
Dama
Fandom: Magi Maya e Giovanna
Criado: 17/07/2026
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Cinzas e Sombras do Passado
O ar na cabana estava saturado com o cheiro de pinho e a umidade da terra, mas para Maya, tudo o que restava era o sabor metálico do medo. Ela permanecia deitada no sofá rústico, a manta de lã pesando sobre suas pernas como se fosse feita de chumbo. A revelação de Sarah ainda ecoava em sua mente, transformando o silêncio em um turbilhão de pensamentos caóticos.
Grávida. O termo parecia estranho, quase alienígena, em meio àquela fuga desesperada.
— Oito semanas... — sussurrou Maya, os dedos traçando círculos invisíveis sobre o ventre ainda plano. — Oito semanas de um segredo que eu nem sabia que carregava.
Sarah, sentada na poltrona de vime, observava a jovem com uma mistura de compaixão e pragmatismo. Ela sabia que aquele bebê mudava tudo. Não era mais apenas uma questão de esconder Maya; era sobre proteger o futuro da linhagem Torres, um futuro que muitos queriam ver enterrado sob as cinzas do carro carbonizado em Jequié.
— Você precisa comer algo sólido, Maya — disse Sarah, levantando-se para buscar uma tigela de caldo que havia deixado aquecendo. — O médico foi claro. O estresse é o seu maior inimigo agora. Se você desmoronar, ele desmorona com você.
Maya aceitou a tigela com as mãos ainda trêmulas. O calor do caldo parecia ser a única coisa real naquele refúgio improvisado.
— Como eu vou contar isso para ela, Sarah? — perguntou Maya, os olhos marejados fixos no líquido fumegante. — A Giovanna acha que eu morri. O mundo inteiro acha que eu morri. Se eu aparecer agora, coloco a vida dela em risco. Mas se eu ficar escondida... ela vai passar por esse luto sozinha. E esse filho... esse filho é dela também.
Sarah suspirou, cruzando os braços sobre o peito.
— A Malu está fazendo o possível para monitorar a mansão e a Lorena. Por enquanto, o silêncio é a sua única armadura. Se a Lorena descobrir que você sobreviveu, e pior, que está carregando um herdeiro, ela não vai descansar até terminar o serviço. Aquele acidente não foi um erro de cálculo, Maya. Foi uma execução.
Maya fechou os olhos, sentindo uma lágrima solitária escorrer. A imagem de Giovanna, com seu olhar intenso e seu sorriso que desarmava qualquer defesa, surgiu em sua mente. Onde estaria ela agora? Estaria chorando? Ou o gelo da família Torres já teria começado a endurecer seu coração?
Enquanto isso, a quilômetros dali, o ambiente na mansão Torres Garcia era sufocante. A presença de Bárbara no quarto de Giovanna agia como um catalisador para uma tensão que já estava no limite.
Giovanna tentou se desvencilhar do abraço de Bárbara, mas a ex-noiva a segurava com uma força nascida do desespero e da oportunidade.
— Bárbara, solte-me! — rosnou Giovanna, sua voz vibrando com uma autoridade que raramente falhava. — Eu não estou brincando. Saia de cima de mim.
Bárbara finalmente recuou, mas não se afastou totalmente. Seus olhos estavam vermelhos, uma encenação perfeita de luto que Giovanna conhecia bem demais para acreditar.
— Eu sei que você me odeia, Gio — disse Bárbara, a voz embargada. — Eu sei que eu errei no passado, que a Aline foi um erro... mas ver você assim, sofrendo por alguém que... bem, por alguém que nem era do nosso mundo... eu não pude suportar.
— "Nem era do nosso mundo"? — Giovanna repetiu, a voz perigosamente baixa. — A Maya era a minha esposa. Ela era o meu mundo. E você não tem o direito de mencionar o nome dela, muito menos de fingir que se importa.
— Eu me importo com você! — insistiu Bárbara, tentando tocar o braço de Giovanna. — A sua mãe está preocupada. A Lorena está fazendo tudo por você. Por que você insiste em me afastar quando é óbvio que você precisa de apoio?
Giovanna sentiu uma náusea que nada tinha a ver com fome. A hipocrisia daquela cena era quase insuportável.
— Você quer saber por que eu te afasto? — perguntou Giovanna, dando um passo à frente, forçando Bárbara a recuar. — Porque você é um lembrete de tudo o que eu tentei deixar para trás. A Maya me trouxe luz, Bárbara. Ela me trouxe verdade. E agora que ela se foi, a última coisa que eu quero é ser cercada por abutres que esperam que eu caia para poderem se banquetear com o que sobrou.
No corredor, Lorena ouvia cada palavra com um sorriso gélido. Ela não se importava com o drama de Bárbara. Para ela, Bárbara era apenas um peão útil para distrair Giovanna enquanto ela consolidava seu poder nas empresas Torres. No entanto, a persistência da "irmã" de Maya era irritante.
Lorena afastou-se da porta e caminhou até o escritório de Dona Vitória, a matriarca que ainda mantinha as rédeas da família com mão de ferro. Sem bater, ela entrou.
— A Bárbara está lá dentro — anunciou Lorena, sentando-se com elegância na cadeira à frente da mesa de carvalho. — Tentando reconquistar o território perdido.
Vitória ergueu os olhos dos documentos, uma expressão de tédio em seu rosto aristocrático.
— A Bárbara é uma tola, mas é uma tola previsível. Se ela conseguir tirar a Giovanna desse estado de letargia, que seja. Não podemos ter a presidente da empresa agindo como uma viúva inconsolável por muito mais tempo. O mercado está nervoso.
