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Acabou
Fandom: Magi
Criado: 14/07/2026
Tags
DramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoSombrioSuspenseSobrevivênciaCiúmesCrimeConsertoGravidez Não Planejada/IndesejadaUso de Drogas
Cinzas de uma Traição Oculta
O mundo de Giovanna Torres Garcia havia se tornado um borrão de luzes vermelhas e azuis, refletidas nas poças de lama da estrada de terra. O som das sirenes parecia perfurar seu crânio, mas nada doía mais do que o vazio que se abrira em seu peito. Ela estava parada diante do capô de uma das viaturas, as pernas transformadas em gelatina, enquanto as palavras do policial ecoavam como uma sentença de morte em sua mente.
— Não... — sussurrou Giovanna, a voz quebrando em um fio de desespero. — Isso não é verdade... me mostrem... eu preciso ver ela...
O policial hesitou, baixando o olhar com uma solenidade que só serviu para aumentar o pânico dela.
— O carro pegou fogo, senhora. Tudo ficou destruído. O impacto foi violento e as chamas não deram chance de resgate imediato.
— Não, não, não! — Giovanna gritou, um som gutural que parecia rasgar sua garganta.
Ela tentou avançar em direção à fita isolante que delimitava a cena do crime, mas braços fortes a envolveram, impedindo-a de dar mais um passo rumo ao abismo. Era Lorena.
— Minha mulher não pode ter morrido! Vocês não entendem? — Giovanna se debatia, as lágrimas turvando sua visão. — A Maya nunca iria me deixar! Nós estávamos bem, tudo estava perfeito!
— Não foi o que pareceu — Lorena disse, segurando o rosto de Giovanna com as duas mãos, forçando-a a focar em seus olhos, que brilhavam com uma tristeza calculada. — Ela entrou no carro com ele, Giovanna. Ela te usou. A Maya sempre foi igual à irmã dela: só querem o que não lhes pertence. Ela estava fugindo, Gio. Aceite isso.
— Não! — Giovanna negou veementemente, balançando a cabeça. — Ela me amava!
— Sim — insistiu Lorena, a voz agora fria e cortante como uma lâmina. — Ela te traiu no momento em que você mais precisava.
— Não, Lorena! — Giovanna conseguiu se soltar por um instante, o peito subindo e descendo em uma respiração descompassada. A raiva começava a se misturar à dor, uma combinação tóxica que a deixava tonta.
— Ei, é a verdade, não é? — Lorena voltou a segurá-la, apertando seus braços com uma força que beirava a agressividade, embora seu rosto ainda simulasse preocupação. — Se acalme. Deixe que o doutor Elias termine os exames nos restos mortais, ele vai confirmar tudo. Você precisa ser forte agora. Por você. Por nós.
Giovanna ficou ali, tremendo inteira, sentindo o calor das lágrimas queimando suas bochechas. O cheiro de queimado que vinha da estrada parecia impregnar sua pele, e o silêncio que se seguiu à explosão de gritos era ainda mais aterrorizante. Ela não sabia em quem acreditar, mas o peso da evidência — o carro destruído, a fuga súbita — começava a esmagar sua esperança.
...
O tempo na fazenda Torres parecia ter estagnado em um crepúsculo eterno. Cada minuto pesava como chumbo. Giovanna estava sentada no degrau da varanda, os braços abraçando os próprios joelhos, o olhar vazio fixo no horizonte onde o sol ameaçava se pôr. Ela não chorava mais com a mesma intensidade; era como se a fonte tivesse secado, restando apenas o deserto de sua alma.
Foi então que o som de pneus sobre o cascalho quebrou o silêncio sepulcral. Um carro preto, imponente e austero, atravessou os portões da propriedade. Assim que o veículo parou, uma mulher elegante desceu apressada. Clara Torres.
Clara nunca havia escondido o desprezo pelo casamento da filha. Para ela, Maya era uma intrusa, uma caçadora de fortunas que não estava à altura do sobrenome Torres. No entanto, ao ver o estado deplorável de Giovanna, qualquer resquício de "eu avisei" desapareceu, substituído pelo instinto maternal de proteção — ou pelo que ela acreditava ser proteção.
