
D volta
Fandom: Stalia
Criado: 16/07/2026
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O Eco de um Sonho em Solo Brasileiro
A sala de estar estava inundada pela luz morna do fim de tarde carioca. O cheiro de lavanda, que Sandra sempre usava para perfumar as cortinas, misturava-se ao aroma inconfundível da lasanha que gratinava no forno. Era o cheiro de casa. O cheiro da nossa realidade.
Sofia estava sentada no tapete felpudo, as pernas cruzadinhas e os olhos castanhos — tão parecidos com os de Maya — fixos em nós com uma expectativa quase palpável. Ao redor, o restante do nosso mundo: minha mãe, com as mãos repousadas no colo; Larissa e Ana Clara, sentadas nos braços do sofá, trocando olhares curiosos; e Sandra, que permanecia de pé perto da entrada da cozinha, secando as mãos no avental, mas com os ouvidos atentos.
Maya sentou-se ao meu lado no sofá, sua mão buscando a minha automaticamente. Eu sentia o calor da palma dela, um lembrete silencioso de que éramos um time.
— Bom — começou Maya, sua voz carregada de uma emoção que ela tentava, sem muito sucesso, mascarar com um sorriso brincalhão —, a mamãe Gio disse que trouxemos um presente especial da Suíça, não foi?
— Foi! — Sofia exclamou, inclinando o corpo para a frente. — É chocolate? Ou um relógio que faz "cucu"?
— É muito melhor que chocolate — eu disse, sentindo meu coração martelar contra as costelas. Olhei para minha mãe e depois para Larissa. — Na verdade, é um presente que vai demorar um pouquinho para chegar, mas que já começou a ser preparado lá nas montanhas.
— Como assim? — Larissa arqueou a sobrancelha, cruzando os braços. — Vocês compraram um móvel? Uma escultura de gelo?
Maya riu, e o som foi tão límpido que pareceu iluminar ainda mais a sala.
— Não é nada material, Lari. — Ela respirou fundo e olhou diretamente para Sofia. — Filha, lembra que a gente conversou uma vez sobre como seria legal ter mais alguém para brincar com você? Alguém para você ensinar a correr no jardim e a comer brócolis?
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sofia franziu a testa, processando a informação. Minha mãe levou a mão à boca, os olhos começando a brilhar com o entendimento súbito.
— Um bebê? — Sofia sussurrou, a voz pequena e cheia de admiração. — Vocês trouxeram um bebê na mala?
— Não na mala, meu amor — expliquei, puxando-a para o meu colo. Senti o cheirinho de xampu infantil e sol de Sofia, e meu peito quase explodiu. — A mamãe Gio foi ao médico lá na Suíça para preparar o corpo. Daqui a pouco tempo, um bebezinho vai começar a crescer aqui dentro da minha barriga.
O grito que Larissa deu foi tão alto que fez Sandra dar um pulo.
— Mentira! — Larissa pulou do sofá, vindo em nossa direção. — Vocês fizeram o procedimento? Vai ser agora?
— Calma, leão! — Maya brincou, embora também estivesse com os olhos marejados. — Fizemos a primeira parte. As injeções, os exames, a coleta... tudo correu perfeitamente. O Dr. Schneider disse que os embriões são fortes. A transferência vai ser feita aqui no Brasil, em algumas semanas.
Ana Clara, que costumava ser a mais contida, já estava abraçando Maya por trás.
— Eu não acredito... que notícia maravilhosa, gente! Mais um pacotinho de amor nessa casa.
Minha mãe se levantou lentamente e veio até nós. Ela não disse nada de imediato; apenas colocou a mão sobre a minha barriga, ainda plana, e depois sobre a mão de Maya.
— Eu sabia — sussurrou minha mãe, as lágrimas finalmente rolando. — Eu senti uma luz diferente em vocês quando cruzaram aquele portão. Minhas filhas, que Deus abençoe esse ventre e essa união.
— Amém, mãe — respondi, sentindo o peso doce daquela benção.
Sofia, que estava estranhamente quieta, olhava para a minha barriga como se estivesse tentando enxergar através da minha blusa.
— Mas ele vai demorar muito? — perguntou ela, séria. — Porque eu tenho muitos brinquedos para organizar e eu preciso ensinar ele a não morder os meus livros.
— Vai demorar uns meses, pequena — Maya respondeu, pegando Sofia no colo e enchendo-a de beijos. — Mas você vai ser a melhor irmã mais velha do mundo. Vai ajudar a escolher as roupas, a decidir o nome...
— Eu quero que se chame "Neve" — Sofia anunciou prontamente.
— Neve? — perguntei, rindo.
— É! Porque vocês foram buscar ele no frio!
Rimos todos juntos, uma sinfonia de alegria que preenchia cada canto daquela casa. Sandra, emocionada, limpou o rosto com o avental.
— Bom, se tem um bebê vindo aí, a senhora precisa comer em dobro, dona Giovanna! Vou colocar a lasanha na mesa agora mesmo.
— Sandra, eu ainda não estou grávida "de fato", lembra? — tentei argumentar, mas foi em vão.
— Não importa! — Sandra retrucou, já caminhando para a cozinha. — O corpo tem que estar forte para receber a sementinha. Ninguém sai dessa mesa com fome!
