
Lá casa
Fandom: Lá casa de papel
Criado: 15/07/2026
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O Fantasma de Florença e o Peso do Ouro
A poeira dançava nos feixes de luz que atravessavam as janelas altas daquela mansão em Toledo. O cheiro de papel velho e café forte inundava o ambiente, um aroma que, para Clara, tinha o gosto amargo da nostalgia. Ela ajustou os óculos no rosto e alisou a saia, sentindo o peso do olhar de Sergio — ou melhor, do Professor — sobre ela.
Cinco anos. Cinco anos desde que ela decidira que não podia mais competir com o plano perfeito. Cinco anos desde que a obsessão dele pela Casa da Moeda se tornara a terceira pessoa no relacionamento deles, uma amante de papel e tinta que ele visitava todas as noites em seus mapas e diagramas.
— Paris — disse ele, a voz firme, mas com um tremor quase imperceptível que só ela sabia identificar. — Como foi a viagem?
— Cansativa, Sergio. Ou devo chamá-lo de Professor agora? — Clara cruzou os braços, sentindo o coração martelar contra o peito. Seus cabelos curtos emolduravam o rosto redondo, e ela sabia que ele estava notando cada pequena mudança nela.
— Aqui, sou o Professor — respondeu ele, ajeitando os óculos com o dedo indicador, um tique que não mudara nada. — E você é Paris. As regras são claras. Nada de nomes reais, nada de relações pessoais.
Uma risada seca e elegante ecoou do canto da sala. Berlim, encostado em uma mesa de carvalho com uma taça de vinho na mão, observava a cena com um brilho de puro entretenimento nos olhos.
— Ah, a disciplina do nosso líder é verdadeiramente admirável, não é, Paris? — Berlim deu um passo à frente, abrindo um sorriso que era puro veneno e charme. — Embora eu me pergunte se as "relações pessoais" incluem as memórias de certas noites em Florença, ou se o plano também prevê um apagão seletivo de memória.
Sergio lançou um olhar cortante para o irmão, mas Berlim apenas deu de ombros, imperturbável.
— O que foi? Só estou admirando como o uniforme de assaltante parece cair bem em você, querida. O vermelho realça suas curvas.
— Guarde o sarcasmo para os reféns, Andrés — rebateu Clara, usando o nome dele de propósito para marcar território. — Eu não estou aqui por você. E nem por ele. Estou aqui pelo que combinamos.
O Professor pigarreou, tentando retomar o controle da situação.
— A logística para a pequena Sofia já foi organizada? — perguntou ele, a voz suavizando-se por um segundo ao mencionar a filha de três anos.
— Minha mãe já está com ela em Madrid. Ela acha que estou em um congresso de história em Portugal. — Clara sentiu uma pontada de culpa no estômago. — Sofia perguntou por você. Eu disse que o papai estava... estudando. De novo.
— É a maior lição da vida dela, afinal — comentou Berlim, girando o vinho na taça. — O papai é um homem de grandes projetos. Embora, às vezes, ele esqueça que os projetos de carne e osso crescem mais rápido do que os de papel.
Sergio ignorou a provocação, embora suas orelhas estivessem levemente vermelhas.
— O acordo de guarda compartilhada continua valendo, Clara. Assim que terminarmos isso, você terá os recursos para dar a ela qualquer vida que desejar. Em qualquer lugar do mundo.
— Eu não vim pelo dinheiro, Sergio. Você sabe disso — disse ela, aproximando-se da mesa onde o mapa da Casa da Moeda estava estendido. — Eu vim porque você disse que este plano é infalível. E se você vai se enfiar em um buraco de ratos, eu preciso garantir que o pai da minha filha saia de lá vivo.
O Professor ficou em silêncio por um longo momento. O ar entre eles estava carregado de eletricidade, de palavras não ditas e de promessas quebradas. Para os outros membros da gangue que passavam pelo corredor — Tóquio, Rio, Denver — eles eram apenas o gênio e a especialista em falsificação. Mas para Berlim, eles eram um espetáculo de tragédia grega em tempo real.
— Vamos revisar o seu papel — disse o Professor, voltando ao tom profissional. — Você será a nossa ligação interna para a autenticação das matrizes. Ninguém conhece papel-moeda e técnicas de impressão do século XIX como você.
— E ninguém conhece o Professor como você — interrompeu Berlim, caminhando até Clara e colocando uma mão em seu ombro de forma teatral. — Diga-me, Paris, ele ainda faz aqueles diagramas de fluxo até para decidir que tipo de chá vai tomar de manhã? Ou ele se tornou mais... espontâneo na sua ausência?
Clara deu um sorriso de canto, lembrando-se das manias de Sergio.
— Ele ainda é o mesmo homem que precisa de três cronômetros para cozinhar um ovo, Berlim.
— Que tragédia — suspirou Berlim. — A inteligência é um fardo tão pesado. Mas, falando em peso, espero que você tenha trazido aquela paciência de santa que tinha em Florença. Vai precisar dela quando as coisas ficarem... quentes.
O Professor bateu com a mão na mesa, um som seco que ecoou pela sala.
— Chega de distrações. Berlim, vá verificar se Moscou terminou de ajustar o maquinário. Paris, venha comigo. Preciso te mostrar as especificações das notas de cinquenta euros.
Berlim fez uma reverência exagerada e saiu da sala, assobiando uma melodia alegre, deixando os dois sozinhos. O silêncio que se seguiu foi denso.
— Ele não vai parar, sabe disso — disse Clara, sentando-se em uma das cadeiras de couro. — Ele adora o fato de estarmos aqui, fingindo que não fomos uma família.