— Giovanna... — chamou Clara, aproximando-se com passos firmes.
Ao ouvir aquela voz, Giovanna levantou o rosto. Os olhos vermelhos e inchados encontraram os da mãe. A armadura de orgulho da jovem herdeira desmoronou completamente.
— Mãe... — a voz saiu em um choro sufocado, quase infantil. — A Maya... eles disseram que ela morreu...
Clara não respondeu de imediato. Ela apenas envolveu a filha em um abraço apertado, permitindo que Giovanna soluçasse contra seu ombro.
— Ela não podia me deixar... — gemia a jovem.
— Calma... eu estou aqui — sussurrou Clara, fechando os olhos. — Você não precisa passar por isso sozinha. Eu vou cuidar de tudo agora.
Enquanto mãe e filha se perdiam naquele abraço de dor, Lorena observava a cena de longe, encostada em uma pilastra da varanda. Seus olhos escuros não mostravam piedade, apenas cálculo. Ela esperou pacientemente até que Clara se afastasse de Giovanna para buscar um copo de água, saindo do campo de visão da filha.
Era a oportunidade que Lorena aguardava. Ela caminhou até Clara, interceptando-a perto da entrada da cozinha.
— Dona Clara... podemos conversar? — perguntou Lorena, o tom de voz desprovido da doçura que usava com Giovanna.
Clara virou-se, a expressão endurecida.
— O que foi? Agora não é o momento, Lorena.
— Em particular — insistiu a outra, apontando para um canto mais afastado do jardim, onde os policiais e funcionários não podiam ouvir.
Curiosa e ligeiramente irritada, Clara a seguiu. Quando tiveram certeza da privacidade, Lorena mudou completamente de postura. O rosto preocupado deu lugar a um sorriso frio e vitorioso.
— A senhora vai me ajudar a ficar com a Giovanna — afirmou Lorena, sem rodeios.
Clara soltou uma risada curta e desdenhosa.
— Você deve estar louca. Minha filha acabou de perder a esposa, e você acha que vou brincar de cupido com uma oportunista como você?
— Não estou louca, Dona Clara. Estou sendo prática.
— Nunca vou deixar minha filha nas mãos de qualquer uma, muito menos de alguém que claramente tem segundas intenções.
Lorena deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Clara.
— Vai, sim. A senhora vai me apoiar em cada passo. Vai dizer a ela que eu sou a única pessoa em quem ela pode confiar agora que a "traidora" da Maya se foi.
— E por qual motivo eu faria isso? — Clara cruzou os braços, mantendo a postura arrogante.
Lorena sorriu, um brilho perverso nos olhos.
— Porque eu sei de um segredo seu. Um segredo que destruiria o que resta do amor que a Giovanna sente pela senhora.
Clara permaneceu em silêncio, mas uma leve contração em sua mandíbula não passou despercebida por Lorena.
— Eu sei que foi a senhora quem mandou fazer o atentado contra a Giovanna meses atrás — disparou Lorena.
Pela primeira vez em anos, Clara Torres perdeu a cor. A palidez de seu rosto era quase cadavérica.
— Do... do que você está falando? Isso é um absurdo! Eu nunca machucaria minha filha!
— Não finja para mim. Eu sei que a senhora não queria matá-la. O plano era apenas assustá-la, feri-la o suficiente para que a culpa caísse sobre a Maya. A senhora queria que a Giovanna acreditasse que a esposa estava tentando se livrar dela para ficar com a herança. Queria desfazer o casamento a qualquer custo.
O silêncio entre as duas tornou-se pesado, carregado de uma eletricidade perigosa.
— Se a senhora não me ajudar... eu conto tudo para a Giovanna — ameaçou Lorena, a voz baixa e sibilante. — Imagine a reação dela ao saber que a própria mãe orquestrou um ataque que quase tirou sua vida, tudo por puro controle.
Clara engoliu em seco, sentindo o chão tremer sob seus pés de grife.
— Você está blefando. Não tem provas.
— Tem certeza? — Lorena cruzou os braços, vitoriosa. — Basta uma palavra minha... e sua filha vai descobrir quem é o verdadeiro monstro desta história.
Clara apertou os punhos com tanta força que as unhas cravaram na palma das mãos. Ela estava encurralada pela própria ambição.
