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Fandom: não tem
Criado: 13/07/2026
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RomanceDramaAngústiaEstudo de PersonagemLinguagem ExplícitaCiúmesRealismo
Contrato de Risco e Ódio Puro
**ANORA**
Eu deveria estar acostumada com o caos. Minha vida inteira foi uma sucessão de flashes de câmeras, aeroportos e agentes gritando no meu ouvido em três idiomas diferentes. Mas nada, absolutamente nada, me preparou para a audácia do que eu estava ouvindo agora.
— Repete. — Minha voz saiu baixa, perigosa, aquele tom que geralmente faz os assistentes de fotografia darem um passo para trás. — Repete essa insanidade, Stefan.
Meu agente, um homem que parecia envelhecer dez anos a cada vez que eu abria a boca para um tabloide, suspirou e ajeitou os óculos. Estávamos em uma sala de reuniões fria em Madri, com janelas do chão ao teto que mostravam uma cidade que eu já estava começando a odiar.
— Anora, a briga no backstage com a Miller foi o limite. As marcas de alta costura estão começando a te ver como "instável". Precisamos de um arco de redenção. E o Rafe... bem, o Rafe é o Rafe. O Real Madrid não está feliz com os cartões vermelhos e a fama de brigão de boate dele.
Eu olhei para o outro lado da mesa. E lá estava ele. Rafe Cameron. O motivo de metade das minhas enxaquecas desde que eu tinha doze anos.
Ele estava jogado na cadeira de couro, a postura marrenta de sempre, os braços musculosos cruzados sobre o peito, vestindo uma camisa de linho que provavelmente custava o meu aluguel. Aquele maxilar marcado estava tenso, e os olhos azuis — aqueles olhos que ele usava para hipnotizar juízes e modelos de Victoria's Secret — soltavam faíscas na minha direção.
— Nem fodendo — Rafe sibilou, a voz rouca e carregada de desdém. — Eu prefiro ser banido da La Liga a encostar um dedo nessa psicopata.
— Psicopata? — Eu me inclinei para frente, as unhas cravando na mesa de carvalho. — Você é um brutamontes que não consegue passar noventa minutos sem tentar quebrar a perna de alguém porque feriram seu ego de merda, Rafe. Você é um desastre ambulante!
— E você é uma bomba relógio! — ele rebateu, levantando o tom. — Todo mundo sabe que você é insuportável, Anora. Você reclama de tudo, briga com todo mundo e ainda acha que o mundo gira em torno do seu mau humor russo.
— Pelo menos eu tenho talento, ao contrário de você que só sabe correr atrás de uma bola e de qualquer rabo de saia que apareça no VIP da Pacha! — gritei, sentindo o sangue ferver.
— Chega! — O agente de Rafe, um homem de terno cinza que parecia estar à beira de um colapso nervoso, bateu na mesa. — Seis meses. É tudo o que pedimos. Um namoro de fachada. Fotos em jantares, aparições no camarote do Bernabéu, alguns posts no Instagram. O "bad boy" do futebol encontra a "rebelde" das passarelas e eles se acalmam juntos. É a narrativa perfeita.
— É a narrativa do meu inferno pessoal — murmurei, cruzando os braços e encarando Rafe com todo o ranço que eu cultivei por uma década.
Eu o conhecia desde sempre. Sarah, a irmã dele, era minha melhor amiga. Eu tinha passado verões na casa dos Cameron, e cada um deles tinha sido marcado por uma briga nossa. Rafe era o garoto mimado que quebrava meus brinquedos; eu era a menina que o chutava nas canelas até sangrar. O fato de ele ter crescido e se tornado esse projeto de centroavante de elite, com 1,88m de pura arrogância e um sorriso debochado, só tornava tudo pior.
— Eu não vou assinar isso — Rafe disse, levantando-se abruptamente. A cadeira rangeu contra o chão. — Eu tenho mais o que fazer do que fingir que suporto a Mikheeva.
— Rafe, senta agora — o agente dele ordenou. — Ou o Ward vai ficar sabendo que você recusou a única chance de limpar sua barra com a diretoria do clube antes que eles te coloquem no banco.
