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Anatomia

Fandom: Anatomia da grey

Criado: 16/07/2026

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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoCenário CanônicoDiscriminaçãoDismorfia CorporalEstudo de PersonagemConserto
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Cicatrizes Invisíveis e Alianças Ocultas

O ar condicionado do Grey Sloan Memorial Hospital parecia mais gelado do que o normal naquela manhã de terça-feira. Clara Sloan ajustou o jaleco branco, sentindo o tecido pinicar levemente em seus braços. Ela respirou fundo, tentando ignorar a sensação de que cada par de olhos no corredor estava focado nela — não pela sua competência como cirurgiã geral, mas pelo volume de seu corpo que o uniforme azul não conseguia esconder.

Desde que se transferira de Connecticut para Seattle, Clara vivia em um estado de alerta constante. Ela sabia que era boa. Seus dedos eram precisos, sua mente era rápida e seu diagnóstico era impecável. Mas, naquele hospital, a aparência parecia pesar tanto quanto o currículo.

— Olha só, parece que a cafeteria vai precisar de um estoque extra de donuts hoje — sussurrou a Dra. Miller, uma residente do quarto ano, enquanto passava por Clara no posto de enfermagem.

O riso abafado de outros dois internos seguiu o comentário. Clara manteve os olhos fixos no prontuário que segurava, embora as letras estivessem começando a embaçar. Ela estava acostumada. A vida inteira foi a "garota gordinha", a mulher que não se encaixava nos padrões de revista. E foi exatamente essa insegurança que a fez fugir de Nova York há três anos.

— Dra. Sloan? — Uma voz familiar e calorosa quebrou o transe de autodepreciação.

Clara levantou o olhar e forçou um sorriso para Derek Shepherd. O neurocirurgião era uma das poucas pessoas que a tratava com genuíno respeito desde que chegara.

— Bom dia, Derek — respondeu ela, a voz um pouco rouca.

— Você revisou os exames do paciente do 402? — Derek encostou-se no balcão, ignorando ostensivamente os internos que ainda cochichavam por perto. Ele lançou um olhar severo na direção deles, que rapidamente se dispersaram. — O tumor está pressionando a coluna, mas a complicação abdominal é o que me preocupa. Preciso da melhor cirurgiã geral para entrar comigo nessa.

Clara sentiu um calor no peito. Derek sabia como elevar a moral de alguém.

— Eu revisei. O risco de hemorragia é alto, mas se fizermos uma abordagem laparoscópica primeiro para estabilizar a área, você terá um campo limpo para a ressecção.

— Perfeito. É por isso que gosto de trabalhar com você, Clara. Você não vê apenas o problema, vê a solução — Derek sorriu, mas logo sua expressão suavizou para algo mais pessoal. — Você está bem? Eu ouvi o que a Miller disse. Se quiser, posso falar com o Webber.

— Não, por favor — Clara pediu, quase implorando. — Eu só quero trabalhar, Derek. Não quero ser a médica que precisa de proteção. Já basta o que as pessoas pensam de mim sem eu abrir a boca.

Derek suspirou, guardando as mãos nos bolsos do jaleco.

— Você é brilhante, Clara. Algum dia, essas pessoas vão perceber que o que importa está nas mãos e na cabeça, não no tamanho do manequim.

Ela assentiu, embora não acreditasse totalmente. O que Derek não sabia — o que ninguém naquele hospital sabia — era que o sobrenome "Sloan" em seu crachá não era uma coincidência. Ela não era apenas uma Sloan por acaso. Ela era a esposa de Mark Sloan.

Ou, pelo menos, legalmente ainda era.

