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Eu quero você
Fandom: Magi
Criado: 14/07/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoDetetiveCrimeCiúmesSuspenseAçãoEstudo de PersonagemRealismo
Entre o Sangue e o Silêncio
O cheiro de antisséptico do hospital parecia impregnar cada poro da minha pele, misturando-se ao odor metálico de sangue seco que eu ainda sentia, mesmo após terem limpado meu rosto. A luz fluorescente acima da maca piscava ritmicamente, um lembrete irritante de que o mundo continuava girando, apesar de eu sentir que meu corpo tinha sido atropelado por um trator. Cada respiração era um desafio; a faixa comprimindo minhas costelas parecia um abraço de ferro que eu não conseguia retribuir.
Maya estava ali, sentada na beirada da minha maca, e a presença dela preenchia o quarto de uma forma que nenhum equipamento médico conseguiria. O moletom cinza que ela usava era grande demais, fazendo-a parecer frágil, quase etérea sob a luz fria. O silêncio que se seguiu à minha confissão de que eu não podia deixá-la ir era denso, carregado de eletricidade e de algo que queimava mais que meus ferimentos.
— Você é uma idiota, sabia? — disse Maya, a voz falhando levemente. Ela estendeu a mão, tocando com a ponta dos dedos o curativo na minha testa. — Uma idiota heroica e imprudente.
Senti o toque dela como uma descarga elétrica. A proximidade era perigosa. O calor que emanava dela era o mesmo que eu tentava esquecer desde aquela noite no vestíbulo do teatro. O rosto dela estava a poucos centímetros do meu, e eu podia ver as pequenas sardas que ela tentava esconder com maquiagem durante o dia, os olhos ainda levemente avermelhados pelo choro e pelo terror.
— É o meu trabalho, Garcia — murmurei, mas a mentira soou vazia até para os meus próprios ouvidos. — Mas, no fundo, eu acho que faria de novo mesmo se não fosse.
Maya não desviou o olhar. O ar entre nós pareceu rarefeito. Eu conseguia sentir a respiração dela, o ritmo pausado que denunciava que ela também estava sentindo o peso daquele momento. A adrenalina do tiroteio tinha baixado, deixando em seu lugar uma vulnerabilidade crua. Eu vi quando os olhos dela desceram para os meus lábios por um milissegundo, e foi o suficiente para que todo o meu autocontrole, construído à base de orgulho e mágoa nos últimos dias, desmoronasse.
Eu me inclinei. A dor nas costelas protestou com uma agulhada aguda, mas eu a ignorei. Minha mão saudável subiu, encontrando a nuca dela, os fios de cabelo soltos do coque prendendo-se entre meus dedos.
O beijo não foi suave. Foi uma colisão de almas famintas, um desabafo de tudo o que não tínhamos dito enquanto gritávamos uma com a outra. Tinha gosto de urgência, de alívio e daquela possessividade que sempre marcou a nossa história. Por um momento, senti Maya corresponder, as mãos dela agarrando a frente da minha bata hospitalar, puxando-me para mais perto, como se quisesse fundir nossos corpos e apagar o medo das últimas horas.
Mas, tão rápido quanto o fogo começou, veio o balde de água gelada.
Maya travou. Ela empurrou meus ombros com firmeza, interrompendo o contato. O som do beijo partindo ecoou no quarto silencioso, seguido pela respiração ofegante de ambas. Ela se levantou da maca num salto, afastando-se dois passos, os olhos arregalados e uma expressão que oscilava entre a culpa e a raiva.
— Não, Giovanna. Não faz isso — disse ela, a voz agora firme, mas carregada de uma tensão defensiva.
Eu limpei o canto da boca com o polegar, sentindo o latejar da minha cabeça aumentar. A rejeição ardeu mais que o impacto do airbag.
— O que foi agora? — perguntei, tentando manter a voz estável apesar da frustração. — Vai me dizer que não sentiu nada? De novo?
Maya cruzou os braços, apertando o moletom contra o corpo, como se estivesse se protegendo de mim.
— Não é sobre sentir, Giovanna. É sobre o que é certo — ela respirou fundo, desviando o olhar para a janela que mostrava as luzes da cidade. — Eu estou com a Mariana. Você sabe disso.
Um riso seco e amargo escapou da minha garganta, fazendo minhas costelas protestarem violentamente. Eu me recostei no travesseiro, sentindo o suor frio brotar na minha nuca.
