
D70
Fandom: Record of ragnarok
Criado: 17/07/2026
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O Imperador Sob a Máscara de Seda
O salão comunal do Valhalla, agora um lugar de paz após a turbulenta vitória da humanidade no Ragnarok, exalava uma atmosfera de camaradagem que antes parecia impossível. Deuses e humanos compartilhavam hidromel, histórias e risadas. No entanto, o silêncio caiu como uma guilhotina quando as portas duplas de carvalho foram abertas com um estrondo seco.
A figura que atravessou o limiar não parecia o homem exuberante que todos conheciam. Qin Shi Huang estava coberto de sangue. O carmesim saturava suas vestes imperiais, pingando das pontas dos dedos e manchando o tapete imaculado. Sua venda estava desalinhada, e a respiração, embora calma, carregava o peso de um esforço físico hercúleo.
— Pelos deuses... — murmurou Hermes, deixando uma bandeja de prata inclinar-se perigosamente.
Zeus arregalou os olhos, a barba tremendo, enquanto Brunhilde corria em direção ao Imperador com uma expressão de puro pânico.
— Qin! O que aconteceu? Você foi atacado? — gritou a Valquíria, procurando por ferimentos graves.
O Imperador parou no centro do salão, ignorando os olhares de choque de Leônidas, que segurava seu charuto no ar, e a expressão perplexa de Nikola Tesla. Ele simplesmente limpou uma mancha de sangue da bochecha com as costas da mão, exibindo um sorriso sereno, quase infantil.
— Oh, isso? — Qin gesticulou para o próprio corpo como se estivesse comentando sobre uma leve garoa. — Um gigante das montanhas externas decidiu que o caminho do Rei era o dele. Eu apenas tive que lembrá-lo de quem é o dono de todas as estradas sob o céu. Foi uma conversa... física.
— Você está encharcado de sangue, seu idiota! — exclamou Sasaki Kojiro, levantando-se da mesa. — Está ferido?
Qin soltou uma risada leve, o som vibrando com aquela arrogância real que o caracterizava.
— Onde o Rei se senta, é o trono. E onde o Rei caminha, o sangue dos insolentes serve apenas como tapete. Não se preocupem, a maior parte disso não me pertence. Estou apenas... pegajoso. Se me dão licença, o aroma de ferro está começando a ofuscar o meu perfume de sândalo.
Ele passou por eles com a dignidade de quem acabara de retornar de um passeio no jardim, deixando um rastro de pegadas vermelhas para trás. Hades, que até então observava a cena de um canto sombreado com uma calma inabalável, apenas suspirou, um meio sorriso brincando em seus lábios nobres. Ele conhecia seu companheiro bem demais para se deixar levar pelo pânico teatral dos outros.
Cerca de uma hora se passou. O salão havia retornado a um estado de vigilância ansiosa. Os guerreiros e deuses ainda discutiam o estado de Qin quando a porta dos aposentos privados se abriu novamente.
Desta vez, não houve o som metálico de armaduras ou o estalar de botas pesadas. O que surgiu foi um homem que parecia ter saído de um sonho bucólico.
Qin estava descalço. Ele vestia um pijama de seda branca, solto e confortável, com bordados sutis de nuvens. O cabelo, geralmente preso de forma complexa, caía livremente sobre os ombros, ainda levemente úmido. Mas o que mais chocou os presentes foi o seu rosto.
A venda havia sumido.
Pela primeira vez em público, os olhos de Qin Shi Huang estavam à mostra — orbes profundas, marcadas por uma serenidade que nenhum deles jamais vira. Sem a máscara da arrogância imperial, suas feições pareciam mais jovens, mais suaves, quase vulneráveis. Ele parecia menos o Primeiro Imperador da China e mais o jovem Ying Zheng, o menino que um dia conheceu a dor do mundo através de sua sinestesia.
Ele entrou no salão esfregando os olhos, bocejando de forma descontraída.
— Alguém viu onde deixaram o chá de jasmim? — perguntou ele, a voz num tom casual, desprovida daquela projeção de comando habitual. — Eu poderia jurar que deixei um bule perto da lareira antes de sair para aquela caminhada irritante.
O silêncio foi absoluto. Jack, o Estripador, inclinou a cabeça, observando a "cor" da alma do recém-chegado com confusão. Raiden e Shiva pararam sua queda de braço no meio do caminho.
— Quem é você? — perguntou Okita Soji, a mão instintivamente indo para o punho de sua espada. — Onde está o Imperador?
Qin parou, piscando os olhos nus para o grupo. Ele parecia genuinamente confuso com a pergunta.
— Do que você está falando, pequeno guerreiro? — Ele bocejou novamente, sentando-se casualmente em uma poltrona que, por coincidência, era a mais luxuosa do recinto. — Sou eu. Só estou com sono.
— Não pode ser o Qin — murmurou Adão, ajustando sua folha de parreira enquanto observava o homem. — A energia é... diferente. Mais calma.