Eles nunca assinaram os papéis do divórcio. Clara simplesmente fugiu. Ela o amava tanto que doía, mas a dor de não conseguir dar a ele o que ele mais queria — um filho — era maior. Mark nasceu para ser pai, ela via isso no jeito que ele olhava para as crianças no parque, na forma como ele falava sobre o futuro. E depois de três rodadas fracassadas de fertilização in vitro e o diagnóstico de que suas chances eram quase nulas, Clara se sentiu insuficiente. Como ela poderia competir com as mulheres perfeitas, magras e férteis que orbitavam Mark Sloan? Ela decidiu que ele merecia mais. Merecia alguém que não estivesse "quebrada".

O destino, porém, tinha um senso de humor cruel. Mark havia se mudado para Seattle meses antes dela, e agora eles trabalhavam no mesmo prédio. Ela passara as últimas duas semanas se escondendo, pegando escadas de serviço e almoçando em horários alternativos para evitá-lo.

— Sloan! — Um grito ecoou pelo corredor.

O coração de Clara parou. Por um segundo, ela achou que era Mark. Mas era apenas Richard Webber chamando Derek.

— Preciso ir — disse Clara apressadamente. — Vejo você no centro cirúrgico às duas?

— Estarei lá — confirmou Derek.

Clara caminhou rapidamente em direção ao elevador. Ela precisava de um momento sozinha. Entrou na cabine vazia e apertou o botão para o terraço, mas antes que as portas se fechassem, uma mão as impediu de travar.

O perfume de sândalo e sabonete caro invadiu o espaço antes mesmo que ele entrasse. Mark Sloan entrou no elevador com a arrogância habitual, folheando um tablet. Ele não olhou para cima de imediato.

— Segure o andar cinco, por favor — disse ele, a voz rouca que ainda fazia os joelhos de Clara fraquejarem.

Ela não disse nada. Apenas apertou o botão, mantendo-se no canto, tentando se tornar invisível.

O elevador começou a subir. Mark finalmente levantou os olhos e, quando viu quem estava ao seu lado, o tablet quase escorregou de suas mãos.

— Clara? — O nome saiu como um suspiro, carregado de uma mistura de choque, alívio e uma dor crua que ele não conseguiu esconder.

— Olá, Mark — respondeu ela, mantendo os olhos fixos na porta.

— O que... o que você está fazendo aqui? Em Seattle? Neste hospital? — Ele deu um passo em direção a ela, o espaço pequeno do elevador parecendo encolher ainda mais.

— Eu fui transferida. É um hospital público, Mark. Eu tenho direito de trabalhar onde eu quiser.

Mark soltou uma risada seca, sem humor.

— Três anos, Clara. Três anos sem uma ligação, sem um endereço, nada. Eu achei que você estivesse morta. Eu quase enlouqueci procurando por você.

— Você sabe por que eu fui embora — disse ela, finalmente olhando para ele. Os olhos azuis de Mark estavam marejados. — Você queria uma família. Uma de verdade.

— Eu queria você! — Mark explodiu, dando mais um passo, encurralando-a suavemente contra a parede de metal. — Eu nunca me importei com os bebês tanto quanto me importava com você. Você era a minha família, Clara.

— Olhe para mim, Mark! — Ela gesticulou para o próprio corpo, as lágrimas finalmente caindo. — Eu não sou o tipo de mulher que fica ao lado de um homem como você. Eu sou a médica de quem os internos fazem piada. Eu sou a "mulher gorda" que ocupa espaço demais. Você é o "McSteamy". Você merece alguém que combine com a sua capa de revista.

Mark pareceu atingido por um soco. Ele olhou para ela, não com o julgamento que ela esperava, mas com uma adoração feroz que a assustou.

— Se eu ouvir alguém neste hospital dizer uma palavra sobre o seu peso ou sobre a sua aparência, eu acabo com a carreira deles — ele disse, a voz baixa e perigosa. — Você é a mulher mais linda que eu já vi, Clara Sloan. No dia em que nos casamos e em cada dia que passei longe de você.

As portas do elevador se abriram no quinto andar. Mark não saiu.

