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Horror

Fandom: Bom dia Verônica

Criado: 15/07/2026

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Onde o Ouro se Mistura ao Sangue

O sol da manhã banhava a vasta extensão da fazenda com um tom dourado que, para Clara, sempre pareceu a cor da paz. Ela ajeitou a saia de linho sobre os quadris, sentindo o tecido macio abraçar suas curvas. Clara sabia que não tinha o corpo das mulheres que estampavam as revistas de moda que sua sogra, Dona Volúsia, deixava estrategicamente espalhadas pela sala, mas quando Gerônimo a olhava, ela se sentia a mulher mais deslumbrante do mundo.

Ela caminhou até a varanda, onde a mesa do café da manhã já estava posta com a fartura típica do interior. Pães caseiros, queijos frescos da propriedade e frutas colhidas ao amanhecer. Gerônimo estava ali, concentrado em alguns papéis, mas o sorriso que ele abriu ao vê-la foi instantâneo, iluminando seu rosto rústico.

— Bom dia, minha rainha — disse ele, levantando-se para puxar a cadeira para ela.

— Bom dia, amor. Você acordou cedo hoje — comentou Clara, aceitando o beijo carinhoso que ele depositou em sua testa.

— O gado não espera, e os negócios na cidade estão exigindo mais atenção do que eu gostaria — respondeu Gerônimo, voltando a se sentar. — Mas nada é mais importante do que começar o dia com você.

Clara sentiu o rosto esquentar. Mesmo após três anos de casamento, a timidez ainda a visitava diante dos galanteios dele. Para ela, Gerônimo era o exemplo perfeito de um homem honrado: um fazendeiro dedicado, respeitado na região, que cuidava de todos com uma mão firme, mas justa. Ela não tinha motivos para desconfiar que, por trás daquela fachada de prosperidade rural, existia uma rede de sombras que envolvia crimes que ela sequer conseguia imaginar.

A paz da manhã foi levemente perturbada pela entrada de Dona Volúsia. A mulher caminhava com uma postura rígida, os olhos sempre avaliadores, como se estivesse constantemente medindo o valor de tudo ao seu redor — especialmente o valor de Clara.

— Bom dia, mãe — disse Gerônimo, sem desviar muito a atenção de Clara.

— Bom dia, meu filho. Vejo que o café continua... generoso — disse Volúsia, lançando um olhar rápido e carregado de desdém para o prato de Clara. — Talvez generoso demais para quem deveria estar preocupada com a saúde.

Clara baixou o olhar, sentindo o aperto familiar no peito. Gerônimo, porém, não deixou passar.

— A Clara está perfeita, mãe. E ela precisa se alimentar bem. Não quero ouvir comentários sobre isso.

Volúsia soltou um suspiro teatral e sentou-se, mudando de assunto com a agilidade de uma serpente.

— E então? Alguma novidade sobre o médico em São Paulo? Já faz meses que vocês estão tentando aquele novo tratamento.

O silêncio caiu sobre a mesa como uma pedra. O desejo de Clara de ser mãe era a ferida aberta que Volúsia adorava cutucar. A dificuldade de engravidar era um peso que Clara carregava nos ombros, sentindo-se falha, apesar de todos os exames dizerem que, fisicamente, tudo estava dentro do esperado.

— Ainda não, mãe — respondeu Gerônimo, seu tom de voz endurecendo. — E não vamos discutir isso agora. É um assunto nosso.

— Só acho que uma fazenda deste tamanho precisa de um herdeiro — murmurou a velha, servindo-se de café preto. — Um homem como você, Gerônimo, não deveria ter a linhagem interrompida por... limitações.

Clara sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela se levantou rapidamente, murmurando uma desculpa sobre ter esquecido algo no quarto. Gerônimo tentou segurar sua mão, mas ela foi mais rápida.

Minutos depois, no refúgio do quarto do casal, Clara sentou-se na beira da cama, tentando controlar a respiração. A porta se abriu suavemente e Gerônimo entrou, fechando-a atrás de si. Ele se ajoelhou à frente dela, colocando as mãos grandes e calejadas sobre os joelhos da esposa.

— Não ouça o que ela diz, Clara. Ela é de outro tempo, tem a alma amarga.

— Ela me odeia, Gerônimo. Ela acha que eu não sou boa o suficiente para você. Porque eu sou gorda, porque eu não te dei um filho...

— Ei, olhe para mim — pediu ele, forçando-a a encontrar seus olhos escuros e intensos. — Eu te amo exatamente como você é. Sua doçura é o que mantém esta casa de pé. E o filho... ele virá no tempo de Deus. E se não vier, ainda seremos eu e você. Isso basta para mim.

Clara o abraçou com força, escondendo o rosto em seu pescoço. Ela se sentia protegida ali. Mal sabia ela que a proteção que ele oferecia era construída sobre um alicerce de violência e segredos. Enquanto ele a acalentava, a mente de Gerônimo já estava em outro lugar: na chegada de novos "hóspedes" à propriedade e na pressão crescente que a polícia, liderada por aquela inspetora Verônica, estava exercendo sobre seus aliados.

