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O Papa Adolescente

Fandom: Mundo moderno alternativo onde Bento XVI jamais renunciou

Criado: 16/07/2026

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O Menino de El Greco e o Guardião da Verdade

A chuva de Roma caía com uma insistência melancólica sobre o mármore da Praça de São Pedro, mas dentro dos Apartamentos Pontifícios, o ar cheirava a cera de abelha, papel antigo e ao café forte que o Cardeal Mathias insistia em preparar à moda brasileira.

Mathias caminhava pelos corredores com passos rápidos, sua batina preta com filetes carmesins balançando. Ao seu lado, um menino de onze anos tentava manter o ritmo. João Miguel era estranhamente alto para a idade, com membros longos e um rosto pálido e anguloso que parecia ter saído diretamente de uma tela de El Greco. Seus olhos, porém, brilhavam com uma inteligência que não pertencia a uma criança comum.

— Lembre-se, João — sussurrou Mathias, parando diante da pesada porta de carvalho —, o Santo Padre está cansado. A imprensa lá fora tem sido cruel, e os lobos dentro destes muros não facilitam as coisas. Seja educado, mas seja você mesmo.

— Eu não tenho medo de lobos, tio Mathias — respondeu o menino, a voz firme apesar da pouca idade. — Minha mãe sempre disse que a verdade é o melhor escudo.

Mathias sorriu de lado, um sorriso cansado de quem lidava diariamente com as intrigas da Secretaria de Estado. Ele abriu a porta.

O escritório de Bento XVI era um refúgio de paz no centro de uma tempestade global. Nas prateleiras, volumes de Santo Agostinho e Boaventura conviviam com partituras de Mozart. Sobre um tapete persa, um gato malhado de orelha cortada — resgatado das ruínas do Largo di Torre Argentina — dormia serenamente.

Sentado à escrivaninha, um homem de cabelos brancos como a neve e ombros ligeiramente curvados escrevia com uma caneta tinteiro. Bento XVI ergueu os olhos, e o cansaço que carregava pareceu se dissipar ao ver o jovem visitante.

— Santidade — disse Mathias, fazendo uma genuflexão —, este é meu sobrinho, João Miguel. Ele chegou hoje de Santa Catarina.

O Papa pousou a caneta e sorriu. Era o sorriso que a mídia se recusava a mostrar: doce, tímido e profundamente humano.

— Ah, o pequeno místico de quem você tanto falou — disse Bento, a voz suave com seu característico sotaque bávaro. — Venha aqui, meu filho. Não tenha receio.

João Miguel aproximou-se e, em vez do beijo protocolar no anel, sentiu um impulso diferente. Ele olhou nos olhos azuis do Pontífice e viu ali uma solidão que só os santos e os gênios conhecem.

— O senhor estava escrevendo sobre a beleza, não estava? — perguntou João, apontando para os manuscritos.

Bento arqueou as sobrancelhas, surpreso.

— Como você sabe disso?

— Porque o senhor parece triste — respondeu o menino com uma sinceridade desarmante —, e as pessoas só ficam tristes assim quando o mundo se esquece de que Deus é belo.

Um silêncio reverente caiu sobre a sala. Mathias prendeu a respiração, temendo a audácia do sobrinho, mas o Papa soltou uma risada curta e cristalina.

— Mathias, seu sobrinho não é um coroinha, é um profeta — comentou o Papa, fazendo sinal para que João se sentasse em um banco próximo. — Sim, João. Eu estava escrevendo que a liturgia é a porta para o céu. Mas muitos querem transformar essa porta em uma parede de concreto.

Nesse momento, a porta se abriu com um estrondo que contrastava com a paz do ambiente. O Cardeal Matarazzo entrou, a bengala batendo no chão com vigor. Aos 80 anos, o Decano do Sacro Colégio exalava uma energia que faria um jovem de vinte anos se sentir exausto.

— Bento! — exclamou Matarazzo, ignorando qualquer formalidade. — Aqueles jornalistas franceses estão pedindo sua cabeça novamente porque você usou a fanon papal. Eu disse a eles que o senhor tem mais bom gosto em um dedo do que a França inteira teve desde a Revolução!

— Acalme-se, Matarazzo — pediu o Papa, embora houvesse um brilho de diversão em seus olhos. — Temos visita.

Matarazzo parou, fixando seus olhos de águia em João Miguel. O menino sustentou o olhar sem piscar.

— Ora, ora — disse o Decano, aproximando-se. — Um pequeno espanhol perdido no Vaticano?

— Sou brasileiro, Eminência — corrigiu João. — De descendência alemã, como o Santo Padre.

— E ele entende de liturgia — acrescentou Mathias, orgulhoso.

Matarazzo deu um tapinha no ombro de João que quase o derrubou.

