
Wyler 1
Fandom: Wandinha
Criado: 17/07/2026
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O Veneno no Café e o Açúcar no Sangue
As sombras da Academia Nunca Mais pareciam mais densas naquele outono, como se as paredes de pedra tivessem absorvido o trauma dos anos anteriores e agora o exalassem na forma de uma névoa perpétua. Wandinha Addams, contudo, encontrava conforto na obscuridade. Sentada em sua escrivaninha, o som rítmico das teclas de sua máquina de escrever era a única melodia que permitia em seus ouvidos.
A janela estava aberta, deixando o ar gélido arrepiar sua nuca, mas ela não se moveu. Seus olhos negros estavam fixos no papel, até que um cheiro familiar — uma mistura de grãos de café torrados e o odor metálico de algo que ela preferia não nomear — invadiu o quarto.
Wandinha parou de digitar. Ela não precisava se virar para saber quem estava ali.
— A fechadura da porta da frente continua sendo um insulto à minha inteligência, Tyler — disse ela, a voz monótona e fria como uma lápide em janeiro. — Mas invadir o dormitório de uma Addams exige um nível de audácia que beira o suicídio.
Houve um riso baixo, rouco, vindo das sombras perto da varanda. Tyler Galpin deu um passo à frente, a luz da lua revelando seus cachos levemente desgrenhados e aquele olhar que oscilava perigosamente entre a vulnerabilidade de um garoto de cidade pequena e a sede de sangue de um Hyde.
— Eu sempre gostei de viver perigosamente, Wandinha — ele respondeu, caminhando com uma graça predatória até o centro do quarto. — E você sabe que trancas nunca foram feitas para me manter do lado de fora.
Ele segurava um copo de papel da cata-vento. O vapor subia suavemente. Ele o colocou sobre a mesa, ao lado da máquina de escrever, ignorando o olhar mortal que ela lhe lançou.
— Um latte quádruplo, sem açúcar. Amargo como o seu desprezo por interações sociais — ele sorriu, um sorriso que não chegava totalmente aos olhos, mas que carregava uma carga elétrica que Wandinha detestava admitir que reconhecia.
Wandinha olhou para o copo e depois para ele.
— Você foi um assassino em massa, um peão de uma fanática e uma besta incontrolável — afirmou ela, levantando-se e cruzando os braços sobre o peito. — Por que eu deveria aceitar uma bebida de alguém que tentou me estripar?
Tyler se aproximou, diminuindo a distância entre eles até que Wandinha pudesse sentir o calor emanando de seu corpo. Ele era mais alto, mas ela nunca recuava.
— Porque você gosta do perigo — sussurrou ele, inclinando a cabeça. — E porque, de todas as pessoas neste mundo medíocre, você é a única que não olha para mim com medo ou pena. Você olha para mim e vê exatamente o que eu sou. E isso te fascina.
Wandinha sentiu uma leve pressão no peito. Era irritante.
— O fascínio é um termo generoso para o que sinto — retrucou ela. — Eu vejo um espécime biológico interessante que sobreviveu à própria extinção. Nada além disso.
— Mentirosa — disse Tyler, a voz suave como veludo. — Se fosse só isso, você teria me entregado à polícia ou me matado no momento em que entrei por aquela janela. Em vez disso, você está aqui, sentindo o pulso acelerar.
Ele estendeu a mão, mas não a tocou. Seus dedos pararam a centímetros do rosto de Wandinha, traçando o contorno do ar perto de sua bochecha.
— Eu mudei, Wandinha. Eu recuperei o controle. O Hyde ainda está aqui, mas agora ele responde a mim, não a um mestre.
— Um monstro com coleira é apenas um animal doméstico entediante — disse ela, embora seus olhos estivessem fixos nos dele.
— Eu não sou doméstico — Tyler sorriu de lado, um brilho perigoso em seu olhar. — E você sabe que não há nada de entediante em mim. Eu vim te fazer uma proposta.
Wandinha arqueou uma sobrancelha, o interesse despertado contra sua vontade.
— Se for um pedido de desculpas, economize seu fôlego. Prefiro ouvir o som de unhas em um quadro negro.
— Nada de desculpas — afirmou Tyler, afastando-se um pouco para caminhar pelo quarto, observando as decorações macabras. — Há algo se movendo nas sombras da floresta. Algo que não é um excluído e certamente não é humano. Está matando o gado dos arredores e, em breve, vai começar a caçar alunos.
Ele parou diante do violoncelo de Wandinha.