O nome do pai dele pairou no ar como uma ameaça física. Vi o maxilar de Rafe travar com tanta força que achei que seus dentes fossem quebrar. A menção a Ward Cameron sempre atingia o ponto fraco.
— Eu odeio todos vocês — Rafe rosnou, saindo da sala sem olhar para trás.
— Ótimo! — gritei para as costas dele. — Aproveita e se joga na frente de um ônibus, Cameron! Vai facilitar a vida de todo mundo!
**RAFE**
Eu queria socar a parede. Não, eu queria socar o mundo.
Saí do prédio da agência sentindo o ar quente de Madri abafar meus pulmões. Entrei no meu carro, um Porsche que era meu único refúgio de paz, e bati as mãos no volante.
Anora Mikheeva. De todas as mulheres do mundo, tinha que ser ela. A garota que parecia ter sido esculpida em gelo e fogo, com aqueles olhos escuros que pareciam ler cada uma das minhas inseguranças e rir delas. Ela era a única pessoa que conseguia me tirar do sério em segundos, a única que não se impressionava com o meu status ou com o meu dinheiro.
Meu celular vibrou no console. Era uma mensagem no grupo que eu tinha com John B, JJ e Pope.
*John B: "Soube da reunião. Boa sorte, cara. Tenta não matar a melhor amiga da minha namorada."*
*JJ: "Se precisar de um álibi pra esconder o corpo, tamo junto. Mas sério, Rafe, a Anora é brava. Cuidado com os dentes."*
Joguei o celular no banco do passageiro. Eles achavam engraçado. Eles não sabiam o que era ter que olhar para o rosto daquela mulher e fingir que ela era algo além de um pesadelo constante.
Na manhã seguinte, eu estava de volta àquela sala maldita. Eu não tinha dormido. A imagem da minha mãe, Amelia, veio à minha mente durante a madrugada. Ela sempre dizia que eu tinha um coração grande demais para o meu próprio bem, e que eu precisava aprender a controlar meu temperamento. Se ela estivesse aqui, provavelmente me diria para ser razoável. Mas ela não estava. E o que restava era o meu pai, cobrando desempenho, cobrando perfeição, cobrando que eu não fosse a decepção que ele sempre insinuava que eu era.
Anora já estava lá. Ela usava um vestido preto simples, o cabelo castanho solto, e parecia tão exausta quanto eu. Mas quando nossos olhos se cruzaram, a eletricidade estática na sala foi quase audível.
— Decidiu parar de fugir, Cameron? — ela perguntou, a voz carregada de veneno.
— Decidi que prefiro te aguentar por seis meses do que dar o gosto ao meu pai de me ver fracassar no Madrid — respondi, sentando-me à frente dela. — Mas vamos deixar uma coisa clara: eu tenho condições.
Eles colocaram o contrato na nossa frente. Anora puxou uma caneta da bolsa como se fosse uma adaga.
— Eu também tenho — ela disse, me encarando. — Primeira regra: nada de sexo. Eu não quero o seu DNA nem no meu raio de dez quilômetros.
Eu soltei uma risada seca e debochada.
— Fica tranquila, Mikheeva. Você não faz o meu tipo. Eu gosto de mulheres que não tentam me castrar a cada cinco minutos.
— Segunda regra — ela continuou, ignorando meu comentário —, você não fala da minha família. Nem do meu pai, nem da Rússia, nada.
— Justo. Desde que você não mencione a minha mãe.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Anora sabia o quanto a perda da minha mãe tinha acabado comigo. Por um breve segundo, vi algo parecido com empatia naqueles olhos intensos, mas ela rapidamente mascarou com sua armadura de arrogância.
— Terceira regra — eu disse, inclinando-me para frente, diminuindo a distância entre nós —, se estivermos em público, você é minha. Ninguém mexe com você, ninguém fala merda de você. Eu sou o camisa 9, eu protejo o que é "meu", mesmo que seja de mentira.
Anora arqueou uma sobrancelha, um brilho perigoso nos olhos.
— E se alguém encostar em você, Rafe... eu mesma acabo com a pessoa. Ninguém tem o direito de te irritar além de mim.
