
D69
Fandom: Record of ragnarok
Criado: 17/07/2026
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O Banquete das Sombras e o Trono de Sangue
A escuridão de Helheim nunca fora um problema para Hades. O Rei do Submundo sempre encontrou conforto no silêncio sepulcral de seus corredores, na ordem absoluta que impunha ao caos das almas. No entanto, o silêncio daquela madrugada era diferente. Não era a paz da morte, mas o prelúdio de uma tempestade.
Ao seu lado, na imensa cama de dossel adornada com seda negra, o lugar onde Qin Shi Huang deveria estar repousava frio.
Hades sentou-se, os cabelos platinados caindo sobre os ombros largos. Ele não precisou de muito para entender o que havia acontecido. Qin, seu imperador, seu marido, o homem que desafiara deuses e conquistara seu coração com uma arrogância encantadora, havia partido novamente. Sem aviso. Sem explicações.
O Rei dos Deuses de Helheim levantou-se, vestindo um robe de veludo púrpura. Seus olhos, afiados como a ponta de seu bidente, captaram o movimento rápido através da janela da sacada. Uma silhueta ágil, vestindo nada além de um pijama de seda branca e a venda que cobria seus olhos, saltava entre as ameias do castelo com a precisão de um predador.
Hades não hesitou. Ele não era um homem de ciúmes mesquinhos, mas era um estrategista. Havia algo de errado com Qin há décadas. Uma dívida que o Imperador da China parecia pagar com o próprio espírito.
Seguindo-o pelas sombras, Hades atravessou os limites da cidade dos deuses, adentrando uma região desolada onde as ruínas de templos antigos se erguiam como dentes podres. Ele não estava sozinho. Para sua surpresa, a movimentação atípica em Helheim atraíra outros. Escondidos entre as colunas, Hades percebeu a presença de seus irmãos, Zeus e Poseidon, além de uma comitiva inusitada: os guerreiros da humanidade e outros deuses do conselho do Ragnarok, todos movidos pela curiosidade ou por um pressentimento sinistro.
— O que o nanico está fazendo aqui a esta hora? — sussurrou Shiva, agachado atrás de uma rocha ao lado de Raiden.
— Silêncio — ordenou Poseidon, sua voz um chicote de gelo. — Hades está logo ali.
Todos observaram, estáticos, quando Qin parou no centro de um círculo ritualístico desgastado. À sua espera, sentado sobre uma pedra, estava Beelzebub. O Senhor das Moscas mantinha o olhar vago, mas seus dedos tamborilavam sobre um dispositivo estranho que emitia um zumbido constante.
— Você demorou, Qin — disse Beelzebub, sua voz desprovida de emoção.
— O palácio é grande, e meu marido tem o sono leve — respondeu Qin, embora sua voz não tivesse a arrogância habitual. Havia um tremor sutil em seus ombros. — O que Satã exige desta vez?
Hades, escondido nas sombras de uma pilastra, sentiu um aperto no peito. Satã? O nome que Beelzebub temia e odiava era o mestre de seu marido?
— Um grupo de rebeldes de Helheim roubou um fragmento da essência do vazio — explicou Beelzebub. — Eles estão escondidos na caverna abaixo. Mate-os. Recupere o fragmento. E você terá mais uma porcentagem da sua alma de volta.
Qin Shi Huang soltou um riso seco, mas não havia alegria nele.
— Um trato é um trato. Onde quer que eu esteja, o trono é meu... mesmo que o trono seja feito de ossos alheios.
Sem mais palavras, Qin saltou para a escuridão da caverna. Beelzebub permaneceu imóvel, mas seus olhos encontraram os de Hades na escuridão. O deus da filantropia não se moveu, permitindo que o Rei do Submundo passasse por ele, seguido pelos outros que, percebendo que o segredo havia sido exposto, não mais se escondiam.
— O que você fez com ele, Beelzebub? — a voz de Hades era um trovão contido.
— Eu não fiz nada — respondeu o Senhor das Moscas. — Foram os humanos, anos atrás. Um pacto mal feito. Queriam me invocar usando um sacrifício puro, mas Satã não aceita a pureza sem a corrupção. O erro deles vinculou a alma do garoto à entidade que vive em mim. Sou apenas o intermediário. Se ele não fizer o que Satã pede, a alma dele é devorada por completo.
Hades não esperou o resto da explicação e desceu para a caverna, seguido por Adão, Zeus, Brunhilde e os demais. O que encontraram lá embaixo, entretanto, desafiou a compreensão de deuses e homens.
Qin Shi Huang não estava apenas lutando. Ele era um borrão de violência. Mas não era a dança elegante das artes marciais que ele exibira no Ragnarok. Era algo selvagem. Ele rasgava a garganta dos rebeldes com as mãos nuas, seus dedos perfurando carne e osso com uma força sobrenatural.
Quando o último rebelde caiu, Qin desabou de joelhos. O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pelo som de respiração ofegante e algo muito mais perturbador: o som de carne sendo mastigada.
— Qin... — a voz de Adão saiu como um sussurro dolorido. O Pai da Humanidade deu um passo à frente, mas parou ao ver a cena.