— O que você quer? — perguntou Clara, a voz rouca de ódio.
— Quero que faça a Giovanna acreditar que eu sou a única pessoa que realmente está ao lado dela. Quero que a empurre para os meus braços. E, quando chegar a hora... quero a Giovanna comigo, legalmente e emocionalmente.
Clara a encarou com um desprezo profundo.
— Você é doente, Lorena. É uma psicopata.
— Talvez — admitiu Lorena com um sorriso gélido. — Mas agora a decisão é sua. Ou me ajuda a "confortar" sua filha... ou ela descobre quem a senhora realmente é. E garanto que ela nunca mais olhará na sua cara.
...
Enquanto a conspiração se tecia na mansão, a quilômetros dali, em um cenário de destruição e sombras, a realidade era outra.
A dor foi a primeira coisa que Malu Torres sentiu. Era uma dor lancinante, como se cada osso do seu corpo tivesse sido triturado por uma prensa hidráulica. Ela abriu os olhos lentamente, a visão embaçada encontrando um retalho de céu azul-escuro por entre a fumaça preta e espessa que ainda subia das carcaças de metal retorcido.
O gosto metálico de sangue invadia sua boca. Ela tentou se mexer, mas um grito mudo ficou preso em sua garganta quando uma pontada forte atingiu suas costelas.
— Sarah...? — a voz de Malu saiu fraca, um sussurro perdido no vento.
Ela virou o rosto com dificuldade. Alguns metros adiante, Sarah e Maya estavam caídas na grama alta, imóveis como estátuas de cera. O pânico, mais forte que a dor física, fez o coração de Malu disparar.
Ignorando o protesto de seus músculos, ela começou a se arrastar pelo chão, as unhas cravando na terra.
— Não... não... por favor... — murmurava ela.
Ela alcançou Sarah primeiro. Sacudiu a namorada com desespero. Nada. O silêncio era aterrorizante. Depois, arrastou-se até Maya.
— Acorda... por favor... vocês precisam acordar...
Por alguns segundos eternos, Malu acreditou que era a única sobrevivente de um massacre. Então, um som maravilhoso: Sarah tossiu, expelindo a fuligem dos pulmões. Logo em seguida, Maya soltou um gemido baixo, movendo os dedos da mão direita.
Malu quase desabou de alívio, as lágrimas limpando trilhas de sujeira em seu rosto.
— Luiza...? — Maya murmurou, ainda zonza, tentando focar a visão.
Malu sorriu entre lágrimas de dor e exaustão.
— Sou eu. Mas agora precisamos sair daqui. A explosão vai chamar atenção de quilômetros. Se a polícia ou, pior, os homens da Lorena encontrarem a gente... acabou. Eles precisam acreditar que morremos naquele carro.
Com uma força que nenhuma delas sabia que possuía, conseguiram se levantar. Cada passo era uma tortura, um lembrete do impacto violento que sofreram. Elas se apoiaram umas nas outras e entraram na mata fechada, caminhando sem direção, guiadas apenas pelo instinto de sobrevivência.
Horas depois, quando as pernas já não obedeciam e o frio da noite começava a castigar, encontraram uma pequena cabana abandonada, escondida entre árvores centenárias. Parecia um antigo abrigo de caçadores, quase invisível sob a vegetação.
Entraram e Malu fechou a porta, escorando-se nela. Só então permitiu que seu corpo desabasse no chão de madeira empoeirado. O silêncio permaneceu por vários minutos, interrompido apenas pela respiração pesada das três.
Maya, sentada em um canto, olhava fixamente para Sarah. A confusão em seu rosto começava a dar lugar a uma lembrança nítida.
— Eu conheço você... — disse Maya, a voz ganhando firmeza.
Sarah ergueu a cabeça, limpando um corte na testa.
— Conhece.
— Você levou a Giovanna bêbada para a fazenda... meses atrás. Você era a "desconhecida" que apareceu do nada.
Sarah apenas assentiu silenciosamente. Maya voltou seus olhos para Malu, que tentava estancar um sangramento na perna.