— É um trato, então? — Stefan perguntou, estendendo os papéis.
Nós dois pegamos as canetas ao mesmo tempo. Nossas mãos se roçaram por um breve instante, e eu senti um choque percorrer meu braço. Não era o tipo de choque de ódio. Era algo... diferente. Algo que eu me recusei a identificar.
Assinamos os nomes com força, quase rasgando o papel.
— Seis meses — ela murmurou, levantando-se. — Eu vou contar cada segundo até esse contrato expirar.
— Eu vou contar cada milésimo — rebati, também me levantando.
Ela caminhou até a porta, mas parou e olhou por cima do ombro.
— Ah, Cameron?
— O quê?
— A Sarah e a Kiara querem jantar hoje à noite. O "grupo" todo vai estar lá. Elas acham que a gente deve começar a "treinar" a nossa atuação.
— Ótimo. Mais uma noite no inferno — suspirei.
— Não reclama. Pelo menos você vai estar na presença da melhor modelo da Europa. Tenta não babar muito.
Ela saiu da sala com aquele andar elegante de passarela que me dava vontade de gritar e, ao mesmo tempo, de não parar de olhar.
Eu estava ferrado. Absolutamente ferrado. Porque o problema de odiar alguém com tanta intensidade por tanto tempo é que, às vezes, a linha entre o ódio e a obsessão é fina demais. E eu sempre fui um jogador que gostava de viver no limite.
**ANORA**
Saí do prédio sentindo minhas pernas tremerem levemente. O que eu tinha acabado de fazer? Eu tinha assinado um pacto com o diabo, e o diabo usava chuteiras da Nike e tinha o sorriso mais irritante do planeta.
Entrei no meu carro e liguei para Sarah imediatamente.
— Eu vou te matar — foi a primeira coisa que eu disse quando ela atendeu.
— *Ai meu Deus, vocês assinaram?* — Sarah gritou do outro lado, parecendo animada demais. — *Anora, isso vai ser icônico! O casal mais explosivo do mundo!*
— Não somos um casal, Sarah! É um acordo comercial. Eu odeio o seu irmão. Eu odeio o jeito que ele respira, o jeito que ele acha que é o dono da razão, e aquele perfume dele que gruda na minha roupa só de ele chegar perto...
— *Sei, sei... o ódio é palpável* — Sarah riu. — *Mas escuta, o jantar é às oito lá em casa. O John B vai fazer churrasco. O JJ prometeu não levar fogos de artifício desta vez.*
— Eu vou. Mas se o Rafe me provocar, eu não respondo por mim.
Desliguei o telefone e encostei a cabeça no volante. Eu conseguia sentir o ranço borbulhando dentro de mim. Rafe Cameron era tudo o que eu desprezava: privilegiado, impulsivo, um mulherengo que trocava de namorada como quem trocava de chuteira.
Mas havia algo na forma como ele me olhou quando mencionei as regras... uma vulnerabilidade que ele tentou esconder rápido demais.
Eu passei a vida inteira sendo confrontada, sendo a "modelo difícil". Meu pai nunca estava lá para me defender, e minha mãe estava ocupada demais criticando meu peso ou minha postura. Eu aprendi a ser minha própria muralha. E agora, aquele idiota loiro estava dizendo que ia me "proteger"?
— Patético — sussurrei para mim mesma.
Mas, no fundo, uma parte bem pequena e bem escondida de mim estava curiosa para saber como seria ter Rafe Cameron ao meu lado, em vez de contra mim.
O jantar seria um desastre. Eu tinha certeza disso. E, honestamente? Eu mal podia esperar para começar a briga.
**RAFE**
Cheguei na casa de Sarah e John B um pouco atrasado. Eu sabia que Anora já estaria lá. O carro dela — um conversível vermelho tão chamativo quanto a dona — estava parado na frente.
Respirei fundo, ajeitando a jaqueta. Eu precisava manter a calma. Era um contrato. Eram negócios.
Quando entrei, o som de risadas preenchia o ambiente. JJ e Pope estavam discutindo sobre algum jogo, enquanto Kiara e Cleo ajudavam Sarah na cozinha. E lá estava ela, sentada no balcão, com uma taça de vinho na mão, rindo de algo que o John B disse.
