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Ela está morta
Fandom: Magi
Criado: 14/07/2026
Tags
DramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoSombrioAçãoSuspenseSobrevivênciaCrimeCiúmes
Sombras da Verdade e Cinzas do Passado
O cheiro de borracha queimada e combustível impregnava o ar, misturando-se ao odor metálico de sangue que eu sentia no fundo da garganta. O mundo ao meu redor parecia girar em uma câmera lenta agonizante, cada batida do meu coração ecoando como um tambor de guerra nos meus ouvidos.
— Sarah...? — Minha voz mal passava de um sussurro rouco, uma súplica ao vazio.
Ao meu lado, o que restava do veículo era uma carcaça retorcida de metal e chamas que devoravam a noite. A dor nas minhas costelas era uma pontada aguda que me impedia de respirar fundo, mas o pânico era um motor mais potente que qualquer ferimento físico. Eu me arrastei, sentindo a grama úmida e a terra sob minhas unhas, até alcançar os vultos imóveis a poucos metros de distância.
— Sarah... Maya... por favor, não me deixem agora — murmurei, minhas mãos tremendo enquanto tocava o ombro de Sarah.
Quando ela tossiu, expelindo uma fumaça cinzenta dos pulmões, senti o primeiro lampejo de esperança. Logo depois, Maya soltou um gemido baixo, uma nota de dor que, para mim, soou como a mais bela sinfonia. Elas estavam vivas. O acidente não havia sido o fim, mas o início de uma fuga desesperada.
— Luiza...? — Maya murmurou, abrindo os olhos com dificuldade, a confusão nublando sua íris.
— Sou eu — respondi, forçando um sorriso que mais parecia uma careta de dor. — Mas agora precisamos sair daqui. A explosão vai chamar atenção. Se a polícia ou os homens da Lorena encontrarem a gente... acabou.
Ajudar as duas a se levantarem foi uma tarefa hercúlea. Cada passo em direção à mata fechada era um lembrete do que o corpo humano pode suportar quando a adrenalina assume o controle. Caminhamos por horas, o silêncio da floresta sendo quebrado apenas pelos nossos passos pesados e respirações curtas. Quando finalmente avistamos a silhueta de uma cabana abandonada, quase desabamos.
Lá dentro, o ar era pesado e cheirava a mofo, mas era um santuário. Tranquei a porta, sentindo o peso do mundo finalmente cair sobre meus ombros. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de perguntas que não podiam mais ser adiadas.
Maya, sentada em um canto, observava Sarah com uma intensidade que beirava o reconhecimento.
— Eu conheço você... — disse Maya, a voz ganhando firmeza.
Sarah ergueu a cabeça, limpando um filete de sangue que escorria da testa.
— Conhece — admitiu ela, sem desviar o olhar.
— Você levou a Giovanna bêbada para a fazenda... meses atrás — Maya estreitou os olhos, as peças do quebra-cabeça começando a se encaixar.
Sarah apenas assentiu, mantendo sua postura vigilante, mesmo ferida. Então, os olhos de Maya se voltaram para mim, carregados de uma desconfiança que eu sabia que precisava dissipar.
— E você... — Maya respirou fundo, segurando o lado do corpo. — Quem é você de verdade?
Fechei os olhos por um instante, buscando a coragem que havia escondido por tantos anos sob o pseudônimo de Luiza. O segredo era um fardo que eu não podia mais carregar se quisesse salvar o que restava da minha família.
— Meu nome não é Luiza — comecei, levantando o olhar para encontrar o dela. — Eu sou Malu.
O choque foi instantâneo. Vi as pupilas de Maya dilatarem e sua boca se abrir levemente.
— Malu... Torres? — ela sussurrou, como se pronunciasse o nome de um fantasma.
— Sim — respondi, sentindo o peso daquela identidade retornar.
— A irmã da Giovanna... — Maya parecia incapaz de processar a informação. — Mas disseram que você estava morando fora do país... que não queria contato com ninguém da família.
— Era isso que minha mãe queria que todos acreditassem — expliquei, um amargor subindo pela minha garganta. — Clara sempre foi mestre em criar narrativas.