— Ótimo! Precisamos de sangue novo. Este lugar está cheio de burocratas que acham que o Concílio Vaticano II foi um convite para transformar a Missa em um piquenique de vizinhança.

— O Concílio foi uma primavera — disse João, com uma precisão teológica que fez Bento XVI se inclinar para frente —, mas alguns jardineiros decidiram plantar ervas daninhas em vez de rosas.

Bento XVI trocou um olhar profundo com Matarazzo. Naquele momento, algo invisível, mas indestrutível, foi selado. O sucessor que Bento tanto pedia em suas orações privadas, alguém que pudesse carregar o peso da Cruz sem vacilar diante do mundo moderno, talvez estivesse ali, vestindo uma túnica de coroinha que ainda era grande demais para ele.

— João — disse o Papa, levantando-se com esforço e caminhando até o piano de cauda que ocupava um canto da sala —, você gosta de música?

— Amo a música que sobe, Santidade. A que não fica presa ao chão.

— Então venha. Vamos tocar algo para espantar os lobos.

Enquanto o Papa e o menino se acomodavam ao piano, Mathias e Matarazzo se afastaram para o canto da sala.

— O mundo lá fora está um caos, Mathias — sussurrou Matarazzo, a voz subitamente séria. — O Dr. Enéas me ligou hoje cedo do Brasil. Ele está preocupado. Disse que as pressões da Nova Ordem Mundial sobre o Vaticano vão aumentar. Eles querem que Bento renuncie. Eles querem um político no trono de Pedro, não um santo.

— Ele jamais renunciará — afirmou Mathias, cruzando os braços. — Ele sabe que o pastor não foge quando os lobos se aproximam. E agora, ele tem um motivo a mais para ficar.

Mathias apontou para o piano. Bento XVI começou a tocar uma peça de Bach, e João Miguel acompanhava a melodia, seus dedos longos movendo-se com uma graça natural.

— Aquele menino... — continuou Matarazzo — ...ele tem o olhar de quem vai incendiar o mundo para purificá-lo.

— Ou de quem vai ser consumido pelo fogo — murmurou Mathias.

Nesse instante, um jovem seminarista entrou timidamente na sala, carregando uma bandeja com biscoitos e uma tigela de leite para os gatos. Era Yuri, um rapaz de rosto redondo e expressão permanentemente confusa.

— Com licença... eu... o gato do Santo Padre estava miando perto da cozinha — disse Yuri, tentando não tropeçar nos próprios pés.

João Miguel olhou para Yuri e sorriu.

— Ele não estava com fome, Yuri. Ele só queria companhia. Gatos e Papas se sentem muito sozinhos às vezes.

Yuri coçou a cabeça, sorrindo de volta.

— É, eu também me sinto assim. Mas a comida aqui é boa, então eu fico.

Bento XVI riu, uma risada que pareceu tirar dez anos de suas costas.

— Fique conosco, Yuri. Precisamos de gente sincera. E você, João... você ficará ao meu lado. Vou ensiná-lo tudo o que sei. A Igreja está entrando em sua hora mais escura, e o mundo exigirá que esqueçamos o Reinado de Cristo. Mas nós lembraremos.

João Miguel levantou-se e ajoelhou-se diante do Pontífice.

— Eu prometo, Santidade. Nem que eu tenha que ser o último a defender a Coroa de Maria e o Altar de Deus.

Bento XVI colocou a mão trêmula sobre a cabeça do menino. Fora das janelas, o trovão rugiu sobre Roma, e as luzes da cidade brilharam como as tochas de um exército inimigo cercando a cidadela. Mas dentro daquela sala, o futuro da Cristandade começava a ser moldado por um velho teólogo que se recusava a cair e por um menino que nascera para reinar.

— Mathias — chamou o Papa, sem tirar os olhos de João.

— Sim, Santidade?

— Prepare os papéis. Quero que João Miguel comece sua formação imediatamente sob minha supervisão pessoal. E diga ao Dr. Enéas que o Brasil terá um papel fundamental no que está por vir. A Cruz e a Espada devem se encontrar novamente.

Matarazzo sorriu, um sorriso predatório e santo.

— Isso vai deixar a imprensa furiosa. Mal posso esperar para redigir o comunicado.

Enquanto o Cardeal Decano e o Secretário de Estado discutiam estratégias, João Miguel voltou-se para a janela. Ele viu a cúpula de São Pedro iluminada por um relâmpago. Em sua mente, as palavras de São Luís Maria Grignon de Montfort ecoavam como um tambor de guerra. Ele não era apenas um coroinha. Ele era o início da resistência.

E ao fundo, o som suave do piano de Bento XVI continuava a tocar, uma melodia de ordem em um mundo que clamava pelo caos.

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