Quando ela me viu, o riso morreu instantaneamente. O olhar dela se tornou afiado, como se estivesse me desafiando a dar um passo em falso.
— Olha só quem chegou — JJ gritou, vindo em minha direção e me dando um tapinha no ombro. — O novo queridinho da Espanha! E aí, já treinou o beijo técnico com a russa ou vai esperar o juiz apitar?
— Cala a boca, Jackson — resmunguei, mas não consegui evitar um meio sorriso. JJ era um idiota, mas era o meu idiota.
Caminhei até o grupo, sentindo o olhar de Anora me seguindo. Parei bem na frente dela. O cheiro dela — algo como baunilha e perigo — me atingiu em cheio.
— Mikheeva — cumprimentei, com a voz neutra.
— Cameron — ela respondeu, erguendo a taça. — Sobreviveu ao treino ou o treinador te mandou pro chuveiro mais cedo de novo?
— Marquei três gols hoje, Anora. Acho que minha pontaria está melhor do que nunca.
— Pena que a sua pontaria pra escolher namoradas seja tão ruim — ela retrucou, sem perder o ritmo.
— Por isso eu escolhi você, não é? — Dei um passo para mais perto, invadindo o espaço pessoal dela. — O contrato diz que temos que ser convincentes.
Vi o momento em que a respiração dela falhou por um milésimo de segundo. Eu estava perto o suficiente para ver as nuances escuras nos olhos dela.
— Então começa a atuar, "amor" — ela disse, a palavra saindo com um sarcasmo tão pesado que quase caiu no chão. — Porque até agora, você só está me dando vontade de vomitar.
— O prazer é todo meu — respondi, pegando a taça da mão dela e tomando um gole do vinho dela, apenas para ver a expressão de indignação no seu rosto.
A noite estava apenas começando. E se aquilo era uma guerra, eu estava pronto para lutar cada centímetro de território. O problema era que, naquela batalha, eu não sabia quem seria o primeiro a se render. E, pela primeira vez na minha carreira, eu não tinha certeza se queria ganhar.
Eu deveria estar acostumada com o caos. Minha vida inteira foi uma sucessão de flashes de câmeras, aeroportos e agentes gritando no meu ouvido em três idiomas diferentes. Mas nada, absolutamente nada, me preparou para a audácia do que eu estava ouvindo agora.
— Repete. — Minha voz saiu baixa, perigosa, aquele tom que geralmente faz os assistentes de fotografia darem um passo para trás. — Repete essa insanidade, Stefan.
Meu agente, um homem que parecia envelhecer dez anos a cada vez que eu abria a boca para um tabloide, suspirou e ajeitou os óculos. Estávamos em uma sala de reuniões fria em Madri, com janelas do chão ao teto que mostravam uma cidade que eu já estava começando a odiar.
— Anora, a briga no backstage com a Miller foi o limite. As marcas de alta costura estão começando a te ver como "instável". Precisamos de um arco de redenção. E o Rafe... bem, o Rafe é o Rafe. O Real Madrid não está feliz com os cartões vermelhos e a fama de brigão de boate dele.
Eu olhei para o outro lado da mesa. E lá estava ele. Rafe Cameron. O motivo de metade das minhas enxaquecas desde que eu tinha doze anos.
Ele estava jogado na cadeira de couro, a postura marrenta de sempre, os braços musculosos cruzados sobre o peito, vestindo uma camisa de linho que provavelmente custava o meu aluguel. Aquele maxilar marcado estava tenso, e os olhos azuis — aqueles olhos que ele usava para hipnotizar juízes e modelos de Victoria's Secret — soltavam faíscas na minha direção.
— Nem fodendo — Rafe sibilou, a voz rouca e carregada de desdém. — Eu prefiro ser banido da La Liga a encostar um dedo nessa psicopata.
— Psicopata? — Eu me inclinei para frente, as unhas cravando na mesa de carvalho. — Você é um brutamontes que não consegue passar noventa minutos sem tentar quebrar a perna de alguém porque feriram seu ego de merda, Rafe. Você é um desastre ambulante!
