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Amor e odio
Fandom: Bongo stray dogs
Criado: 13/07/2026
Tags
RomanceDramaPWP (Enredo? Que enredo?)História DomésticaEstudo de PersonagemCenário CanônicoLinguagem ExplícitaDor/ConfortoFofuraHumorAçãoCrimeFatias de Vida
Entre Vinhos Caros e Curativos Mal Colocados
O crepúsculo em Yokohama sempre trazia uma coloração que lembrava Chuuya Nakahara de duas coisas: o brilho de um bom vinho tinto e a irritante tonalidade de um certo suicida maníaco que insistia em ocupar seu sofá. A luz alaranjada filtrava-se pelas janelas amplas do apartamento de luxo, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar e a figura esguia deitada de qualquer jeito sobre o couro legítimo.
Dazai Osamu estava em sua glória. Ele segurava um dos chapéus favoritos de Chuuya, equilibrando-o precariamente na ponta do pé enquanto balançava a perna.
— Sabe, Chuuya — começou Dazai, sua voz arrastada carregando aquele tom de falsa inocência que fazia os músculos do pescoço de Nakahara saltarem —, eu estava pensando que este chapéu ficaria muito melhor em um cachorro de rua. Ele tem esse ar... rústico. Quase combina com a sua altura.
Chuuya, que acabara de entrar na sala após um longo dia resolvendo problemas burocráticos e violentos da Máfia do Porto, parou abruptamente. Ele respirou fundo, contando até dez. Ou tentando. No cinco, ele já estava rosnando.
— Tira o seu pé imundo do meu chapéu, Dazai! — Chuuya avançou, a gravidade ao seu redor parecendo oscilar levemente de acordo com seu humor. — E como diabos você entrou aqui de novo? Eu troquei as fechaduras na terça-feira!
Dazai deu um sorriso radiante, aquele que ele reservava especificamente para quando sabia que tinha vencido uma discussão antes mesmo dela começar.
— Chuuya, meu pequeno e ingênuo parceiro... — Ele chutou o chapéu para o alto, pegando-o com as mãos e colocando-o sobre o próprio peito. — Uma fechadura é apenas um convite para quem sabe ler as entrelinhas. Além disso, estava chovendo lá fora. Você não deixaria seu namorado querido pegar um resfriado e morrer de uma forma tão pouco glamourosa, deixaria?
— Eu mesmo te mataria, o que seria muito mais gratificante — rebateu Chuuya, arrancando o chapéu das mãos de Dazai e inspecionando-o em busca de qualquer mancha invisível.
Ele jogou o casaco sobre a poltrona e caminhou até a adega. Precisava de álcool. Muito álcool. Lidar com Dazai no trabalho já era um teste de resistência divina; lidar com ele no âmbito doméstico era uma forma de ascetismo que Chuuya ainda não tinha certeza se queria dominar.
— Você está sendo agressivo demais, Chuu-ya — cantarolou Dazai, sentando-se e observando o ruivo com olhos atentos por trás da franja castanha. — Deve ser a falta de cálcio. Se você bebesse mais leite, talvez crescesse mais uns dois centímetros e parasse de tentar morder as canelas de todo mundo.
Chuuya serviu-se de uma taça de Petrus, o líquido escuro e denso brilhando sob a luz baixa. Ele tomou um gole, sentindo o sabor complexo acalmar seus nervos, antes de se virar para o homem no sofá.
— Eu tenho vinte e dois anos, Dazai. Eu não vou mais crescer. E eu não mordo canelas, eu quebro costelas. Há uma diferença técnica.
Dazai soltou uma risada baixa, um som que, apesar de tudo, sempre desarmava Chuuya de uma maneira que ele odiava admitir. O ex-executivo da Máfia levantou-se, caminhando com aquela elegância desleixada que lhe era peculiar. Ele parou a poucos centímetros de Chuuya, invadindo seu espaço pessoal com a naturalidade de quem era dono do lugar.
— De fato — murmurou Dazai, sua voz agora mais baixa, perdendo um pouco do tom de deboche. — Suas costelas estão intactas hoje? Ouvi dizer que o conflito no porto foi... barulhento.
Chuuya desviou o olhar, focando na taça em sua mão.
— Foram apenas alguns ratos tentando roer o que não deviam. Nada que eu não pudesse resolver.
