lorena, a voz desprovida de qualquer calor. — Preciso que venha comigo um instante. Tem uma coisa que a senhora precisa ver antes de ir trabalhar.
Maya franziu a testa, parando o passo. Havia algo errado no tom de Lorena, uma urgência que não condizia com a rotina da casa.
— Agora? E o que seria? — perguntou Maya, estranhando o modo como a mulher se posicionava, bloqueando o acesso à porta principal.
— É surpresa. Por favor — insistiu a governanta, dando um passo à frente.
Antes que Maya pudesse processar o desconforto crescente ou gritar por Dalva, a agilidade de Lorena se provou fatal. Com um movimento ensaiado e brutal, ela avançou, prendendo os braços de Maya com uma força descomunal, fruto de anos de trabalho físico e uma adrenalina movida pelo rancor.
— O que você está fazendo, Lore... — Maya tentou protestar, mas o mundo foi silenciado por um pano embebido em clorofórmio que pressionou seu rosto.
A luta durou poucos segundos. O corpo de Maya relaxou, a pasta caiu no tapete persa e a escuridão a levou.
Lorena ofegava, o coração martelando contra as costelas. Ela arrastou o corpo inerte para um recanto sombrio atrás das cortinas pesadas da galeria lateral. Com as mãos trêmulas, mas decididas, pegou o celular e discou.
— Eles já foram? Ótimo. Venham para a entrada dos fundos. Agora.
Ao desligar, um ruído de passos a fez sobressaltar. Ela se virou bruscamente, encontrando Caio, o ex-segurança que fora demitido por Giovanna meses antes por negligência e comportamento suspeito. Ele estava ali, supostamente para buscar algumas coisas que deixara no alojamento, mas a cena diante dele o deixou paralisado.
— O que é que você fez?! — exclamou ele, a voz falhando em um sussurro chocado, apontando para Maya no chão.
Lorena sentiu o pânico subir pela garganta, mas o transformou em veneno instantaneamente.
— Cala a boca! Não é o que parece... ou melhor, é exatamente o que parece — sibilou ela, aproximando-se dele com os olhos injetados. — Você acha justo ela ter tudo isso? Ela não passa de uma aproveitadora que roubou o lugar de quem realmente merece! Você foi jogado na rua como lixo por causa da arrogância da Giovanna, e agora essa... essa menina vive como rainha?
Caio olhou para Maya, a mulher que sempre o tratara com educação, e depois para Lorena. A mágoa da demissão, a humilhação de ter sido escoltado para fora da propriedade sob o olhar gélido de Giovanna, começou a arder novamente.
— Eu sempre achei estranho... — murmurou ele, a voz tornando-se mais sombria. — Mas Maya não tem culpa. Ela é diferente... nunca fez mal a ninguém. Já aquela Giovanna... ela me humilhou na frente de todos quando me mandou embora. Disse que eu não servia pra nada, que eu era um incompetente descartável.
Lorena viu a faísca de revolta e a aproveitou. Ela segurou o braço de Caio, a voz agora suave e manipuladora.
— Então é a sua chance, Caio. Pense bem. Você sempre olhou para a Maya com outros olhos, eu sei. Você pode ficar com ela. Leve-a para onde quiser, cuide dela, ela é toda sua. Longe do veneno da Giovanna. E eu fico com a Giovanna... do jeito que sempre devia ter sido. Sem interferências. Os homens que chamei chegam em instantes para ajudar no transporte. Leve Maya embora daqui, bem longe, antes que alguém apareça. E você... faça o que quiser com ela, só suma do mapa.
O conflito interno de Caio durou apenas um suspiro. A combinação de desejo reprimido pela patroa e o ódio pela dona do império foi a mistura perfeita para a traição. Ele assentiu, a expressão endurecida.
— Levem ela para o galpão abandonado na beira da estrada — ordenou Caio aos dois capangas que surgiram pela porta lateral. — Eu não posso sair da mansão agora, preciso esperar a confusão passar para não levantar suspeitas. Vão na frente.
Enquanto o carro preto e discreto se afastava pelos fundos da propriedade, Lorena permanecia no corredor. Ela limpou o suor da testa e ajeitou o uniforme. O plano estava em marcha.