— E você... — Maya respirou fundo, sentindo o peso das mentiras se dissipando. — Quem é você de verdade? Você não é apenas uma funcionária que decidiu me ajudar. Ninguém arrisca a vida assim por uma estranha.
Malu fechou os olhos por alguns segundos. O segredo que carregara por tanto tempo pesava mais que suas feridas. Chegara a hora da verdade.
— Meu nome não é Luiza — disse ela, levantando o olhar e encarando Maya nos olhos. — Eu sou Malu.
O choque surgiu imediatamente no rosto de Maya. Ela conhecia aquele nome dos porta-retratos escondidos e das histórias sussurradas nos corredores da mansão.
— Malu... Torres? — perguntou Maya, incrédula.
— Sim — assentiu Malu.
— A irmã da Giovanna... a que todos diziam que odiava a família...
— Era isso que minha mãe queria que todos acreditassem — Malu soltou um riso amargo. — Ela criou essa narrativa para justificar meu afastamento.
Ela ficou alguns segundos encarando o chão, as memórias de Clara Torres agindo como sombras em sua mente.
— Eu fui embora porque não suportava assistir Clara destruir minha irmã aos poucos. Minha mãe é uma colecionadora de pessoas, Maya. Ela transformou a Giovanna em alguém desconfiada, fria... alguém que já não reconhecia a própria felicidade, tudo para que ela fosse a herdeira perfeita sob o controle dela.
Malu engoliu em seco, a emoção transbordando.
— Mas eu nunca deixei de cuidar dela. Mesmo de longe, eu precisava saber se ela estava segura.
Ela olhou para Sarah, que se aproximou e apertou sua mão com carinho.
— Sarah é minha namorada — revelou Malu. — Nós estamos juntas nessa há muito tempo.
Maya arregalou os olhos, as peças do quebra-cabeça finalmente se encaixando.
— Foi a Malu quem me pediu para me aproximar da fazenda — explicou Sarah. — Eu precisava descobrir o que acontecia lá dentro, quem eram os aliados e quem eram os inimigos da Giovanna.
— Eu precisava proteger minha irmã — completou Malu. — Especialmente depois que soube que ela tinha se casado com você. No início, eu achei que você fosse o perigo. Mas logo percebi que o verdadeiro mal morava ao lado dela, no quarto de hóspedes.
Maya respirava devagar, sentindo o impacto das revelações.
— Então vocês sabiam da Lorena?
— Sabíamos que ela escondia alguma coisa — Sarah respondeu. — Que a obsessão dela pela Giovanna não era apenas amizade de infância.
— Mas não imaginávamos que ela chegaria a esse ponto — Malu fechou os punhos, a raiva pulsando em suas veias. — Lorena não quer o dinheiro dos Torres, Maya. Ela nunca quis.
Malu olhou diretamente para Maya, a expressão carregada de urgência.
— Ela quer a Giovanna. Como um troféu. Como uma posse.
O silêncio tomou conta da cabana, apenas o som do vento lá fora quebrava a quietude.
— Ela é obcecada pela minha irmã desde a adolescência — continuou Malu, o desprezo evidente em sua voz. — Tudo o que ela fez durante esses anos — cada intriga, cada "conselho" venenoso, cada manipulação — teve um único objetivo: isolar a Giovanna. Afastar qualquer pessoa que pudesse fazê-la feliz ou independente. Ela quer que a Giovanna sinta que o mundo é um lugar cruel e que apenas a Lorena é o seu porto seguro.
— E agora ela acha que eu estou morta — sussurrou Maya, o horror crescendo em seu peito. — Ela vai usar o meu "falecimento" para se aproximar ainda mais.
— Exatamente — Malu afirmou. — Ela vai se fingir de ombro amigo enquanto termina de quebrar o espírito da Giovanna. E minha mãe, por medo ou conveniência, vai ajudá-la.
Maya tentou se levantar, mas a dor a fez vacilar.
— Temos que voltar. Eu preciso dizer a ela que estou viva!
— Agora não — Malu a segurou pelo ombro com firmeza. — Se você aparecer agora, Lorena vai dar um jeito de terminar o serviço. Elas têm o controle da narrativa. Precisamos ser mais espertas. Elas acham que ganharam. Deixe que celebrem a vitória sobre as cinzas. É no momento de maior confiança delas que nós vamos derrubar esse império de mentiras.
