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Fandom: Magi

Criado: 14/07/2026

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DramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoSuspenseSobrevivênciaCrimeGravidez Não Planejada/IndesejadaMistérioDivergênciaConserto
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Entre Cinzas e Mentiras

**Ponto de Vista: Giovanna Torres Garcia**

O silêncio do quarto de hóspedes, onde minha mãe insistira para que eu ficasse, era ensurdecedor. Eu estava deitada na cama, mas meus olhos não se fechavam. Sempre que eu piscava, via o clarão das chamas que o policial descrevera. Imaginava o metal retorcido, o calor insuportável e, o pior de tudo, a ideia de que o último suspiro de Maya foi preenchido por dor e medo.

A porta se abriu suavemente, e Clara entrou carregando uma bandeja com chá. Ela parecia a personificação da compostura, nem um fio de cabelo fora do lugar, contrastando dolorosamente com o meu estado — roupas amassadas, rosto inchado e o coração em farrapos.

— Você precisa comer algo, Giovanna — disse ela, colocando a bandeja na mesa de cabeceira com um som metálico seco. — O luto não justifica a autodestruição.

— Como você pode ser tão fria? — Minha voz saiu rouca, quase irreconhecível. — A Maya morreu, mãe. Minha esposa morreu.

Clara sentou-se na beira da cama e passou a mão pelo meu cabelo. O gesto, que deveria ser de carinho, pareceu-me calculado, pesado.

— Eu sinto muito pela sua dor, querida. De verdade. Mas você precisa começar a encarar a realidade. A Maya não era quem você pensava. Ela fugiu, Giovanna. Ela estava no carro com aquele homem, levando sabe-se lá o que da nossa família.

— Ela não fugiu! — gritei, sentando-me abruptamente. — Ela foi levada, ou estava tentando se explicar... ela me amava!

— O amor cega, minha filha — Clara interrompeu, o tom tornando-se mais rígido. — Lorena me contou tudo. Maya estava em contato com pessoas perigosas. Ela te usou como um escudo, como um passaporte para uma vida que ela nunca poderia sustentar sozinha. O acidente foi uma tragédia, sim, mas talvez tenha sido o destino protegendo você de uma traição ainda maior.

— O destino? — Ri amargamente, as lágrimas voltando a arder. — Você sempre odiou ela. Está feliz agora, não está?

— Estou feliz por você estar viva — rebateu ela, sem hesitar. — Agora, ouça-me bem. Lorena é a única que esteve ao seu lado desde o início. Ela se arriscou para te contar a verdade. Enquanto o mundo desaba, ela é a única em quem você pode realmente confiar. Não afaste quem te ama de verdade por causa de uma memória manchada.

Minha mãe se levantou, caminhando até a porta.

— Descanse. Amanhã teremos que lidar com os trâmites legais. E agradeça a Lorena por ser sua rocha neste momento. Eu não sei o que seria de você sem ela.

Quando ela saiu, enterrei meu rosto no travesseiro e gritei. Eu me sentia perdida em um labirinto onde cada parede tinha o rosto de Maya, mas cada saída estava bloqueada pelas palavras venenosas de minha mãe e de Lorena.

....

**Ponto de Vista: Narradora**

Enquanto a opressão pairava sobre a mansão Torres, a quilômetros dali, dentro da cabana úmida e escura, o clima era de urgência e revelação. O choque de Maya ao descobrir a verdadeira identidade de Malu ainda vibrava no ar, mas a necessidade de sobrevivência falava mais alto.

Malu, apesar da dor na perna, levantou-se com dificuldade, apoiando-se em Sarah.

— Não podemos ficar aqui até o amanhecer — decretou Malu. — Se a Lorena enviou alguém para conferir os destroços e eles não encontrarem restos mortais suficientes, vão começar a vasculhar a mata. Eu tenho uma propriedade... um refúgio que nem mesmo minha mãe conhece.

— Você tem um lugar escondido? — perguntou Maya, ainda processando o fato de que a cunhada "renegada" estava viva e era sua salvadora.

— Comprei em um nome falso anos atrás — explicou Malu, fazendo uma careta de dor ao dar o primeiro passo. — É uma casa de campo pequena, a duas horas de caminhada por trilhas internas. Lá teremos suprimentos médicos e segurança.

Elas iniciaram a jornada sob o manto da escuridão. O caminho era íngreme e traiçoeiro. Maya caminhava em silêncio, o corpo protestando a cada movimento, mas algo dentro dela parecia diferente. Não era apenas a dor do acidente ou o peso da adrenalina.

No meio do caminho, Maya parou de repente, levando a mão à boca. O estômago deu um solavanco violento, e uma onda de náusea a atingiu com tanta força que ela precisou se apoiar em uma árvore para não cair.

— Maya? — Sarah, que vinha logo atrás cuidando da retaguarda, aproximou-se rapidamente. — Você está bem? É a dor das costelas?

Maya balançou a cabeça, tentando respirar fundo. O suor frio brotou em sua testa.

— Não sei... — sussurrou Maya. — É um enjoo... uma tontura estranha. Deve ser o impacto da batida. Meu corpo está um caos.

Sarah estreitou os olhos, observando a palidez de Maya sob a luz da lua. Ela notou como a mão de Maya desceu instintivamente para a região do ventre, um gesto protetor e inconsciente. Como alguém que já vira muitas situações de emergência e conhecia os sinais do corpo feminino, uma suspeita começou a se formar na mente de Sarah.

— Você bateu a cabeça com força? — perguntou Sarah, analisando as pupilas de Maya.

— Um pouco — respondeu Maya, recuperando o fôlego. — Mas esse enjoo... é diferente. Parece que tudo ao meu redor está girando.