— Ah, é mesmo. A Mariana. A agente federal perfeita que está em uma "operação sigilosa" enquanto você quase morre em um galpão abandonado — provoquei, a ponta de ciúme transformando-se em veneno.
— Não ouse falar dela assim — rebateu Maya, voltando a me encarar com fogo nos olhos. — Ela é estável. Ela é... ela é o que eu preciso agora. Alguém que não transforme minha vida em um campo de batalha constante.
Eu sorri, um sorriso cínico que escondia a dor de ser deixada de lado. Ajeitei-me na cama, sentindo o peso do cansaço finalmente vencer a adrenalina. Olhei para o teto, vendo a mancha de umidade que parecia o mapa de um país desconhecido.
— Você realmente está levando a sério esse negócio, né? — perguntei, a voz mais baixa, quase sem forças. — A Doutora Maya Garcia, a mulher que sempre viveu no limite, agora quer a segurança de um cercadinho branco e um relacionamento de manual?
Maya ficou em silêncio por um longo tempo. O único som no quarto era o bipe constante do monitor cardíaco ao qual eu ainda estava conectada.
— Talvez eu só esteja cansada de sangrar, Giovanna — disse ela, tão baixo que quase não ouvi. — Com você, é sempre sangue. Ou é o meu, ou é o seu, ou é o nosso. Eu não aguento mais essa intensidade.
— Intensidade é o que nos mantém vivas, Maya — respondi, fechando os olhos. — O resto é só... passar o tempo.
— Então eu prefiro passar o tempo em paz — ela caminhou até a porta, parando com a mão na maçaneta. — Obrigada por hoje. De verdade. Você salvou minha vida. Mas não confunda as coisas.
— Eu nunca confundo — eu disse, sem abrir os olhos. — Eu sei exatamente o que aconteceu aqui. E você também sabe.
Ouvi o clique da porta se fechando. O silêncio voltou a reinar, mas agora ele era pesado, sufocante. Eu estava viva, as costelas iam curar e os criminosos estavam presos. Mas, enquanto eu mergulhava em um sono induzido por analgésicos, a última imagem que tive não foi do tiroteio, mas do jeito que Maya me olhou antes de sair: como se estivesse fugindo não de mim, mas de si mesma.
Eu sabia que a Mariana era apenas um escudo. O problema era que escudos, por mais fortes que fossem, acabavam quebrando quando o impacto vinha de dentro. E eu estava disposta a esperar pelo estilhaço final.
Maya estava ali, sentada na beirada da minha maca, e a presença dela preenchia o quarto de uma forma que nenhum equipamento médico conseguiria. O moletom cinza que ela usava era grande demais, fazendo-a parecer frágil, quase etérea sob a luz fria. O silêncio que se seguiu à minha confissão de que eu não podia deixá-la ir era denso, carregado de eletricidade e de algo que queimava mais que meus ferimentos.
— Você é uma idiota, sabia? — disse Maya, a voz falhando levemente. Ela estendeu a mão, tocando com a ponta dos dedos o curativo na minha testa. — Uma idiota heroica e imprudente.
Senti o toque dela como uma descarga elétrica. A proximidade era perigosa. O calor que emanava dela era o mesmo que eu tentava esquecer desde aquela noite no vestíbulo do teatro. O rosto dela estava a poucos centímetros do meu, e eu podia ver as pequenas sardas que ela tentava esconder com maquiagem durante o dia, os olhos ainda levemente avermelhados pelo choro e pelo terror.
— É o meu trabalho, Garcia — murmurei, mas a mentira soou vazia até para os meus próprios ouvidos. — Mas, no fundo, eu acho que faria de novo mesmo se não fosse.
Maya não desviou o olhar. O ar entre nós pareceu rarefeito. Eu conseguia sentir a respiração dela, o ritmo pausado que denunciava que ela também estava sentindo o peso daquele momento. A adrenalina do tiroteio tinha baixado, deixando em seu lugar uma vulnerabilidade crua. Eu vi quando os olhos dela desceram para os meus lábios por um milissegundo, e foi o suficiente para que todo o meu autocontrole, construído à base de orgulho e mágoa nos últimos dias, desmoronasse.
