
D68
Fandom: Record of ragnarok
Criado: 16/07/2026
Tags
O Banquete das Sombras e o Trono de Sangue
A escuridão de Helheim nunca foi um problema para Qin Shi Huang. Para o homem que unificou a China e se declarou o Primeiro Imperador, a ausência de luz era apenas uma oportunidade para que seu próprio brilho se destacasse. Sentado em uma poltrona de veludo negro no quarto real que dividia com Hades, Qin mantinha a postura impecável, uma perna cruzada sobre a outra, os olhos vendados por sua fita característica.
Ao seu lado, o Rei do Submundo dormia. Hades era a personificação da serenidade nobre, mesmo no sono. O peito subia e descia ritmicamente, e um braço pesado repousava protetoramente sobre a cintura de Qin. O imperador humano sorriu, um toque de ternura genuína suavizando sua expressão arrogante. Ele amava Hades. O deus era o único que o via além da coroa, que entendia o peso da dor que Qin carregava através de sua sinestesia.
Mas, sob a pele do imperador, algo vibrou. Não era um toque físico, mas um puxão na alma. Um chamado frio, viscoso e absoluto.
O celular de Qin, escondido em uma gaveta lateral que Hades nunca abria, vibrou três vezes. O som era quase imperceptível, mas para Qin, soava como um trovão.
Com uma agilidade felina, ele deslizou para fora da cama, substituindo seu corpo pelo de um travesseiro de seda para não despertar o marido. Ele se vestiu rapidamente, trocando as vestes de dormir por sua túnica de combate adornada. O medo, um sentimento que ele raramente admitia possuir, rastejou por sua espinha. Ele não temia a morte — ele já havia encarado exércitos e deuses —, mas temia o dono daquela vibração.
Minutos depois, Qin atravessava os corredores sombrios do palácio, saindo para as terras desoladas de Helheim. Ele não precisava de direções. O pacto o guiava.
O laboratório de Beelzebub era um lugar onde a luz morria antes de tocar o chão. O cheiro de ozônio e decomposição pairava no ar. No centro da sala, cercado por frascos de fluidos desconhecidos, o Senhor das Moscas estava de pé, olhando para um monitor com olhos apáticos e vazios.
— Você demorou seis minutos a mais do que o usual — disse Beelzebub, sem se virar. Sua voz era um sussurro monótono, desprovido de qualquer calor humano ou divino.
Qin recuperou sua postura arrogante, abrindo um leque com um estalo seco.
— Um rei não se apressa, Belzebu. Ele chega exatamente quando decide chegar — declarou Qin, embora o suor frio em suas mãos traísse a tensão.
Beelzebub finalmente se virou. A aura de isolamento que o cercava era tão densa que até Qin, com sua alta tolerância à dor alheia, sentia um aperto no peito. O pacto feito anos atrás, quando Qin era apenas um adolescente ambicioso e desesperado, ainda os unia. O ritual falho, as almas entrelaçadas por erro, a dívida de sangue.
— O alvo está nas fronteiras do Niflheim — disse Beelzebub, entregando um pequeno frasco vazio a Qin. — Um demônio de classe alta que roubou uma das minhas amostras de vibração. Traga a amostra de volta. E o coração dele.
Qin inclinou a cabeça, o sorriso voltando aos lábios, embora fosse um sorriso predatório.
— E a minha recompensa? — perguntou ele, a voz baixando para um tom perigoso. — Minha alma está quase completa, mas meu corpo... meu corpo sente fome.
Beelzebub caminhou até uma mesa lateral, onde um prato de prata estava coberto. Ele puxou o pano, revelando nacos de carne crua, pálida, cortada com precisão cirúrgica. Carne humana.
— O estoque de hoje é de um guerreiro que caiu recentemente. Jovem, forte. Exatamente como você gosta — respondeu o deus, com total indiferença.
Qin não hesitou. Ele se aproximou e, com a elegância de um imperador em um banquete real, pegou um pedaço da carne com os dedos, levando-o à boca. O sabor era intenso, preenchendo o vazio que o pacto deixava em seu ser. Era o seu segredo mais obscuro, a única coisa que ele nunca contaria a Hades. O Rei do Submundo era nobre e honrado; ele nunca entenderia que seu marido, o salvador da humanidade, era, em parte, um monstro que se alimentava de sua própria espécie para manter a sanidade.
— Vá — ordenou Beelzebub. — Antes que o sol de Helheim mude de posição.
Qin limpou o canto da boca com um lenço de seda e desapareceu nas sombras.