Sarah não disse nada. Ela olhou para Malu, que estava alguns metros à frente, concentrada em encontrar a trilha correta. Malu não percebera o breve colapso de Maya. Sarah decidiu guardar suas suspeitas para si por enquanto; o momento era delicado demais para adicionar mais uma variável explosiva àquela fuga.

— Beba um pouco de água — Sarah ofereceu o cantil. — Vamos devagar. Estamos quase chegando.

Maya assentiu, embora o gosto da água parecesse metálico e desagradável em sua boca. Ela se sentia estranhamente sensível a cheiros, até mesmo ao odor de terra úmida e fumaça que impregnava suas roupas.

....

Finalmente, as luzes de uma pequena construção de madeira e pedra surgiram entre as árvores. Era uma casa rústica, mas sólida, cercada por uma cerca de arame camuflada pela vegetação. Malu destrancou a porta com uma chave que trazia em um cordão no pescoço.

— Entrem. Rápido — ordenou Malu.

O interior era simples: uma lareira, sofás cobertos com lençóis e uma despensa abastecida. Assim que as luzes foram acesas — alimentadas por um gerador solar — a extensão dos danos físicos ficou clara. Maya estava coberta de fuligem e sangue seco, mas era a sua expressão de exaustão profunda que mais preocupava Sarah.

Malu desabou em uma cadeira, começando a cuidar do próprio ferimento na perna com um kit de primeiros socorros que Sarah buscou.

— Maya, você precisa descansar — disse Malu, sem olhar para cima. — Tem um quarto no fundo. Sarah, ajude ela.

— Eu estou bem — mentiu Maya, mas assim que tentou dar um passo, a tontura voltou.

Sarah a segurou pelo braço, firme.

— Você não está bem. Venha.

No pequeno quarto, Sarah ajudou Maya a se sentar na cama. O silêncio entre as duas era carregado. Sarah pegou um pano úmido e começou a limpar o rosto de Maya com cuidado.

— Há quanto tempo você e a Giovanna...? — Sarah começou a pergunta, mas hesitou.

— O quê? — Maya olhou para ela, confusa.

— Nada. Esqueça — Sarah forçou um sorriso encorajador. — Você passou por um trauma terrível. É normal o corpo reagir assim.

— Malu disse que a Lorena quer a Giovanna como um troféu — disse Maya, mudando de assunto, a voz embargada. — Eu não consigo parar de pensar nela. No que ela está sentindo agora. Ela acha que eu a traí... que eu morri enquanto fugia com outro homem. Isso está matando ela por dentro, Sarah.

— Eu sei — respondeu Sarah, com sinceridade. — Mas se você voltar agora, você morre de verdade. E a Giovanna ficaria sozinha com aqueles monstros. Para salvar a Giovanna, você precisa primeiro se fortalecer.

Maya deitou-se, fechando os olhos. O cheiro do sabão neutro no pano que Sarah usara parecia subitamente forte demais, fazendo seu estômago revirar novamente. Ela tentou ignorar a sensação, atribuindo tudo ao estresse.

Enquanto isso, na sala, Malu terminava de enfaixar a perna. Seus olhos estavam fixos em um mapa da região estendido sobre a mesa. A raiva que ela sentia pela mãe e por Lorena era o combustível que a mantinha de pé.

Sarah saiu do quarto e encostou-se no batente da porta, observando a namorada.

— Ela dormiu — disse Sarah em voz baixa.

— Ótimo. Ela vai precisar de forças para o que vem por aí — comentou Malu, sem desviar o olhar do mapa. — Amanhã vou começar a monitorar as frequências da polícia e as notícias. Quero saber exatamente o que Clara e Lorena estão dizendo ao mundo.

Sarah caminhou até Malu e colocou a mão sobre o ombro dela.

— Malu... a Maya está muito mal fisicamente. Mais do que apenas ferimentos de um acidente.

Malu finalmente levantou o rosto, a testa franzida em preocupação.

— O que você quer dizer? Ela teve uma hemorragia interna?

— Não sei ao certo — Sarah ponderou, escolhendo as palavras. — Mas ela está apresentando sintomas que não me parecem ser apenas do choque. Enjoos súbitos, sensibilidade a cheiros, uma exaustão que ultrapassa o cansaço físico.

Malu arregalou os olhos, a compreensão começando a surgir.

— Você acha que...?

— É uma possibilidade — interrompeu Sarah. — Mas ela ainda não percebeu. E acho melhor não dizermos nada até termos certeza. Se ela estiver grávida, Malu, os riscos triplicam. A Lorena não vai apenas querer tirá-la do caminho... ela vai querer eliminar qualquer vínculo que prenda a Giovanna à memória da Maya.

Malu deu um soco leve na mesa, a frustração evidente.

— Se isso for verdade, minha irmã tem um herdeiro. E isso daria a ela uma força que nem minha mãe, nem a Lorena poderiam controlar. Mas também coloca um alvo gigante nas costas da Maya.

— Por isso precisamos mantê-la aqui — disse Sarah. — Escondida. Até que tenhamos um plano para desmascarar a Lorena na frente de todos.

Malu suspirou, recostando-se na cadeira.

— Minha mãe acha que me destruiu quando me expulsou. Lorena acha que venceu porque "eliminou" a concorrência. Elas não perdem por esperar. Elas mexeram com as pessoas erradas.

Naquela noite, sob o teto da cabana escondida, o destino da família Torres começou a ser reescrito. Enquanto Giovanna chorava a perda de sua vida em uma mansão de ouro e mentiras, a semente de uma nova vida e de uma vingança implacável começava a germinar no coração da floresta. Maya, em seu sono agitado, sonhou com o mar, com o toque de Giovanna e com uma promessa que nem mesmo a morte ou o fogo poderiam apagar. A guerra estava apenas começando.
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