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1889

Fandom: 1889

Criado: 16/07/2026

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HistóricoDramaAngústiaEstudo de PersonagemDiscriminaçãoGravidez Não Planejada/IndesejadaSobrevivênciaTragédia
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O Peso das Ondas e das Promessas Quebradas

O ar no convés inferior do Kerberos era espesso, saturado com o cheiro de suor, carvão e o desespero silencioso de centenas de almas que buscavam um novo começo no horizonte americano. Clara apertou o xale desbotado contra os ombros, sentindo a brisa gélida do Atlântico Norte penetrar seus ossos. O mar estava agitado naquela noite de 1899, e o balanço do navio parecia ecoar o tumulto dentro de seu próprio peito.

Ela se ajeitou no banco de madeira, sentindo a pressão familiar em sua lombar. Aos cinco meses de gestação, seu corpo, que já era alvo de olhares maldosos e comentários cruéis nos salões de Londres por sua robustez, agora carregava um peso que era tanto físico quanto moral. Para a sociedade, Clara era uma aberração: uma mulher gorda que não sabia seu lugar e que, agora, carregava o pecado no ventre. Para si mesma, ela era apenas um receptáculo de memórias de uma noite que deveria ter sido o início de uma vida, mas se tornou o prelúdio de sua ruína.

Clara passou a mão sobre a saliência da barriga, escondida sob as camadas de tecido barato de seu vestido de algodão.

— Nós vamos ficar bem — sussurrou ela para o vazio, embora sua voz vacilasse.

Ela não tinha quase nada. O pouco dinheiro que restara após a morte de seus pais fora consumido por dívidas e pela passagem de terceira classe. Ela era uma pária, fugindo para um mundo onde esperava que ninguém soubesse seu nome ou a história do homem que a deixara para trás.

Lucien. O nome ainda ardia como brasa em sua língua.

Ele fora o único a olhá-la com o que ela acreditava ser desejo, não escárnio. Ele a tocara como se ela fosse feita de porcelana fina, e não de carne abundante. Naquela noite, antes de ele desaparecer sem deixar rastro, Clara sentira-se, pela primeira vez, vista.

O movimento no convés aumentou. Passageiros da primeira classe, envoltos em peles e sedas, às vezes se aventuravam pelas áreas comuns para observar o oceano, protegidos por cordas e pelo abismo social que os separava da "ralé". Clara evitou olhar para cima, focando seus olhos nos próprios sapatos gastos.

— Você deveria entrar, o frio não faz bem para alguém em seu estado — disse uma mulher idosa ao lado dela, com um olhar de piedade que Clara detestava.

— Já estou indo, obrigada — respondeu Clara, levantando-se com dificuldade.

Enquanto caminhava em direção à escada estreita que levava aos dormitórios sufocantes da classe baixa, um vulto parou no topo da escadaria. O coração de Clara falhou uma batida. A silhueta era alta, os ombros largos, a postura inconfundível. Mesmo sob a luz bruxuleante das lanternas a óleo, ela reconheceria aquele perfil em qualquer lugar do mundo.

Lucien estava ali. Mas não era o Lucien que ela conhecera. Ele vestia um sobretudo de lã impecável, uma cartola e, ao seu lado, uma mulher jovem e esguia, cujas mãos estavam enluvadas e presas ao braço dele com uma posse elegante.

O mundo de Clara girou. Ela se segurou no corrimão de ferro, sentindo o metal frio queimar sua pele.

— Lucien? — O nome escapou de seus lábios antes que ela pudesse contê-lo, um sopro de descrença.

O homem congelou. Ele virou o rosto lentamente, e o choque que atravessou suas feições foi tão violento que ele pareceu vacilar por um segundo. A mulher ao lado dele franziu a testa, olhando para Clara com um misto de confusão e nojo.

— Lucien, querido, você conhece essa... mulher? — perguntou a acompanhante, sua voz fina como um estilete.

Lucien engoliu em seco. Seus olhos, antes cheios de uma luz que Clara acreditava ser amor, agora estavam nublados por medo e algo que parecia uma culpa insuportável.

— Não — disse ele, a voz rouca, desviando o olhar. — Deve ser um engano. Vamos, Virginia, o ar aqui embaixo é insuportável.

Ele começou a se afastar, arrastando a esposa consigo. Mas Clara, impulsionada por uma fúria que superava sua vergonha, deu um passo à frente, ignorando a dor em suas pernas.

— Lucien! — gritou ela, atraindo os olhares de outros passageiros. — Você me deixou sem uma palavra. Você me deixou no escuro!

Ele parou novamente. Virginia soltou o braço dele, olhando de um para o outro, a compreensão começando a manchar seu rosto pálido.

— Lucien, o que significa isso? — exigiu a esposa.

— Vá para a cabine, Virginia — ordenou Lucien, sem olhar para ela. — Agora.

— Eu não vou a lugar nenhum até que...

— Vá! — O grito dele ecoou pelo convés, silenciando o murmúrio das ondas.

Assustada, a mulher recolheu as saias e subiu as escadas apressadamente, deixando Lucien e Clara sozinhos no limiar entre a luz da riqueza e a sombra da pobreza.

Lucien desceu os degraus lentamente, cada passo parecendo pesar uma tonelada. Ele parou a poucos metros dela, a distância de um mundo inteiro.

— Clara — disse ele, e o som de seu nome na voz dele quase a fez desabar. — Você não deveria estar aqui.

— E onde eu deveria estar? Em um asilo para mães solteiras? Na sarjeta? — Clara riu, um som seco e sem alegria. — Você sumiu. Eu pensei que estivesse morto.

