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Restaurante popular

Fandom: Vida pessoal

Criado: 16/07/2026

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RomanceFatias de VidaDramaHistória DomésticaCiúmesDor/ConfortoHumorRealismo
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Tempero de Ciúme e Pratos Feitos

O vapor das grandes panelas de alumínio subia, embaçando levemente os vidros do Restaurante Popular de Juiz de Fora. O burburinho das pessoas na fila, o tilintar dos talheres de metal e o cheiro reconfortante de arroz, feijão e carne ensopada compunham a sinfonia diária de Karen e Karinna. Para quem via de fora, eram apenas duas funcionárias dedicadas, movendo-se com agilidade entre o balcão e a cozinha. Para quem olhava de perto, via-se um romance que demorou a florescer, mas que agora parecia estar sob uma tempestade inesperada.

Karinna, assumidamente lésbica desde a adolescência e com um temperamento firme, sempre soube o que queria. E o que ela queria, há muito tempo, era Karen. Karen, por outro lado, com sua bissexualidade descoberta aos poucos e um jeito mais contido, levara meses para ceder às investidas e perceber que o que sentia por Karinna ia muito além de uma amizade de trabalho. O empurrãozinho final viera de Juliana, a amiga em comum que, cansada de ver as duas naquele "chove não molha", praticamente as trancou no estoque até que o primeiro beijo acontecesse.

No entanto, naquela manhã, o clima no restaurante estava mais pesado que a panela de pressão industrial. Karinna mal olhava para Karen enquanto organizava as bandejas. O motivo tinha nome e sobrenome: Juliana.

— Você vai mesmo continuar com esse bico, Karinna? — perguntou Karen, baixinho, aproveitando um momento em que a fila de usuários ainda não tinha começado a se formar.

— Não estou com bico nenhum, Karen. Estou trabalhando. Diferente de certas pessoas que passam metade do expediente de risinho com a Juliana — rebateu Karinna, sem desviar os olhos das bandejas metálicas.

— A Juliana é nossa amiga! Ela que ajudou a gente, pelo amor de Deus. Ela estava só me contando sobre o novo curso que vai fazer. Não posso nem ser educada agora? — Karen suspirou, sentindo o cansaço antes mesmo do meio-dia.

— Ser educada é uma coisa. Ficar de segredinho no canto da cozinha, enquanto eu me mato de repor o buffet, é outra bem diferente — Karinna finalmente olhou para ela, os olhos castanhos faiscando. — Eu conheço esse seu jeito, Karen. Você dá corda, e a Juliana sempre teve uma quedinha por você, mesmo dizendo que queria nos ajudar.

Karen abriu a boca para retrucar, mas foi interrompida pela chegada de Janaína, outra colega de trabalho que, infelizmente, tinha o dom de chegar nos momentos mais inoportunos. Janaína era o tipo de pessoa que tentava ser amiga de todo mundo, mas acabava se tornando o para-raios das tensões alheias.

— Meninas, está tudo bem aqui? — perguntou Janaína, olhando de uma para a outra com um sorriso nervoso. — O gerente está perguntando se o suco de caju já está pronto.

— Pergunta para a Karen, Janaína — disse Karinna, a voz carregada de sarcasmo. — Ela deve saber, já que estava tão ocupada "conversando" com a Juliana perto das refresqueiras.

— Ah, não me mete nisso, gente — Janaína levantou as mãos, dando um passo para trás. — Eu só vim saber do suco.

Karen sentiu o sangue subir ao rosto. O ciúme de Karinna era algo que ela ainda estava aprendendo a lidar, mas o que a irritava de verdade era como Karinna ignorava o fato de que ela também tinha motivos para se sentir insegura.

— Engraçado você falar de segredinhos, Karinna — disse Karen, cruzando os braços e ignorando o olhar desesperado de Janaína. — Porque ontem, quando a Janaína te chamou para ir ao almoxarifado "ajudar com as caixas", vocês demoraram meia hora. E eu não vi caixa nenhuma saindo de lá.

Janaína arregalou os olhos, sentindo-se subitamente no centro de um furacão.

— Karen! Eu juro que a gente só estava tentando consertar a prateleira que cedeu! — Janaína tentou se explicar, a voz subindo um oitavo.

— Viu só, Jana? — Karinna riu, um riso sem humor. — Agora a culpa é sua também. A Karen não pode ver ninguém conversando comigo que já acha que é traição. É a forma dela de desviar o foco da amiguinha colorida dela, a Juliana.

— Amiguinha colorida? — Karen deu um passo à frente, a voz agora num tom perigosamente baixo. — Você está sendo injusta e infantil. A Juliana é como uma irmã para mim. Já você e a Janaína... vocês têm uma intimidade que me incomoda sim, e eu nunca usei isso para te atacar no meio do serviço.

— Gente, por favor... — Janaína interveio, ficando fisicamente entre as duas. — O restaurante vai abrir em cinco minutos. Se o pessoal lá fora ouve essa briga, a gente vai levar suspensão. Karinna, a Karen te ama. Karen, a Karinna só tem olhos para você. Eu sou só a pessoa que carrega caixa e faz suco!

Karinna bufou, pegando uma concha com força excessiva.

