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World Cup

Fandom: Sem Fandom

Criado: 15/07/2026

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Território Inimigo e Corações em Fuga

O silêncio no quarto de hotel em Nova Jersey era pesado, interrompido apenas pelo som rítmico de Gabriel Magalhães batendo o pé no chão, uma manifestação clara de seu nervosismo. Vinícius Júnior estava jogado na poltrona, encarando o teto como se as respostas para seus problemas estivessem escritas no gesso. O Brasil estava fora. A eliminação para a Noruega ainda ardia, uma ferida aberta que a imprensa brasileira fazia questão de cutucar a cada hora com críticas sobre a "falta de brilho" da nova geração.

Mas, para Vini, a eliminação esportiva era apenas o começo de um pesadelo pessoal muito mais complexo.

— Ele me mandou trinta e duas mensagens em dez minutos — murmurou Endrick, sentado na beira da cama, encarando a tela do celular com uma expressão de puro pavor. — O Lamine não aceita que eu não atenda o FaceTime. Ele disse que, se eu não atender na próxima, ele vai pedir pro Xavi ou pro Hansi Flick, sei lá quem manda nele agora, dar o endereço exato do nosso hotel de "refúgio".

Vini soltou uma risada amarga, cobrindo os olhos com a mão.

— Bem-vindo ao clube, garoto. O Kylian já mandou o itinerário do jato privado dele. Ele quer que eu esteja em Paris ou em qualquer lugar que a França esteja jogando assim que eu assinar a saída da CBF. Aquele homem é um maníaco.

— Pelo menos o Mbappé é civilizado em público — resmungou Gabriel Magalhães, olhando para o próprio celular com desdém. — O Haaland... aquele viking não tem filtro. Ele postou um story com a camisa da Noruega dizendo "Vejo você em breve, Gabi" com um emoji de machado. As pessoas acham que é rivalidade de campo, mas eu sei que é uma ameaça. Ele está furioso porque eu bloqueei ele depois do jogo.

Vini se sentou, arrumando a postura. O peso da camisa 7 ainda parecia esmagar seus ombros, mas a pressão de ser o "troféu" de Kylian Mbappé era uma carga muito mais volátil. O relacionamento deles, que já durava nove meses de uma intensidade quase insuportável, tinha sido testado ao limite durante aquela Copa.

As fake news sobre Vini e Virgínia tinham sido o estopim. Kylian, que já possuía uma possessividade que beirava o absurdo, tinha tido um surto de ciúmes que Vini sentiu do outro lado do oceano. O francês não era de gritar; ele era de cobrar, de cercar, de garantir que o mundo soubesse a quem Vinícius pertencia, mesmo que fosse através de olhares gélidos e mensagens cifradas nas redes sociais.

— Por que os gringos são tão malucos? — perguntou Endrick, parecendo genuinamente confuso. — O Lamine é mais novo que eu e já age como se fosse meu dono. Se eu tiro uma foto com um fã, ele quer saber o CPF da pessoa.

— É a cultura, ou talvez seja só o fato de sermos brasileiros — Vini respondeu, dando de ombros. — Eles olham pra gente e veem algo que não conseguem controlar totalmente, e isso deixa a cabeça deles confusa. O Kylian... ele quer ter o controle de tudo. Do jogo, do time, da França e, principalmente, de mim. Agora que o Brasil caiu, ele acha que eu sou "propriedade livre" para ser levada para onde ele quiser.

O celular de Vini vibrou sobre a mesa de cabeceira. O nome "Kylian" brilhava na tela, acompanhado de uma foto de perfil onde o francês exibia um sorriso que, para o público, era charmoso, mas para Vini, era um aviso.

— Não atende — sugeriu Gabriel.

— Se eu não atender, ele liga pro recepcionista do hotel. Você conhece o tipo.

Vini suspirou e deslizou o dedo pela tela, levando o aparelho ao ouvido.

— Alô?

— Estive esperando — a voz de Kylian veio baixa, profunda, com aquele sotaque francês que costumava arrepiar Vini, mas que agora só trazia um frio na espinha. — Por que demorou? Estava ocupado fazendo as malas ou falando com quem não deve?

Vini revirou os olhos, fazendo um sinal de "lá vem ele" para os amigos.

— Estava conversando com o Gabriel e o Endrick, Kylian. Acabamos de ser eliminados, sabia? Minha cabeça não está boa.

— Eu sei que foram eliminados. Eu vi o jogo. Você jogou bem, mon chéri, mas seus companheiros não estão no seu nível — a voz de Mbappé mudou, tornando-se mais afiada. — Agora que você não tem mais obrigações com aquela seleção, o carro estará na porta do hotel em duas horas. Você vem para o meu hotel. Não quero você circulando por aí sozinho.

— Eu não sou seu prisioneiro, Kylian! — Vini rebateu, tentando manter a voz firme, apesar de sentir o suor frio na nuca. — Eu preciso de um tempo com os meus amigos. A gente vai ficar aqui mais uns dias, processar a derrota...

— Tempo? — A risada de Kylian foi curta e sem humor. — Você teve tempo demais longe de mim. E depois daquela palhaçada com aquela mulher na internet... você acha que eu vou deixar você solto em Nova York? Não. Você vem para cá. Agora. Ou eu mesmo vou buscar você, e garanto que a imprensa vai adorar a cena de eu tirando você desse hotel no colo.

Vini fechou os olhos com força. Ele sabia que Kylian não estava brincando. O francês era capaz de criar um incidente diplomático se isso significasse ter o que queria.

— Eu vou... eu vou ver o que eu faço — Vini murmurou, derrotado.