Hades, que estava sentado em uma poltrona próxima lendo um pergaminho, finalmente fechou o documento e olhou para cima. Seus olhos encontraram os de Qin, e um brilho de ternura atravessou a face do Rei do Submundo.
— Você demorou no banho, Zheng — disse Hades, a voz profunda e melodiosa.
Os outros deuses e humanos giraram as cabeças tão rápido que alguns quase sofreram torcicolos.
— Hades! — exclamou Zeus. — Você sabe quem é esse intruso?
— Intruso? — Hades soltou uma risada curta e elegante. — Irmão, você realmente não reconhece o homem que quase o derrubou no Ragnarok só porque ele tirou a venda e vestiu seda?
Qin, percebendo que sua postura relaxada estava causando um curto-circuito coletivo, endireitou as costas. Num piscar de olhos, a suavidade de "Zheng" desapareceu, e a aura esmagadora de "Shi Huang" retornou, mesmo em trajes de dormir. Ele cruzou as pernas, apoiando o queixo na mão, e um sorriso perigoso e carismático surgiu em seus lábios.
— Hmph. É lamentável que meus súditos e aliados tenham uma visão tão limitada — declarou ele, a voz agora ressoando com a autoridade de mil exércitos. — O Rei é o Rei, esteja ele envolto em ouro ou em trapos. Onde eu me sento, o mundo se curva. Vocês precisam que eu desenhe um mapa para reconhecerem seu soberano?
A mudança de tom foi tão drástica que o reconhecimento atingiu a todos como um soco.
— É ele! — gritou Raiden. — Como diabos você parece dez anos mais novo sem aquela venda?
— E por que você está falando como se fosse uma pessoa normal dez segundos atrás? — questionou Leônidas, cruzando os braços.
Qin soltou uma gargalhada vibrante, levantando-se para caminhar até Hades. Ele se sentou no braço da poltrona do Rei do Submundo, uma demonstração de intimidade que, anos atrás, teria causado uma guerra, mas que agora era o símbolo de uma união inabalável.
— O Imperador tem muitas faces — disse Qin, pegando a mão de Hades e brincando com os dedos do deus. — Para o mundo, eu sou a muralha inabalável. Para os meus inimigos, eu sou a ruína. Mas aqui... entre vocês, e especialmente ao lado do meu senhor do submundo... eu posso me dar ao luxo de ser apenas o homem por trás da coroa.
Hades levou a mão de Qin aos lábios, beijando os nós dos seus dedos com uma devoção que silenciou qualquer reclamação restante no salão.
— Ele teve um dia longo — explicou Hades, olhando para os outros deuses com um aviso silencioso em seus olhos para que não o perturbassem mais. — Derrotar um gigante de gelo ancestral antes do café da manhã tende a deixar qualquer um menos propenso a manter as formalidades.
— Ele estava coberto de sangue! — lembrou Brunhilde, ainda processando a imagem de Qin de pijama.
— E agora estou limpo — retrucou Qin, piscando um dos olhos para ela. — O que é mais importante? O sangue que derramei ou o fato de que meu pijama é de seda legítima da dinastia Han? Prioridades, minha cara Valquíria.
Buda, que estava mastigando um doce em um canto, soltou uma risada abafada.
— Eu disse a vocês. O cara é uma peça única. Nada nele é o que parece.
Qin recostou a cabeça no ombro de Hades, fechando os olhos. A sinestesia toque-espelho, que antes era uma maldição que o fazia sentir a dor de cada alma ao seu redor, agora estava em paz. Ao lado de Hades, ele sentia apenas a força estável e o calor profundo de um amor que atravessara as barreiras da vida e da morte.
— Zheng — sussurrou Hades, apenas para ele. — Você assustou o Ares. Ele ainda está pálido.
— Deixe-o — murmurou o Imperador, um sorriso preguiçoso nos lábios. — É bom que os deuses se lembrem de que o Rei pode ser imprevisível. Além disso... eu gosto de como você me olha quando não estou usando a venda.
Hades sorriu, ignorando o fato de que todo o panteão grego e os maiores heróis da história humana os observavam.
— Eu sempre vejo você, Zheng. Com ou sem máscara.
Qin Shi Huang, o homem que unificou a China e desafiou os céus, suspirou satisfeito. Ele podia ser o Imperador para o universo, mas ali, naquele momento de tranquilidade após a batalha, ele era apenas um homem que encontrara seu lar nos braços de um deus.
— Agora — disse Qin, abrindo um dos olhos e olhando para o salão. — Alguém vai me trazer aquele chá ou terei que declarar guerra a esta cozinha?
A correria que se seguiu para atender ao pedido do Imperador provou que, independentemente da roupa ou da venda, Qin Shi Huang continuava sendo o centro de gravidade de qualquer lugar onde decidisse repousar seu trono. E Hades, observando tudo com um orgulho silencioso, sabia que não escolheria nenhum outro companheiro para governar a eternidade ao seu lado.
