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Tesão

Fandom: Magi

Criado: 16/07/2026

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Entre Sombras e Sentimentos Mal Resolvidos

Eu estava no escritório, debruçada sobre os autos, mais uma vez passando a noite trabalhando. Ultimamente era assim: enchia a cabeça de serviço para não sobrar espaço para pensar no que realmente importava — ou no que realmente doía. As letras jurídicas pareciam dançar diante dos meus olhos cansados, mas eu me forçava a ler cada parágrafo, cada petição, como se minha vida dependesse daquela burocracia.

Ana Clara entrou devagar na sala, parou ao lado da mesa e ficou me observando por um tempo com aquele olhar de quem sabe ler até meus pensamentos mais ocultos.

— Hum… tá tão calada hoje — comentou ela, cruzando os braços e encostando o quadril na quina da minha mesa de mogno. — Saudades da namoradinha?

— Ai Ana, cala a boca — rebati sem tirar os olhos dos papéis, sentindo o rosto esquentar instantaneamente.

— E a Mari não é minha namorada não — completei, fechando a pasta com um pouco mais de força do que pretendia. O baque surdo do papel contra a madeira ecoou no silêncio do escritório. — Só estamos ficando, só isso.

— Por que então essa aflição toda? — insistiu ela, aproximando-se mais, a voz carregada de uma ironia gentil. — Minha filha, você tá com medo do quê? Aquela mulher é uma coisa… diferente, forte, decidida. Ou será que é justamente por causa dela que você tá assim?

Revirei os olhos, impaciente. O problema não era a Mari. O problema era o que a Mari não conseguia apagar.

— Então fica pra você então.

— Não, querida — ela sorriu de lado, sacudindo a cabeça, os brincos balançando levemente. — Ela não faz o meu tipo. Faz o seu tipo. E muito bem feito, por sinal. Afinal… já rolou alguma coisa mais?

Senti um nó na garganta. A pergunta era simples, mas a resposta era um abismo.

— Não… e também eu… eu não consigo. Sei lá, toda vez que tento avançar… travo.

Ana soltou uma risada leve, quase incrédula, jogando a cabeça para trás.

— Ah, tá com bloqueio agora pra transar? Logo você, que era uma loba na cama?

— Ai, larga de ser idiota — resmunguei, desviando o olhar para a janela, onde as luzes da cidade brilhavam como pequenos pontos de ansiedade.

— E tô mentindo? — insistiu ela, apoiando-se na mesa com as duas mãos, forçando-me a encará-la. — Você mesma ficava aqui contando pra mim, quando era com a Giovanna…

Sem querer, um sorriso leve escapou dos meus lábios antes que eu pudesse contê-lo. A lembrança veio nítida, avassaladora: Giovanna tinha um jeito, uma pegada, uma forma de me tocar que fazia eu perder o rumo. Ela sabia exatamente onde pressionar, como sussurrar, como me deixar toda mole, sem forças pra resistir a nada. Era uma química que beirava o perigoso.

— Esse sorriso aí… — apontou Ana, a voz suavizando, tornando-se mais séria, quase lamentando por mim.

— An? O que foi? — perguntei, saindo do transe e sentindo meu coração acelerar contra as costelas.

— Tá lembrando, né? E aí? Vai continuar negando o que tá na cara?

Fechei os olhos por um segundo, sentindo a pulsação forte no pescoço. A imagem de Giovanna no teatro, o confronto recente, a raiva misturada com aquele desejo que parecia nunca morrer... era demais para processar numa terça-feira à noite.

— Ah, cala a boca, Ana Clara! Quero que a Giovanna se dane! E vamos trabalhar, pelo amor de Deus!

Bati a mão levemente nos papéis, tentando reorganizar meus pensamentos e minha dignidade, mas o estrago já estava feito. O fantasma de Giovanna estava sentado ali, entre nós duas, rindo da minha tentativa fútil de seguir em frente.

....

A noite avançou e o escritório mergulhou naquela penumbra densa que só os prédios comerciais vazios possuem. Ana Clara já tinha ido embora há horas, deixando apenas o cheiro de café frio e a minha própria exaustão como companhia. O único som era o zumbido baixo do ar-condicionado.