— Não veja. Faça. Te amo, Vinícius. Não me faça perder a paciência.

A ligação caiu. Vini olhou para os companheiros de seleção. Gabriel e Endrick pareciam ter ouvido o suficiente, pois as expressões de ambos eram de pura solidariedade fúnebre.

— Ele vem buscar você? — Endrick perguntou em um sussurro.

— Ele disse que manda um carro em duas horas. Se eu não for, ele vem pessoalmente.

— O Haaland me mandou uma localização de um restaurante de carnes — Gabriel disse, mostrando a tela. — Ele disse: "Proteína para você crescer e aguentar o que vem depois". Eu sinto que vou ser jantado, e não vai ser no sentido gastronômico.

— O Lamine me mandou um link de uma loja de joias — Endrick comentou, nervoso. — Ele disse que comprou algo para eu usar no pescoço. Uma coleira, Vinícius? Ele vai me dar uma coleira?

Vini passou a mão pelo rosto, sentindo o cansaço acumulado de semanas de pressão.

— A gente está frito. Os três. Eles ganharam, a gente perdeu, e agora eles acham que são os conquistadores e nós somos o prêmio de guerra.

— O que a gente faz? — Gabriel perguntou, levantando-se. — A gente foge? Pega um voo comercial pro Brasil agora mesmo?

— Pro Brasil? — Vini riu, sem vontade. — O Kylian tem contatos em todos os aeroportos da Europa e metade da América. E o Haaland? Aquele homem rastreia você pelo cheiro, Gabriel. Não tem fuga.

Vini se levantou e caminhou até a janela, observando o movimento lá embaixo. Ele amava Kylian, de uma forma intensa e às vezes assustadora, mas a possessividade do namorado era um labirinto sem saída. Especialmente agora, com a França avançando e Kylian sentindo-se o rei do mundo.

— O problema — começou Vini, virando-se para os outros — é que eles sabem que a gente gosta dessa loucura deles. No fundo, a gente deixou eles ficarem assim.

— Fale por você! — Endrick protestou, embora estivesse corando. — O Lamine é só... persistente.

— Sei — Vini provocou. — E você, Gabriel? Vai me dizer que não gosta quando o viking te carrega como se você não pesasse nada?

Gabriel Magalhães ficou em silêncio por um momento, cruzando os braços e desviando o olhar.

— Isso não vem ao caso agora. O ponto é: como a gente sobrevive a essa semana sem acabar numa cadeira de rodas? Porque se a França ganhar essa Copa, o Kylian vai estar insuportável. Ele vai querer comemorar de um jeito que... bem, vocês sabem.

— Eu já aceitei que não vou sentar direito por um mês — Vini confessou, a honestidade brutal fazendo Endrick arregalar os olhos. — O Kylian é competitivo. Ele quer ganhar no campo e quer ganhar na cama. E ele acha que, como eu perdi na Copa, ele tem que me "consolar" até eu esquecer meu próprio nome.

— Que horror... e que inveja — murmurou Gabriel, antes de pigarrear. — Enfim, temos duas horas. O que vamos fazer?

— Vamos nos arrumar — Vini decidiu, a voz carregada de uma resignação fatalista. — Se é para enfrentar os monstros, que a gente esteja bem vestido. Mas eu vou deixar claro pro Kylian: se ele mencionar a Virgínia mais uma vez, eu me tranco no banheiro e não saio mais.

— Boa sorte com isso — Endrick disse, levantando-se também. — O Lamine já está me mandando fotos de quartos de hotel com pétalas de rosa. Eu tenho dezoito anos, gente! Eu sou muito jovem para ser sequestrado por um espanhol romântico e psicopata.

— Bem-vindos ao futebol europeu, meninos — Vini concluiu, pegando sua mala. — Onde os atacantes são possessivos e os zagueiros brasileiros são as maiores vítimas.

Enquanto Vini dobrava suas camisas, ele não conseguia tirar da cabeça a imagem de Kylian. Ele sabia exatamente o que o esperava. O francês estaria esperando no hotel, provavelmente com aquela expressão de triunfo que ele usava após marcar um gol decisivo. Ele o pegaria pelos braços, o revistaria com o olhar para garantir que ele estava "intacto" e começaria um interrogatório sobre cada minuto que passaram separados.

Era exaustivo. Era tóxico, talvez. Mas, quando Kylian o pressionava contra a parede e sussurrava em seu ouvido que ele era o único que realmente importava, Vinícius esquecia as críticas da torcida, a eliminação e até o fardo da camisa 7.

O problema era que, desta vez, Kylian parecia disposto a ir longe demais. E Vini, Gabriel e Endrick eram apenas três brasileiros tentando sobreviver ao amor avassalador — e levemente insano — de seus estrangeiros.

— Vini — Gabriel chamou, já na porta. — Se eu sumir, avisa minha mãe que eu amo ela. O Haaland acabou de mandar uma foto de uma algema com o nome "Gabi" gravado.

Vini olhou para o amigo, depois para o próprio celular, onde uma nova mensagem de Kylian acabara de chegar: "O carro chegou. Não se atrase. Eu não gosto de esperar pelo que é meu."

— A gente se vê no inferno, Gabi — Vini respondeu, suspirando. — Ou na final da Copa, se a gente conseguir fugir dos quartos de hotel até lá.

Mas, no fundo, ele sabia que não haveria fuga. Para Vinícius Júnior, o jogo mais difícil da Copa estava apenas começando, e o adversário era ninguém menos que o homem que ele chamava de namorado. E Kylian Mbappé nunca entrava em campo para perder.

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