— Eu quero caçar essa coisa. E quero que você venha comigo. Uma parceria. Como nos velhos tempos, mas sem as mentiras.
— Os "velhos tempos" terminaram comigo quase morrendo e você sendo levado em correntes — lembrou Wandinha de forma seca. — Por que eu confiaria em você para uma caçada?
Tyler se virou rapidamente, a intensidade de sua presença preenchendo o espaço.
— Porque eu sou a única coisa na floresta que é mais perigosa do que o que quer que esteja lá fora. E porque você está entediada, Wandinha. Escrever sobre crimes fictícios não é o suficiente para você. Você precisa do sangue real. Do risco.
Wandinha caminhou até ele, parando a centímetros de distância. Ela podia ver a pequena cicatriz em seu lábio, a lembrança das batalhas passadas. Ela estendeu a mão e, para a surpresa de Tyler, agarrou a gola de sua jaqueta, puxando-o para baixo para que ficassem na mesma altura.
— Se você tentar me trair novamente — disse ela, a voz baixa e letal —, eu não vou apenas te mandar para uma prisão de segurança máxima. Eu vou garantir que cada parte do seu corpo seja dissecada enquanto você ainda estiver consciente para assistir.
Tyler não pareceu intimidado. Pelo contrário, seu rosto se iluminou com um prazer genuíno.
— É por isso que eu te amo, Wandinha. Sua falta de misericórdia é a coisa mais romântica que já conheci.
Wandinha soltou a gola dele com um empurrão leve.
— Não use essa palavra comigo. É vulgar.
— Qual? Romântica ou amor? — provocou ele, recuperando a postura de sedutor manipulador.
— Ambas — respondeu ela, voltando-se para o café que ele trouxera. Ela tomou um gole longo da bebida amarga. Estava perfeito. — Esteja aqui à meia-noite. Se você se atrasar um segundo, eu parto sem você e te caço por esporte.
Tyler caminhou em direção à janela, parando no parapeito. Antes de pular para a escuridão da noite, ele olhou para trás.
— Você ainda usa o colar que eu te dei? — perguntou ele, com um tom de voz que beirava a sinceridade.
Wandinha não olhou para ele. Ela olhou para o papel em sua máquina de escrever.
— Ele serve como um excelente peso de papel — mentiu ela.
Tyler soltou uma risada curta e desapareceu na névoa.
Wandinha permaneceu em silêncio por um longo momento. Sua mão deslizou involuntariamente para o bolso de seu vestido, onde seus dedos tocaram o metal frio do pequeno pingente que ela jurara a si mesma que jogaria no lago, mas que nunca o fizera.
Ela se sentou novamente e voltou a digitar. O ritmo estava mais rápido agora. Tyler era um caos que ela não conseguia organizar, um quebra-cabeça com peças que cortavam as mãos de quem tentava montá-lo. E, embora ela jamais admitisse, o gosto do café amargo em sua boca era a única coisa que a fazia se sentir verdadeiramente viva naquela escola de monstros.
A meia-noite se aproximava, e com ela, a promessa de sangue e respostas. Wandinha Addams não acreditava em finais felizes, mas acreditava em destinos entrelaçados pela escuridão. E o de Tyler estava irremediavelmente amarrado ao dela.
— Mãozinha? — chamou ela, sem desviar os olhos da página.
A mão decepada saltou de cima do guarda-roupa, aterrissando com um baque surdo na mesa.
— Prepare meu kit de necropsia e a adaga de prata. Vamos caçar um monstro.
Mãozinha gesticulou freneticamente, perguntando se era seguro confiar no Hyde.
— Confiança é uma fraqueza dos tolos, Mãozinha — disse Wandinha, fechando a máquina de escrever com um estalo definitivo. — Eu não confio no Tyler. Eu confio na sede de destruição dele. E, no momento, nossos interesses coincidem.
Ela se levantou, vestindo seu sobretudo preto. O ar no quarto parecia ter ficado ainda mais frio, mas Wandinha não tremia. Ela estava em seu elemento.
— Além disso — acrescentou ela, caminhando para a porta —, se ele tentar algo, eu sempre quis saber se o coração de um Hyde tem o mesmo gosto de um coração humano.
Com um último olhar para o copo de café vazio, ela apagou a luz. A escuridão a abraçou como uma velha amiga, e lá fora, na névoa, o monstro esperava por sua mestre, ou talvez, pela sua igual. De qualquer forma, a noite em Nunca Mais estava apenas começando, e o rastro de sangue que deixariam para trás seria a única poesia que Wandinha Addams estava disposta a escrever naquela semana.
