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Verdade

Fandom: Magi

Criado: 13/07/2026

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Entre Cinzas e Identidades Ocultas

Cheguei à entrada da fazenda com o coração apertado, e parei de repente ao ver as viaturas da polícia espalhadas pelo caminho. Desci do carro depressa, o ar me faltando no peito. O cheiro de queimado ainda pairava no ar úmido da manhã, misturando-se à terra batida.

— O que aconteceu aqui?! — gritei, aproximando-me do policial mais próximo.

Ele olhou para mim com compaixão, mas firme, ajeitando o quepe antes de suspirar.

— Senhora Torres… a senhora Lorena nos ligou. Disse que a senhora precisava de ajuda, pois sua esposa teria fugido da casa. Mas enquanto vínhamos para cá, presenciamos um acidente grave na estrada. E conforme informações de uma das equipes, o veículo envolvido era exatamente o que a senhora Maya usava.

Senti o chão desaparecer debaixo dos meus pés. Segurei no capô do carro para não cair, as mãos tremendo tanto que quase não conseguia me segurar. A vista embaçou, e o mundo ao redor parecia ter perdido o som por alguns segundos.

— Não… — sussurrei, a voz quebrando. — Isso não é verdade… me mostrem… eu preciso ver ela…

O policial hesitou, baixando o olhar para os próprios pés.

— O carro pegou fogo, senhora. Tudo ficou destruído. Não sobrou nada além de ferragens retorcidas.

— Não, não, não! — gritei, tentando avançar em direção à estrada, mas Lorena me segurou pelos braços com força.

Eu me debati, as lágrimas escorrendo quentes pelo meu rosto frio.

— Minha mulher não pode ter morrido! Vocês não entendem? A Manoela nunca iria me deixar! Nós estávamos bem, tudo estava perfeito! — Eu soluçava, o desespero rasgando minha garganta.

— Não foi o que pareceu. — Lorena segurou meu rosto, forçando-me a olhar nos olhos dela. Havia uma tristeza calculada em sua voz, algo que eu estava cega demais para questionar naquele momento. — Ela entrou no carro com ele, Giovanna. Ela te usou. A Maya sempre foi igual à irmã dela: só querem o que não lhes pertence.

— Mentira! — eu gritei, mas minhas pernas falharam e eu caí de joelhos no cascalho, sendo amparada apenas pelo aperto possessivo de Lorena.

***

Acordei com uma dor aguda percorrendo todo o corpo, a cabeça girando e o gosto metálico de sangue na boca. Abri os olhos devagar, vendo apenas o azul pálido do céu entrecortado por colunas de fumaça negra que ainda subiam ao fundo, onde o que restava do carro jazia.

— Sarah? — chamei, com a voz rouca e fraca. Virei o rosto para o lado, sentindo cada músculo protestar. — Manoela?

As duas estavam caídas na grama, a poucos metros de mim. Estavam imóveis, desacordadas, cobertas de poeira e fuligem. O coração disparou no peito, uma batida frenética que doía contra as minhas costelas possivelmente trincadas. Me esforcei para me levantar, ignorando a dor lancinante nos ossos, e me aproximei arrastando os pés pela vegetação baixa.

— Merda… merda! — repeti, desesperada, sentindo as lágrimas de puro pavor limparem sulcos na minha pele suja. Sacudi os ombros delas com cuidado, mas com urgência. — Acordem! Por favor, acordem! Nós conseguimos escapar, não podemos parar agora!

Maya — ou Manoela, como Giovanna a chamava — soltou um gemido baixo. Seus olhos piscaram, tentando focar em mim. Sarah também começou a se mexer, tossindo por causa da fumaça que ainda impregnava suas roupas.

— Malu? — Maya murmurou, a voz quase um fio.

— Sou eu. Vamos, temos que sair daqui antes que os batedores da Lorena ou a polícia resolvam vasculhar o matagal.

Com um esforço sobre-humano, ajudei as duas a se levantarem. Cambaleamos para longe da estrada, embrenhando-nos na mata fechada que cercava a propriedade. Caminhamos por o que pareceram horas, o silêncio da floresta sendo quebrado apenas pelos nossos passos pesados e respirações curtas.

Finalmente, encontramos uma pequena casa de madeira abandonada, meio escondida entre árvores e mato alto. As tábuas ainda pareciam firmes e o telhado estava inteiro, apesar do lodo que o cobria. Entramos devagar, a penumbra do interior nos acolhendo. Fechamos a porta atrás de nós e nos deixamos cair no chão de terra batida, exaustas.

