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Amor in/possivel

Fandom: Wandinha

Criado: 15/07/2026

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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoSombrioMistérioDetetiveNoir GóticoDivergênciaHorror Corporal
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O Eco do Sangue e o Peso do Esquecimento

A névoa de Nevermore nunca pareceu tão densa, ou talvez fosse apenas o peso da atmosfera que se instalava sobre a escola após o retorno das aulas. Wandinha Addams caminhava pelos corredores com sua habitual rigidez cadavérica, mas seus pensamentos estavam longe da monotonia das aulas de botânica carnívora. Novas mortes haviam ocorrido. O padrão era diferente, mais cirúrgico, porém igualmente brutal. E ela sabia que, para decifrar o novo enigma, precisava de informações que apenas um monstro poderia fornecer.

No entanto, havia um problema. Tyler Galpin, agora sob custódia pesada em uma instalação subterrânea de segurança máxima, não falaria com ela. A última vez que se viram, ele tentou matá-la, e ela o enviou para uma jaula. O ódio dele por Wandinha era a única coisa que rivalizava com sua sede de sangue.

Wandinha parou diante de uma porta de madeira escura no final do corredor leste. Aquele era o quarto de Clara Addams.

Clara era a anomalia da família. Um ano mais velha que Wandinha, ela não possuía a obsessão pela morte de Morticia ou a destreza física de Gomez. Clara era uma sombra suave em uma casa de sombras aterradoras. Gordinha, com curvas que ela tentava esconder sob roupas largas e escuras, e olhos que carregavam uma melancolia profunda, Clara era a Addams que a própria família parecia esquecer de convidar para o jantar. Ela vivia em um estado de depressão latente, sentindo-se uma nota fora do tom na sinfonia macabra da linhagem.

Mas ela tinha um segredo. Um segredo que queimava.

Wandinha bateu na porta. Não esperou resposta antes de entrar.

O quarto cheirava a incenso de sândalo e livros velhos. Clara estava sentada no parapeito da janela, observando a chuva cair. Ela nem sequer se virou.

— O que você quer, Wandinha? — A voz de Clara era baixa, rouca pelo desuso.

— Preciso que você venha comigo — disse Wandinha, indo direto ao ponto. — Vou visitar o Tyler.

O corpo de Clara enrijeceu visivelmente. O nome dele ainda agia como uma lâmina em sua pele. Antes de Nevermore descobrir que Tyler era o Hyde, antes do sangue e da traição, Clara e ele viveram algo que ninguém mais entendia. Tyler a via. Não como uma Addams "defeituosa" ou como uma excluída entre os excluídos. Ele a via como uma mulher.

Eles tinham sido fogo e luxúria. Nos fundos do Catavento, entre os sacos de café, ou nos recônditos da floresta, Tyler a tocava com uma urgência que a fazia sentir-se viva. Ele amava cada curva do seu corpo, cada insegurança que ela sussurrava no escuro. Eram safados, intensos, entregues um ao outro de uma forma que Wandinha consideraria repulsiva, mas que Clara guardava como seu único tesouro.

— Eu não posso — sussurrou Clara, finalmente virando-se. Seus olhos estavam vermelhos. — Ele é um monstro, Wandinha. Você mesma disse.

— Ele é um monstro que se recusa a falar comigo — rebateu Wandinha, aproximando-se. — Mas ele falará com você. Ele tem medo de te machucar, Clara. A única vez que ele quase perdeu o controle perto de você, antes da transformação completa, ele se afastou. Ele ainda te ama, de um jeito distorcido e animalesco. E eu vou usar isso.

— Você quer usá-lo? Ou quer me usar? — Clara levantou-se, a raiva começando a brilhar em meio à tristeza.

— Ambos — respondeu Wandinha, sem piscar. — As mortes começaram de novo. Se você quer que as pessoas parem de morrer, você vai colocar aquele vestido preto que ele gostava e vai entrar naquela cela comigo.

***

A unidade de contenção era um bunker de concreto frio, iluminado por luzes fluorescentes que zumbiam irritantemente. Quando as portas de aço se abriram, o cheiro de ozônio e suor impregnou o ar.

Lá dentro, em uma cela com paredes de vidro reforçado e correntes de contenção magnética, estava Tyler.

Ele estava sem camisa. O peito largo subia e descia ritmicamente, os músculos das costas e dos braços definidos pelo esforço constante de tentar se libertar. O suor brilhava em sua pele, dando-lhe um aspecto selvagem e, para o desgosto secreto de Clara, terrivelmente atraente. Ele parecia um predador enjaulado, mas ainda era o Tyler que a segurava contra a parede e a fazia perder o fôlego com beijos famintos.

Quando ele ouviu os passos, ele se virou. Seus olhos, inicialmente cheios de um brilho assassino ao ver Wandinha, suavizaram-se instantaneamente ao focar na figura atrás dela.

— Clara? — A voz dele era um rosnado baixo, mas carregado de uma incredulidade dolorosa.

Clara deu um passo à frente, as mãos tremendo.