Do lado de fora, escondidas entre a folhagem densa que cercava o muro lateral da mansão, duas figuras observavam tudo. Malu e Sarah haviam chegado ao Brasil em segredo. Malu, a irmã que todos acreditavam estar distante ou desinteressada, sentia um pressentimento ruim há dias. Ela queria fazer uma surpresa, revelar a Giovanna que estivera por perto, protegendo-a das sombras, mas o que viram foi um pesadelo.
— O que foi aquilo? — sussurrou Sarah, os olhos arregalados. — Aquela não era a Maya sendo carregada?
— Ela parecia desmaiada — Malu respondeu, o sangue gelando nas veias. — Meu Deus, é um sequestro.
— Será que a Soraya mandou fazer isso? — Sarah perguntou, já pegando o celular para ligar para a polícia.
— Não — Malu segurou a mão da amiga. — Se ligarmos agora, eles podem matá-la no caminho. Veja, aquele é o Caio, o segurança que a Gi demitiu. E aquela mulher na porta... é a governanta. Isso é interno, Sarah. É muito pior.
Malu viu o carro preto ganhar velocidade na estrada de terra que levava à rodovia secundária.
— Vamos seguir eles — ordenou Malu, correndo em direção ao carro alugado que haviam deixado escondido a alguns metros. — Se perdermos esse carro de vista, a Maya morre e a Giovanna nunca mais vai se recuperar.
***
Enquanto isso, na sede da Torres Garcia, Giovanna estava sentada à cabeceira da mesa de carvalho, cercada por executivos de expressão severa. Ela olhava para o relógio a cada cinco minutos. A produtividade da reunião era alta, mas sua mente estava em casa, imaginando o sorriso de Maya ao entrar por aquelas portas.
— Senhora Torres? — chamou um dos diretores. — Sobre a fusão com o grupo asiático...
Giovanna não respondeu de imediato. Um calafrio estranho percorreu sua espinha. Ela sentiu uma súbita falta de ar, uma sensação de vazio que não conseguia explicar.
— Senhora? — insistiu o homem.
— Continuem — disse ela, a voz subitamente rouca. — Preciso de um minuto.
Ela se levantou e foi até a janela, olhando para a cidade lá embaixo. Pegou o celular e discou para Maya. Caixa postal. Discou de novo. Nada. Uma terceira vez, e a ansiedade começou a se transformar em pânico. Maya nunca deixava de atender, especialmente hoje.
Giovanna discou para o número fixo da mansão. Lorena atendeu no segundo toque.
— Residência Torres Garcia, Lorena falando.
— Lorena, onde está a Maya? Ela já saiu para a empresa?
Houve um breve silêncio do outro lado, um silêncio que pareceu uma eternidade.
— Senhora... eu ia ligar agora — a voz de Lorena soava trêmula, uma atuação perfeita. — A Dona Maya... ela saiu com um homem. Um carro preto. Ela parecia... nervosa. Ela nem se despediu. Achei que a senhora soubesse.
O celular de Giovanna quase escorregou de sua mão.
— Que homem, Lorena? Do que você está falando?
— Parecia o Caio, senhora. Aquele segurança. Eles pareciam estar discutindo, mas ela entrou no carro por vontade própria... eu acho.
Giovanna desligou o telefone sem dizer mais nada. Seus olhos, antes calmos, tornaram-se duas pedras de gelo. Ela conhecia Maya. Maya não fugiria com Caio. Maya não fugiria de jeito nenhum.
— A reunião acabou — declarou ela, voltando-se para a sala com uma aura de destruição. — Saiam todos. Agora!
Sozinha na sala, Giovanna sentiu o mundo desmoronar, mas a força que a fizera rainha do mercado financeiro rugiu de volta. Se alguém tocasse em um fio de cabelo de Maya, ela não apenas destruiria o culpado; ela queimaria o mundo inteiro para encontrá-la.
***
No galpão abandonado, o cheiro de mofo e poeira era sufocante. Maya começou a recobrar a consciência, sentindo a cabeça latejar violentamente. Suas mãos estavam presas atrás das costas, e a aspereza da corda cortava seus pulsos.
