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Fandom: Nenhum
Criado: 16/07/2026
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O Equilíbrio das Cores e Traços
O estúdio de balé era um refúgio de paredes brancas, espelhos imensos e o cheiro suave de talco e resina. Para Eduarda, aquele era o único lugar onde sua timidez não a impedia de brilhar. Aos 20 anos, dividida entre os estudos de História da Arte e as sapatilhas de ponta, ela encontrava na leveza dos movimentos a voz que muitas vezes lhe faltava.
Naquela tarde, o grupo das pequenas bailarinas estava particularmente agitado. No centro de tudo, como uma pequena chama de autoconfiança, estava Valentina. Aos três anos, a menina já possuía uma presença que dominava o ambiente. Usava um collant personalizado com cristais e um laço de fita que parecia grande demais para sua cabeça pequena, mas que ela carregava com a altivez de uma rainha.
— Tia Duda, meu plié está perfeito, não está? A mamãe disse que eu sou a melhor da sala — anunciou Valentina, cruzando os bracinhos e olhando para as outras colegas com um ar de superioridade que só poderia ter sido herdado de Sara.
Eduarda sorriu, abaixando-se para ficar na altura da menina. A doçura de Eduarda era seu traço mais marcante; ela transmitia uma paz que parecia desarmar qualquer tensão.
— Está muito bonito, Valentina. Mas lembre-se que no balé todas estamos aprendendo juntas, como um jardim de flores diferentes — disse Eduarda, ajeitando uma mecha do cabelo castanho da menina.
A porta do estúdio se abriu, e o ar pareceu mudar de densidade. Emanuel entrou primeiro. Aos 25 anos, o tatuador e empresário exalava uma estabilidade silenciosa. Ele vestia uma camiseta preta simples que deixava à mostra as tatuagens que subiam pelo pescoço, evidenciando o contraste entre sua aparência bruta e o olhar cansado, porém atento. Logo atrás dele, Sara surgiu como um furacão de cores e magnetismo.
Sara usava um vestido justo de seda vermelha, saltos altíssimos e seus cabelos loiros estavam impecavelmente escovados. A presença dela era barulhenta, mesmo quando ela não dizia nada.
— Olhe só para a minha mini diva! — exclamou Sara, a voz vibrante ecoando pela sala. — Emanuel, veja se ela não é a coisa mais linda que já pisou nesse chão frio.
Emanuel não respondeu de imediato. Seus olhos, antes fixos na filha, desviaram-se quase que magneticamente para Eduarda. Ela estava ali, em pé, com seu coque levemente desfeito e um cardigã bege por cima do traje de dança, parecendo uma pintura renascentista que ele adoraria eternizar na pele de alguém. Ou na sua própria.
— Ela está ótima, Sara — murmurou Emanuel, a voz grave e contida. — Boa tarde, Eduarda.
— Boa tarde, Emanuel. Oi, Sara — respondeu Eduarda, sentindo as bochechas esquentarem. Ela sempre se sentia pequena perto deles, não por maldade deles, mas pela força que o casal emanava.
Sara aproximou-se de Eduarda com um sorriso largo, sem qualquer sinal de ciúme ou reserva. Ela tocou o ombro da professora de balé, um gesto possessivo, mas estranhamente amigável.
— Duda, querida, você está pálida. Tem comido direito ou só vive de luz e história da arte? — Sara riu, uma risada que não era de deboche, mas de uma franqueza absoluta. — Emanuel vive dizendo que você parece um anjo barroco. Eu concordo, embora ache que você precisa de um pouco mais de cor nessas bochechas.
Eduarda baixou o olhar, constrangida.
— Eu... eu estou bem, Sara. É só o cansaço das provas na faculdade.
Emanuel deu um passo à frente, a expressão séria suavizando-se apenas ao olhar para a fragilidade de Eduarda. Ele sentia aquele puxão familiar no peito. Ele amava Sara; amava a intensidade dela, a forma como ela não pedia permissão para existir, a maneira como ela cuidava dele e da Valentina com uma garra feroz. Mas Eduarda... Eduarda era o silêncio que ele precisava depois de um dia de barulho. Ela era a calmaria que ele não sabia que desejava até vê-la pela primeira vez.
— Você devia descansar mais — disse Emanuel, o tom protetor sendo quase automático. — Se precisar de qualquer coisa, livros, transporte ou apenas um café, sabe que pode ligar.
— Ele está falando sério, Duda — interrompeu Sara, piscando para o marido. — O Emanuel é um trator quando quer cuidar de alguém. E eu não me importo de dividir o tempo dele com você, sabe disso.
Eduarda franziu a testa de leve, a confusão estampada em seus olhos grandes e expressivos.
— Dividir? Não entendi...
Sara soltou uma risada curta e olhou para Emanuel, que apenas suspirou, cruzando os braços sobre o peito largo.
