
Restaurante
Fandom: Vida pessoal
Criado: 16/07/2026
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Entre o Tempero e o Ciúme
O calor na cozinha do "Sabor de Minas", um dos restaurantes mais movimentados do centro de Juiz de Fora, era quase palpável. O som dos talheres batendo nos pratos, o burburinho constante dos clientes e o cheiro inebriante de feijão tropeiro e torresmo preenchiam o ar. Karinna, concentrada em finalizar uma sequência de pedidos de picanha na chapa, sentia o suor escorrer pela têmpora, mas sua mente não estava focada apenas nos pontos das carnes.
Depois de meses de negação, de noites em claro questionando o que sentia e de finalmente admitir que estava perdidamente apaixonada, Karinna e Karen haviam começado a namorar. Era um alívio, um peso que saíra de seus ombros, mas a vida real no ambiente de trabalho trazia desafios que ela não havia previsto. Especialmente quando a namorada era o sol em torno do qual todos pareciam orbitar.
Karen trabalhava na equipe de limpeza e organização do salão. Ela era a alma do lugar. Sempre com um sorriso aberto, uma piada pronta e uma energia que contagiava até o cliente mais mal-humorado que chegava ali para o almoço executivo. Karinna, por outro lado, era a força silenciosa da cozinha: focada, séria e, agora, terrivelmente territorialista.
Pela pequena abertura que ligava a cozinha ao salão, Karinna conseguia ver o movimento. E foi exatamente por aquele retângulo de visão que ela viu o que começou a azedar seu humor mais do que o limão na marinada.
Um grupo de três rapazes e duas moças entrou, fazendo barulho. Assim que viram Karen, que passava um pano em uma mesa próxima, os rostos deles se iluminaram.
— Não acredito! Karen! — gritou um dos rapazes, abrindo os braços.
Karen soltou uma risada sonora, aquela que Karinna tanto amava ouvir no pé do ouvido antes de dormirem, e correu para um abraço coletivo.
— Gente! Que surpresa boa! — disse Karen, a voz projetada com alegria. — O que vocês estão fazendo aqui no centro hoje?
Karinna, lá dentro, apertou o cabo da faca com um pouco mais de força do que o necessário. Ela observava cada detalhe. Karen estava radiante. Um dos rapazes, um moreno alto que parecia ter saído de uma propaganda de academia, colocou a mão no ombro de Karen e disse algo que a fez gargalhar, jogando a cabeça para trás.
— Olha só aquela palhaçada — resmungou Karinna para si mesma, enquanto virava um bife com um movimento brusco.
— Cuidado para não queimar a carne, Ka — comentou Beto, o outro cozinheiro, com um sorriso de canto. Ele já tinha percebido o olhar de águia da colega. — A Karen é popular, você sabe disso.
— Popular é uma coisa, Beto. Aquilo ali é... é um circo — rebateu Karinna, a voz carregada de um ciúme que ela tentava, sem sucesso, disfarçar.
Ela voltou a olhar pelo vão. Karen agora estava sentada na ponta da cadeira vaga da mesa dos amigos, gesticulando animadamente. O grupo parecia hipnotizado por ela. A mão do tal rapaz alto agora estava nas costas da cadeira de Karen, perigosamente perto do cabelo dela.
Karinna sentiu o sangue ferver. Ela sabia que Karen era bissexual, sabia que ela tinha um passado cheio de amigos e histórias, mas vê-la ali, tão acessível e tão íntima de pessoas que Karinna nunca tinha visto, despertava um sentimento de posse que a assustava.
— Ela deveria estar trabalhando — Karinna murmurou, limpando a tábua de corte com uma agressividade desnecessária.
— Ela está no intervalo dela, Ka. Relaxa — disse Beto, tentando apaziguar.