Maya olhou para a janela da cabana, para a escuridão da floresta. Seu coração doía por Giovanna, imaginando o sofrimento da esposa, mas ela sabia que Malu tinha razão. A guerra apenas começara, e desta vez, as Torres que realmente amavam Giovanna estavam unidas nas sombras.
— Não... — sussurrou Giovanna, a voz quebrando em um fio de desespero. — Isso não é verdade... me mostrem... eu preciso ver ela...
O policial hesitou, baixando o olhar com uma solenidade que só serviu para aumentar o pânico dela.
— O carro pegou fogo, senhora. Tudo ficou destruído. O impacto foi violento e as chamas não deram chance de resgate imediato.
— Não, não, não! — Giovanna gritou, um som gutural que parecia rasgar sua garganta.
Ela tentou avançar em direção à fita isolante que delimitava a cena do crime, mas braços fortes a envolveram, impedindo-a de dar mais um passo rumo ao abismo. Era Lorena.
— Minha mulher não pode ter morrido! Vocês não entendem? — Giovanna se debatia, as lágrimas turvando sua visão. — A Maya nunca iria me deixar! Nós estávamos bem, tudo estava perfeito!
— Não foi o que pareceu — Lorena disse, segurando o rosto de Giovanna com as duas mãos, forçando-a a focar em seus olhos, que brilhavam com uma tristeza calculada. — Ela entrou no carro com ele, Giovanna. Ela te usou. A Maya sempre foi igual à irmã dela: só querem o que não lhes pertence. Ela estava fugindo, Gio. Aceite isso.
— Não! — Giovanna negou veementemente, balançando a cabeça. — Ela me amava!
— Sim — insistiu Lorena, a voz agora fria e cortante como uma lâmina. — Ela te traiu no momento em que você mais precisava.
— Não, Lorena! — Giovanna conseguiu se soltar por um instante, o peito subindo e descendo em uma respiração descompassada. A raiva começava a se misturar à dor, uma combinação tóxica que a deixava tonta.
— Ei, é a verdade, não é? — Lorena voltou a segurá-la, apertando seus braços com uma força que beirava a agressividade, embora seu rosto ainda simulasse preocupação. — Se acalme. Deixe que o doutor Elias termine os exames nos restos mortais, ele vai confirmar tudo. Você precisa ser forte agora. Por você. Por nós.
Giovanna ficou ali, tremendo inteira, sentindo o calor das lágrimas queimando suas bochechas. O cheiro de queimado que vinha da estrada parecia impregnar sua pele, e o silêncio que se seguiu à explosão de gritos era ainda mais aterrorizante. Ela não sabia em quem acreditar, mas o peso da evidência — o carro destruído, a fuga súbita — começava a esmagar sua esperança.
...
O tempo na fazenda Torres parecia ter estagnado em um crepúsculo eterno. Cada minuto pesava como chumbo. Giovanna estava sentada no degrau da varanda, os braços abraçando os próprios joelhos, o olhar vazio fixo no horizonte onde o sol ameaçava se pôr. Ela não chorava mais com a mesma intensidade; era como se a fonte tivesse secado, restando apenas o deserto de sua alma.
Foi então que o som de pneus sobre o cascalho quebrou o silêncio sepulcral. Um carro preto, imponente e austero, atravessou os portões da propriedade. Assim que o veículo parou, uma mulher elegante desceu apressada. Clara Torres.
Clara nunca havia escondido o desprezo pelo casamento da filha. Para ela, Maya era uma intrusa, uma caçadora de fortunas que não estava à altura do sobrenome Torres. No entanto, ao ver o estado deplorável de Giovanna, qualquer resquício de "eu avisei" desapareceu, substituído pelo instinto maternal de proteção — ou pelo que ela acreditava ser proteção.
— Giovanna... — chamou Clara, aproximando-se com passos firmes.
Ao ouvir aquela voz, Giovanna levantou o rosto. Os olhos vermelhos e inchados encontraram os da mãe. A armadura de orgulho da jovem herdeira desmoronou completamente.
— Mãe... — a voz saiu em um choro sufocado, quase infantil. — A Maya... eles disseram que ela morreu...