— Finalmente acordou — disse uma voz masculina.
Maya abriu os olhos com dificuldade. O lugar era escuro, iluminado apenas por feixes de luz que atravessavam os buracos no telhado de zinco. Caio estava parado diante dela, com uma expressão que misturava desejo e loucura.
— Caio? O que... por que você está fazendo isso? — a voz de Maya saiu fraca, mas carregada de decepção.
— Porque eu cansei de ser o lixo da Giovanna — cuspiu ele, agachando-se para ficar na altura dos olhos dela. — E porque você é linda demais para ser desperdiçada com aquela mulher fria. Ela não te ama, Maya. Você é só um troféu para ela mostrar que tem coração. Mas comigo... comigo você vai ser o mundo.
— Você está louco — Maya tentou recuar, mas a cadeira estava fixa. — A Giovanna vai te encontrar. E quando ela encontrar, não vai sobrar nada de você.
Caio riu, um som seco e sem alegria.
— A Lorena vai cuidar para que ela pense que você fugiu. A essa hora, a sua "Gi" está achando que você a abandonou pelo segurança demitido. O orgulho dela não vai deixar que ela te procure.
— Você não conhece a mulher com quem ela se casou — Maya disse, a determinação brilhando em seus olhos apesar do medo. — Ela nunca desiste do que é dela.
Do lado de fora, escondidas atrás de velhos barris de óleo, Malu e Sarah observavam a movimentação. Os dois capangas estavam vigiando a entrada principal, mas havia uma pequena abertura nos fundos, perto de onde Maya estava mantida.
— Temos que agir agora — sussurrou Sarah, o coração disparado.
— Não podemos ir sozinhas contra três — Malu ponderou, mas então viu Caio se aproximar de Maya de forma ameaçadora. — Droga, não temos escolha. Sarah, pegue aquele pedaço de ferro ali. Eu vou distrair os da frente. Quando eu gritar, você entra e solta a Maya.
Malu respirou fundo. Ela sempre fora a irmã "problema", a que fugia das responsabilidades, mas naquele momento, ela era a única esperança da felicidade de Giovanna.
Ela pegou uma pedra pesada e a lançou contra um vidro de janela do outro lado do galpão. O barulho de estilhaços ecoou como um tiro no silêncio do local.
— O que foi isso? — gritou um dos capangas. — Vão lá ver!
Enquanto os homens se afastavam da porta, Malu fez um sinal para Sarah. A tensão era palpável. O destino da família Torres Garcia estava por um fio, e a guerra, que começara em salas de reuniões e chalés na Suíça, agora seria decidida no sangue e na poeira de um galpão esquecido.
Dentro do galpão, Maya fechou os olhos por um segundo, enviando um pensamento silencioso para Giovanna. *Encontre-me, Gi. Por favor, encontre-me.*
A quilômetros dali, Giovanna Torres Garcia entrava em seu carro, acelerando a toda velocidade. Ela não sabia para onde estava indo, mas seu instinto, afiado por anos de sobrevivência, a guiava. Ela podia sentir o medo de Maya, e aquele medo era o combustível que ela precisava para se tornar o pesadelo de seus inimigos. A caçada havia começado.
— Você tem certeza de que não quer que eu te espere para irmos juntas à empresa? — perguntou Giovanna, ajustando o relógio de pulso enquanto observava a esposa pelo reflexo do espelho.
— Absoluta, Gi — respondeu Maya, sorrindo e ajeitando uma mecha de cabelo. — Vá na frente, resolva aquelas reuniões burocráticas que só você sabe dominar. Eu vou revisar os rascunhos dos projetos sociais e chego em duas horas. Quero entrar naquela sala de reuniões com tudo pronto para impressionar a diretoria.
Giovanna caminhou até ela, envolvendo sua cintura e depositando um beijo casto em seu pescoço.
— Você já os impressionou no momento em que aceitou o cargo. Eles só não sabem disso ainda.