— Mentiroso — disse Dazai, esticando a mão para tocar o ombro de Chuuya. — Você está mancando um milímetro para a esquerda. E seu pulso está enfaixado embaixo dessa luva.
Chuuya bufou, mas não se afastou.
— E você? O que a Agência de Detetives Armados anda fazendo? Além de deixar você vagabundear na casa dos outros?
— Oh, o trabalho é terrivelmente tedioso — suspirou Dazai, dramatizando ao encostar a mão na testa. — Kunikida me fez preencher relatórios o dia todo. Ele é tão cruel, Chuuya! Ele não entende a alma de um artista.
— Você não é um artista, você é um peso morto — retrucou o ruivo, embora houvesse um traço de diversão em seus olhos azuis.
— Sou um artista da manipulação, isso conta? — Dazai sorriu, deslizando a mão do ombro de Chuuya para a nuca dele, os dedos longos brincando com os fios ruivos que escapavam do penteado. — Agora, deixe de ser teimoso e me mostre o ferimento.
— Não é nada, Dazai.
— Se você não me mostrar, eu vou assumir que é algo terrível e vou começar a chorar dramaticamente até os vizinhos chamarem a polícia — ameaçou Dazai, com um brilho malicioso no olhar.
Chuuya revirou os olhos tão forte que sentiu uma pontada na têmpora. Ele sabia que Dazai era perfeitamente capaz de cumprir a ameaça. Com um suspiro de derrota, ele pousou a taça na mesa de centro e começou a desabotoar o colete, seguido pela camisa social.
Por baixo das roupas caras, o corpo de Chuuya era um mapa de batalhas. Cicatrizes antigas e novas contavam a história de um homem que era, essencialmente, uma arma humana. No lado direito de suas costelas, um hematoma roxo-azulado já começava a florescer.
Dazai franziu o cenho, o humor ácido desaparecendo por um instante. Ele estendeu a mão, tocando a pele quente de Chuuya com uma delicadeza que poucos acreditariam que ele possuía.
— Isso parece ter doído — comentou Dazai, seus dedos traçando a borda da contusão.
— Foi um golpe de sorte de um subordinado com uma habilidade irritante de endurecimento — explicou Chuuya, sentindo um arrepio percorrer sua espinha com o toque de Dazai. — Ele está morto agora.
— Que desperdício de energia — disse Dazai, mas não havia deboche em sua voz.
Ele se afastou por um momento, indo até o banheiro e voltando com uma caixa de primeiros socorros que ele sabia exatamente onde estava guardada. Ele forçou Chuuya a se sentar no sofá e ajoelhou-se entre as pernas do ruivo.
— O que você está fazendo? — perguntou Chuuya, tentando manter a voz firme apesar da proximidade.
— Cuidando do meu cachorro, é claro — respondeu Dazai, voltando ao tom provocador enquanto abria um tubo de pomada para hematomas. — Se você quebrar, quem vai me carregar quando eu estiver com preguiça de andar?
— Eu vou te chutar da próxima vez que você pedir — resmungou Chuuya, mas ele relaxou, permitindo que Dazai espalhasse a pomada fria sobre sua pele.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era o tipo de silêncio que só existia entre duas pessoas que conheciam os segredos mais sombrios uma da outra. Eles eram "Soukoku", a Dupla Negra, uma força da natureza quando juntos, e uma confusão emocional constante quando sozinhos.
Dazai terminou de aplicar a pomada e, em vez de se levantar, apoiou os braços nos joelhos de Chuuya, olhando para cima.
— Sabe, Chuuya... às vezes eu me pergunto como você ainda me aguenta.
Chuuya olhou para ele, vendo através da máscara de palhaço que Dazai usava para o mundo. Ele viu o homem que carregava o peso de um vazio que nada parecia preencher, exceto, talvez, por aqueles momentos de caos compartilhado.
— Porque eu sou um idiota — respondeu Chuuya suavemente, levando a mão ao rosto de Dazai e empurrando uma mecha de cabelo para trás. — E porque ninguém mais seria louco o suficiente para lidar com você.
Dazai sorriu, mas desta vez o sorriso não chegou aos olhos de forma maníaca; foi algo pequeno e genuíno.
— Você tem razão. Você é um idiota completo.
