
D67
Fandom: Record of ragnarok
Criado: 16/07/2026
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O Banquete das Sombras e a Coroa de Espinhos
A escuridão de Helheim nunca havia sido um problema para Qin Shi Huang. Para o Primeiro Imperador da China, qualquer lugar onde ele decidisse repousar seus pés tornava-se, automaticamente, o centro do universo. Sentado em uma poltrona de veludo carmesim que ele mesmo havia "requisitado" de um dos salões secundários do palácio de Hades, Qin bebericava um vinho divino enquanto observava as chamas azuladas da lareira.
Ao seu lado, Hades, o Rei do Submundo, observava o marido com uma mistura de adoração e intriga. Hades era um homem de deveres, de ordens e de uma nobreza inabalável. Ter Qin ao seu lado era como tentar domesticar um eclipse: belo, perigoso e absolutamente indomável.
— Você parece distante hoje, Ying Zheng — comentou Hades, usando o nome de nascimento do imperador, um privilégio que apenas ele detinha. — O conselho dos deuses foi exaustivo, mas achei que a perspectiva de um banquete privado o animaria.
Qin sorriu, aquele sorriso exuberante que escondia abismos de traumas e segredos. Ele ajustou a venda sobre os olhos, embora não precisasse dela para "sentir" a presença imponente de Hades.
— Um rei nunca está distante, Hades. Ele está apenas expandindo seus domínios em pensamento — Qin respondeu, a voz carregada de uma arrogância charmosa. — Mas, admito, este vinho é quase tão bom quanto a sua companhia.
Hades aproximou-se, pousando uma mão firme e quente sobre o ombro de Qin. O imperador sentiu um leve formigamento. Graças à sua sinestesia toque-espelho, ele sentia o peso do afeto de Hades como um manto reconfortante, uma raridade em uma vida marcada por sentir a dor alheia.
— Fico feliz em ouvir isso. Pensei que poderíamos…
O momento foi interrompido por um som metálico e rítmico. O dispositivo de comunicação que Qin mantinha escondido sob as vestes imperiais vibrou. Não era um chamado comum. Era uma frequência que apenas uma pessoa possuía.
O semblante de Qin mudou em um milésimo de segundo. A descontração real deu lugar a uma rigidez de soldado.
— Preciso ir — disse Qin, levantando-se abruptamente, deixando a taça de vinho sobre a mesa lateral com um estalo seco.
Hades franziu o cenho, a autoridade de governante de Helheim transparecendo em seu olhar.
— Agora? É madrugada, Zheng. As fronteiras do submundo estão fechadas para qualquer um que não tenha minha permissão.
Qin caminhou até a porta, sua capa esvoaçando como as asas de um pássaro de rapina. Ele não pediu permissão; ele simplesmente declarou seu caminho.
— Onde o rei pisa, a estrada se abre. Não me espere acordado, meu senhor.
Hades observou-o partir com uma pontada de desconfiança que vinha crescendo há meses. Ele amava Qin, mas sabia que o homem que unificou a China carregava correntes que nem mesmo o Rei dos Mortos conseguia ver.
O laboratório de Beelzebub era um antro de silêncio e cheiro de ozônio. O Senhor das Moscas não levantou os olhos de suas anotações quando Qin entrou, as botas ecoando no chão de pedra fria.
— Você demorou — disse Beelzebub, sua voz monocórdica e desprovida de emoção.
— O meu marido tem o hábito irritante de ser atencioso demais — Qin respondeu, cruzando os braços e recuperando sua postura de superioridade. — O que você quer desta vez, "amigo"?
Beelzebub finalmente olhou para ele. A relação entre os dois era um segredo sombrio, forjado em um erro do passado que ainda assombrava Qin. Anos atrás, um culto desesperado tentara usar o jovem imperador como sacrifício para Beelzebub. O pacto exigia pureza, mas algo deu errado na execução do ritual. A alma de Qin foi fragmentada e ligada ao deus filisteu. Desde então, Qin era, tecnicamente, uma propriedade de Beelzebub, recuperando pedaços de sua essência apenas ao cumprir missões de extermínio e recuperação para o deus.
— Há um grupo de divindades menores tentando contrabandear relíquias de Helheim para o mundo humano — explicou Beelzebub, entregando um pergaminho com coordenadas. — Mate-os. Recupere a Caixa de Pandora que eles roubaram.
Qin pegou o pergaminho, um brilho perigoso em seus olhos.
— E o meu pagamento?
Beelzebub caminhou até uma mesa nos fundos, onde um prato de prata estava coberto por um pano de seda preto. Ele o revelou.
Ali, preparada com uma delicadeza macabra, estava carne humana fresca, de alta qualidade.
Para qualquer outro ser, aquilo seria uma abominação. Para Qin, era uma necessidade fisiológica e psicológica que Beelzebub cultivara nele ao longo dos séculos. O consumo de carne humana, misturado à energia sombria do pacto, era o que mantinha a integridade de sua alma fragmentada.
Qin aproximou-se, a arrogância vacilando por um momento diante da fome ancestral.
— Primeiro o trabalho — disse Beelzebub, fechando o pano. — Depois o banquete.
A luta foi rápida. Qin Shi Huang não era apenas um mestre das artes marciais; ele era uma força da natureza. No vale sombrio nos limites de Helheim, ele enfrentou os cinco deuses renegados.