— E você é uma bomba relógio! — ele rebateu, levantando o tom. — Todo mundo sabe que você é insuportável, Anora. Você reclama de tudo, briga com todo mundo e ainda acha que o mundo gira em torno do seu mau humor russo.
— Pelo menos eu tenho talento, ao contrário de você que só sabe correr atrás de uma bola e de qualquer rabo de saia que apareça no VIP da Pacha! — gritei, sentindo o sangue ferver.
— Chega! — O agente de Rafe, um homem de terno cinza que parecia estar à beira de um colapso nervoso, bateu na mesa. — Seis meses. É tudo o que pedimos. Um namoro de fachada. Fotos em jantares, aparições no camarote do Bernabéu, alguns posts no Instagram. O "bad boy" do futebol encontra a "rebelde" das passarelas e eles se acalmam juntos. É a narrativa perfeita.
— É a narrativa do meu inferno pessoal — murmurei, cruzando os braços e encarando Rafe com todo o ranço que eu cultivei por uma década.
Eu o conhecia desde sempre. Sarah, a irmã dele, era minha melhor amiga. Eu tinha passado verões na casa dos Cameron, e cada um deles tinha sido marcado por uma briga nossa. Rafe era o garoto mimado que quebrava meus brinquedos; eu era a menina que o chutava nas canelas até sangrar. O fato de ele ter crescido e se tornado esse projeto de centroavante de elite, com 1,88m de pura arrogância e um sorriso debochado, só tornava tudo pior.
— Eu não vou assinar isso — Rafe disse, levantando-se abruptamente. A cadeira rangeu contra o chão. — Eu tenho mais o que fazer do que fingir que suporto a Mikheeva.
— Rafe, senta agora — o agente dele ordenou. — Ou o Ward vai ficar sabendo que você recusou a única chance de limpar sua barra com a diretoria do clube antes que eles te coloquem no banco.
O nome do pai dele pairou no ar como uma ameaça física. Vi o maxilar de Rafe travar com tanta força que achei que seus dentes fossem quebrar. A menção a Ward Cameron sempre atingia o ponto fraco.
— Eu odeio todos vocês — Rafe rosnou, saindo da sala sem olhar para trás.
— Ótimo! — gritei para as costas dele. — Aproveita e se joga na frente de um ônibus, Cameron! Vai facilitar a vida de todo mundo!
**RAFE**
Eu queria socar a parede. Não, eu queria socar o mundo.
Saí do prédio da agência sentindo o ar quente de Madri abafar meus pulmões. Entrei no meu carro, um Porsche que era meu único refúgio de paz, e bati as mãos no volante.
Anora Mikheeva. De todas as mulheres do mundo, tinha que ser ela. A garota que parecia ter sido esculpida em gelo e fogo, com aqueles olhos escuros que pareciam ler cada uma das minhas inseguranças e rir delas. Ela era a única pessoa que conseguia me tirar do sério em segundos, a única que não se impressionava com o meu status ou com o meu dinheiro.
Meu celular vibrou no console. Era uma mensagem no grupo que eu tinha com John B, JJ e Pope.
*John B: "Soube da reunião. Boa sorte, cara. Tenta não matar a melhor amiga da minha namorada."*
*JJ: "Se precisar de um álibi pra esconder o corpo, tamo junto. Mas sério, Rafe, a Anora é brava. Cuidado com os dentes."*
Joguei o celular no banco do passageiro. Eles achavam engraçado. Eles não sabiam o que era ter que olhar para o rosto daquela mulher e fingir que ela era algo além de um pesadelo constante.
Na manhã seguinte, eu estava de volta àquela sala maldita. Eu não tinha dormido. A imagem da minha mãe, Amelia, veio à minha mente durante a madrugada. Ela sempre dizia que eu tinha um coração grande demais para o meu próprio bem, e que eu precisava aprender a controlar meu temperamento. Se ela estivesse aqui, provavelmente me diria para ser razoável. Mas ela não estava. E o que restava era o meu pai, cobrando desempenho, cobrando perfeição, cobrando que eu não fosse a decepção que ele sempre insinuava que eu era.