Fiquei alguns segundos encarando o chão, as memórias da minha partida forçada voltando como ondas em uma tempestade.
— Eu fui embora porque não suportava assistir Clara destruir minha irmã aos poucos — continuei, a voz embargada. — Ela transformou a Giovanna em alguém desconfiada, fria... alguém que já não reconhecia a própria felicidade. Eu tentei lutar, tentei abrir os olhos dela, mas Clara me isolou. No final, tive que sair para sobreviver.
Engoli em seco, sentindo o calor da mão de Sarah buscar a minha no escuro da cabana.
— Mas nunca deixei de cuidar dela — afirmei com convicção. — Sarah é minha namorada. Foi ela quem eu pedi para se aproximar da fazenda. Eu precisava de olhos e ouvidos lá dentro. Eu precisava proteger a Giovanna, mesmo que de longe, mesmo que ela pensasse que eu a abandonei.
Maya arregalou ainda mais os olhos, alternando o olhar entre mim e Sarah.
— Então vocês sabiam da Lorena? — perguntou ela.
— Sabíamos que ela escondia alguma coisa — Sarah respondeu, sua voz firme apesar do cansaço. — Sabíamos que ela manipulava a Giovanna, que alimentava as inseguranças dela. Mas não imaginávamos que ela chegaria a esse ponto. A esse nível de crueldade.
Senti meus punhos se fecharem. A imagem de Lorena segurando Giovanna na entrada da fazenda, fingindo preocupação enquanto orquestrava nossa destruição, fazia meu sangue ferver.
— Lorena não quer dinheiro, Maya — eu disse, olhando-a diretamente nos olhos. — Ela quer a Giovanna.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que a escuridão lá fora. Maya empalideceu, a compreensão finalmente atingindo-a como um soco.
— Ela é obcecada pela minha irmã desde a adolescência — continuei, o desprezo transbordando em cada palavra. — Tudo o que ela fez durante esses anos, cada mentira contada, cada pessoa afastada, teve um único objetivo: isolar a Giovanna. Ela queria que a minha irmã não tivesse ninguém além dela.
— O atentado... — Maya sussurrou, as lágrimas começando a descer por seu rosto pálido.
— Foi ela — confirmei. — Ela armou tudo para que a culpa caísse sobre você. Lorena queria que a Giovanna te odiasse para sempre. Porque, na cabeça doentia dela, se você desaparecesse... se você fosse vista como a traidora... finalmente haveria um espaço vazio ao lado da minha irmã que só ela poderia ocupar.
Maya cobriu o rosto com as mãos, soluçando baixo. A dor da traição e a percepção de que sua vida — e a de Giovanna — haviam sido joguetes nas mãos de uma sociopata eram quase insuportáveis.
— Então... a Giovanna nunca esteve realmente segura... — Maya murmurou por entre os dedos.
Olhei para a pequena janela da cabana. Lá fora, a mata era um muro de sombras, escondendo perigos que ainda não havíamos superado. Mas o maior perigo não estava na floresta; estava na fazenda, consolando minha irmã com palavras de veneno travestidas de carinho.
— Não — respondi, minha voz soando como uma promessa de guerra. — E enquanto a Lorena estiver viva e livre... ela nunca estará.
***
Enquanto isso, na entrada da fazenda Torres, o cenário era de desolação. Giovanna sentia como se o ar ao seu redor tivesse se transformado em chumbo. Cada palavra do policial era um prego no caixão de sua felicidade.
— O carro pegou fogo, senhora. Tudo ficou destruído — repetiu o oficial, a voz carregada de uma piedade que Giovanna não queria aceitar.
— Não, não, não! — Giovanna gritou, sua voz rasgando o silêncio da noite. — Minha mulher não pode ter morrido! Vocês não entendem? A Manoela nunca iria me deixar! Nós estávamos bem!
Ela tentou avançar em direção à estrada, em direção às luzes vermelhas e azuis que piscavam ao longe, mas braços fortes a seguraram. Lorena a envolvia, um abraço que deveria ser de conforto, mas que parecia um cerco.