O Imperador da China, o homem que unificara nações, estava debruçado sobre o corpo de um dos caídos. Ele arrancava um pedaço de carne do ombro do cadáver e o levava à boca com urgência, quase com desespero. Lágrimas escorriam por baixo de sua venda, molhando o tecido de seda.
— Não olhem... — soluçou Qin, sem parar o ato macabro. — Por favor... não olhem para o seu Imperador assim.
Hades sentiu o mundo girar. Ele se aproximou lentamente, ignorando o cheiro de sangue e a visão grotesca.
— Qin — chamou Hades, sua voz suave, mas carregada de uma dor infinita.
O Imperador se sobressaltou, virando-se bruscamente. A venda havia caído levemente, revelando olhos injetados de sangue e uma expressão de horror absoluto.
— Hades... — Qin tentou se afastar, limpando a boca com as costas da mão, mas o sangue apenas se espalhava. — Eu... eu tentei comer as frutas do seu pomar. Tentei os banquetes de Zeus. Mas tudo... tudo tem gosto de cinzas e podridão. Meu corpo... ele rejeita tudo o que não venha da morte.
— Por que você não me contou? — perguntou Hades, ajoelhando-se no chão sujo, sem se importar com suas vestes reais.
— Porque um Rei não mostra suas fraquezas! — gritou Qin, a arrogância retornando por um breve segundo antes de desmoronar em um choro convulsivo. — Eu sou o Imperador do Início! Como eu poderia dizer ao Rei do Submundo que minha alma pertence ao monstro que habita o seu amigo? Como eu poderia dizer que eu... que eu sou este monstro que se alimenta de seus próprios súditos?
Os demais observavam de longe, em um silêncio reverente e aterrorizado. Jack, o Estripador, inclinou a cabeça, vendo as cores da alma de Qin — um turbilhão de agonia e fome. Tesla murmurava cálculos impossíveis sobre a natureza do pacto, enquanto Leônidas e Raiden mantinham os olhos baixos, em respeito à dor de um guerreiro.
— Você sofre por causa da sua sinestesia — disse Hades, estendendo a mão para tocar o rosto de Qin. — Cada vez que você mata, você sente a dor deles. E depois, você é obrigado a isso... para sobreviver.
— Satã se diverte com a ironia — disse Beelzebub, que aparecera na entrada da caverna. — Ele deu a um homem que sente a dor alheia a necessidade de infligi-la e consumi-la.
Hades envolveu Qin em um abraço firme. O Imperador resistiu a princípio, tentando empurrar o deus para protegê-lo de sua própria imundície, mas Hades era uma rocha.
— Chega — declarou Hades, sua voz ecoando por toda a caverna, fazendo até mesmo Zeus e Odin se empertigarem. — Este pacto termina agora.
— Não é tão simples, Hades — advertiu Beelzebub. — Se você quebrar o vínculo à força, a alma dele se estilhaçará.
Hades levantou o olhar, e por um momento, todos viram por que ele era o irmão em quem Zeus confiava o controle do reino mais perigoso de todos. Havia uma fúria fria em seus olhos, uma determinação que poderia mover montanhas.
— Eu sou o Rei de Helheim — disse Hades. — Todas as almas deste domínio me pertencem por direito divino. Se Satã quer a alma do meu marido, ele terá que vir buscá-la através do meu bidente.
Qin agarrou o robe de Hades, escondendo o rosto em seu peito.
— Hades... dói... dói tanto.
— Eu sei, meu rei — sussurrou Hades, beijando o topo da cabeça de Qin. — Mas você não está mais sozinho no seu trono. Se você precisa consumir para viver, consuma a minha essência. Se você precisa de um pilar, eu serei sua fundação.
Hades olhou para os outros deuses e humanos presentes.
— Saiam. Todos vocês. O que aconteceu aqui hoje nunca deixará esta caverna. Se uma única palavra sobre a condição de Qin Shi Huang chegar aos ouvidos de qualquer alma em Valhala ou na Terra... — ele fez uma pausa, e a pressão espiritual no ar tornou-se quase insuportável — ...eu farei com que o Ragnarok pareça uma festa de jardim comparado ao que farei com o culpado.
Os deuses, até mesmo o arrogante Poseidon, assentiram em silêncio. Havia um respeito mútuo ali, uma compreensão da dor de um líder que faria tudo pelos seus.
Um a um, eles se retiraram. Beelzebub foi o último a sair, lançando um olhar de melancolia para o casal antes de desaparecer nas sombras.
Na caverna silenciosa, Hades continuou a embalar Qin. O Imperador, exausto pela luta e pela fome, começou a perder a consciência.
— Você é um tolo, Hades — murmurou Qin, o brilho de seu orgulho piscando fracamente. — Casar-se com um monstro...
— Eu não me casei com um monstro — respondeu Hades, ajudando-o a se levantar com uma nobreza que transcendia o cenário sangrento. — Eu me casei com o homem que foi forte o suficiente para carregar o pecado do mundo em silêncio. Agora, deixe-me carregar o resto do caminho.
Qin Shi Huang, o Imperador da Humanidade, permitiu-se finalmente ser apenas um homem. Ele fechou os olhos, confiando no Deus que prometera protegê-lo, enquanto eram engolidos pela escuridão acolhedora de Helheim, onde, pela primeira vez em séculos, ele não sentiu medo do que viria a seguir.