Clara não respondeu de imediato. Ela apenas envolveu a filha em um abraço apertado, permitindo que Giovanna soluçasse contra seu ombro.
— Ela não podia me deixar... — gemia a jovem.
— Calma... eu estou aqui — sussurrou Clara, fechando os olhos. — Você não precisa passar por isso sozinha. Eu vou cuidar de tudo agora.
Enquanto mãe e filha se perdiam naquele abraço de dor, Lorena observava a cena de longe, encostada em uma pilastra da varanda. Seus olhos escuros não mostravam piedade, apenas cálculo. Ela esperou pacientemente até que Clara se afastasse de Giovanna para buscar um copo de água, saindo do campo de visão da filha.
Era a oportunidade que Lorena aguardava. Ela caminhou até Clara, interceptando-a perto da entrada da cozinha.
— Dona Clara... podemos conversar? — perguntou Lorena, o tom de voz desprovido da doçura que usava com Giovanna.
Clara virou-se, a expressão endurecida.
— O que foi? Agora não é o momento, Lorena.
— Em particular — insistiu a outra, apontando para um canto mais afastado do jardim, onde os policiais e funcionários não podiam ouvir.
Curiosa e ligeiramente irritada, Clara a seguiu. Quando tiveram certeza da privacidade, Lorena mudou completamente de postura. O rosto preocupado deu lugar a um sorriso frio e vitorioso.
— A senhora vai me ajudar a ficar com a Giovanna — afirmou Lorena, sem rodeios.
Clara soltou uma risada curta e desdenhosa.
— Você deve estar louca. Minha filha acabou de perder a esposa, e você acha que vou brincar de cupido com uma oportunista como você?
— Não estou louca, Dona Clara. Estou sendo prática.
— Nunca vou deixar minha filha nas mãos de qualquer uma, muito menos de alguém que claramente tem segundas intenções.
Lorena deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Clara.
— Vai, sim. A senhora vai me apoiar em cada passo. Vai dizer a ela que eu sou a única pessoa em quem ela pode confiar agora que a "traidora" da Maya se foi.
— E por qual motivo eu faria isso? — Clara cruzou os braços, mantendo a postura arrogante.
Lorena sorriu, um brilho perverso nos olhos.
— Porque eu sei de um segredo seu. Um segredo que destruiria o que resta do amor que a Giovanna sente pela senhora.
Clara permaneceu em silêncio, mas uma leve contração em sua mandíbula não passou despercebida por Lorena.
— Eu sei que foi a senhora quem mandou fazer o atentado contra a Giovanna meses atrás — disparou Lorena.
Pela primeira vez em anos, Clara Torres perdeu a cor. A palidez de seu rosto era quase cadavérica.
— Do... do que você está falando? Isso é um absurdo! Eu nunca machucaria minha filha!
— Não finja para mim. Eu sei que a senhora não queria matá-la. O plano era apenas assustá-la, feri-la o suficiente para que a culpa caísse sobre a Maya. A senhora queria que a Giovanna acreditasse que a esposa estava tentando se livrar dela para ficar com a herança. Queria desfazer o casamento a qualquer custo.
O silêncio entre as duas tornou-se pesado, carregado de uma eletricidade perigosa.
— Se a senhora não me ajudar... eu conto tudo para a Giovanna — ameaçou Lorena, a voz baixa e sibilante. — Imagine a reação dela ao saber que a própria mãe orquestrou um ataque que quase tirou sua vida, tudo por puro controle.
Clara engoliu em seco, sentindo o chão tremer sob seus pés de grife.
— Você está blefando. Não tem provas.
— Tem certeza? — Lorena cruzou os braços, vitoriosa. — Basta uma palavra minha... e sua filha vai descobrir quem é o verdadeiro monstro desta história.
Clara apertou os punhos com tanta força que as unhas cravaram na palma das mãos. Ela estava encurralada pela própria ambição.
— O que você quer? — perguntou Clara, a voz rouca de ódio.
— Quero que faça a Giovanna acreditar que eu sou a única pessoa que realmente está ao lado dela. Quero que a empurre para os meus braços. E, quando chegar a hora... quero a Giovanna comigo, legalmente e emocionalmente.