— Cala a boca — disse Chuuya, puxando Dazai pelo colarinho da camisa bege.
O beijo foi como tudo entre eles: uma mistura de agressividade e necessidade. Tinha gosto de vinho caro e do café barato que Dazai bebia na Agência. Chuuya apertou os ombros de Dazai, sentindo a estrutura magra, mas firme, sob as bandagens. Dazai retribuiu com urgência, suas mãos subindo para o rosto de Chuuya, segurando-o como se ele fosse a única coisa sólida em um mundo de sombras.
Quando se separaram, ambos estavam levemente ofegantes. Dazai encostou a testa na de Chuuya, fechando os olhos.
— Chuuya?
— O que foi agora?
— Você ainda está baixinho.
O momento de ternura evaporou instantaneamente. Chuuya empurrou Dazai para trás, fazendo-o cair sentado no tapete caro.
— Sai da minha frente! — gritou Chuuya, o rosto vermelho de raiva. — Eu vou te jogar pela janela!
Dazai começou a rir, uma risada alta e clara que ecoou pelo apartamento luxuoso.
— Tente, Chuuya! Mas lembre-se, se eu cair, você vai ter que descer todos esses degraus para ver se eu finalmente consegui meu desejo suicida. E suas pernas curtas vão ficar cansadas!
— Eu vou te matar! — Chuuya saltou do sofá, a aura vermelha de sua habilidade brilhando intensamente.
Dazai levantou-se rapidamente, correndo em direção à cozinha enquanto Chuuya o perseguia, derrubando uma almofada no caminho.
— Oh, que medo! O pequeno mafioso está zangado! — Dazai parou atrás da bancada da cozinha, usando-a como escudo.
— Eu não sou pequeno! — Chuuya socou a bancada, fazendo a estrutura de mármore vibrar. — Eu sou o melhor lutador da Máfia, e você é apenas um desperdício de bandagens!
— Um desperdício de bandagens que você acabou de beijar — lembrou Dazai, piscando um olho.
Chuuya congelou, o punho ainda contra o mármore. Ele bufou, a aura vermelha diminuindo até desaparecer. Ele passou a mão pelo cabelo, tentando recuperar a compostura, embora seu coração ainda batesse rápido.
— Você é impossível.
— E você me ama por isso — disse Dazai, contornando a bancada e aproximando-se novamente, desta vez sem a intenção de provocar um ataque físico.
Ele envolveu a cintura de Chuuya com os braços, puxando-o para um abraço desajeitado devido à diferença de altura. Chuuya resistiu por dois segundos antes de relaxar e descansar a cabeça no peito de Dazai, ouvindo o batimento cardíaco rítmico do outro. Era a única prova de que Dazai era realmente humano, e não algum tipo de espectro cínico.
— Eu odeio você — murmurou Chuuya contra o tecido da camisa de Dazai.
— Eu sei — respondeu Dazai, beijando o topo da cabeça ruiva. — Eu também odeio você, Chuuya.
Eles ficaram ali por um longo tempo, enquanto a noite caía sobre Yokohama. As luzes da cidade começavam a brilhar lá fora, refletindo-se no porto onde ambos haviam deixado tanto de si mesmos. Ali, naquele apartamento, longe das conspirações da Máfia e das missões da Agência, eles eram apenas dois homens de vinte e dois anos tentando encontrar algum sentido no caos.
— Chuuya? — chamou Dazai depois de um tempo.
— Hum?
— O que tem para o jantar? Eu estou com fome e o estoque de caranguejo da Agência acabou.
Chuuya se afastou, olhando para Dazai com uma expressão de descrença.
— Você invade minha casa, insulta minha altura, mexe nos meus chapéus e ainda espera que eu te alimente?
— Bem... — Dazai deu de ombros, com um sorriso esperançoso. — Você cozinha muito melhor que o Kunikida. Ele só faz coisas que seguem o "ideal", e o ideal dele é terrivelmente sem sal.
Chuuya suspirou, caminhando em direção à geladeira.
— Eu vou fazer um risoto. Mas se você fizer mais uma piada sobre a minha altura, eu vou colocar veneno de rato no seu prato.
— Promessa? — perguntou Dazai, os olhos brilhando. — Que forma romântica de partir!
— Dazai, cala a boca e pega o vinho.