— Não foi o que pareceu, Gi — disse Lorena, sua voz suave, mas carregada de uma tristeza calculada. Ela forçou Giovanna a olhar em seus olhos, segurando seu rosto com uma firmeza possessiva. — Ela entrou no carro com ele, Giovanna. Ela te usou. A Maya sempre foi igual à irmã dela: só querem o que não lhes pertence.
— Não! — Giovanna negou, balançando a cabeça freneticamente, as lágrimas turvando sua visão. — Ela me amava... eu sei que amava...
— Sim — insistiu Lorena, o tom agora mais frio, mais incisivo. — Ela planejou isso. Ela esperou o momento certo para fugir com o que restava.
— Não, Lorena! — Giovanna se soltou por um instante, a raiva e a dor colidindo dentro de seu peito. — Você não sabe de nada!
— Ei, é a verdade, não é? — Lorena voltou a segurá-la, apertando seus braços com uma força que beirava a agressividade. — Se acalme. Deixe que o doutor Elias termine os exames, ele vai confirmar tudo. Ele vai te mostrar que ela não era quem você pensava.
Giovanna ficou ali, tremendo inteira, o chão parecendo se dissolver sob seus pés. Ela olhou para a casa, para a fazenda que um dia foi seu refúgio, e agora parecia uma prisão de memórias distorcidas. Ela não sabia mais em quem acreditar, o que sentir ou como continuar respirando.
Lorena a puxou para perto novamente, descansando o queixo no ombro de Giovanna. Por trás das costas da amiga, os olhos de Lorena brilhavam com uma satisfação sombria. O plano estava se concretizando. O obstáculo havia sido removido. Agora, Giovanna era dela. Apenas dela.
***
Na cabana, o clima era de urgência. Malu sabia que o tempo estava contra elas. Lorena não era do tipo que deixava pontas soltas. Se ela descobrisse que o acidente não fora fatal, viria terminar o serviço.
— Precisamos de um plano — disse Sarah, tentando se levantar, mas soltando um gemido quando sua perna cedeu.
— Você precisa descansar, Sarah — eu disse, ajudando-a a sentar novamente. — Maya, você também está ferida.
— Eu não me importo com a dor — Maya disse, limpando as lágrimas e revelando um olhar de determinação que eu ainda não tinha visto nela. — Eu preciso chegar até a Giovanna. Eu preciso dizer a ela que eu não fugi, que eu não a traí. Eu não posso deixar que ela acredite nas mentiras daquela mulher.
— Se você aparecer lá agora, Lorena vai te matar antes mesmo de você chegar ao portão — alertei. — Ela controla a segurança, ela controla a polícia local. Estamos em desvantagem.
— Então o que faremos? — perguntou Maya, a voz trêmula mas firme.
Olhei para as duas mulheres à minha frente. Estávamos quebradas, ensanguentadas e escondidas em um buraco no meio do nada. Mas tínhamos a verdade. E a verdade, embora dolorosa, era a única arma que poderia derrubar o império de mentiras que Lorena construiu.
— Vamos esperar o amanhecer — decidi. — Lorena vai pensar que ganhou. Ela vai baixar a guarda. E é nesse momento que vamos atacar. Vou entrar em contato com alguns aliados que ainda tenho na cidade. Pessoas que minha mãe não conseguiu comprar.
Caminhei até a porta e olhei pelo fresta. A lua estava alta, iluminando a floresta com uma luz pálida e fantasmagórica.
— Giovanna sempre foi a mais forte de nós duas — sussurrei, mais para mim mesma do que para as outras. — Mas Lorena a quebrou. Agora, cabe a mim... a nós... juntar os pedaços.
Maya se aproximou, colocando a mão no meu ombro.
— Obrigada, Malu. Por não ter desistido dela.
— Eu nunca desistiria da minha irmã — respondi, olhando para ela. — E agora que sei o quanto você significa para ela, não vou desistir de você também.