— Como ousam cruzar o caminho do Rei? — Qin rugiu, desviando de uma lança com um movimento fluido, quase como uma dança.
— Você é apenas um humano! — um dos deuses gritou, antes de ser atingido pelo Chi You - Forma de Lança.
Qin sentia cada golpe que desferia como se estivesse sendo atingido, um resquício de sua sinestesia, mas ele havia aprendido a transformar essa dor em combustível. Para ele, o sofrimento dos outros era um mapa que lhe mostrava exatamente onde golpear para encerrar uma vida. Em poucos minutos, o vale estava em silêncio, manchado pelo sangue dourado das divindades menores.
Ele recuperou a pequena caixa ornamentada e, sem olhar para trás, retornou ao laboratório de Beelzebub.
Após entregar o objeto, Qin sentou-se à mesa. Ele comeu em silêncio, cada pedaço de carne devolvendo-lhe uma sensação de vitalidade que a comida divina de Hades nunca conseguia suprir. Beelzebub observava-o, quase como um cientista estudando uma espécime fascinante.
— Por que continua com ele? — perguntou Beelzebub de repente.
Qin parou com o talher no ar.
— Com quem?
— Hades. Você é um rei que não aceita ordens, mas volta para a cama dele todas as noites. Você sabe que, se ele descobrir o que você faz aqui — e o que você come —, ele destruirá tudo.
Qin limpou o canto da boca com elegância, recuperando seu sorriso desafiador.
— Hades me vê como sua rainha e seu igual. Ele ama a luz que eu projeto. Você, Beelzebub, é o único que conhece a sombra que sustenta essa luz. Eu não "continuo" com ele. Eu o possuo, assim como possuo este segredo.
— Você é um mentiroso habilidoso, Qin — comentou Beelzebub, voltando para suas pesquisas. — Mas até os reis tropeçam em suas próprias mentiras.
Quando Qin retornou aos aposentos reais, o sol de Helheim — uma esfera de luz violeta pálida — começava a subir no horizonte eterno. Ele esperava encontrar o quarto vazio, mas Hades estava parado junto à janela, ainda vestindo suas roupas formais.
O Rei do Submundo virou-se. Seus olhos, geralmente calmos, tinham uma intensidade que fez Qin parar por um instante.
— Você cheira a sangue, Zheng — disse Hades, sua voz baixa e vibrante. — E a algo mais. Algo antigo e decadente.
Qin não recuou. Ele caminhou até Hades, parando a poucos centímetros do peito do deus.
— O trabalho de um imperador nunca termina, Hades. Eu estava garantindo que as fronteiras do seu reino permanecessem invioláveis.
Hades estendeu a mão, tocando o rosto de Qin, removendo uma pequena mancha de sangue que o imperador havia esquecido de limpar perto da orelha.
— Eu sou o senhor deste lugar. Eu sei quem entra e quem sai. Eu sei que você foi ver o Senhor das Moscas.
O silêncio que se seguiu foi denso. Qin sentiu a pulsação de Hades através do toque — não era raiva, era uma preocupação profunda, quase dolorosa.
— Beelzebub e eu temos… negócios antigos — Qin admitiu, mantendo a voz firme. — Negócios que precedem o nosso casamento.
— Eu não me importo com o passado — Hades disse, aproximando-se ainda mais, sua presença envolvendo Qin como uma tempestade silenciosa. — Mas eu me importo com o que ele está fazendo com você. Você volta para mim com a alma pesada, Zheng. Como se estivesse carregando o peso de mil mortes.
Qin riu, um som seco e desprovido de humor.
— Eu sou o homem que unificou a China. Eu bebi rios de sangue para construir o meu trono. Você acha que algumas mortes a mais me pesam?
— Eu acho — Hades interrompeu, segurando o queixo de Qin com firmeza — que você tenta proteger a todos, inclusive a mim, de quem você realmente é. Mas esquece que eu sou o Rei dos Mortos. Não há sombra em você que eu já não tenha visto em outros, e não há pecado que me faça amá-lo menos.
Qin sentiu um aperto no peito. A sinestesia toque-espelho o fez sentir a sinceridade absoluta de Hades, e por um momento, a armadura do imperador rachou. Ele queria contar sobre o pacto, sobre a fome de carne que Beelzebub alimentava, sobre como ele se sentia um monstro fingindo ser um deus.
Mas ele era Qin Shi Huang. E um rei não mostra suas feridas até que a batalha esteja ganha.
— Então não me faça perguntas cujas respostas você já conhece, Hades — Qin sussurrou, puxando o deus pela gola da túnica para um beijo que misturava paixão e desespero.
Hades retribuiu o beijo com uma intensidade que prometia proteção, mas também vigilância. Ele sabia que Qin estava escondendo algo terrível, algo que envolvia Beelzebub e uma dívida de sangue.
Enquanto se perdiam um no outro, Qin fechou os olhos. Na escuridão de sua mente, ele ainda podia sentir o gosto da carne humana e o frio da voz de Beelzebub. Ele continuaria a trilhar aquele caminho duplo — o rei amado nos braços de um deus e o assassino faminto nas sombras do laboratório.
Afinal, onde Qin Shi Huang se sentava, ali era o seu trono. Mesmo que esse trono fosse construído sobre segredos e ossos.