Eu me inclinei. A dor nas costelas protestou com uma agulhada aguda, mas eu a ignorei. Minha mão saudável subiu, encontrando a nuca dela, os fios de cabelo soltos do coque prendendo-se entre meus dedos.
O beijo não foi suave. Foi uma colisão de almas famintas, um desabafo de tudo o que não tínhamos dito enquanto gritávamos uma com a outra. Tinha gosto de urgência, de alívio e daquela possessividade que sempre marcou a nossa história. Por um momento, senti Maya corresponder, as mãos dela agarrando a frente da minha bata hospitalar, puxando-me para mais perto, como se quisesse fundir nossos corpos e apagar o medo das últimas horas.
Mas, tão rápido quanto o fogo começou, veio o balde de água gelada.
Maya travou. Ela empurrou meus ombros com firmeza, interrompendo o contato. O som do beijo partindo ecoou no quarto silencioso, seguido pela respiração ofegante de ambas. Ela se levantou da maca num salto, afastando-se dois passos, os olhos arregalados e uma expressão que oscilava entre a culpa e a raiva.
— Não, Giovanna. Não faz isso — disse ela, a voz agora firme, mas carregada de uma tensão defensiva.
Eu limpei o canto da boca com o polegar, sentindo o latejar da minha cabeça aumentar. A rejeição ardeu mais que o impacto do airbag.
— O que foi agora? — perguntei, tentando manter a voz estável apesar da frustração. — Vai me dizer que não sentiu nada? De novo?
Maya cruzou os braços, apertando o moletom contra o corpo, como se estivesse se protegendo de mim.
— Não é sobre sentir, Giovanna. É sobre o que é certo — ela respirou fundo, desviando o olhar para a janela que mostrava as luzes da cidade. — Eu estou com a Mariana. Você sabe disso.
Um riso seco e amargo escapou da minha garganta, fazendo minhas costelas protestarem violentamente. Eu me recostei no travesseiro, sentindo o suor frio brotar na minha nuca.
— Ah, é mesmo. A Mariana. A agente federal perfeita que está em uma "operação sigilosa" enquanto você quase morre em um galpão abandonado — provoquei, a ponta de ciúme transformando-se em veneno.
— Não ouse falar dela assim — rebateu Maya, voltando a me encarar com fogo nos olhos. — Ela é estável. Ela é... ela é o que eu preciso agora. Alguém que não transforme minha vida em um campo de batalha constante.
Eu sorri, um sorriso cínico que escondia a dor de ser deixada de lado. Ajeitei-me na cama, sentindo o peso do cansaço finalmente vencer a adrenalina. Olhei para o teto, vendo a mancha de umidade que parecia o mapa de um país desconhecido.
— Você realmente está levando a sério esse negócio, né? — perguntei, a voz mais baixa, quase sem forças. — A Doutora Maya Garcia, a mulher que sempre viveu no limite, agora quer a segurança de um cercadinho branco e um relacionamento de manual?
Maya ficou em silêncio por um longo tempo. O único som no quarto era o bipe constante do monitor cardíaco ao qual eu ainda estava conectada.
— Talvez eu só esteja cansada de sangrar, Giovanna — disse ela, tão baixo que quase não ouvi. — Com você, é sempre sangue. Ou é o meu, ou é o seu, ou é o nosso. Eu não aguento mais essa intensidade.
— Intensidade é o que nos mantém vivas, Maya — respondi, fechando os olhos. — O resto é só... passar o tempo.
— Então eu prefiro passar o tempo em paz — ela caminhou até a porta, parando com a mão na maçaneta. — Obrigada por hoje. De verdade. Você salvou minha vida. Mas não confunda as coisas.
— Eu nunca confundo — eu disse, sem abrir os olhos. — Eu sei exatamente o que aconteceu aqui. E você também sabe.
Ouvi o clique da porta se fechando. O silêncio voltou a reinar, mas agora ele era pesado, sufocante. Eu estava viva, as costelas iam curar e os criminosos estavam presos. Mas, enquanto eu mergulhava em um sono induzido por analgésicos, a última imagem que tive não foi do tiroteio, mas do jeito que Maya me olhou antes de sair: como se estivesse fugindo não de mim, mas de si mesma.
Eu sabia que a Mariana era apenas um escudo. O problema era que escudos, por mais fortes que fossem, acabavam quebrando quando o impacto vinha de dentro. E eu estava disposta a esperar pelo estilhaço final.
