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amor e odio

Fandom: bongo stray dogs

Criado: 13/07/2026

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O Paradoxo do Vinho e das Bandagens

A luz do crepúsculo filtrava-se pelas persianas do apartamento de Chuuya, pintando as paredes com tons de laranja e púrpura que lembravam o céu de Yokohama após uma explosão. Era o único momento do dia em que o silêncio parecia ter permissão para existir, mas, como sempre, a paz era um conceito estranho quando envolvia a presença de Osamu Dazai.

Chuuya Nakahara soltou um suspiro pesado, seus dedos apertando o gargalo de uma garrafa de Petrus que custava mais do que o aluguel da maioria das pessoas na cidade. Ele estava sentado no sofá de couro, as pernas cruzadas com elegância, tentando ignorar o peso morto que se apoiava em seus joelhos.

— Dazai, se você não tirar a cabeça do meu colo nos próximos cinco segundos, eu vou testar se a gravidade pode esmagar um crânio oco. — A voz de Chuuya era um rosnado baixo, mas faltava-lhe a verdadeira intenção de ferir.

Dazai, deitado de forma desajeitada ao longo do sofá com as pernas penduradas para fora, apenas sorriu. Seus olhos castanhos brilharam com aquela faísca de travessura que sempre fazia o sangue de Chuuya ferver.

— Mas Chuuyaaa — prolongou ele, a voz arrastada e manhosa —, o sofá é tão duro e suas coxas são surpreendentemente macias para alguém que passa o dia inteiro chutando pessoas através de paredes.

— Eu não chuto as pessoas, eu as executo com estilo — retrucou o ruivo, embora não fizesse menção de se mover.

Dazai esticou uma mão enfaixada, cutucando a bochecha de Chuuya com um dedo indicador.

— Você é tão baixinho que eu quase esqueço que você é um executivo da Máfia do Porto. Às vezes parece só um pinscher raivoso que eu decidi adotar.

— O que você disse, seu desperdício de bandagens?! — Chuuya largou a taça de vinho na mesa de centro com um baque seco, as luvas pretas rangendo enquanto ele fechava o punho.

— Viu só? — Dazai riu, fechando os olhos com satisfação. — O rosnado é idêntico. Só falta começar a morder meus tornozelos.

Chuuya sentiu a veia em sua têmpora pulsar. Ele odiava como Dazai sabia exatamente quais botões apertar, como ele navegava pelas suas inseguranças e irritações como se estivesse lendo um mapa simplificado. Mas, acima de tudo, ele odiava o fato de que, apesar de toda a raiva, não havia outro lugar onde ele preferia estar.

— Você é um idiota insuportável — murmurou Chuuya, relaxando os ombros e voltando a pegar sua taça. — Por que eu ainda deixo você entrar aqui?

— Porque você me ama, Chuuya. — Dazai abriu um olho, a expressão subitamente mais suave, embora o sorriso cínico ainda estivesse lá. — E porque eu sou a única pessoa neste mundo que consegue te manter no chão quando você quer flutuar para longe.

O silêncio caiu sobre eles novamente, mas desta vez era diferente. Era denso, carregado com o peso de anos de parceria, traição e uma reconciliação que nenhum dos dois sabia explicar bem. Eles eram o "Soukoku", o Duplo Preto, uma força da natureza que podia destruir cidades, mas que agora estava apenas tentando decidir o que jantar.

— O vinho está bom? — perguntou Dazai, quebrando o transe.

— É um 89. É claro que está bom. Mas você não saberia a diferença entre isso e suco de uva barato.

— Ofensivo! — Dazai sentou-se bruscamente, ficando cara a cara com o ruivo. A proximidade era perigosa; Chuuya podia sentir o cheiro familiar de desinfetante e do perfume caro que ele mesmo tinha dado ao outro no Natal passado. — Eu tenho um paladar refinado para as coisas boas da vida. Por exemplo, eu sei que você prefere o vinho mais doce quando está estressado, embora finja que gosta dos secos para parecer maduro.

Chuuya desviou o olhar, as pontas das orelhas ficando vermelhas sob o cabelo ruivo bagunçado.

— Cale a boca.

— E eu sei que você usa esse chapéu ridículo porque acha que ele te dá alguns centímetros a mais de altura — continuou Dazai, aproximando-se ainda mais, a voz agora um sussurro perto do ouvido de Chuuya.

— Dazai... se você terminar essa frase, eu juro que te jogo da varanda.

— Mas o que eu mais gosto — Dazai ignorou a ameaça, sua mão subindo para tocar a aba do chapéu de Chuuya, retirando-o com uma lentidão deliberada — é que, sem o chapéu, você parece apenas o meu Chuuya.

O ruivo congelou. Ele odiava quando Dazai ficava sentimental de repente. Era uma armadilha, sempre era. Mas, ao olhar nos olhos castanhos do homem à sua frente, ele não viu a habitual malícia. Viu algo que beirava a vulnerabilidade, algo que Dazai só mostrava a ele, e apenas em doses homeopáticas.

— Você é um sentimentalista barato — disse Chuuya, mas sua voz não tinha força.

Dazai sorriu, um sorriso verdadeiro desta vez, e inclinou a cabeça para a frente, encostando a testa na de Chuuya.

— E você é um mafioso que resgata cachorros de rua e chora no final de filmes de romance.

— Eu não choro! Meus olhos apenas... reagem à poeira.

— Claro, Chuuya. A poeira mágica que só aparece quando o protagonista morre.