Após a partida de Giovanna, o silêncio da mansão foi gradualmente preenchido pelo som dos passos de Maya. Ela se sentia revigorada. A viagem à Suíça não fora apenas um refúgio, mas um renascimento. Ela não era mais a moeda de troca de Soraya; era uma Torres Garcia, com voz, poder e, acima de tudo, amor.
No entanto, nos corredores de serviço, o clima era de tempestade. Lorena, escondida atrás de uma das pilastras do átrio, observava Maya com um ódio que latejava em suas têmporas. O eco dos gemidos que ouvira na noite anterior ainda a torturava. Para Lorena, cada sorriso de Maya era uma afronta, cada gesto de carinho de Giovanna era um roubo de algo que, em sua mente distorcida, pertencia a ela por direito de devoção.
Maya desceu as escadas, carregando sua pasta de couro com os novos projetos. Ao chegar ao pé da escada, deu de cara com Lorena. A governanta parecia diferente; não havia a máscara de servidão habitual, apenas uma rigidez fria.
— Maya — chamou Lorena, a voz desprovida de qualquer calor. — Preciso que venha comigo um instante. Tem uma coisa que a senhora precisa ver antes de ir trabalhar.
Maya franziu a testa, parando o passo. Havia algo errado no tom de Lorena, uma urgência que não condizia com a rotina da casa.
— Agora? E o que seria? — perguntou Maya, estranhando o modo como a mulher se posicionava, bloqueando o acesso à porta principal.
— É surpresa. Por favor — insistiu a governanta, dando um passo à frente.
Antes que Maya pudesse processar o desconforto crescente ou gritar por Dalva, a agilidade de Lorena se provou fatal. Com um movimento ensaiado e brutal, ela avançou, prendendo os braços de Maya com uma força descomunal, fruto de anos de trabalho físico e uma adrenalina movida pelo rancor.
— O que você está fazendo, Lore... — Maya tentou protestar, mas o mundo foi silenciado por um pano embebido em clorofórmio que pressionou seu rosto.
A luta durou poucos segundos. O corpo de Maya relaxou, a pasta caiu no tapete persa e a escuridão a levou.
Lorena ofegava, o coração martelando contra as costelas. Ela arrastou o corpo inerte para um recanto sombrio atrás das cortinas pesadas da galeria lateral. Com as mãos trêmulas, mas decididas, pegou o celular e discou.
— Eles já foram? Ótimo. Venham para a entrada dos fundos. Agora.
Ao desligar, um ruído de passos a fez sobressaltar. Ela se virou bruscamente, encontrando Caio, o ex-segurança que fora demitido por Giovanna meses antes por negligência e comportamento suspeito. Ele estava ali, supostamente para buscar algumas coisas que deixara no alojamento, mas a cena diante dele o deixou paralisado.
— O que é que você fez?! — exclamou ele, a voz falhando em um sussurro chocado, apontando para Maya no chão.
Lorena sentiu o pânico subir pela garganta, mas o transformou em veneno instantaneamente.
— Cala a boca! Não é o que parece... ou melhor, é exatamente o que parece — sibilou ela, aproximando-se dele com os olhos injetados. — Você acha justo ela ter tudo isso? Ela não passa de uma aproveitadora que roubou o lugar de quem realmente merece! Você foi jogado na rua como lixo por causa da arrogância da Giovanna, e agora essa... essa menina vive como rainha?
Caio olhou para Maya, a mulher que sempre o tratara com educação, e depois para Lorena. A mágoa da demissão, a humilhação de ter sido escoltado para fora da propriedade sob o olhar gélido de Giovanna, começou a arder novamente.
— Eu sempre achei estranho... — murmurou ele, a voz tornando-se mais sombria. — Mas Maya não tem culpa. Ela é diferente... nunca fez mal a ninguém. Já aquela Giovanna... ela me humilhou na frente de todos quando me mandou embora. Disse que eu não servia pra nada, que eu era um incompetente descartável.
Lorena viu a faísca de revolta e a aproveitou. Ela segurou o braço de Caio, a voz agora suave e manipuladora.