— O mercado está nervoso porque ainda não houve um enterro oficial — rebateu Lorena. — Sem corpo, há dúvidas. E dúvidas geram instabilidade.
— O Doutor Elias garantiu que o relatório será conclusivo — disse Vitória, friamente. — O fogo não deixou nada. É uma tragédia conveniente, Lorena. Vamos tratá-la como tal.
Lorena assentiu, mas seu pensamento estava longe. Ela precisava garantir que não houvesse pontas soltas. A morte de Maya precisava ser absoluta, não apenas jurídica, mas emocional.
De volta à cabana, a noite trouxe um frio cortante. Malu chegou horas depois, exausta, com as roupas sujas de barro e o rosto marcado pelo cansaço. Ela jogou a mochila sobre a mesa e olhou imediatamente para Sarah.
— Como ela está? — perguntou em voz baixa.
— Estável — respondeu Sarah, indicando o quarto com a cabeça. — O médico veio. A notícia é... complicada, Malu.
Sarah explicou a situação em poucas palavras. Malu sentou-se pesadamente em um banco, passando as mãos pelo cabelo curto.
— Um bebê... — murmurou Malu. — Isso muda o jogo. Se a Giovanna souber, ela vem buscar a Maya nem que tenha que derrubar o país inteiro. Mas se a Lorena souber...
— Exatamente — interrompeu Sarah. — Por isso, Maya precisa continuar morta para o mundo. Pelo menos até o bebê nascer, ou até termos provas suficientes para colocar a Lorena e quem quer que esteja com ela atrás das grades.
Malu abriu a mochila e tirou o novo chip de celular.
— Eu consegui acessar algumas câmeras de segurança próximas à mansão antes de sair do vilarejo. A movimentação lá está estranha. A Bárbara Garcia apareceu.
— A irmã? — Sarah franziu a testa. — O que aquela parasita quer agora?
— O que ela sempre quis: a Giovanna e o dinheiro dos Torres — disse Malu, com desprezo. — Mas tem algo mais. Eu vi a Lorena saindo para um encontro discreto em um hangar privado. Ela não está agindo sozinha.
Maya, que estava acordada e ouvindo a conversa pela porta entreaberta, sentiu um calafrio. Ela saiu do quarto, apoiando-se no batente.
— Ela vai tentar tirar tudo da Giovanna — disse Maya, a voz firme apesar da fraqueza. — A Lorena nunca quis apenas ser a braço direito. Ela quer o trono. E agora que ela acha que eu não sou mais um obstáculo, ela vai acelerar os planos.
Malu aproximou-se de Maya, colocando a mão em seu ombro.
— Você precisa descansar, Maya. Deixe que a gente cuide da parte suja.
— Não — disse Maya, olhando nos olhos de Malu. — Eu não posso simplesmente ficar sentada aqui enquanto elas destroem a mulher que eu amo. Eu tenho um filho dela agora. Eu tenho mais motivos do que nunca para lutar.
— E como você pretende lutar estando "morta"? — perguntou Sarah, cética.
Maya deu um sorriso triste, mas determinado.
— A morte é um disfarce poderoso, Sarah. Ninguém se protege de um fantasma.
Na mansão, a noite avançava. Giovanna finalmente conseguira expulsar Bárbara de seu quarto, trancando a porta e desabando contra a madeira maciça. O silêncio da casa era opressor. Ela caminhou até a mesinha de cabeceira e pegou um porta-retrato que ficava escondido na gaveta. Era uma foto simples: Maya rindo na praia, o cabelo bagunçado pelo vento, os olhos brilhando com uma alegria pura que Giovanna nunca encontrara em nenhum salão de festas da alta sociedade.
— Onde você está, Maya? — sussurrou Giovanna, apertando a foto contra o peito. — Por que eu sinto que você ainda está aqui? Por que eu não consigo dizer adeus?
Ela fechou os olhos e, por um breve momento, permitiu-se imaginar que o cheiro de jasmim que sempre acompanhava Maya estava no quarto. Não era apenas saudade; era uma conexão que transcendia a lógica.
Lá fora, a tempestade começava a se formar. O vento uivava entre os pinheiros da cabana e batia contra as janelas da mansão, como se o próprio destino estivesse impaciente para o próximo movimento daquele jogo perigoso.
Lorena, em seu quarto, brindava sozinha com uma taça de vinho tinto. Ela olhava para o espelho, vendo não apenas seu reflexo, mas a imagem da mulher que em breve governaria o império Torres.
— Um brinde ao fim da linhagem — murmurou ela, o sorriso cruel iluminado por um relâmpago.
Mal sabia ela que, nas sombras da floresta, a linhagem que ela tanto desejava extinguir acabara de ganhar um novo sopro de vida. E que Maya, a menina que ela considerava uma peça descartável, estava prestes a se tornar o seu pior pesadelo.
A guerra estava apenas começando, e as cinzas do passado ainda guardavam brasas prontas para incendiar o presente.
— Fique viva, Maya — murmurou Sarah na cabana, observando a jovem voltar para a cama. — Por você e por essa criança. Porque quando a verdade aparecer, o mundo vai tremer.
Maya deitou-se, sentindo o leve pulsar em seu ventre. Pela primeira vez desde o acidente, ela não sentiu apenas medo. Sentiu propósito. Ela voltaria para Giovanna. Não como a vítima que fugiu, mas como a mulher que protegeria o que era delas, custasse o que custasse.
O silêncio voltou a reinar, mas era um silêncio carregado de promessas e vingança. A farsa da morte era apenas o prólogo de uma ressurreição que ninguém, nem mesmo a poderosa família Torres, estava preparado para enfrentar.