— Eu quase estive — respondeu ele, dando um passo incerto em direção a ela. Ele parecia mais pálido do que ela se lembrava, as olheiras profundas sob os olhos. — Minha doença... os pulmões... os médicos em Londres disseram que eu não passaria do inverno se não buscasse tratamento no exterior.

— E o tratamento custava uma esposa rica? — Clara apontou para o convés superior. — É por isso que você está vestido como um lorde enquanto eu conto moedas para comer?

Lucien fechou os olhos, uma expressão de agonia cruzando seu rosto.

— Eu não tive escolha, Clara. Minha família estava na ruína, eu estava morrendo. O pai de Virginia ofereceu o dinheiro, a viagem, os especialistas... em troca do casamento. Eu fiz isso para sobreviver.

— E o que você esperava que eu fizesse? — Clara deu um passo à frente, deixando a luz da lanterna iluminar plenamente sua figura. Ela abriu o xale, revelando a curva inegável de seu ventre. — Você sobreviveu, Lucien. Mas e quanto a nós?

O rosto de Lucien perdeu toda a cor. Ele estendeu a mão, como se quisesse tocar a barriga dela, mas a recolheu como se tivesse se queimado.

— Meu Deus... Clara... eu não sabia.

— Como saberia? Você não deixou um endereço. Não deixou uma carta. Você simplesmente se apagou da existência — disse ela, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seus cílios. — Eu sofri cada insulto, Lucien. Cada risada pelas minhas costas porque eu sou "grande demais", "indigna demais". E agora eu carrego o fruto da única vez que me senti humana.

— Eu sinto muito — sussurrou ele, a voz quebrada. — Eu nunca quis que isso acontecesse. Eu pretendia enviar dinheiro assim que estivesse estabelecido, eu juro...

— Dinheiro? — Clara cuspiu a palavra. — Você acha que é de dinheiro que eu preciso? Eu precisava de você! Eu precisei de você quando meu pai me expulsou de casa. Eu precisei de você quando passei noites em claro vomitando e tremendo de medo do futuro.

Lucien olhou ao redor, o medo de ser descoberto lutando contra a dor que sentia.

— Clara, por favor, fale baixo. Se Virginia descobrir, se a família dela souber... eles cortam tudo. Eu morro em meses sem o tratamento.

Clara sentiu um frio gélido no coração que nada tinha a ver com o oceano.

— Então a sua vida vale mais do que a nossa? — Ela colocou a mão sobre o ventre. — Este bebê não pediu para nascer na terceira classe de um navio fantasma, Lucien.

— Eu vou ajudar você — disse ele, aproximando-se mais, sua voz agora um sussurro urgente. — Eu vou dar um jeito. Vou conseguir dinheiro, vou garantir que você tenha um lugar para ficar em Nova York.

— Com o dinheiro dela? — Clara perguntou, com um desprezo que a surpreendeu. — Você quer comprar o meu silêncio com o dote da sua esposa?

— Eu quero que você viva! — exclamou ele. — Eu amo você, Clara. Eu nunca deixei de amar. Mas o mundo não é gentil com pessoas como nós. Eu sou um homem doente e você... você sabe como eles te tratam.

Clara sentiu o peso das palavras dele. "Pessoas como nós". Os rejeitados, os imperfeitos, os que não cabiam nos moldes apertados da virada do século. Ela olhou para as mãos de Lucien, mãos que um dia a seguraram com ternura, e viu o anel de ouro brilhando em seu dedo.

— Você escolheu o seu lado, Lucien — disse ela, sua voz agora fria e firme. — Você escolheu a seda e a mentira. Eu escolhi a verdade, por mais pesada que ela seja.

— Clara, espere — ele tentou segurar o braço dela, mas ela se esquivou.

— Não me toque. Você não tem esse direito. Vá voltar para sua esposa. Vá respirar o ar puro da primeira classe enquanto puder.

— O que você vai fazer? — perguntou ele, o desespero estampado nos olhos.

Clara olhou para o horizonte escuro, onde o mar e o céu se fundiam em uma coisa só.

— Eu vou sobreviver — disse ela. — Mas não por sua causa. Por causa dele. Ou dela. E quando chegarmos à América, Lucien, eu não quero nunca mais ver o seu rosto. Para mim, o homem que eu amei morreu naquela noite em Londres. O que sobrou é apenas um fantasma em um terno caro.

Ela se virou e desceu os degraus, sentindo o peso de cada passo, mas também uma estranha leveza que não sentia há meses. O ar na terceira classe continuava abafado, o cheiro de pobreza continuava presente, mas Clara não se sentia mais escondida.

Lucien ficou parado no topo da escada, observando-a desaparecer na escuridão do porão. Ele tossiu, um som seco e profundo que parecia rasgar seu peito, e apertou o lenço de seda contra a boca. Quando o afastou, havia manchas de sangue no tecido branco.

Ele tinha o dinheiro, tinha o status e tinha a chance de viver mais alguns anos. Mas, enquanto olhava para o lugar onde Clara estivera, ele soube que, no fundo, ele era o único ali que já estava morto.

Clara deitou-se em seu beliche estreito, ouvindo o ranger do navio e o som das ondas batendo contra o casco. Ela colocou as mãos sobre a barriga e sentiu um pequeno chute, um movimento sutil, mas poderoso.

— Nós vamos ficar bem — repetiu ela, desta vez com a certeza de quem não tinha mais nada a perder, exceto o futuro que ela mesma construiria.

O Kerberos continuou sua jornada através do Atlântico, carregando mil segredos em seu ventre de aço, enquanto Clara, a mulher que o mundo tentou diminuir, sentia-se, pela primeira vez, maior do que qualquer oceano.

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