Mais tarde naquele dia, Gerônimo precisou sair. Ele deu a Clara um beijo demorado e prometeu voltar para o jantar. Assim que o carro dele desapareceu na poeira da estrada, a atmosfera na casa mudou. Dona Volúsia parecia crescer em estatura quando o filho não estava por perto.

Clara estava na cozinha, ajudando a preparar um doce de abóbora, quando a sogra entrou, dispensando as empregadas com um gesto seco.

— Você acha que ele vai aguentar isso para sempre? — perguntou Volúsia, aproximando-se de Clara com passos silenciosos.

— O quê, Dona Volúsia? — Clara tentou manter a voz firme, embora suas mãos tremessem levemente ao mexer a panela.

— Essa farsa. Gerônimo é um homem de poder, um homem que precisa de uma mulher que imponha respeito, que tenha presença. E, acima de tudo, que seja fértil.

— Nós estamos tentando... a senhora sabe disso.

— Tentando? — A mulher soltou uma risada fria. — Você é um peso morto nesta casa, Clara. Ocupa o lugar que poderia ser de uma mulher útil. Você nem imagina a vida que ele leva lá fora, o que ele faz para manter esse luxo que você tanto aproveita. Você é fraca demais para o mundo dele.

— O Gerônimo é um fazendeiro honesto! — rebateu Clara, a voz subindo um tom, a timidez perdendo espaço para a indignação. — Ele trabalha duro pela nossa família.

Volúsia deu um passo à frente, os olhos brilhando com uma malícia cruel.

— Honesto? — Ela riu novamente. — Você é mais tola do que eu pensava. Você acha que esse império se constrói plantando milho e criando gado? Meu filho é um rei, Clara. Mas reis precisam de rainhas que não se quebrem ao ver uma gota de sangue.

— O que a senhora está querendo dizer com isso? — perguntou Clara, o coração acelerando.

— Estou dizendo que você é um erro de percurso. E erros, cedo ou tarde, são corrigidos.

A sogra saiu da cozinha, deixando Clara sozinha com o som das bolhas do doce fervendo e uma dúvida gelada começando a se infiltrar em seus pensamentos. O que Gerônimo fazia "lá fora"?

Ao cair da tarde, Clara decidiu caminhar pela propriedade para clarear a mente. Ela costumava evitar os galpões mais afastados, perto da mata, pois Gerônimo sempre dizia que eram áreas perigosas devido ao maquinário pesado e aos animais bravos. Mas hoje, a inquietação a guiava.

Enquanto se aproximava de um dos galpões de zinco, ela ouviu o som de motores. Carros pretos, cobertos de poeira, estavam estacionados em uma área onde normalmente apenas tratores circulavam. Ela se escondeu atrás de uma pilha de mourões, observando.

Homens que ela nunca vira na fazenda, vestidos com roupas escuras e portando um volume suspeito sob as jaquetas, conversavam em tons baixos. Um deles abriu o porta-malas de um dos carros, retirando o que pareciam ser pacotes pesados, envoltos em plástico.

O coração de Clara martelava contra as costelas. "É apenas adubo", ela tentou dizer a si mesma. "Ou peças para as máquinas". Mas o comportamento furtivo dos homens não condizia com a rotina de uma fazenda.

De repente, a porta lateral do galpão se abriu e Gerônimo saiu. Ele não parecia o marido amoroso que a chamava de "rainha" pela manhã. Sua postura era predatória, o rosto fechado em uma expressão de autoridade absoluta.

— Levem tudo para o fundo — ordenou Gerônimo, a voz ecoando com uma frieza que Clara não reconhecia. — Se houver qualquer sinal daquela delegada ou da equipe dela nos arredores, vocês já sabem o que fazer. Não quero rastros.

— E o carregamento de amanhã, chefe? — perguntou um dos homens.

— Vai sair no horário. A polícia está ocupada demais com o que deixamos para trás na cidade. Agora andem, não temos a noite toda.

Clara sentiu o mundo girar. "Delegada? Rastros? Chefe?". As palavras da sogra voltaram como um eco sinistro: "Você nem imagina a vida que ele leva lá fora".

Ela tentou recuar silenciosamente, mas seu pé quebrou um galho seco. O estalo soou como um tiro no silêncio do fim de tarde.

— Quem está aí? — gritou um dos capangas, sacando uma arma da cintura.

Clara congelou, o terror paralisando seus músculos. Gerônimo caminhou rapidamente na direção do som, os olhos vasculhando a penumbra. Quando ele a viu, escondida e trêmula, sua expressão passou da fúria para um choque momentâneo, antes de se suavizar em uma máscara de preocupação.

— Clara? — Ele se aproximou, fazendo sinal para que o homem guardasse a arma. — O que você está fazendo aqui, meu amor?

— Eu... eu saí para caminhar — gaguejou ela, as lágrimas finalmente transbordando. — Gerônimo, quem são esses homens? O que são esses pacotes?

Gerônimo chegou perto dela, envolvendo-a em seus braços. O cheiro de perfume caro e couro que ela tanto amava agora parecia misturado ao cheiro metálico de algo que ela temia ser perigo.