— Então é a sua chance, Caio. Pense bem. Você sempre olhou para a Maya com outros olhos, eu sei. Você pode ficar com ela. Leve-a para onde quiser, cuide dela, ela é toda sua. Longe do veneno da Giovanna. E eu fico com a Giovanna... do jeito que sempre devia ter sido. Sem interferências. Os homens que chamei chegam em instantes para ajudar no transporte. Leve Maya embora daqui, bem longe, antes que alguém apareça. E você... faça o que quiser com ela, só suma do mapa.
O conflito interno de Caio durou apenas um suspiro. A combinação de desejo reprimido pela patroa e o ódio pela dona do império foi a mistura perfeita para a traição. Ele assentiu, a expressão endurecida.
— Levem ela para o galpão abandonado na beira da estrada — ordenou Caio aos dois capangas que surgiram pela porta lateral. — Eu não posso sair da mansão agora, preciso esperar a confusão passar para não levantar suspeitas. Vão na frente.
Enquanto o carro preto e discreto se afastava pelos fundos da propriedade, Lorena permanecia no corredor. Ela limpou o suor da testa e ajeitou o uniforme. O plano estava em marcha.
Do lado de fora, escondidas entre a folhagem densa que cercava o muro lateral da mansão, duas figuras observavam tudo. Malu e Sarah haviam chegado ao Brasil em segredo. Malu, a irmã que todos acreditavam estar distante ou desinteressada, sentia um pressentimento ruim há dias. Ela queria fazer uma surpresa, revelar a Giovanna que estivera por perto, protegendo-a das sombras, mas o que viram foi um pesadelo.
— O que foi aquilo? — sussurrou Sarah, os olhos arregalados. — Aquela não era a Maya sendo carregada?
— Ela parecia desmaiada — Malu respondeu, o sangue gelando nas veias. — Meu Deus, é um sequestro.
— Será que a Soraya mandou fazer isso? — Sarah perguntou, já pegando o celular para ligar para a polícia.
— Não — Malu segurou a mão da amiga. — Se ligarmos agora, eles podem matá-la no caminho. Veja, aquele é o Caio, o segurança que a Gi demitiu. E aquela mulher na porta... é a governanta. Isso é interno, Sarah. É muito pior.
Malu viu o carro preto ganhar velocidade na estrada de terra que levava à rodovia secundária.
— Vamos seguir eles — ordenou Malu, correndo em direção ao carro alugado que haviam deixado escondido a alguns metros. — Se perdermos esse carro de vista, a Maya morre e a Giovanna nunca mais vai se recuperar.
***
Enquanto isso, na sede da Torres Garcia, Giovanna estava sentada à cabeceira da mesa de carvalho, cercada por executivos de expressão severa. Ela olhava para o relógio a cada cinco minutos. A produtividade da reunião era alta, mas sua mente estava em casa, imaginando o sorriso de Maya ao entrar por aquelas portas.
— Senhora Torres? — chamou um dos diretores. — Sobre a fusão com o grupo asiático...
Giovanna não respondeu de imediato. Um calafrio estranho percorreu sua espinha. Ela sentiu uma súbita falta de ar, uma sensação de vazio que não conseguia explicar.
— Senhora? — insistiu o homem.
— Continuem — disse ela, a voz subitamente rouca. — Preciso de um minuto.
Ela se levantou e foi até a janela, olhando para a cidade lá embaixo. Pegou o celular e discou para Maya. Caixa postal. Discou de novo. Nada. Uma terceira vez, e a ansiedade começou a se transformar em pânico. Maya nunca deixava de atender, especialmente hoje.
Giovanna discou para o número fixo da mansão. Lorena atendeu no segundo toque.
— Residência Torres Garcia, Lorena falando.
— Lorena, onde está a Maya? Ela já saiu para a empresa?
Houve um breve silêncio do outro lado, um silêncio que pareceu uma eternidade.
— Senhora... eu ia ligar agora — a voz de Lorena soava trêmula, uma atuação perfeita. — A Dona Maya... ela saiu com um homem. Um carro preto. Ela parecia... nervosa. Ela nem se despediu. Achei que a senhora soubesse.
O celular de Giovanna quase escorregou de sua mão.
— Que homem, Lorena? Do que você está falando?
— Parecia o Caio, senhora. Aquele segurança. Eles pareciam estar discutindo, mas ela entrou no carro por vontade própria... eu acho.