— Eu ainda uso — disse ele, de repente, puxando uma corrente debaixo da camisa social. Pendurada nela, estava a aliança de casamento de ouro fosco. — Eu nunca tirei. Porque, no papel e no meu coração, você ainda é minha esposa.

Clara soluçou, cobrindo a boca com a mão.

— Mark, por favor... não faça isso.

— Eu não vou deixar você fugir de novo — afirmou ele, com uma determinação que ela conhecia bem. — Você pode se esconder nas salas de cirurgia, pode usar o Derek como escudo, mas eu não vou a lugar nenhum.

Nesse momento, um grupo de enfermeiras parou diante do elevador, esperando para entrar. Mark recompôs a postura instantaneamente, mas seus olhos nunca deixaram os de Clara.

— Dra. Sloan — disse ele, em um tom profissional que carregava uma promessa oculta —, espero vê-la na consulta de cirurgia plástica mais tarde para discutirmos o caso da reconstrução da mama na sala 4.

Clara apenas assentiu, incapaz de falar. Ela saiu do elevador apressadamente, sentindo o olhar dele queimando em suas costas.

Ao chegar ao posto de enfermagem do quarto andar, ela encontrou a Dra. Miller novamente, que estava rindo com um colega enquanto apontava para uma caixa de donuts deixada sobre o balcão.

— Ei, Sloan! — gritou Miller. — Deixamos o último para você. Achamos que você não ia querer perder a chance de manter as curvas.

Clara parou. Normalmente, ela baixaria a cabeça e seguiria em frente. Mas as palavras de Mark ainda ecoavam em seus ouvidos. Você é a mulher mais linda que eu já vi.

Ela caminhou até o balcão. Miller sorriu presunçosamente, esperando uma reação de choro ou silêncio.

— Dra. Miller — disse Clara, a voz firme e gelada. — Eu sugiro que você gaste menos tempo monitorando a minha dieta e mais tempo revisando a técnica de sutura interrompida. O paciente que você fechou ontem na emergência está com uma deiscência de ferida. Se eu tiver que refazer o seu trabalho porco de novo, o Dr. Webber não será o único a saber da sua incompetência.

O sorriso de Miller sumiu instantaneamente. O corredor ficou em silêncio.

— E quanto ao donut — continuou Clara, pegando a caixa e jogando-a no lixo —, eu prefiro que você o use para adoçar o seu temperamento. Você vai precisar de sorte quando o Dr. Shepherd descobrir que você tentou me desrespeitar. Ele não gosta de quem maltrata os seus consultores favoritos.

Clara deu as costas e caminhou em direção ao centro cirúrgico. Pela primeira vez em anos, ela não se sentiu pesada. Ela se sentiu poderosa.

Ao longe, escondido atrás de uma pilastra, Mark Sloan observava a cena com um sorriso orgulhoso nos lábios. Ele cruzou os braços, sentindo o peso da aliança contra o peito.

— Essa é a minha garota — sussurrou ele para si mesmo.

O jogo estava apenas começando. Ele tinha muito o que compensar, e sabia que reconquistar Clara não seria fácil. Ela tinha cicatrizes que não podiam ser operadas, e ele tinha uma reputação que precisava ser domada. Mas, enquanto ambos estivessem sob o mesmo teto, Mark não descansaria até que o mundo inteiro soubesse que Clara Sloan era a única mulher que ele já amou.

E que, desta vez, ele não a deixaria ir embora por nada.

Clara entrou na sala de higienização, começando o processo de lavagem das mãos. O sabão antisséptico era frio, mas seu coração estava em chamas. Ela olhou para o próprio reflexo no vidro da sala de cirurgia. Ela ainda era gorda. Ela ainda tinha estrias. Ela ainda tinha medo.

Mas ela também era a Dra. Clara Sloan, cirurgiã geral de elite. E, ao que parecia, ela ainda era a obsessão de Mark Sloan.

— Que comece o caos — murmurou ela, enquanto as portas automáticas do centro cirúrgico se abriam para recebê-la.

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