Eu estava de costas para a porta, organizando minha bolsa para finalmente ir embora, quando um arrepio percorreu minha espinha. O som de saltos estalando contra o piso de porcelanato interrompeu o silêncio.

— Atrapalho?

A voz era baixa, aveludada e carregada de uma confiança que sempre me desarmava. Congelei. Eu conheceria aquele tom em qualquer lugar do mundo, em qualquer vida.

Virei-me devagar, encontrando Giovanna encostada no batente da porta. Ela usava um casaco escuro que realçava sua postura imponente. Os olhos dela me percorriam como se estivessem lendo as entrelinhas de um contrato proibido.

— O que você está fazendo aqui, Giovanna? — perguntei, tentando manter a voz firme, embora minhas mãos estivessem começando a tremer. — Já passou das dez.

— Eu vi a luz acesa lá embaixo — disse ela, dando um passo para dentro da sala, fechando a porta atrás de si com um clique suave que pareceu um tiro no meu peito. — Imaginei que você estaria aqui, tentando se esconder do mundo entre esses processos chatos.

— Eu não estou me escondendo — menti, dando a volta na mesa para criar uma barreira física entre nós. — Estou trabalhando. Coisa que pessoas normais fazem.

Giovanna soltou uma risada curta, caminhando em minha direção com aquela elegância predatória que sempre teve.

— Você está fugindo, Maya. Fugindo de mim, fugindo da Mari... fugindo do fato de que ninguém te olha como eu olho.

— Você é muito convencida — retruquei, sentindo a raiva borbulhar, uma defesa bem-vinda contra a atração que ameaçava me inundar. — Você acha que o mundo gira em torno do seu umbigo e da nossa... história. Isso acabou, Giovanna.

— Acabou? — Ela parou a poucos centímetros de mim. O perfume dela, uma mistura de sândalo e algo puramente dela, invadiu meus sentidos. — Então por que você ainda fica tensa quando eu entro na sala? Por que seus olhos brilham desse jeito quando você tenta me expulsar?

— Eu fico tensa porque você é um incômodo! — exclamei, perdendo a paciência e gesticulando com as mãos. — Você aparece do nada, mexe com a minha rotina, desenterra coisas que eu levei meses para enterrar! Você é egoísta, Giovanna!

Ela inclinou a cabeça para o lado, um sorriso enviesado surgindo em seus lábios perfeitamente desenhados. Ela não parecia nem um pouco abalada pelo meu surto.

— Fica gostosa quando tá brava — murmurou ela, a voz descendo um oitava, tornando-se perigosamente íntima.

Aquelas palavras foram como um fósforo aceso em um rastro de pólvora. A audácia dela, a forma como ela reduzia minha indignação a um jogo de sedução, me fez explodir.

— Eu te odeio — sibilie, dando um passo à frente, batendo meu dedo contra o peito dela. — Eu te odeio por achar que pode fazer isso comigo. Eu te odeio por ser tão... você.

— Eu sei — respondeu ela, num sussurro quase inaudível.

Antes que eu pudesse processar a resposta ou desferir outro insulto, Giovanna agiu. Ela segurou meus pulsos com uma firmeza surpreendente e me empurrou para trás. Em um segundo, minhas costas atingiram a madeira fria da porta e o corpo dela se pressionou contra o meu, eliminando qualquer espaço que ainda restasse entre nós.

O beijo não foi calmo. Foi um choque, uma colisão de anos de ressentimento e desejo reprimido. Ela me beijou com uma urgência que dizia que ela também estava morrendo por dentro, uma fome que eu não encontrava em Mari, nem em ninguém.

Minhas mãos, que antes tentavam afastá-la, subiram involuntariamente para os cabelos dela, puxando-a para mais perto, se é que isso era possível. Eu queria odiá-la, eu realmente queria, mas o toque de Giovanna era o único que falava a língua do meu corpo.

Ela interrompeu o beijo por um milésimo de segundo, apenas para morder meu lábio inferior, seus olhos escuros fixos nos meus, brilhando com uma vitória que eu não podia mais negar.

— Odeia, é? — provocou ela, a respiração ofegante contra a minha boca.

— Cala a boca... — respondi, puxando-a de volta para mais um beijo, aceitando que, pelo menos naquela noite, o fantasma de Giovanna não estava apenas na sala; ele tinha me possuído por completo.

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