— Sim, senhor, meu pequeno capitão!
Chuuya pegou uma colher de pau e a arremessou com precisão cirúrgica na direção da cabeça de Dazai. O castanho desviou por milímetros, rindo enquanto corria para pegar a garrafa de vinho.
Era uma noite normal em Yokohama. E, para Chuuya Nakahara, apesar de todo o barulho e das irritações constantes, era exatamente como deveria ser.
Dazai Osamu estava em sua glória. Ele segurava um dos chapéus favoritos de Chuuya, equilibrando-o precariamente na ponta do pé enquanto balançava a perna.
— Sabe, Chuuya — começou Dazai, sua voz arrastada carregando aquele tom de falsa inocência que fazia os músculos do pescoço de Nakahara saltarem —, eu estava pensando que este chapéu ficaria muito melhor em um cachorro de rua. Ele tem esse ar... rústico. Quase combina com a sua altura.
Chuuya, que acabara de entrar na sala após um longo dia resolvendo problemas burocráticos e violentos da Máfia do Porto, parou abruptamente. Ele respirou fundo, contando até dez. Ou tentando. No cinco, ele já estava rosnando.
— Tira o seu pé imundo do meu chapéu, Dazai! — Chuuya avançou, a gravidade ao seu redor parecendo oscilar levemente de acordo com seu humor. — E como diabos você entrou aqui de novo? Eu troquei as fechaduras na terça-feira!
Dazai deu um sorriso radiante, aquele que ele reservava especificamente para quando sabia que tinha vencido uma discussão antes mesmo dela começar.
— Chuuya, meu pequeno e ingênuo parceiro... — Ele chutou o chapéu para o alto, pegando-o com as mãos e colocando-o sobre o próprio peito. — Uma fechadura é apenas um convite para quem sabe ler as entrelinhas. Além disso, estava chovendo lá fora. Você não deixaria seu namorado querido pegar um resfriado e morrer de uma forma tão pouco glamourosa, deixaria?
— Eu mesmo te mataria, o que seria muito mais gratificante — rebateu Chuuya, arrancando o chapéu das mãos de Dazai e inspecionando-o em busca de qualquer mancha invisível.
Ele jogou o casaco sobre a poltrona e caminhou até a adega. Precisava de álcool. Muito álcool. Lidar com Dazai no trabalho já era um teste de resistência divina; lidar com ele no âmbito doméstico era uma forma de ascetismo que Chuuya ainda não tinha certeza se queria dominar.
— Você está sendo agressivo demais, Chuu-ya — cantarolou Dazai, sentando-se e observando o ruivo com olhos atentos por trás da franja castanha. — Deve ser a falta de cálcio. Se você bebesse mais leite, talvez crescesse mais uns dois centímetros e parasse de tentar morder as canelas de todo mundo.
Chuuya serviu-se de uma taça de Petrus, o líquido escuro e denso brilhando sob a luz baixa. Ele tomou um gole, sentindo o sabor complexo acalmar seus nervos, antes de se virar para o homem no sofá.
— Eu tenho vinte e dois anos, Dazai. Eu não vou mais crescer. E eu não mordo canelas, eu quebro costelas. Há uma diferença técnica.
Dazai soltou uma risada baixa, um som que, apesar de tudo, sempre desarmava Chuuya de uma maneira que ele odiava admitir. O ex-executivo da Máfia levantou-se, caminhando com aquela elegância desleixada que lhe era peculiar. Ele parou a poucos centímetros de Chuuya, invadindo seu espaço pessoal com a naturalidade de quem era dono do lugar.
— De fato — murmurou Dazai, sua voz agora mais baixa, perdendo um pouco do tom de deboche. — Suas costelas estão intactas hoje? Ouvi dizer que o conflito no porto foi... barulhento.
Chuuya desviou o olhar, focando na taça em sua mão.
— Foram apenas alguns ratos tentando roer o que não deviam. Nada que eu não pudesse resolver.
— Mentiroso — disse Dazai, esticando a mão para tocar o ombro de Chuuya. — Você está mancando um milímetro para a esquerda. E seu pulso está enfaixado embaixo dessa luva.
Chuuya bufou, mas não se afastou.
— E você? O que a Agência de Detetives Armados anda fazendo? Além de deixar você vagabundear na casa dos outros?