Clara a encarou com um desprezo profundo.
— Você é doente, Lorena. É uma psicopata.
— Talvez — admitiu Lorena com um sorriso gélido. — Mas agora a decisão é sua. Ou me ajuda a "confortar" sua filha... ou ela descobre quem a senhora realmente é. E garanto que ela nunca mais olhará na sua cara.
...
Enquanto a conspiração se tecia na mansão, a quilômetros dali, em um cenário de destruição e sombras, a realidade era outra.
A dor foi a primeira coisa que Malu Torres sentiu. Era uma dor lancinante, como se cada osso do seu corpo tivesse sido triturado por uma prensa hidráulica. Ela abriu os olhos lentamente, a visão embaçada encontrando um retalho de céu azul-escuro por entre a fumaça preta e espessa que ainda subia das carcaças de metal retorcido.
O gosto metálico de sangue invadia sua boca. Ela tentou se mexer, mas um grito mudo ficou preso em sua garganta quando uma pontada forte atingiu suas costelas.
— Sarah...? — a voz de Malu saiu fraca, um sussurro perdido no vento.
Ela virou o rosto com dificuldade. Alguns metros adiante, Sarah e Maya estavam caídas na grama alta, imóveis como estátuas de cera. O pânico, mais forte que a dor física, fez o coração de Malu disparar.
Ignorando o protesto de seus músculos, ela começou a se arrastar pelo chão, as unhas cravando na terra.
— Não... não... por favor... — murmurava ela.
Ela alcançou Sarah primeiro. Sacudiu a namorada com desespero. Nada. O silêncio era aterrorizante. Depois, arrastou-se até Maya.
— Acorda... por favor... vocês precisam acordar...
Por alguns segundos eternos, Malu acreditou que era a única sobrevivente de um massacre. Então, um som maravilhoso: Sarah tossiu, expelindo a fuligem dos pulmões. Logo em seguida, Maya soltou um gemido baixo, movendo os dedos da mão direita.
Malu quase desabou de alívio, as lágrimas limpando trilhas de sujeira em seu rosto.
— Luiza...? — Maya murmurou, ainda zonza, tentando focar a visão.
Malu sorriu entre lágrimas de dor e exaustão.
— Sou eu. Mas agora precisamos sair daqui. A explosão vai chamar atenção de quilômetros. Se a polícia ou, pior, os homens da Lorena encontrarem a gente... acabou. Eles precisam acreditar que morremos naquele carro.
Com uma força que nenhuma delas sabia que possuía, conseguiram se levantar. Cada passo era uma tortura, um lembrete do impacto violento que sofreram. Elas se apoiaram umas nas outras e entraram na mata fechada, caminhando sem direção, guiadas apenas pelo instinto de sobrevivência.
Horas depois, quando as pernas já não obedeciam e o frio da noite começava a castigar, encontraram uma pequena cabana abandonada, escondida entre árvores centenárias. Parecia um antigo abrigo de caçadores, quase invisível sob a vegetação.
Entraram e Malu fechou a porta, escorando-se nela. Só então permitiu que seu corpo desabasse no chão de madeira empoeirado. O silêncio permaneceu por vários minutos, interrompido apenas pela respiração pesada das três.
Maya, sentada em um canto, olhava fixamente para Sarah. A confusão em seu rosto começava a dar lugar a uma lembrança nítida.
— Eu conheço você... — disse Maya, a voz ganhando firmeza.
Sarah ergueu a cabeça, limpando um corte na testa.
— Conhece.
— Você levou a Giovanna bêbada para a fazenda... meses atrás. Você era a "desconhecida" que apareceu do nada.
Sarah apenas assentiu silenciosamente. Maya voltou seus olhos para Malu, que tentava estancar um sangramento na perna.
— E você... — Maya respirou fundo, sentindo o peso das mentiras se dissipando. — Quem é você de verdade? Você não é apenas uma funcionária que decidiu me ajudar. Ninguém arrisca a vida assim por uma estranha.
Malu fechou os olhos por alguns segundos. O segredo que carregara por tanto tempo pesava mais que suas feridas. Chegara a hora da verdade.
— Meu nome não é Luiza — disse ela, levantando o olhar e encarando Maya nos olhos. — Eu sou Malu.
