
Casamento jogo do poder
Fandom: Stalia
Criado: 16/07/2026
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Sementes de Neve e Esperança
A neve caía lá fora, pintando a paisagem suíça com um branco imaculado que parecia refletir a pureza do momento que estávamos vivendo. O consultório do Dr. Aris Schneider não parecia um ambiente hospitalar frio; era aquecido, com painéis de madeira clara e uma vista privilegiada para os Alpes. Maya segurava minha mão com tanta força que eu podia sentir a pulsação do seu coração através da palma da sua mão.
— Fique calma, baby — sussurrei, encostando minha cabeça no ombro dela enquanto esperávamos ser chamadas. — Você está mais nervosa do que eu, e sou eu quem vai carregar o barrigão.
Maya soltou um riso anasalado, mas seus olhos continuavam fixos na porta de carvalho à nossa frente.
— Eu só quero que seja perfeito, Gio. Depois do que aconteceu com a pequena Lúcia naquela loja, parece que uma chave virou dentro de mim. Eu olho para você e já consigo ver… o brilho diferente, sabe?
— Eu sei — respondi, sentindo um frio na barriga que não tinha nada a ver com a temperatura externa.
A porta se abriu e um homem de meia-idade, com cabelos grisalhos perfeitamente alinhados e um sorriso acolhedor, nos convidou a entrar. O Dr. Schneider falava um inglês pausado e gentil, facilitando a nossa comunicação. Maya, sempre prevenida, já tinha todos os nossos exames recentes traduzidos em uma pasta organizada.
— É um prazer conhecê-las — disse o médico, acomodando-se atrás de sua mesa. — Li o breve histórico que me enviaram. Vocês decidiram pela fertilização in vitro com recepção de oócitos, correto? O método ROPA.
Maya assentiu prontamente, assumindo a frente da conversa como a protetora que sempre foi.
— Sim, doutor. Queremos que o processo comece agora, enquanto estamos aqui. Queremos escolher o doador e realizar os primeiros procedimentos preparatórios. Eu serei a doadora dos óvulos e a Giovanna irá gestar.
Olhei para Maya, sentindo uma onda de amor me atingir. A ideia de carregar um pedacinho dela dentro de mim era a coisa mais poética que já havíamos planejado. Era a fusão definitiva das nossas vidas.
— É um procedimento com altas taxas de sucesso, especialmente dada a saúde de ambas — explicou o Dr. Schneider, abrindo um catálogo digital em seu tablet. — Aqui na Suíça, temos um banco de dados rigoroso. Podemos buscar características que complementem as suas ou que tragam a diversidade que desejam.
Passamos a hora seguinte mergulhadas em perfis. Era estranho e emocionante ao mesmo tempo. Maya analisava cada detalhe: histórico médico, hobbies, inclinações artísticas.
— Olha esse, Gio — disse ela, apontando para um perfil de um doador que amava música e tinha olhos expressivos. — Ele parece ter uma energia calma. Acho que combinaria com a bagunça que a Sofia faz.
— Eu acho perfeito — concordei, sentindo meus olhos marejarem. — Imagine só, Maya… um bebê com os seus traços, crescendo aqui dentro, e depois correndo pela casa com a nossa pequena.
Saímos da clínica algumas horas depois com uma receita de vitaminas, um cronograma de injeções hormonais que Maya insistiu que ela mesma aplicaria em mim, e uma sensação de que o mundo havia acabado de se expandir.
Caminhamos pelas ruas de paralelepípedos de Zurique sob a luz amarelada dos postes. O frio cortante nos obrigava a andar abraçadas, dividindo o calor dos nossos corpos.
— Você tem certeza disso, Gio? — Maya parou de repente, de frente para mim, segurando meu rosto com as duas mãos. As pontas dos dedos dela estavam geladas, mas o olhar era puro fogo. — Eu não quero te pressionar. Se você sentir medo, ou se achar que é cedo demais…
— Maya Manoela — interrompi, selando nossos lábios em um beijo rápido e cheio de promessa. — Eu nunca tive tanta certeza de nada. Ver você com aquela menininha na loja… a forma como você defendeu ela, como você cuidou da mãe dela… ali eu tive certeza de que o nosso amor é grande demais para ficar só entre nós duas e a Sofia. Ele precisa transbordar.
Ela sorriu, e foi o sorriso mais lindo que já vi em dez dias de lua de mel.
— Então vamos fazer um brinde — sugeriu ela, puxando-me em direção a um pequeno bistrô aconchegante que exalava cheiro de chocolate quente e canela. — Um brinde ao nosso futuro membro da família Torres Garcia.
Sentamos em uma mesa de canto, perto da lareira. O ambiente era íntimo, com poucas pessoas e uma música de piano suave ao fundo. Maya pediu um vinho para ela e, para mim, um suco de frutas vermelhas, já começando a "me cuidar" como se eu estivesse grávida naquele exato segundo.
— Você já pensou em nomes? — perguntei, observando o reflexo das chamas nos olhos dela.
— Se for menino, eu andei pensando em Gael. Ou talvez algo que homenageie nossas raízes — ela divagou, parecendo perdida em um sonho acordado. — Mas se for menina… eu adoraria algo que soasse tão forte quanto o seu nome.
— Gael é lindo — admiti. — Mas sabe o que eu mais quero? Eu quero ver a cara da Sofia quando contarmos. Ela vive pedindo alguém para brincar de boneca.
Maya riu, segurando minha mão por cima da mesa.