— Oh, o trabalho é terrivelmente tedioso — suspirou Dazai, dramatizando ao encostar a mão na testa. — Kunikida me fez preencher relatórios o dia todo. Ele é tão cruel, Chuuya! Ele não entende a alma de um artista.
— Você não é um artista, você é um peso morto — retrucou o ruivo, embora houvesse um traço de diversão em seus olhos azuis.
— Sou um artista da manipulação, isso conta? — Dazai sorriu, deslizando a mão do ombro de Chuuya para a nuca dele, os dedos longos brincando com os fios ruivos que escapavam do penteado. — Agora, deixe de ser teimoso e me mostre o ferimento.
— Não é nada, Dazai.
— Se você não me mostrar, eu vou assumir que é algo terrível e vou começar a chorar dramaticamente até os vizinhos chamarem a polícia — ameaçou Dazai, com um brilho malicioso no olhar.
Chuuya revirou os olhos tão forte que sentiu uma pontada na têmpora. Ele sabia que Dazai era perfeitamente capaz de cumprir a ameaça. Com um suspiro de derrota, ele pousou a taça na mesa de centro e começou a desabotoar o colete, seguido pela camisa social.
Por baixo das roupas caras, o corpo de Chuuya era um mapa de batalhas. Cicatrizes antigas e novas contavam a história de um homem que era, essencialmente, uma arma humana. No lado direito de suas costelas, um hematoma roxo-azulado já começava a florescer.
Dazai franziu o cenho, o humor ácido desaparecendo por um instante. Ele estendeu a mão, tocando a pele quente de Chuuya com uma delicadeza que poucos acreditariam que ele possuía.
— Isso parece ter doído — comentou Dazai, seus dedos traçando a borda da contusão.
— Foi um golpe de sorte de um subordinado com uma habilidade irritante de endurecimento — explicou Chuuya, sentindo um arrepio percorrer sua espinha com o toque de Dazai. — Ele está morto agora.
— Que desperdício de energia — disse Dazai, mas não havia deboche em sua voz.
Ele se afastou por um momento, indo até o banheiro e voltando com uma caixa de primeiros socorros que ele sabia exatamente onde estava guardada. Ele forçou Chuuya a se sentar no sofá e ajoelhou-se entre as pernas do ruivo.
— O que você está fazendo? — perguntou Chuuya, tentando manter a voz firme apesar da proximidade.
— Cuidando do meu cachorro, é claro — respondeu Dazai, voltando ao tom provocador enquanto abria um tubo de pomada para hematomas. — Se você quebrar, quem vai me carregar quando eu estiver com preguiça de andar?
— Eu vou te chutar da próxima vez que você pedir — resmungou Chuuya, mas ele relaxou, permitindo que Dazai espalhasse a pomada fria sobre sua pele.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era o tipo de silêncio que só existia entre duas pessoas que conheciam os segredos mais sombrios uma da outra. Eles eram "Soukoku", a Dupla Negra, uma força da natureza quando juntos, e uma confusão emocional constante quando sozinhos.
Dazai terminou de aplicar a pomada e, em vez de se levantar, apoiou os braços nos joelhos de Chuuya, olhando para cima.
— Sabe, Chuuya... às vezes eu me pergunto como você ainda me aguenta.
Chuuya olhou para ele, vendo através da máscara de palhaço que Dazai usava para o mundo. Ele viu o homem que carregava o peso de um vazio que nada parecia preencher, exceto, talvez, por aqueles momentos de caos compartilhado.
— Porque eu sou um idiota — respondeu Chuuya suavemente, levando a mão ao rosto de Dazai e empurrando uma mecha de cabelo para trás. — E porque ninguém mais seria louco o suficiente para lidar com você.
Dazai sorriu, mas desta vez o sorriso não chegou aos olhos de forma maníaca; foi algo pequeno e genuíno.
— Você tem razão. Você é um idiota completo.
— Cala a boca — disse Chuuya, puxando Dazai pelo colarinho da camisa bege.
O beijo foi como tudo entre eles: uma mistura de agressividade e necessidade. Tinha gosto de vinho caro e do café barato que Dazai bebia na Agência. Chuuya apertou os ombros de Dazai, sentindo a estrutura magra, mas firme, sob as bandagens. Dazai retribuiu com urgência, suas mãos subindo para o rosto de Chuuya, segurando-o como se ele fosse a única coisa sólida em um mundo de sombras.