O silêncio voltou a reinar na cabana, mas desta vez não era um silêncio de desespero. Era o silêncio que antecede a tempestade. Lorena achava que as chamas haviam consumido seus problemas, mas ela esqueceu que algumas coisas — como a verdade e o amor — são feitas de materiais que o fogo não pode destruir. Elas apenas se tornam mais puras, mais afiadas. E nós estávamos prontas para cortar o mal pela raiz.
— Sarah...? — Minha voz mal passava de um sussurro rouco, uma súplica ao vazio.
Ao meu lado, o que restava do veículo era uma carcaça retorcida de metal e chamas que devoravam a noite. A dor nas minhas costelas era uma pontada aguda que me impedia de respirar fundo, mas o pânico era um motor mais potente que qualquer ferimento físico. Eu me arrastei, sentindo a grama úmida e a terra sob minhas unhas, até alcançar os vultos imóveis a poucos metros de distância.
— Sarah... Maya... por favor, não me deixem agora — murmurei, minhas mãos tremendo enquanto tocava o ombro de Sarah.
Quando ela tossiu, expelindo uma fumaça cinzenta dos pulmões, senti o primeiro lampejo de esperança. Logo depois, Maya soltou um gemido baixo, uma nota de dor que, para mim, soou como a mais bela sinfonia. Elas estavam vivas. O acidente não havia sido o fim, mas o início de uma fuga desesperada.
— Luiza...? — Maya murmurou, abrindo os olhos com dificuldade, a confusão nublando sua íris.
— Sou eu — respondi, forçando um sorriso que mais parecia uma careta de dor. — Mas agora precisamos sair daqui. A explosão vai chamar atenção. Se a polícia ou os homens da Lorena encontrarem a gente... acabou.
Ajudar as duas a se levantarem foi uma tarefa hercúlea. Cada passo em direção à mata fechada era um lembrete do que o corpo humano pode suportar quando a adrenalina assume o controle. Caminhamos por horas, o silêncio da floresta sendo quebrado apenas pelos nossos passos pesados e respirações curtas. Quando finalmente avistamos a silhueta de uma cabana abandonada, quase desabamos.
Lá dentro, o ar era pesado e cheirava a mofo, mas era um santuário. Tranquei a porta, sentindo o peso do mundo finalmente cair sobre meus ombros. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de perguntas que não podiam mais ser adiadas.
Maya, sentada em um canto, observava Sarah com uma intensidade que beirava o reconhecimento.
— Eu conheço você... — disse Maya, a voz ganhando firmeza.
Sarah ergueu a cabeça, limpando um filete de sangue que escorria da testa.
— Conhece — admitiu ela, sem desviar o olhar.
— Você levou a Giovanna bêbada para a fazenda... meses atrás — Maya estreitou os olhos, as peças do quebra-cabeça começando a se encaixar.
Sarah apenas assentiu, mantendo sua postura vigilante, mesmo ferida. Então, os olhos de Maya se voltaram para mim, carregados de uma desconfiança que eu sabia que precisava dissipar.
— E você... — Maya respirou fundo, segurando o lado do corpo. — Quem é você de verdade?
Fechei os olhos por um instante, buscando a coragem que havia escondido por tantos anos sob o pseudônimo de Luiza. O segredo era um fardo que eu não podia mais carregar se quisesse salvar o que restava da minha família.
— Meu nome não é Luiza — comecei, levantando o olhar para encontrar o dela. — Eu sou Malu.
O choque foi instantâneo. Vi as pupilas de Maya dilatarem e sua boca se abrir levemente.
— Malu... Torres? — ela sussurrou, como se pronunciasse o nome de um fantasma.
— Sim — respondi, sentindo o peso daquela identidade retornar.
— A irmã da Giovanna... — Maya parecia incapaz de processar a informação. — Mas disseram que você estava morando fora do país... que não queria contato com ninguém da família.
— Era isso que minha mãe queria que todos acreditassem — expliquei, um amargor subindo pela minha garganta. — Clara sempre foi mestre em criar narrativas.
Fiquei alguns segundos encarando o chão, as memórias da minha partida forçada voltando como ondas em uma tempestade.