Chuuya soltou um riso curto e seco, finalmente cedendo. Ele colocou a taça de lado e envolveu o pescoço de Dazai com os braços, puxando-o para mais perto. O contato físico era a única linguagem em que eles nunca mentiam um para o outro.

— Por que a gente faz isso, Dazai? — perguntou ele, a voz abafada contra o ombro do mais alto. — Por que a gente tenta se matar metade do tempo e na outra metade finge que somos pessoas normais?

Dazai suspirou, seus braços longos circulando a cintura fina de Chuuya, apertando-o com uma possessividade silenciosa.

— Porque a normalidade é um tédio, mas você... você é a única coisa que nunca me entedia. Além disso, quem mais aguentaria suas roupas cafonas?

— Minhas roupas são de alta costura, seu idiota sem gosto! — Chuuya deu um tapa leve na nuca de Dazai, mas não se afastou.

— Viu? — Dazai riu baixo. — A chama continua acesa.

Eles ficaram assim por algum tempo, envoltos na penumbra do apartamento, dois homens quebrados que de alguma forma se encaixavam perfeitamente. Dazai era o caos, a mente brilhante que via o mundo como um tabuleiro de xadrez onde ele já conhecia todos os movimentos. Chuuya era a força, o coração pulsante que sentia tudo com uma intensidade que Dazai invejava secretamente.

— Chuuya? — chamou Dazai, depois de um longo silêncio.

— Hum?

— Estou com fome. Vamos sair para comer caranguejo.

Chuuya se afastou o suficiente para olhar para o rosto de Dazai, uma expressão de incredulidade estampada em seu rosto.

— São nove da noite. Eu acabei de abrir uma garrafa de vinho de dois mil dólares. E você quer comer caranguejo agora?

— Sim! — Dazai levantou-se com uma energia renovada, puxando Chuuya pelas mãos. — E você vai pagar, porque eu deixei minha carteira em algum lugar no fundo do rio Tsurumi hoje cedo.

— Você o quê?! Dazai, aquela era a terceira carteira este mês!

— Detalhes, Chuuya, meros detalhes. Vamos, o ruivo mais forte da Máfia não pode deixar seu namorado morrer de inanição. Seria um escândalo para a sua reputação.

Chuuya resmungou, praguejou contra todos os deuses e contra o dia em que conheceu aquele homem, mas já estava pegando seu casaco e suas chaves. Ele sabia que acabaria pagando pelo jantar, ouvindo as piadas sem graça de Dazai sobre suicídio duplo e, no final da noite, voltariam para aquele mesmo sofá.

— Eu te odeio — disse Chuuya, enquanto trancava a porta do apartamento.

Dazai, já no corredor, começou a cantarolar uma melodia irritante, saltitando levemente.

— Eu sei. É a sua forma preferida de dizer "eu te amo".

Chuuya revirou os olhos, mas um pequeno sorriso escapou pelos cantos de seus lábios. Ele ajeitou o chapéu na cabeça, acelerou o passo para alcançar o homem alto e irritante à sua frente e, por um breve momento, a gravidade não parecia um fardo tão pesado assim.

Caminharam pelas ruas iluminadas de Yokohama, a cidade que ambos protegiam à sua maneira. Dazai gesticulava dramaticamente enquanto contava sobre um novo método de suicídio indolor que envolvia cogumelos alucinógenos, e Chuuya o interrompia a cada dois minutos para chamá-lo de demente.

— Sabe, Chuuya — disse Dazai, de repente parando em frente a um restaurante com luzes de neon —, se a gente morresse agora, eu acho que eu não me importaria tanto.

Chuuya parou ao lado dele, as mãos nos bolsos do casaco. Ele olhou para o perfil de Dazai, as bandagens cobrindo parte de seu rosto sob a luz artificial.

— Não diga idiotices. Você ainda tem que me pagar aquele vinho que derramou no meu tapete semana passada.

Dazai riu, uma risada leve e genuína que raramente chegava aos ouvidos de qualquer outra pessoa.

— Ah, é verdade. Acho que vou ter que viver mais um pouco, então. Pelo menos até a próxima safra.

— É bom mesmo — murmurou Chuuya, empurrando a porta do restaurante. — Agora entra logo e pede esse caranguejo antes que eu mude de ideia e te jogue no porto.

— Você é tão gentil, Chuuya! — Dazai exclamou, entrando e já escolhendo a mesa mais barulhenta possível.

Enquanto observava Dazai importunar o garçom, Chuuya sentiu uma estranha sensação de contentamento. Eles eram um desastre, uma combinação química que deveria resultar em explosão, mas, de alguma forma, no meio do caos e do perigo constante de suas vidas, eles tinham encontrado aquele pequeno espaço de absurdo que chamavam de relacionamento.

E para Chuuya Nakahara, isso era mais do que suficiente.

— Ei, Chuuya! — gritou Dazai do outro lado do salão. — O garçom disse que não aceitam cartões da Máfia, você trouxe dinheiro de verdade?

Chuuya cobriu o rosto com a mão, sentindo a vergonha alheia subir.

— Eu vou te matar, Dazai! Eu juro que vou te matar!

— Tente se for capaz, meu pequeno mafioso! — desafiou Dazai, com um brilho de adoração nos olhos que desmentia toda a sua provocação.

A noite em Yokohama estava apenas começando, e para o Duplo Preto, o espetáculo nunca terminava. Entre insultos, vinhos caros e caranguejos, eles continuavam sua dança eterna, perfeitamente sintonizados no desequilíbrio um do outro.
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