— Oi, Tyler.

Wandinha deu um passo para o lado, observando a reação dele como um cientista observa uma cobaia.

— Ela não deveria estar aqui, Wandinha! — Tyler gritou, avançando contra o vidro. O impacto fez um estrondo ecoar pela sala. — Tira ela daqui! Agora!

— Ela fica — disse Wandinha, friamente. — A menos que você me diga quem está controlando o novo Hyde. Ou talvez quem está ensinando novos truques aos monstros da floresta.

Tyler ignorou Wandinha completamente. Seus olhos estavam fixos em Clara, devorando-a. Ele se encostou no vidro, a palma da mão espalmada contra a superfície fria, exatamente onde o rosto de Clara estava do outro lado.

— Você está linda — sussurrou ele, a voz subitamente suave, lembrando as noites em que ele a chamava de sua "pequena Addams". — Eles não estão cuidando de você, não é? Você parece triste.

— Eu sinto sua falta — Clara admitiu, as lágrimas finalmente caindo. — Sinto falta de como era antes. De como você me fazia sentir.

— Eu ainda posso te fazer sentir, Clara — disse ele, um sorriso sombrio e sedutor surgindo em seus lábios. — Eu ainda lembro do gosto da sua pele. Lembro de como você gritava meu nome quando eu...

— Chega de sentimentalismo barato — interrompeu Wandinha. — Tyler, responda à pergunta.

Tyler rosnou, a transição entre o homem e o monstro vibrando sob sua pele.

— Eu não sei de nada, Wandinha. E mesmo se soubesse, por que eu ajudaria você? Você me trancou aqui. Você me tirou dela!

— Eu não tirei você dela — disse Wandinha, sua voz ficando mais afiada. — Você se tirou quando decidiu ser o cachorrinho da Thornhill. E agora, Clara está aqui correndo perigo porque você é inútil. Se o novo assassino decidir vir atrás da família Addams, Clara será a primeira. Ela é o elo mais fraco.

Tyler rugiu, um som gutural que não era humano. As veias em seu pescoço saltaram e seus ombros se expandiram. A fúria por ver Clara em perigo, misturada com o ódio por Wandinha usar a mulher que ele amava como isca, foi o gatilho.

— Não fale dela assim! — Tyler gritou.

Seus ossos começaram a estalar. A transformação era dolorosa de assistir. A pele de suas costas se rasgou levemente enquanto a estrutura do Hyde emergia. Ele se contorceu, os músculos saltando, a respiração tornando-se um chiado bestial.

— Tyler, não! — Clara gritou, batendo no vidro. — Por favor, se controle! Você vai se machucar!

— Eu... eu não quero... te ferir... — Tyler grunhiu, lutando contra o monstro interior. Ele se encolheu no chão da cela, as garras arranhando o concreto.

Ele olhou para Clara uma última vez, seus olhos alternando entre o castanho humano e o amarelo brilhante do Hyde. A visão dele ali, seminu, vulnerável em sua monstruosidade e desesperado para protegê-la até de si mesmo, partiu o coração de Clara.

Wandinha aproximou-se do vidro, indiferente ao caos.

— Veja, Tyler. Se você se transformar e quebrar esse vidro, a primeira pessoa que as forças de segurança vão abater é quem estiver na frente. E eu vou me certificar de que seja a Clara. Fale, ou o sangue dela estará nas suas garras.

— Sua... sua bruxa maldita! — O Hyde rugiu, agora quase completamente transformado.

Mas, no último segundo, o monstro parou. Ele recuou para o canto mais escuro da cela, ofegante, o corpo tremendo violentamente enquanto tentava reverter o processo. O suor escorria por seu peito, e ele parecia exausto.

— O nome... — Tyler sussurrou, a voz voltando ao normal, mas carregada de agonia. — O nome que você procura... está nos registros antigos da fundação de Jericho. Não é um Hyde. É algo mais velho.

Wandinha anotou mentalmente. Ela tinha o que queria.

— Ótimo. Clara, vamos embora.

Clara não se moveu. Ela estava colada ao vidro, observando Tyler se recuperar. Ele levantou a cabeça e olhou para ela. Havia uma promessa naquele olhar. Uma promessa de que, não importa quantas celas o segurassem, ele voltaria para ela. E havia também um pedido de desculpas silencioso pelo monstro que ele se tornara.

— Vá, Clara — disse Tyler, a voz fraca. — Fique longe dela. Ela é mais perigosa que eu.

Clara sentiu a mão de Wandinha em seu ombro, puxando-a para fora. Enquanto caminhava pelo corredor frio, Clara não sentia medo. Ela sentia o calor persistente das lembranças das mãos de Tyler em seu corpo e o peso da solidão que a esperava no quarto.

Wandinha tinha conseguido sua pista. Mas Clara Addams tinha acabado de redescobrir sua única razão para lutar: o monstro que a amava como ninguém mais era capaz. E ela faria qualquer coisa para vê-lo livre, mesmo que tivesse que queimar o mundo — ou sua própria irmã — para isso.
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