A missão foi rápida e brutal. Qin Shi Huang não era apenas um mestre das artes marciais; ele era uma força da natureza. O demônio que ousara roubar Beelzebub não teve chance contra a técnica Chi You. Qin quebrou seus ossos, rompeu seu fluxo de energia e, com um golpe seco, arrancou-lhe o coração enquanto o ser ainda respirava.
Quando Qin retornou ao palácio, o céu de Helheim começava a ganhar tons de um roxo profundo. Ele entrou no quarto em silêncio, esperando encontrar Hades ainda dormindo.
No entanto, a luz de uma pequena lâmpada de óleo estava acesa. Hades estava sentado na beira da cama, vestindo apenas uma calça de linho, seu peito marcado por cicatrizes de batalhas antigas à mostra. Ele segurava um livro, mas seus olhos estavam fixos na porta.
— Você saiu novamente — disse Hades. Não era uma acusação, mas havia uma nota de preocupação e autoridade em sua voz que fazia o ar pesar.
Qin fechou a porta atrás de si, mantendo o sorriso exuberante.
— O ar da noite é refrescante, meu senhor. Eu precisava caminhar para organizar meus pensamentos sobre o império. Onde eu me sento é o meu trono, mas às vezes o trono precisa de espaço.
Hades levantou-se e caminhou até ele. A diferença de altura e a presença imponente do deus eram suficientes para intimidar qualquer um, mas Qin apenas inclinou a cabeça para trás, desafiando-o com o olhar por baixo da venda.
— Você cheira a sangue, Qin — disse Hades, parando a centímetros dele. Ele levou uma mão ao rosto do humano, o polegar acariciando a bochecha de Qin. — E a algo mais... algo frio. Algo que me lembra o laboratório de Beelzebub.
O coração de Qin falhou uma batida, mas ele não recuou.
— Belzebu e eu temos... interesses acadêmicos em comum — mentiu Qin, a voz firme. — Ele é um homem solitário. Eu, como Rei, entendo a solidão.
Hades estreitou os olhos. Ele conhecia Beelzebub o suficiente para saber que o Senhor das Moscas não buscava companhia, muito menos "interesses acadêmicos" com humanos. Ele também conhecia as feridas invisíveis de Qin. Através do toque, Hades sentia a tensão no corpo do marido, a vibração residual de uma luta recente.
— Se ele estiver te chantageando, Qin... se ele estiver usando você para seus experimentos... — A voz de Hades tornou-se um trovão contido. — Eu destruirei cada centímetro daquele laboratório e o farei desejar que a própria morte o levasse mais cedo.
Qin sentiu um calor no peito. A proteção de Hades era absoluta, um amor que ele nunca sentira em sua vida mortal, cercado por traições e dor. Mas ele não podia deixar Hades intervir. Se Hades descobrisse o pacto, se descobrisse que a alma de Qin pertencia tecnicamente a Beelzebub até que a dívida fosse paga, a guerra entre os deuses começaria dentro do próprio panteão.
— Nada acontece sem a minha permissão, Hades — disse Qin, colocando as mãos nos ombros do deus e puxando-o para perto. — Eu sou o Primeiro Imperador. Eu não sou uma ferramenta. Eu sou o dono do meu caminho.
Hades suspirou, encostando a testa na de Qin.
— Você é orgulhoso demais para o seu próprio bem.
— E você é nobre demais para não amar esse orgulho — retrucou Qin, selando a conversa com um beijo que misturava paixão e uma necessidade desesperada de esquecer o gosto de sangue e carne humana que ainda pairava em sua memória.
Horas depois, quando Hades voltou a dormir, Qin permaneceu acordado, olhando para o teto. Ele sentia a pequena parte de sua alma que Beelzebub havia devolvido naquela noite. Estava ficando mais forte, mas o custo era alto.
Ele pensou em Beelzebub, isolado em sua própria maldição, e sentiu uma pontada de empatia. Ambos eram monstros à sua maneira. Beelzebub destruía o que amava; Qin comia o que deveria proteger.
Um dia, ele pensou, o pacto terminaria. Mas, até lá, ele continuaria a ser o Imperador de dia e o executor das sombras à noite. Pois um verdadeiro rei faz qualquer coisa para manter seu reino intacto — mesmo que esse reino fosse, agora, o coração de um deus que ele não merecia.
Qin fechou os olhos, a dor da sinestesia finalmente se acalmando sob o toque do sono, enquanto, longe dali, no fundo de um laboratório escuro, Beelzebub olhava para o coração sangrento no frasco e murmurava o nome de Qin, o único "amigo" que sua maldição ainda não ousara tocar.