O choque surgiu imediatamente no rosto de Maya. Ela conhecia aquele nome dos porta-retratos escondidos e das histórias sussurradas nos corredores da mansão.
— Malu... Torres? — perguntou Maya, incrédula.
— Sim — assentiu Malu.
— A irmã da Giovanna... a que todos diziam que odiava a família...
— Era isso que minha mãe queria que todos acreditassem — Malu soltou um riso amargo. — Ela criou essa narrativa para justificar meu afastamento.
Ela ficou alguns segundos encarando o chão, as memórias de Clara Torres agindo como sombras em sua mente.
— Eu fui embora porque não suportava assistir Clara destruir minha irmã aos poucos. Minha mãe é uma colecionadora de pessoas, Maya. Ela transformou a Giovanna em alguém desconfiada, fria... alguém que já não reconhecia a própria felicidade, tudo para que ela fosse a herdeira perfeita sob o controle dela.
Malu engoliu em seco, a emoção transbordando.
— Mas eu nunca deixei de cuidar dela. Mesmo de longe, eu precisava saber se ela estava segura.
Ela olhou para Sarah, que se aproximou e apertou sua mão com carinho.
— Sarah é minha namorada — revelou Malu. — Nós estamos juntas nessa há muito tempo.
Maya arregalou os olhos, as peças do quebra-cabeça finalmente se encaixando.
— Foi a Malu quem me pediu para me aproximar da fazenda — explicou Sarah. — Eu precisava descobrir o que acontecia lá dentro, quem eram os aliados e quem eram os inimigos da Giovanna.
— Eu precisava proteger minha irmã — completou Malu. — Especialmente depois que soube que ela tinha se casado com você. No início, eu achei que você fosse o perigo. Mas logo percebi que o verdadeiro mal morava ao lado dela, no quarto de hóspedes.
Maya respirava devagar, sentindo o impacto das revelações.
— Então vocês sabiam da Lorena?
— Sabíamos que ela escondia alguma coisa — Sarah respondeu. — Que a obsessão dela pela Giovanna não era apenas amizade de infância.
— Mas não imaginávamos que ela chegaria a esse ponto — Malu fechou os punhos, a raiva pulsando em suas veias. — Lorena não quer o dinheiro dos Torres, Maya. Ela nunca quis.
Malu olhou diretamente para Maya, a expressão carregada de urgência.
— Ela quer a Giovanna. Como um troféu. Como uma posse.
O silêncio tomou conta da cabana, apenas o som do vento lá fora quebrava a quietude.
— Ela é obcecada pela minha irmã desde a adolescência — continuou Malu, o desprezo evidente em sua voz. — Tudo o que ela fez durante esses anos — cada intriga, cada "conselho" venenoso, cada manipulação — teve um único objetivo: isolar a Giovanna. Afastar qualquer pessoa que pudesse fazê-la feliz ou independente. Ela quer que a Giovanna sinta que o mundo é um lugar cruel e que apenas a Lorena é o seu porto seguro.
— E agora ela acha que eu estou morta — sussurrou Maya, o horror crescendo em seu peito. — Ela vai usar o meu "falecimento" para se aproximar ainda mais.
— Exatamente — Malu afirmou. — Ela vai se fingir de ombro amigo enquanto termina de quebrar o espírito da Giovanna. E minha mãe, por medo ou conveniência, vai ajudá-la.
Maya tentou se levantar, mas a dor a fez vacilar.
— Temos que voltar. Eu preciso dizer a ela que estou viva!
— Agora não — Malu a segurou pelo ombro com firmeza. — Se você aparecer agora, Lorena vai dar um jeito de terminar o serviço. Elas têm o controle da narrativa. Precisamos ser mais espertas. Elas acham que ganharam. Deixe que celebrem a vitória sobre as cinzas. É no momento de maior confiança delas que nós vamos derrubar esse império de mentiras.
Maya olhou para a janela da cabana, para a escuridão da floresta. Seu coração doía por Giovanna, imaginando o sofrimento da esposa, mas ela sabia que Malu tinha razão. A guerra apenas começara, e desta vez, as Torres que realmente amavam Giovanna estavam unidas nas sombras.