— Ela vai ser a melhor irmã mais velha do mundo. Mas Gio… eu andei pensando no que você perguntou hoje cedo. Sobre por que fazer isso aqui e não no Brasil.
— E? — incentivei, tomando um gole do meu suco.
— Eu percebi que, no Brasil, a gente é cercada de expectativas. Família, amigos, o trabalho… todo mundo quer opinar. Aqui, entre essas montanhas e esse silêncio, o bebê é só nosso. É como se estivéssemos plantando a semente em solo sagrado. Quando voltarmos, ele já vai ser uma realidade dentro de você. Ninguém vai poder dizer que "deveríamos ter esperado" ou coisa do tipo.
— Você sempre pensa em tudo, não é? — acariciei o dorso da mão dela.
— Eu tento proteger o que temos de mais valioso — respondeu ela, com a voz ficando mais baixa e rouca. — E o que temos de mais valioso é a nossa paz.
Voltamos para o nosso chalé mais tarde naquela noite. O clima de romance da lua de mel agora estava carregado de uma camada extra de ternura. Enquanto Maya me ajudava a tirar o casaco pesado, ela me abraçou por trás, apoiando o queixo no meu ombro e as mãos espalmadas sobre o meu ventre, ainda plano sob a blusa de lã.
— Aqui dentro — sussurrou ela contra meu ouvido. — Logo, logo, vai ter uma vida que é fruto do nosso amor. Eu mal posso esperar para te ver mudar, Gio. Para te ver ficar brava porque os pés estão inchados, para te trazer desejos de comida estranha às três da manhã…
Virei-me em seus braços, enlaçando seu pescoço.
— Você vai ter que ter muita paciência comigo, dona Maya. Dizem que grávidas ficam impossíveis.
— Eu já lido com você há tanto tempo, meu amor — provocou ela, rindo quando eu lhe dei um tapinha de leve no braço. — Mas falando sério… eu vou cuidar de vocês dois com a minha vida.
Naquela noite, antes de dormirmos, ficamos apenas deitadas, ouvindo o som do vento batendo nas janelas de vidro duplo. Maya falava baixo sobre como imaginava o quarto, sobre as roupas que compraria — provavelmente exagerando na dose, como sempre fazia com a Sofia — e sobre como nossa vida mudaria.
— Você acha que eu vou ser uma boa mãe de recém-nascido de novo? — perguntei, sentindo uma pontada de insegurança súbita. — Já faz um tempo com a Sofia…
— Você é a melhor mãe que eu conheço, Giovanna — Maya disse com firmeza, virando-se para me encarar no escuro, apenas com a luz da lua refletida na neve entrando pelo quarto. — Você tem uma doçura que acalma qualquer choro. E eu estarei lá. Em cada troca de fralda, em cada noite em claro. Nós somos uma equipe.
— Uma equipe — repeti, sentindo o peso daquelas palavras.
No dia seguinte, começamos oficialmente o processo. A primeira aplicação de hormônios foi feita no quarto do chalé, com Maya segurando a seringa com as mãos levemente trêmulas, mas o olhar determinado.
— Pronta? — perguntou ela, limpando a área da minha barriga com álcool.
— Pronta. Por nós.
A pequena picada não foi nada comparada à explosão de esperança que senti. Nos dias que se seguiram, nossa lua de mel ganhou um novo ritmo. Visitamos as lojinhas de brinquedos de madeira artesanais da Suíça, e Maya não resistiu a comprar um pequeno carrossel musical entalhado à mão.
— Para o berço — justificou ela, com um sorriso culpado.
— Ainda nem fizemos a transferência, Maya! — eu ri, mas meu coração derretia de vê-la tão empolgada.
— Ele ou ela já existe na minha cabeça, Gio. Esse carrossel vai ser a primeira coisa que nosso bebê vai ouvir.
Faltavam apenas dois dias para voltarmos ao Brasil. O Dr. Schneider estava otimista com a resposta do meu corpo aos medicamentos. Tudo estava se alinhando de uma forma quase mágica.
Na nossa última noite na Suíça, fomos até um mirante para observar as estrelas. O céu estava límpido, e a Via Láctea parecia um caminho de diamantes sobre as montanhas.
— Sabe, Maya — comecei, encostando minha cabeça em seu peito, ouvindo as batidas constantes do seu coração. — Eu vim para essa lua de mel achando que o ponto alto seria o nosso descanso. Mas percebi que o ponto alto foi descobrir que o nosso amor ainda tem espaço para crescer.
Maya me apertou mais forte contra si, beijando o topo da minha cabeça.
— A Lúcia foi um sinal, não foi?
— Foi — concordei. — Um sinal de que a gente tem muito para dar.
— Eu te amo tanto, Giovanna Torres Garcia. Mal posso esperar para começar esse novo capítulo no Brasil. Mas fico feliz que o "era uma vez" tenha começado aqui.
— Eu também, meu amor. Eu também.
Enquanto olhávamos para a imensidão branca e estrelada, eu sabia que não estávamos voltando para casa apenas como duas esposas em lua de mel. Estávamos voltando como o início de algo maior. O segredo que carregávamos — o sonho de uma nova vida — era o nosso tesouro mais bem guardado, cultivado no frio da Suíça para florescer no calor do nosso lar.
A viagem estava chegando ao fim, mas a nossa maior jornada estava apenas começando. E, pela primeira vez na vida, eu não tinha medo do desconhecido, porque sabia que a mão da Maya estaria segurando a minha em cada passo do caminho, fosse na neve ou sob o sol do Brasil.