O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de perguntas que o choque do acidente havia postergado. Maya se encostou na parede de madeira, observando Sarah, que limpava um corte no braço com um pedaço da própria camisa.

— Você… — Maya começou, olhando para Sarah com uma expressão de reconhecimento confuso. — Eu conheço você. Você não é a Sarah que um dia levou a Giovanna bêbada para a fazenda, quando tudo ainda estava começando?

Sarah parou o que estava fazendo e olhou para mim, esperando um sinal. Eu apenas assenti, exausta demais para continuar com as máscaras.

— Sim, sou eu — respondeu Sarah, a voz agora firme, sem o tom de submissão que usava antes.

Maya franziu a testa, voltando-se para mim.

— E você… Luiza… de onde você conhece ela? Por que você nos ajudou desse jeito? Por que arriscou tudo para nos tirar de lá?

Eu respirei fundo, sentindo o peso do segredo que carreguei por tanto tempo finalmente se tornar insuportável. Passei a mão pelo rosto, limpando o sangue seco da testa.

— Meu nome não é Luiza, Maya. — Olhei-a nos olhos, e vi a confusão se transformar em choque. — Eu sou a Malu. Malu Torres.

Maya arregalou os olhos, a boca entreaberta.

— Malu? A irmã mais nova da Giovanna? Mas… todos diziam que você estava fora do país, que você não queria contato com a família… que você odiava o que a Giovanna se tornou sob a influência da Lorena.

— E eu odiava — confessei, com amargura. — Eu fugi porque não aguentava ver a Lorena manipular a minha irmã, transformando a Giovanna em alguém fria e paranoica. Mas eu nunca deixei de amar a minha irmã. Eu sabia que, se eu ficasse longe, a Lorena acabaria isolando ela completamente.

Maya balançou a cabeça, tentando processar a informação.

— Então… a Sarah?

— A Sarah é minha namorada — revelei, e Sarah deu um meio sorriso, aproximando-se para segurar minha mão. — Eu pedi que ela ficasse de olho na Giovanna. Pedi que ela se infiltrasse, que fosse os meus olhos e ouvidos dentro daquela fazenda quando eu não podia estar lá.

— Nós sabíamos que a Lorena estava tramando algo — Sarah interveio. — Mas não sabíamos que envolveria você, Maya. Quando Malu percebeu que a Giovanna estava realmente se apaixonando e que a Lorena ia destruir isso para manter o controle sobre a fortuna dos Torres, nós tivemos que agir.

Malu olhou para as próprias mãos sujas.

— Eu não podia deixar a Lorena matar mais ninguém. Ela já destruiu a sanidade da minha irmã. Eu não ia deixar ela destruir a sua vida também, Maya. Ou a chance da Giovanna descobrir a verdade.

Maya encostou a cabeça na parede, fechando os olhos por um momento.

— Ela acha que eu morri. A Giovanna… ela viu o carro explodir. Ela ouviu a Lorena dizer que eu a usei.

— Eu sei — eu disse, sentindo uma pontada de dor pelo sofrimento da minha irmã. — Mas é a única forma de te manter viva por agora. Precisamos de tempo para desmascarar a Lorena sem que ela tente terminar o serviço.

— E como vamos fazer isso? — perguntou Maya, abrindo os olhos com uma nova determinação. — Ela tem a polícia na mão, ela tem a Giovanna sob controle emocional.

— Ela tem o poder — eu respondi, levantando-me com dificuldade, mas com o olhar fixo. — Mas agora, ela tem um fantasma e uma irmã que ela pensa ter esquecido. E nós vamos usar isso contra ela.

Sarah levantou-se logo em seguida, colocando a mão no meu ombro.

— O jogo mudou, Maya. Você não é mais a vítima da Lorena, e a Malu não é mais a irmã fugitiva. Nós somos as únicas que podem trazer a Giovanna de volta da escuridão.

O sol começava a se pôr, filtrando raios alaranjados pelas frestas da madeira. Naquela cabana esquecida, o pacto foi selado. A dor física ainda estava lá, mas o fogo da justiça ardia mais forte. Lorena achava que tinha vencido, que o rastro de cinzas na estrada era o fim de sua oposição. Ela não poderia estar mais enganada. O verdadeiro pesadelo dela estava apenas começando, nascido das sombras de uma irmã que nunca desistiu e de um amor que se recusava a queimar.
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