— Shh, está tudo bem — disse ele, a voz voltando ao tom aveludado de sempre. — São apenas negócios da fazenda, querida. Coisas complicadas de logística. Você não deveria se preocupar com isso.

— Mas aquele homem tinha uma arma... e você falou de uma delegada...

Gerônimo segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a olhar para ele.

— O mundo é um lugar perigoso, Clara. Para proteger o que é nosso, para proteger você, às vezes eu preciso lidar com pessoas difíceis. Eu faço tudo isso por nós. Pelo nosso futuro. Pelo filho que ainda vamos ter.

Ele a beijou, um beijo que buscava silenciar suas dúvidas, e por um momento, Clara quis acreditar. Ela queria voltar para a segurança da sua ignorância, para a ilusão de que sua única preocupação era a língua ferina da sogra e a balança do banheiro.

— Vamos voltar para casa — disse ele, passando o braço pela cintura dela, guiando-a para longe do galpão. — O jantar deve estar quase pronto.

Enquanto caminhavam de volta para a sede da fazenda, Clara olhou para trás uma última vez. As sombras dos homens e dos carros pretos pareciam se alongar, engolindo a luz do entardecer. Ela percebeu, com um aperto no coração, que o ouro do sol que ela tanto admirava não era a única cor daquela terra. Havia um vermelho escuro escondido nas frestas, e ela acabara de começar a enxergá-lo.

Ao entrarem em casa, Dona Volúsia estava parada no hall, observando-os. Ela viu o estado de nervos de Clara e o olhar protetor — e ao mesmo tempo alerta — de Gerônimo. Um sorriso minúsculo e cruel surgiu nos lábios da sogra.

— O passeio foi proveitoso, Clara? — perguntou a velha, a voz carregada de veneno.

— Foi apenas uma caminhada, mãe — cortou Gerônimo, conduzindo Clara para a escada. — A Clara está cansada.

Lá em cima, no silêncio do quarto, Gerônimo ajudou Clara a se deitar, cobrindo-a com cuidado.

— Tente descansar, rainha. Vou pedir para trazerem um chá para você.

— Gerônimo? — chamou ela, quando ele já estava na porta.

— Sim?

— Você nunca mentiria para mim, não é?

Ele hesitou por uma fração de segundo, um intervalo de tempo quase imperceptível, mas que para Clara pareceu uma eternidade.

— Eu nunca faria nada que não fosse para o seu bem — respondeu ele, antes de fechar a porta.

Clara fechou os olhos, mas o sono não veio. Em sua mente, a imagem do marido amoroso lutava contra a imagem do homem frio que comandava homens armados na escuridão. Ela sentiu a mão sobre a barriga, um gesto habitual de quem ansiava por uma vida crescendo ali dentro. Pela primeira vez, ela se perguntou que tipo de mundo estaria oferecendo a uma criança.

Enquanto isso, no andar de baixo, Gerônimo encontrou sua mãe no escritório.

— Ela viu demais — disse Volúsia, sem rodeios.

— Ela não viu nada que não possa ser explicado — rebateu Gerônimo, servindo-se de um uísque.

— Você a ama, e isso é sua fraqueza. Aquela mulher não pertence a este lugar. Ela é lenta, é sentimental... e é estéril.

Gerônimo bateu o copo na mesa, o som ecoando nas paredes de madeira.

— Chega! A Clara é minha esposa. Se ela começar a fazer perguntas, eu lidarei com isso. Mas não ouse tocar no nome dela novamente com esse tom.

— A polícia está chegando perto, Gerônimo — continuou Volúsia, ignorando o acesso de raiva do filho. — E se aquela inspetora Verônica chegar até aqui, você acha que a sua "rainha" vai aguentar um interrogatório? Ela vai entregar tudo, mesmo sem querer. Ela é o elo fraco.

Gerônimo olhou para o líquido dourado em seu copo. Ele sabia que a mãe tinha razão sobre o perigo, mas a ideia de perder Clara era a única coisa que realmente o aterrorizava.

— Eu a protegerei de tudo — murmurou ele, mais para si mesmo do que para a mãe. — Até de mim mesmo.

No andar de cima, Clara levantou-se e foi até a janela. A lua iluminava a fazenda, revelando a beleza serena que a enganara por tanto tempo. Ela sabia que, a partir daquela noite, nada seria igual. A timidez estava dando lugar a uma necessidade desesperada de entender a verdade.

Ela não era apenas a esposa gordinha e submissa que a sogra desprezava. Ela era a mulher que Gerônimo amava, e se esse amor era a base de um império de crimes, ela precisava descobrir o quão fundo aquelas raízes de sangue chegavam.

Clara respirou fundo, sentindo o ar frio da noite. A caçada de Verônica estava se aproximando, e a fazenda, que antes era seu refúgio, estava prestes a se tornar o centro de uma tempestade que poderia destruir tudo o que ela conhecia. Mas, enquanto Gerônimo a tratasse como uma princesa, ela teria acesso ao castelo. E talvez fosse de dentro do castelo que a verdade finalmente libertaria — ou condenaria — a todos.
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