— Eu fui embora porque não suportava assistir Clara destruir minha irmã aos poucos — continuei, a voz embargada. — Ela transformou a Giovanna em alguém desconfiada, fria... alguém que já não reconhecia a própria felicidade. Eu tentei lutar, tentei abrir os olhos dela, mas Clara me isolou. No final, tive que sair para sobreviver.
Engoli em seco, sentindo o calor da mão de Sarah buscar a minha no escuro da cabana.
— Mas nunca deixei de cuidar dela — afirmei com convicção. — Sarah é minha namorada. Foi ela quem eu pedi para se aproximar da fazenda. Eu precisava de olhos e ouvidos lá dentro. Eu precisava proteger a Giovanna, mesmo que de longe, mesmo que ela pensasse que eu a abandonei.
Maya arregalou ainda mais os olhos, alternando o olhar entre mim e Sarah.
— Então vocês sabiam da Lorena? — perguntou ela.
— Sabíamos que ela escondia alguma coisa — Sarah respondeu, sua voz firme apesar do cansaço. — Sabíamos que ela manipulava a Giovanna, que alimentava as inseguranças dela. Mas não imaginávamos que ela chegaria a esse ponto. A esse nível de crueldade.
Senti meus punhos se fecharem. A imagem de Lorena segurando Giovanna na entrada da fazenda, fingindo preocupação enquanto orquestrava nossa destruição, fazia meu sangue ferver.
— Lorena não quer dinheiro, Maya — eu disse, olhando-a diretamente nos olhos. — Ela quer a Giovanna.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que a escuridão lá fora. Maya empalideceu, a compreensão finalmente atingindo-a como um soco.
— Ela é obcecada pela minha irmã desde a adolescência — continuei, o desprezo transbordando em cada palavra. — Tudo o que ela fez durante esses anos, cada mentira contada, cada pessoa afastada, teve um único objetivo: isolar a Giovanna. Ela queria que a minha irmã não tivesse ninguém além dela.
— O atentado... — Maya sussurrou, as lágrimas começando a descer por seu rosto pálido.
— Foi ela — confirmei. — Ela armou tudo para que a culpa caísse sobre você. Lorena queria que a Giovanna te odiasse para sempre. Porque, na cabeça doentia dela, se você desaparecesse... se você fosse vista como a traidora... finalmente haveria um espaço vazio ao lado da minha irmã que só ela poderia ocupar.
Maya cobriu o rosto com as mãos, soluçando baixo. A dor da traição e a percepção de que sua vida — e a de Giovanna — haviam sido joguetes nas mãos de uma sociopata eram quase insuportáveis.
— Então... a Giovanna nunca esteve realmente segura... — Maya murmurou por entre os dedos.
Olhei para a pequena janela da cabana. Lá fora, a mata era um muro de sombras, escondendo perigos que ainda não havíamos superado. Mas o maior perigo não estava na floresta; estava na fazenda, consolando minha irmã com palavras de veneno travestidas de carinho.
— Não — respondi, minha voz soando como uma promessa de guerra. — E enquanto a Lorena estiver viva e livre... ela nunca estará.
***
Enquanto isso, na entrada da fazenda Torres, o cenário era de desolação. Giovanna sentia como se o ar ao seu redor tivesse se transformado em chumbo. Cada palavra do policial era um prego no caixão de sua felicidade.
— O carro pegou fogo, senhora. Tudo ficou destruído — repetiu o oficial, a voz carregada de uma piedade que Giovanna não queria aceitar.
— Não, não, não! — Giovanna gritou, sua voz rasgando o silêncio da noite. — Minha mulher não pode ter morrido! Vocês não entendem? A Manoela nunca iria me deixar! Nós estávamos bem!
Ela tentou avançar em direção à estrada, em direção às luzes vermelhas e azuis que piscavam ao longe, mas braços fortes a seguraram. Lorena a envolvia, um abraço que deveria ser de conforto, mas que parecia um cerco.
— Não foi o que pareceu, Gi — disse Lorena, sua voz suave, mas carregada de uma tristeza calculada. Ela forçou Giovanna a olhar em seus olhos, segurando seu rosto com uma firmeza possessiva. — Ela entrou no carro com ele, Giovanna. Ela te usou. A Maya sempre foi igual à irmã dela: só querem o que não lhes pertence.