Anora já estava lá. Ela usava um vestido preto simples, o cabelo castanho solto, e parecia tão exausta quanto eu. Mas quando nossos olhos se cruzaram, a eletricidade estática na sala foi quase audível.
— Decidiu parar de fugir, Cameron? — ela perguntou, a voz carregada de veneno.
— Decidi que prefiro te aguentar por seis meses do que dar o gosto ao meu pai de me ver fracassar no Madrid — respondi, sentando-me à frente dela. — Mas vamos deixar uma coisa clara: eu tenho condições.
Eles colocaram o contrato na nossa frente. Anora puxou uma caneta da bolsa como se fosse uma adaga.
— Eu também tenho — ela disse, me encarando. — Primeira regra: nada de sexo. Eu não quero o seu DNA nem no meu raio de dez quilômetros.
Eu soltei uma risada seca e debochada.
— Fica tranquila, Mikheeva. Você não faz o meu tipo. Eu gosto de mulheres que não tentam me castrar a cada cinco minutos.
— Segunda regra — ela continuou, ignorando meu comentário —, você não fala da minha família. Nem do meu pai, nem da Rússia, nada.
— Justo. Desde que você não mencione a minha mãe.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Anora sabia o quanto a perda da minha mãe tinha acabado comigo. Por um breve segundo, vi algo parecido com empatia naqueles olhos intensos, mas ela rapidamente mascarou com sua armadura de arrogância.
— Terceira regra — eu disse, inclinando-me para frente, diminuindo a distância entre nós —, se estivermos em público, você é minha. Ninguém mexe com você, ninguém fala merda de você. Eu sou o camisa 9, eu protejo o que é "meu", mesmo que seja de mentira.
Anora arqueou uma sobrancelha, um brilho perigoso nos olhos.
— E se alguém encostar em você, Rafe... eu mesma acabo com a pessoa. Ninguém tem o direito de te irritar além de mim.
— É um trato, então? — Stefan perguntou, estendendo os papéis.
Nós dois pegamos as canetas ao mesmo tempo. Nossas mãos se roçaram por um breve instante, e eu senti um choque percorrer meu braço. Não era o tipo de choque de ódio. Era algo... diferente. Algo que eu me recusei a identificar.
Assinamos os nomes com força, quase rasgando o papel.
— Seis meses — ela murmurou, levantando-se. — Eu vou contar cada segundo até esse contrato expirar.
— Eu vou contar cada milésimo — rebati, também me levantando.
Ela caminhou até a porta, mas parou e olhou por cima do ombro.
— Ah, Cameron?
— O quê?
— A Sarah e a Kiara querem jantar hoje à noite. O "grupo" todo vai estar lá. Elas acham que a gente deve começar a "treinar" a nossa atuação.
— Ótimo. Mais uma noite no inferno — suspirei.
— Não reclama. Pelo menos você vai estar na presença da melhor modelo da Europa. Tenta não babar muito.
Ela saiu da sala com aquele andar elegante de passarela que me dava vontade de gritar e, ao mesmo tempo, de não parar de olhar.
Eu estava ferrado. Absolutamente ferrado. Porque o problema de odiar alguém com tanta intensidade por tanto tempo é que, às vezes, a linha entre o ódio e a obsessão é fina demais. E eu sempre fui um jogador que gostava de viver no limite.
**ANORA**
Saí do prédio sentindo minhas pernas tremerem levemente. O que eu tinha acabado de fazer? Eu tinha assinado um pacto com o diabo, e o diabo usava chuteiras da Nike e tinha o sorriso mais irritante do planeta.
Entrei no meu carro e liguei para Sarah imediatamente.
— Eu vou te matar — foi a primeira coisa que eu disse quando ela atendeu.
— *Ai meu Deus, vocês assinaram?* — Sarah gritou do outro lado, parecendo animada demais. — *Anora, isso vai ser icônico! O casal mais explosivo do mundo!*
— Não somos um casal, Sarah! É um acordo comercial. Eu odeio o seu irmão. Eu odeio o jeito que ele respira, o jeito que ele acha que é o dono da razão, e aquele perfume dele que gruda na minha roupa só de ele chegar perto...