Mas Karinna não conseguia relaxar. Cada risada que atravessava o salão e chegava à cozinha parecia uma provocação. Ela viu quando Karen tocou o braço de uma das moças e depois deu um tapinha amigável no peito do rapaz alto. A intimidade era óbvia. A facilidade com que Karen se conectava com as pessoas era algo que Karinna admirava, mas, naquele momento, era o que mais a torturava.
O tempo parecia passar mais devagar. Os pedidos continuavam saindo, mas os olhos de Karinna voltavam sempre para o mesmo ponto no salão. Ela viu quando o grupo se levantou, quando as despedidas foram acompanhadas de mais abraços e beijos no rosto, e quando Karen ficou ali, acenando até eles cruzarem a porta de vidro para a rua movimentada de Juiz de Fora.
Alguns minutos depois, Karen entrou na cozinha para pegar um copo d'água, ainda com o sorriso no rosto.
— Nossa, vocês não acreditam quem apareceu! — disse Karen, aproximando-se da bancada de Karinna. — Meus amigos da época da faculdade, fazia anos que eu não via o Tiago e a Lúcia. Foi tão bom!
Karinna nem sequer levantou os olhos do que estava fazendo. Sua expressão era uma máscara de gelo.
— É, eu vi — respondeu Karinna, o tom de voz seco e cortante. — Deu para ver do Calçadão o tamanho da sua felicidade.
Karen franziu a testa, percebendo imediatamente a mudança de temperatura no ambiente. Ela deu um passo à frente, tentando buscar o olhar da namorada.
— Ué, o que foi? Aconteceu alguma coisa aqui na cozinha?
— Aqui na cozinha? Não. Aqui a gente trabalha, Karen — disse Karinna, finalmente olhando para ela, os olhos faiscando. — A gente não fica de papo furado no meio do salão como se o restaurante fosse uma mesa de bar.
Karen piscou, surpresa com a agressividade. Ela olhou ao redor para ver se alguém estava prestando atenção, mas Beto e os outros ajudantes subitamente ficaram muito interessados nas panelas de pressão.
— Eu estava no meu horário de descanso, Ka. Foram só dez minutos.
— Dez minutos de muita intimidade, não acha? — Karinna soltou a faca na bancada com um estalo metálico. — Faltou só você sentar no colo daquele tal Tiago.
O sorriso de Karen desapareceu completamente, substituído por uma expressão de incredulidade.
— Você está falando sério? Você está com ciúmes dos meus amigos?
— Eu estou falando que existe lugar para tudo — rebateu Karinna, cruzando os braços. — E ver você se esfregando em gente que eu nem conheço, no meio do nosso trabalho, não é exatamente a minha ideia de uma tarde agradável.
— "Se esfregando"? — Karen repetiu, a voz subindo um tom de indignação. — Karinna, eles são meus amigos de anos! O Tiago é como um irmão para mim. Eu sou uma pessoa comunicativa, você sabe disso. Eu gosto de gente, eu gosto de abraçar, de rir.
— É, eu sei. Você gosta tanto de gente que esquece que tem uma namorada olhando tudo da cozinha com cara de idiota — disse Karinna, a voz agora mais baixa, mas carregada de mágoa.
Karen suspirou, passando a mão pelo cabelo. Ela se aproximou mais, tentando reduzir a distância física entre as duas, apesar da bancada de inox que as separava.
— Ka, olha para mim.
Karinna hesitou, mas acabou cedendo. O olhar de Karen não era de raiva, mas de uma paciência misturada com tristeza.
— Eu escolhi você — disse Karen, a voz suave agora. — Eu demorei o que pareceu uma eternidade para te convencer de que o que eu sentia era real. Você acha mesmo que um abraço em um amigo vai mudar o que eu sinto por você?
— Não é isso... — Karinna desviou o olhar, sentindo a própria segurança minguar. — É que você é tão... brilhante. Todo mundo olha para você. Todo mundo quer um pedaço da sua atenção. E eu fico aqui, escondida atrás desse balcão, sentindo que sou a única que sabe o quanto você é incrível, mas ao mesmo tempo com medo de que qualquer um possa te levar de mim.