— Ela é tão lenta para essas coisas, Manu. É uma fofa — disse Sara, voltando-se para Valentina, que agora exigia atenção para mostrar seu saltinho. — Vai lá, pequena, mostre para o papai o que você aprendeu.
Enquanto Valentina distraía Emanuel com suas piruetas desajeitadas e cheias de pose, Sara se aproximou mais de Eduarda, a ponto de a professora sentir o perfume caro e doce da outra mulher.
— Você gosta dele, não gosta? — perguntou Sara, direta como um tiro.
Eduarda quase tropeçou nos próprios pés.
— O quê? Sara, eu... ele é seu marido! Eu jamais...
— Shhh, abaixa o tom — disse Sara, mantendo o sorriso. — Eu sei que ele é meu. E ele sabe que eu sou dele. Mas o Emanuel tem um coração grande, e ele tem espaço para mais uma. Ele me contou, Duda. Ele me conta tudo. Ele é louco por você. Pelo seu jeito manso, por essa sua carinha de quem precisa de um abraço e de proteção.
Eduarda sentiu o coração disparar. O mundo parecia girar. Como Emanuel, aquele homem tão sério, tão bem-sucedido e intimidador, poderia sentir algo por ela? E como Sara poderia estar dizendo aquilo com tanta naturalidade?
— Eu não... eu não sei o que dizer — sussurrou Eduarda, as mãos tremendo levemente.
— Não diga nada agora — Sara piscou, ajeitando o decote generoso. — Só comece a observar. Ele não tira os olhos de você. E eu? Eu gosto de você, garota. Você traz um equilíbrio que a gente não tem. Eu sou o fogo, ele é a rocha, e você... você é a água. A gente se completa.
Sara se afastou, deixando Eduarda em um estado de choque silencioso. A aula havia terminado, e os pais começavam a recolher as crianças. Emanuel pegou Valentina no colo, a menina reclamando que queria um sorvete "de ouro", e ele apenas beijou a testa da filha, tentando acalmar a pequena soberba.
Antes de sair, Emanuel parou à porta e olhou para trás. Eduarda ainda estava no mesmo lugar, parecendo pequena e perdida no meio do salão espelhado.
— Até semana que vem, Eduarda — disse ele. O olhar dele não era apenas o de um pai de aluna. Era um olhar de posse, de desejo e, acima de tudo, de um cuidado profundo.
— Até... até semana que vem — ela conseguiu responder, a voz quase sumindo.
Quando a porta se fechou, Eduarda caminhou até a barra de balé e se apoiou nela. Seus pais, sempre tão modernos e abertos, sempre lhe disseram que o amor não tinha formas fixas, mas aquilo era algo que ela nunca imaginara viver.
Lá fora, no carro de luxo de Emanuel, Sara retocava o batom enquanto Valentina tagarelava no banco de trás sobre como as outras meninas eram "comuns".
— Você viu a cara dela? — perguntou Sara, guardando o batom na bolsa de grife. — Ela está apavorada, Manu. Mas está curiosa.
Emanuel deu a partida no motor, a expressão rígida, mas as mãos firmes no volante.
— Você não precisava ter sido tão direta, Sara. Ela é sensível.
— E você é um lerdo — retrucou ela, rindo e colocando a mão sobre a coxa dele. — Se depender da sua "racionalidade", a gente só vai ter a Duda na nossa cama e na nossa vida quando a Valentina fizer dezoito anos. Eu só dei um empurrãozinho. Você a quer, não quer?
Emanuel guardou silêncio por um momento, sentindo a pressão do estresse do dia a dia diminuir apenas ao pensar na imagem de Eduarda dançando.
— Quero — admitiu ele, a voz baixa. — Mas quero que ela esteja segura. Não quero que nada a machuque, nem mesmo a nossa dinâmica.
— Deixa comigo — disse Sara, com uma confiança inabalável. — Eu sei lidar com gente delicada. Ela só precisa entender que, com a gente, ela nunca mais vai precisar ter medo de nada.
Enquanto o carro se afastava, Eduarda, dentro do estúdio, abraçava o próprio corpo. Ela sentia medo, sim, mas havia algo mais. Um calor estranho que começava a brotar no peito. Pela primeira vez, a insegurança que sempre a acompanhara parecia estar sendo confrontada por uma promessa de proteção que vinha de dois lados opostos, mas igualmente intensos.
Ela olhou para o espelho. Viu a bailarina tímida, a estudante de história da arte que preferia o passado ao presente. E, pela primeira vez, perguntou-se como seria o futuro se permitisse que o traço firme de Emanuel e a cor vibrante de Sara pintassem sua vida.
A confusão era grande, mas a curiosidade, alimentada pela doçura daquele olhar de Emanuel que ainda queimava em sua memória, era maior. Ela sabia que nada seria igual a partir daquela tarde. O palco estava montado, e Eduarda, mesmo sem saber, já tinha começado a dançar um ritmo novo, coreografado por um desejo que ela mal começava a compreender.