Quando se separaram, ambos estavam levemente ofegantes. Dazai encostou a testa na de Chuuya, fechando os olhos.
— Chuuya?
— O que foi agora?
— Você ainda está baixinho.
O momento de ternura evaporou instantaneamente. Chuuya empurrou Dazai para trás, fazendo-o cair sentado no tapete caro.
— Sai da minha frente! — gritou Chuuya, o rosto vermelho de raiva. — Eu vou te jogar pela janela!
Dazai começou a rir, uma risada alta e clara que ecoou pelo apartamento luxuoso.
— Tente, Chuuya! Mas lembre-se, se eu cair, você vai ter que descer todos esses degraus para ver se eu finalmente consegui meu desejo suicida. E suas pernas curtas vão ficar cansadas!
— Eu vou te matar! — Chuuya saltou do sofá, a aura vermelha de sua habilidade brilhando intensamente.
Dazai levantou-se rapidamente, correndo em direção à cozinha enquanto Chuuya o perseguia, derrubando uma almofada no caminho.
— Oh, que medo! O pequeno mafioso está zangado! — Dazai parou atrás da bancada da cozinha, usando-a como escudo.
— Eu não sou pequeno! — Chuuya socou a bancada, fazendo a estrutura de mármore vibrar. — Eu sou o melhor lutador da Máfia, e você é apenas um desperdício de bandagens!
— Um desperdício de bandagens que você acabou de beijar — lembrou Dazai, piscando um olho.
Chuuya congelou, o punho ainda contra o mármore. Ele bufou, a aura vermelha diminuindo até desaparecer. Ele passou a mão pelo cabelo, tentando recuperar a compostura, embora seu coração ainda batesse rápido.
— Você é impossível.
— E você me ama por isso — disse Dazai, contornando a bancada e aproximando-se novamente, desta vez sem a intenção de provocar um ataque físico.
Ele envolveu a cintura de Chuuya com os braços, puxando-o para um abraço desajeitado devido à diferença de altura. Chuuya resistiu por dois segundos antes de relaxar e descansar a cabeça no peito de Dazai, ouvindo o batimento cardíaco rítmico do outro. Era a única prova de que Dazai era realmente humano, e não algum tipo de espectro cínico.
— Eu odeio você — murmurou Chuuya contra o tecido da camisa de Dazai.
— Eu sei — respondeu Dazai, beijando o topo da cabeça ruiva. — Eu também odeio você, Chuuya.
Eles ficaram ali por um longo tempo, enquanto a noite caía sobre Yokohama. As luzes da cidade começavam a brilhar lá fora, refletindo-se no porto onde ambos haviam deixado tanto de si mesmos. Ali, naquele apartamento, longe das conspirações da Máfia e das missões da Agência, eles eram apenas dois homens de vinte e dois anos tentando encontrar algum sentido no caos.
— Chuuya? — chamou Dazai depois de um tempo.
— Hum?
— O que tem para o jantar? Eu estou com fome e o estoque de caranguejo da Agência acabou.
Chuuya se afastou, olhando para Dazai com uma expressão de descrença.
— Você invade minha casa, insulta minha altura, mexe nos meus chapéus e ainda espera que eu te alimente?
— Bem... — Dazai deu de ombros, com um sorriso esperançoso. — Você cozinha muito melhor que o Kunikida. Ele só faz coisas que seguem o "ideal", e o ideal dele é terrivelmente sem sal.
Chuuya suspirou, caminhando em direção à geladeira.
— Eu vou fazer um risoto. Mas se você fizer mais uma piada sobre a minha altura, eu vou colocar veneno de rato no seu prato.
— Promessa? — perguntou Dazai, os olhos brilhando. — Que forma romântica de partir!
— Dazai, cala a boca e pega o vinho.
— Sim, senhor, meu pequeno capitão!
Chuuya pegou uma colher de pau e a arremessou com precisão cirúrgica na direção da cabeça de Dazai. O castanho desviou por milímetros, rindo enquanto corria para pegar a garrafa de vinho.
Era uma noite normal em Yokohama. E, para Chuuya Nakahara, apesar de todo o barulho e das irritações constantes, era exatamente como deveria ser.