— *Sei, sei... o ódio é palpável* — Sarah riu. — *Mas escuta, o jantar é às oito lá em casa. O John B vai fazer churrasco. O JJ prometeu não levar fogos de artifício desta vez.*
— Eu vou. Mas se o Rafe me provocar, eu não respondo por mim.
Desliguei o telefone e encostei a cabeça no volante. Eu conseguia sentir o ranço borbulhando dentro de mim. Rafe Cameron era tudo o que eu desprezava: privilegiado, impulsivo, um mulherengo que trocava de namorada como quem trocava de chuteira.
Mas havia algo na forma como ele me olhou quando mencionei as regras... uma vulnerabilidade que ele tentou esconder rápido demais.
Eu passei a vida inteira sendo confrontada, sendo a "modelo difícil". Meu pai nunca estava lá para me defender, e minha mãe estava ocupada demais criticando meu peso ou minha postura. Eu aprendi a ser minha própria muralha. E agora, aquele idiota loiro estava dizendo que ia me "proteger"?
— Patético — sussurrei para mim mesma.
Mas, no fundo, uma parte bem pequena e bem escondida de mim estava curiosa para saber como seria ter Rafe Cameron ao meu lado, em vez de contra mim.
O jantar seria um desastre. Eu tinha certeza disso. E, honestamente? Eu mal podia esperar para começar a briga.
**RAFE**
Cheguei na casa de Sarah e John B um pouco atrasado. Eu sabia que Anora já estaria lá. O carro dela — um conversível vermelho tão chamativo quanto a dona — estava parado na frente.
Respirei fundo, ajeitando a jaqueta. Eu precisava manter a calma. Era um contrato. Eram negócios.
Quando entrei, o som de risadas preenchia o ambiente. JJ e Pope estavam discutindo sobre algum jogo, enquanto Kiara e Cleo ajudavam Sarah na cozinha. E lá estava ela, sentada no balcão, com uma taça de vinho na mão, rindo de algo que o John B disse.
Quando ela me viu, o riso morreu instantaneamente. O olhar dela se tornou afiado, como se estivesse me desafiando a dar um passo em falso.
— Olha só quem chegou — JJ gritou, vindo em minha direção e me dando um tapinha no ombro. — O novo queridinho da Espanha! E aí, já treinou o beijo técnico com a russa ou vai esperar o juiz apitar?
— Cala a boca, Jackson — resmunguei, mas não consegui evitar um meio sorriso. JJ era um idiota, mas era o meu idiota.
Caminhei até o grupo, sentindo o olhar de Anora me seguindo. Parei bem na frente dela. O cheiro dela — algo como baunilha e perigo — me atingiu em cheio.
— Mikheeva — cumprimentei, com a voz neutra.
— Cameron — ela respondeu, erguendo a taça. — Sobreviveu ao treino ou o treinador te mandou pro chuveiro mais cedo de novo?
— Marquei três gols hoje, Anora. Acho que minha pontaria está melhor do que nunca.
— Pena que a sua pontaria pra escolher namoradas seja tão ruim — ela retrucou, sem perder o ritmo.
— Por isso eu escolhi você, não é? — Dei um passo para mais perto, invadindo o espaço pessoal dela. — O contrato diz que temos que ser convincentes.
Vi o momento em que a respiração dela falhou por um milésimo de segundo. Eu estava perto o suficiente para ver as nuances escuras nos olhos dela.
— Então começa a atuar, "amor" — ela disse, a palavra saindo com um sarcasmo tão pesado que quase caiu no chão. — Porque até agora, você só está me dando vontade de vomitar.
— O prazer é todo meu — respondi, pegando a taça da mão dela e tomando um gole do vinho dela, apenas para ver a expressão de indignação no seu rosto.
A noite estava apenas começando. E se aquilo era uma guerra, eu estava pronto para lutar cada centímetro de território. O problema era que, naquela batalha, eu não sabia quem seria o primeiro a se render. E, pela primeira vez na minha carreira, eu não tinha certeza se queria ganhar.