— Nós não somos uma família agora, Clara. Somos parceiros de crime — corrigiu Sergio, sem olhar para ela.
— É engraçado como você consegue separar as coisas em caixinhas na sua cabeça. "Assalto", "Filha", "Ex-mulher". — Ela se levantou e caminhou até ele, parando a poucos centímetros. — Mas a Sofia não é uma caixinha, Sergio. Ela tem os seus olhos. E ela pergunta por que o pai prefere os livros a ela.
Sergio finalmente olhou nos olhos dela. Havia uma dor profunda ali, escondida atrás das lentes grossas.
— É por ela que estou fazendo isso. Para que ela nunca precise se preocupar com o que nós nos preocupamos. Para que ela tenha liberdade.
— Liberdade custa caro, Sergio. Às vezes, custa o tempo que nunca vamos recuperar.
Ele desviou o olhar, voltando-se para o mapa.
— O plano vai funcionar. Se todos seguirem as regras...
— Eu vou seguir as regras — interrompeu Clara. — Vou ser a sua Paris. Vou falsificar o que for preciso e vou garantir que a produção não pare. Mas não me peça para esquecer quem você é quando as luzes se apagarem.
— Eu não peço nada, Clara — sussurrou ele. — Só peço que saia de lá inteira.
Naquela noite, o jantar com o grupo foi barulhento. Denver ria alto das piadas de Moscou, e Tóquio observava a todos com seu olhar predatório. Clara sentou-se ao lado de Nairóbi, que imediatamente a acolheu.
— Então, Paris... o Professor disse que você é a melhor em falsificação que ele já viu — comentou Nairóbi, servindo um pouco de vinho para a nova colega. — Onde você aprendeu tanto sobre papel?
— Digamos que eu tive um professor muito exigente — respondeu Clara, sentindo o olhar de Sergio sobre ela do outro lado da mesa.
— Ah, imagino — Berlim interveio, sentado na cabeceira. — O Professor tem um método muito... íntimo de ensino. Muito focado nos detalhes. Nas texturas. Não é mesmo, Paris?
Um silêncio súbito caiu sobre a mesa. Tóquio franziu o cenho, captando a tensão.
— Vocês se conhecem de algum lugar? — perguntou ela, alternando o olhar entre Clara, Sergio e Berlim.
Sergio limpou o canto da boca com o guardanapo, mantendo a expressão gélida.
— Paris e eu colaboramos em alguns projetos de pesquisa no passado. Como eu disse, ela é a melhor na área dela.
— Pesquisa — repetiu Berlim, saboreando a palavra como se fosse um doce. — Sim, muitas noites de estudo intenso. Muita dedicação à... anatomia dos clássicos.
Clara sentiu o rosto esquentar, mas não baixou a guarda.
— O que o Berlim quer dizer é que ele sempre foi um espectador das conquistas dos outros. Ele gosta de comentar o que não consegue realizar.
A mesa explodiu em risadas. Denver deu um tapa no ombro de Berlim.
— Essa doeu até em mim, cara!
Berlim não pareceu ofendido. Pelo contrário, parecia deleitado.
— Ela é afiada, não é? Eu avisei que ela seria uma adição valiosa.
Mais tarde, quando todos já haviam se retirado para seus quartos, Clara saiu para o pátio para respirar um pouco de ar fresco. O céu de Toledo estava estrelado, e o silêncio do campo era reconfortante. Ela pegou o celular — um aparelho limpo, fornecido pelo Professor — e olhou para a foto de Sofia que tinha escondida em uma pasta criptografada.
— Ela está maior — disse uma voz atrás dela.
Clara não se virou. Sabia que era ele.
— Três anos é uma idade de mudanças rápidas, Sergio. Ela já forma frases completas. Diz que quer ser astronauta para "tocar na lua".
Sergio aproximou-se e parou ao lado dela, olhando para a pequena tela.
— Ela tem a sua determinação.
— E a sua teimosia — completou Clara, guardando o celular. — Por que me chamou, de verdade? Você poderia ter encontrado outro especialista.
Sergio suspirou, o ar frio saindo como fumaça de seus lábios.
— Porque eu não confio em mais ninguém para cuidar da retaguarda se algo der errado. E porque... — Ele hesitou, a fachada de Professor rachando por um breve segundo. — Porque se este vai ser o meu último ato, eu queria que você estivesse por perto.
— Não diga isso. Você planejou cada detalhe.
— O plano é perfeito, Clara. Mas o fator humano é imprevisível. E você é o meu fator humano favorito.
Clara sentiu uma lágrima solitária escorrer, mas a limpou rapidamente.
— Se morrermos lá dentro, Sergio, eu te mato no além. A Sofia precisa de nós.
— Nós vamos sair — prometeu ele, recuperando a postura. — Agora vá descansar. Amanhã começamos o treinamento com as máquinas de impressão pesada. Boa noite, Paris.
— Boa noite, Professor.
Ela caminhou de volta para a mansão, sentindo o peso da missão que tinham pela frente. No andar de cima, em uma das janelas, a silhueta de Berlim observava a cena com um sorriso enigmático. O jogo estava apenas começando, e ele mal podia esperar para ver como o amor e a obsessão iriam colidir sob as luzes da Casa da Moeda.
Enquanto Clara se deitava, ela pensou na mãe e na filha, a salvo em algum lugar de Madrid. Ela faria o que fosse preciso. Imprimiria milhões, enfrentaria o exército e lidaria com o sarcasmo de Berlim. Tudo para que, no final, pudesse levar Sofia para ver a lua de perto, longe das sombras do Professor e de seus planos de papel.