Karen esticou a mão e tocou levemente os dedos de Karinna, que estavam apoiados no inox frio.
— Ninguém pode me levar, porque eu não sou um objeto. E eu já tenho dono para o meu coração. — Karen deu um sorriso pequeno e sincero. — O Tiago é gay, se é isso que está te preocupando. E a Lúcia vai casar no mês que vem. Eles só estavam felizes por me ver bem. E eu contei para eles, sabe?
Karinna franziu a testa.
— Contou o quê?
— Contei que eu estou namorando a cozinheira mais talentosa e linda de Juiz de Fora. Contei que eu finalmente encontrei alguém que me faz querer sossegar o facho.
O rosto de Karinna esquentou, mas desta vez não era pelo calor do fogão. Ela sentiu uma pontada de vergonha pelo espetáculo que dera.
— Você falou de mim? — perguntou Karinna, a voz quase um sussurro.
— Falei. Por isso o Tiago olhou para a cozinha e deu aquele tchauzinho. Você não viu?
— Eu achei que ele estava dando tchau para você — admitiu Karinna, sentindo-se uma boba.
Karen soltou uma risadinha e apertou a mão dela.
— Você é uma boba ciumenta, sabia? Mas eu te amo assim mesmo. Só que, por favor, não desconta nas picanhas, os clientes não têm culpa.
Karinna finalmente relaxou os ombros e permitiu que um sorriso pequeno surgisse em seus lábios. Ela olhou para Karen, a mulher que trazia cor para a sua vida muitas vezes cinzenta e rotineira.
— Desculpa — disse Karinna. — É que eu ainda estou aprendendo a lidar com isso. Com o fato de que você é minha, mas que o mundo todo também gosta de você.
— Eu sou sua nos momentos que importam, Ka. No resto do tempo, eu sou apenas a Karen que gosta de conversar. — Karen piscou para ela. — Agora volta ao trabalho, chef. O pedido da mesa quatro está saindo?
Karinna respirou fundo, recuperando sua postura profissional.
— Saindo agora. E Karen?
— Oi?
— No jantar, hoje... só nós duas. Sem amigos, sem salão, sem público.
Karen sorriu, um sorriso que aqueceu o peito de Karinna muito mais do que qualquer chama de fogão.
— Combinado. Só nós duas.
Karen saiu da cozinha com a leveza de sempre, voltando para suas tarefas no salão. Karinna a observou por um momento, mas desta vez, o aperto no peito tinha sumido. Ela voltou para sua chapa, pegou a faca e começou a fatiar a carne com uma precisão impecável.
O "Sabor de Minas" continuava barulhento e caótico, mas ali, entre o vapor e o barulho dos pedidos, Karinna sentia uma paz nova. Ela sabia que o ciúme poderia voltar a bater à porta — afinal, Karen sempre seria aquela mulher solar que atraía olhares —, mas agora ela tinha a certeza de que, ao fim do expediente, era para os braços dela que Karen voltaria.
— Mesa quatro pronta! — anunciou Karinna com firmeza, a voz agora clara e sem nenhum traço de amargura.
Beto passou por ela e deu um tapinha no ombro.
— Tudo certo agora, chef?
— Tudo certo, Beto. Tudo sob controle.
E enquanto via Karen passar pelo salão, rindo de algo que um senhor idoso dizia em uma mesa de canto, Karinna apenas sorriu. Ela amava aquela mulher, com toda a sua extroversão e alegria. E, no fundo, sabia que era justamente esse brilho que a fizera se apaixonar em primeiro lugar. O ciúme era apenas o tempero forte de uma relação que ainda estava descobrindo seu ponto ideal. E Karinna, como boa cozinheira, sabia que o segredo estava sempre no equilíbrio.