— Ela começou — resmungou Karinna, voltando-se para o balcão.

— Eu comecei? — Karen soltou uma risada incrédula. — Você que acordou com a cara amarrada porque a Juliana me mandou um "bom dia" no WhatsApp!

— Um "bom dia" com emoji de coração, Karen! — gritou Karinna, perdendo a compostura por um segundo.

— Era um coração de amizade! — rebateu Karen.

Janaína, vendo que a situação estava fugindo do controle, pegou um pano de prato e bateu na bancada, atraindo a atenção das duas.

— Chega! As duas! — Janaína assumiu uma postura autoritária que raramente mostrava. — Karinna, você é louca pela Karen desde que entrou aqui, todo mundo sabe disso. Para de criar monstros onde não tem. E Karen, você sabe que a Karinna é insegura porque ela passou anos querendo você e achando que não tinha chance. Conversem como adultas, mas depois do expediente. Agora, coloquem a rede no cabelo, sorriam e vamos servir esse povo porque a fila já está virando o quarteirão.

O silêncio que se seguiu foi tenso, mas eficaz. Karen e Karinna se olharam por longos segundos. Havia mágoa, sim, mas havia também aquele brilho de afeto que nenhuma briga de ciúme conseguia apagar completamente.

— Tudo bem — disse Karinna, a voz mais calma, embora ainda firme. — Vamos trabalhar. Mas a gente não terminou essa conversa.

— Com certeza não terminamos — concordou Karen, ajeitando o avental. — E a Janaína tem razão em uma coisa: eu não tenho culpa se a Juliana é carinhosa. Mas eu também não deveria ter duvidado de você com ela.

Janaína soltou um suspiro de alívio tão longo que seus ombros caíram.

— Obrigada, senhor. Agora, Karinna, o suco. Karen, as cubas de salada. Movimento, meninas!

As horas seguintes foram um borrão de rostos, pratos e agradecimentos. O Restaurante Popular de Juiz de Fora nunca parava. Entre uma conchada de feijão e outra, os dedos de Karen e Karinna se tocaram acidentalmente enquanto trocavam uma travessa. Foi um toque rápido, mas elétrico. Karinna olhou para Karen e, desta vez, não havia faíscas de raiva, apenas uma pergunta silenciosa.

Quando o relógio marcou o fim do turno e o último usuário saiu, a exaustão física começou a bater. Janaína já tinha se retirado para os fundos, querendo dar espaço para o casal se entender, mas ainda atenta caso precisasse intervir novamente.

Karen estava guardando o avental no armário quando sentiu as mãos de Karinna em sua cintura. Ela não se virou de imediato, permitindo-se sentir o calor do corpo da namorada contra o seu.

— Eu odeio sentir ciúme — sussurrou Karinna, encostando a testa nas costas de Karen. — Me sinto pequena, me sinto idiota. Mas quando vejo a Juliana te olhando, eu sinto que ela conhece partes de você que eu ainda estou descobrindo.

Karen se virou devagar, envolvendo o pescoço de Karinna com os braços.

— A Juliana conhece a Karen amiga, a Karen colega. Você conhece a Karen que não consegue dormir sem o barulho do ventilador. A Karen que chora vendo comercial de margarina. A Karen que é completamente apaixonada por uma mulher teimosa e ciumenta chamada Karinna.

Karinna deu um meio sorriso, a tensão abandonando seu rosto.

— E a Janaína? — perguntou Karinna, com um toque de provocação. — Você realmente achou que a gente estava fazendo algo no almoxarifado?

— No fundo, não — admitiu Karen, rindo baixo. — Mas eu precisava de um argumento para te mostrar como é chato ouvir insinuações sem fundamento. A Janaína é uma coitada, ficou ali no meio do nosso fogo cruzado.

— A gente deve um pedido de desculpas e talvez um lanche para ela — disse Karinna, aproximando o rosto do de Karen.

— A gente deve muito mais que isso. Mas primeiro... — Karen encurtou a distância entre as duas, selando os lábios em um beijo que misturava o cansaço do dia com o alívio da reconciliação.

Era um beijo que tinha gosto de paz. No fundo da cozinha, ouviram um barulho de algo caindo.

— Eu não vi nada! — gritou a voz de Janaína lá do fundo. — Podem continuar, eu só estou fechando a janela!

As duas riram, separando-se apenas o suficiente para encostarem os narizes.

— Juiz de Fora é pequena demais para os seus ataques de ciúme, Karinna — brincou Karen.

— E o meu coração é grande demais para você, Karen. Só tenta não deixar a Juliana mandar tantos corações, tá? — Karinna pediu, com um beicinho que Karen não resistiu em beijar novamente.

— Vou tentar. Mas só se você prometer que não vai mais me dar o gelo no meio do serviço. O feijão fica até sem sal com você brava comigo.

— Prometido.

Saíram do restaurante de mãos dadas, deixando para trás o cheiro de comida e as brigas bobas. O sol da tarde de Juiz de Fora iluminava o caminho, e, apesar de saberem que o ciúme poderia voltar a visitar o relacionamento de vez em quando, sabiam também que o tempero principal entre elas ainda era o amor — e esse, felizmente, nunca faltava no cardápio.

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