Giovanna desligou o telefone sem dizer mais nada. Seus olhos, antes calmos, tornaram-se duas pedras de gelo. Ela conhecia Maya. Maya não fugiria com Caio. Maya não fugiria de jeito nenhum.
— A reunião acabou — declarou ela, voltando-se para a sala com uma aura de destruição. — Saiam todos. Agora!
Sozinha na sala, Giovanna sentiu o mundo desmoronar, mas a força que a fizera rainha do mercado financeiro rugiu de volta. Se alguém tocasse em um fio de cabelo de Maya, ela não apenas destruiria o culpado; ela queimaria o mundo inteiro para encontrá-la.
***
No galpão abandonado, o cheiro de mofo e poeira era sufocante. Maya começou a recobrar a consciência, sentindo a cabeça latejar violentamente. Suas mãos estavam presas atrás das costas, e a aspereza da corda cortava seus pulsos.
— Finalmente acordou — disse uma voz masculina.
Maya abriu os olhos com dificuldade. O lugar era escuro, iluminado apenas por feixes de luz que atravessavam os buracos no telhado de zinco. Caio estava parado diante dela, com uma expressão que misturava desejo e loucura.
— Caio? O que... por que você está fazendo isso? — a voz de Maya saiu fraca, mas carregada de decepção.
— Porque eu cansei de ser o lixo da Giovanna — cuspiu ele, agachando-se para ficar na altura dos olhos dela. — E porque você é linda demais para ser desperdiçada com aquela mulher fria. Ela não te ama, Maya. Você é só um troféu para ela mostrar que tem coração. Mas comigo... comigo você vai ser o mundo.
— Você está louco — Maya tentou recuar, mas a cadeira estava fixa. — A Giovanna vai te encontrar. E quando ela encontrar, não vai sobrar nada de você.
Caio riu, um som seco e sem alegria.
— A Lorena vai cuidar para que ela pense que você fugiu. A essa hora, a sua "Gi" está achando que você a abandonou pelo segurança demitido. O orgulho dela não vai deixar que ela te procure.
— Você não conhece a mulher com quem ela se casou — Maya disse, a determinação brilhando em seus olhos apesar do medo. — Ela nunca desiste do que é dela.
Do lado de fora, escondidas atrás de velhos barris de óleo, Malu e Sarah observavam a movimentação. Os dois capangas estavam vigiando a entrada principal, mas havia uma pequena abertura nos fundos, perto de onde Maya estava mantida.
— Temos que agir agora — sussurrou Sarah, o coração disparado.
— Não podemos ir sozinhas contra três — Malu ponderou, mas então viu Caio se aproximar de Maya de forma ameaçadora. — Droga, não temos escolha. Sarah, pegue aquele pedaço de ferro ali. Eu vou distrair os da frente. Quando eu gritar, você entra e solta a Maya.
Malu respirou fundo. Ela sempre fora a irmã "problema", a que fugia das responsabilidades, mas naquele momento, ela era a única esperança da felicidade de Giovanna.
Ela pegou uma pedra pesada e a lançou contra um vidro de janela do outro lado do galpão. O barulho de estilhaços ecoou como um tiro no silêncio do local.
— O que foi isso? — gritou um dos capangas. — Vão lá ver!
Enquanto os homens se afastavam da porta, Malu fez um sinal para Sarah. A tensão era palpável. O destino da família Torres Garcia estava por um fio, e a guerra, que começara em salas de reuniões e chalés na Suíça, agora seria decidida no sangue e na poeira de um galpão esquecido.
Dentro do galpão, Maya fechou os olhos por um segundo, enviando um pensamento silencioso para Giovanna. *Encontre-me, Gi. Por favor, encontre-me.*
A quilômetros dali, Giovanna Torres Garcia entrava em seu carro, acelerando a toda velocidade. Ela não sabia para onde estava indo, mas seu instinto, afiado por anos de sobrevivência, a guiava. Ela podia sentir o medo de Maya, e aquele medo era o combustível que ela precisava para se tornar o pesadelo de seus inimigos. A caçada havia começado.