Enquanto o jantar era servido, a conversa fluiu de forma caótica e vibrante, como sempre acontecia quando estávamos todos reunidos. Larissa já estava pesquisando marcas de carrinhos de bebê no celular, enquanto Ana Clara discutia com Maya sobre a melhor cor para as paredes do quarto novo.
— Eu já tenho uma planilha — Maya disse, orgulhosa, puxando o tablet. — Três arquitetos, lista de alimentos orgânicos e um cronograma de exames.
— É claro que você tem uma planilha, Maya Manoela — Larissa revirou os olhos, mas sorria. — Você é a pessoa mais previsível e adorável que eu conheço.
Eu observava tudo com um sentimento de plenitude. Olhei para o lado e vi Maya me observando. Ela não precisava dizer nada. O jeito que seus olhos brilhavam, a forma como ela buscava minha proximidade física o tempo todo... era o testemunho silencioso de tudo o que havíamos construído.
A jornada na Suíça tinha sido solitária, um momento só nosso, de introspecção e decisões profundas. Mas estar ali, cercada pela nossa família, trazia uma camada extra de realidade. O sonho estava deixando de ser apenas um desejo compartilhado entre duas esposas para se tornar o projeto de um clã.
Mais tarde, depois que a lasanha de Sandra foi devidamente devorada e Sofia finalmente sucumbiu ao cansaço, adormecendo no colo de Maya enquanto assistíamos a um filme qualquer, o silêncio voltou a reinar na sala. Minha mãe e as meninas já tinham ido para seus respectivos quartos, deixando-nos naquele limbo confortável entre o dia que terminava e o futuro que começava.
— Você está bem? — Maya perguntou em um sussurro, acariciando o cabelo de Sofia com uma mão e segurando a minha com a outra.
— Estou maravilhosa. — Encostei minha cabeça no ombro dela. — Ver a reação deles... me fez perceber que isso está realmente acontecendo, Maya. Não é mais só um plano no papel.
— Eu sei. — Ela beijou o topo da minha cabeça. — Às vezes eu sinto um frio na barriga, uma vontade de te colocar em uma redoma de vidro até o dia do parto.
— Por favor, não faça isso — ri baixinho. — Eu quero viver cada segundo. Quero que esse bebê sinta a nossa energia, a bagunça da Larissa, o carinho da vovó... quero que ele saiba que está vindo para um lugar onde o amor transborda.
Maya suspirou, um som de puro contentamento.
— Ele ou ela vai saber. Desde o primeiro milímetro, Gio. Como eu disse no avião... esse bebê foi planejado com todo o rigor do amor.
Ficamos ali por um longo tempo, observando o peito de Sofia subir e descer em um ritmo tranquilo. Lá fora, o som dos grilos e o vento suave nas palmeiras do jardim faziam a trilha sonora da nossa primeira noite de volta ao lar.
Eu sabia que o caminho pela frente teria seus desafios. Haveria as consultas médicas, a ansiedade pela confirmação da gravidez, as mudanças físicas, os medos naturais de qualquer mãe. Mas, ao olhar para Maya e para a nossa filha em seus braços, eu tive a certeza absoluta de que não havia lugar no mundo onde eu preferisse estar.
A neve da Suíça tinha ficado para trás, mas o cristal que havíamos lapidado lá — a promessa de uma nova vida — agora brilhava sob o sol do Rio de Janeiro.
— Vamos subir? — Maya sugeriu, percebendo que eu também começava a bocejar.
— Vamos.
Ela pegou Sofia com cuidado, ajeitando a pequena nos braços com uma facilidade que sempre me encantava. Subimos as escadas em silêncio, um ritual sagrado de encerramento de dia.
Depois de deitarmos Sofia em sua cama e cobri-la com o lençol de dinossauros que ela tanto amava, fomos para o nosso quarto.
Maya me ajudou a tirar o casaco pesado que eu ainda usava, um resquício do clima alpino. Ela parou por um instante, suas mãos repousando nos meus ombros.
— Obrigada, Gio — disse ela, os olhos fixos nos meus, profundos e sinceros.
— Pelo quê, meu amor?
— Por me dar a chance de ser sua esposa, de ser mãe da Sofia e de, agora, viver esse novo sonho com você. Eu sei que eu sou metódica, que eu me preocupo demais, que eu crio planilhas para tudo... mas é só porque eu tenho tanto medo de perder o que temos que tento controlar cada detalhe.
Eu sorri, segurando o rosto dela entre minhas mãos.
— Você não vai perder nada, Maya. O amor não é algo que a gente segura com planilhas, é algo que a gente vive com entrega. E eu estou cem por cento entregue a você. A nós.
Ela me beijou, um beijo que carregava o gosto da nossa história e a promessa de todos os capítulos que ainda escreveríamos.
Naquela noite, antes de dormir, eu coloquei a mão sobre o meu ventre. Ainda não havia nada ali além de esperança e ciência, mas eu podia jurar que conseguia sentir um calor diferente. Uma vibração.
O nosso "frutinho", como Maya dizia, já tinha um lugar reservado. Não apenas em um quarto planejado por arquitetos, mas no centro exato de uma família que tinha aprendido que o amor não tem limites, não tem fronteiras e, acima de tudo, não tem medo de crescer.
Dormi com o som da respiração de Maya ao meu lado, sabendo que, em breve, haveria mais um batimento cardíaco para se juntar à nossa música. E aquela era, sem dúvida, a melhor parte da viagem. A volta para casa, para a vida, e para o início de tudo outra vez.