— Não! — Giovanna negou, balançando a cabeça freneticamente, as lágrimas turvando sua visão. — Ela me amava... eu sei que amava...
— Sim — insistiu Lorena, o tom agora mais frio, mais incisivo. — Ela planejou isso. Ela esperou o momento certo para fugir com o que restava.
— Não, Lorena! — Giovanna se soltou por um instante, a raiva e a dor colidindo dentro de seu peito. — Você não sabe de nada!
— Ei, é a verdade, não é? — Lorena voltou a segurá-la, apertando seus braços com uma força que beirava a agressividade. — Se acalme. Deixe que o doutor Elias termine os exames, ele vai confirmar tudo. Ele vai te mostrar que ela não era quem você pensava.
Giovanna ficou ali, tremendo inteira, o chão parecendo se dissolver sob seus pés. Ela olhou para a casa, para a fazenda que um dia foi seu refúgio, e agora parecia uma prisão de memórias distorcidas. Ela não sabia mais em quem acreditar, o que sentir ou como continuar respirando.
Lorena a puxou para perto novamente, descansando o queixo no ombro de Giovanna. Por trás das costas da amiga, os olhos de Lorena brilhavam com uma satisfação sombria. O plano estava se concretizando. O obstáculo havia sido removido. Agora, Giovanna era dela. Apenas dela.
***
Na cabana, o clima era de urgência. Malu sabia que o tempo estava contra elas. Lorena não era do tipo que deixava pontas soltas. Se ela descobrisse que o acidente não fora fatal, viria terminar o serviço.
— Precisamos de um plano — disse Sarah, tentando se levantar, mas soltando um gemido quando sua perna cedeu.
— Você precisa descansar, Sarah — eu disse, ajudando-a a sentar novamente. — Maya, você também está ferida.
— Eu não me importo com a dor — Maya disse, limpando as lágrimas e revelando um olhar de determinação que eu ainda não tinha visto nela. — Eu preciso chegar até a Giovanna. Eu preciso dizer a ela que eu não fugi, que eu não a traí. Eu não posso deixar que ela acredite nas mentiras daquela mulher.
— Se você aparecer lá agora, Lorena vai te matar antes mesmo de você chegar ao portão — alertei. — Ela controla a segurança, ela controla a polícia local. Estamos em desvantagem.
— Então o que faremos? — perguntou Maya, a voz trêmula mas firme.
Olhei para as duas mulheres à minha frente. Estávamos quebradas, ensanguentadas e escondidas em um buraco no meio do nada. Mas tínhamos a verdade. E a verdade, embora dolorosa, era a única arma que poderia derrubar o império de mentiras que Lorena construiu.
— Vamos esperar o amanhecer — decidi. — Lorena vai pensar que ganhou. Ela vai baixar a guarda. E é nesse momento que vamos atacar. Vou entrar em contato com alguns aliados que ainda tenho na cidade. Pessoas que minha mãe não conseguiu comprar.
Caminhei até a porta e olhei pelo fresta. A lua estava alta, iluminando a floresta com uma luz pálida e fantasmagórica.
— Giovanna sempre foi a mais forte de nós duas — sussurrei, mais para mim mesma do que para as outras. — Mas Lorena a quebrou. Agora, cabe a mim... a nós... juntar os pedaços.
Maya se aproximou, colocando a mão no meu ombro.
— Obrigada, Malu. Por não ter desistido dela.
— Eu nunca desistiria da minha irmã — respondi, olhando para ela. — E agora que sei o quanto você significa para ela, não vou desistir de você também.
O silêncio voltou a reinar na cabana, mas desta vez não era um silêncio de desespero. Era o silêncio que antecede a tempestade. Lorena achava que as chamas haviam consumido seus problemas, mas ela esqueceu que algumas coisas — como a verdade e o amor — são feitas de materiais que o fogo não pode destruir. Elas apenas se tornam mais puras, mais afiadas. E nós estávamos prontas para cortar o mal pela raiz.
