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Até o Amor Desistiu

Fandom: Jeon

Criado: 17/07/2026

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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoSongficTragédiaEstudo de PersonagemConserto
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O Silêncio Entre as Batidas do Coração

O anúncio do médico caiu sobre Jungkook como uma sentença de morte disfarçada de alívio. Ela estava viva, sim. O coração de Alyssa voltara a bater por conta própria, mas a barreira que ela erguera entre os dois parecia mais sólida do que as paredes de concreto da unidade de terapia intensiva.

— Ela não quer me ver? — Jungkook repetiu, a voz falhando, as palavras saindo como um sussurro seco. — Doutor, o senhor explicou que eu estive aqui o tempo todo? Que eu não saí desse corredor nem para comer?

O médico suspirou, ajustando os óculos com uma expressão de sincera compaixão.

— Senhor Jeon, o trauma que ela sofreu é tanto físico quanto emocional. A perda de um filho, somada às traições que ela viveu antes de conhecê-lo e ao choque de descobrir sua verdadeira identidade sob os holofotes... o cérebro dela está tentando protegê-la. No momento, você é o gatilho para toda a dor que ela quer esquecer.

Jungkook cambaleou para trás, sentindo o peso do mundo esmagar seus ombros. Jimin, que observava a cena em silêncio, deu um passo à frente e segurou o braço do amigo, impedindo que ele desabasse novamente.

— Deixe-a descansar, Kook — pediu Jimin suavemente. — Se ela pediu pela Sra. Doria-Ji, é porque precisa de algo que lembre o lar, algo que não esteja conectado a toda essa confusão.

Doria-Ji era uma senhora brasileira, viúva de um diplomata coreano, que se tornara a vizinha e mentora de Alyssa desde que ela se mudara para Seul. Era a única pessoa em quem a jovem confiava plenamente agora.

Jungkook viu, pelo vidro embaçado da sala de espera, a Sra. Doria passar por ele com um olhar de profunda tristeza. Ela parou por um segundo, colocou a mão no rosto pálido do idol e balançou a cabeça.

— Você a ama, meu jovem, eu sei — disse a senhora em um tom baixo. — Mas o amor, às vezes, precisa saber a hora de se afastar para que o outro possa se curar. Ela está quebrada. E cada vez que olha para você, ela vê o que perdeu.

— Eu só queria pedir perdão — sussurrou Jungkook, as lágrimas voltando a queimar seus olhos. — Por não ter contado quem eu era antes. Por ter deixado aquele estresse chegar até ela.

— O perdão virá com o tempo, ou talvez não venha — respondeu Doria-Ji antes de entrar no quarto. — Mas hoje, o que ela precisa é de silêncio.

As horas seguintes foram um borrão de agonia para Jungkook. Ele se sentou no chão do corredor, ignorando os seguranças e os representantes da BigHit que tentavam convencê-lo a sair. Ele era Jeon Jungkook, o "Golden Maknae" amado por milhões, o homem cuja voz acalmava multidões, mas ali, naquele hospital, ele era apenas um homem destruído pela culpa.

Dentro do quarto, o cenário era de uma paz fúnebre. Alyssa estava pálida, quase fundindo-se aos lençóis brancos. Seus olhos, antes cheios de um brilho castanho que lembrava o pôr do sol do Brasil, agora pareciam opacos e distantes.

— Ele ainda está lá fora, não está? — perguntou Alyssa, a voz mal saindo pela garganta machucada pelo tubo de intubação.

Doria-Ji sentou-se ao lado dela, pegando sua mão fria.

— Ele não saiu um segundo sequer, querida.

Alyssa fechou os olhos, e uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto.

— Diga a ele para ir embora, Doria. Diga que... diga que eu não sinto ódio. Mas eu não sinto nada. É como se houvesse um buraco onde meu coração deveria estar. Eu olho para o rosto dele e lembro do flash das câmeras, lembro das mensagens de ódio das fãs que descobriram sobre nós, lembro da sensação de cair no chão e saber que meu bebê estava indo embora.

— Você precisa processar isso, Alyssa. Mas Jungkook também está sofrendo.

— O sofrimento dele é o de um homem que perdeu um troféu ou uma mentira que deu errado — disse ela com uma amargura que assustou a idosa. — O meu sofrimento é o de uma mulher que perdeu uma vida dentro de si enquanto descobria que o homem que amava era uma construção de marketing. Eu não conheci o "Jungkook do BTS". Eu conheci o "JK", o fotógrafo tímido. Aquele homem não existe. Foi tudo um sonho que virou pesadelo.

Lá fora, Jungkook finalmente cedeu. Não porque queria, mas porque suas pernas não o sustentavam mais. Jimin e os seguranças o levaram para uma van de vidros escuros. Enquanto o veículo se afastava do hospital, Jungkook olhou para trás, para a janela do terceiro andar, desejando que o fio invisível que um dia os unira não tivesse se partido de forma tão definitiva.


Três semanas depois.

A rotina de Jungkook havia se tornado um ciclo mecânico de ensaios silenciosos e noites em claro. A empresa anunciara um hiato para ele por "motivos de saúde", o que era verdade em partes. Ele perdera peso, seus reflexos estavam lentos e ele mal conseguia atingir as notas altas que antes alcançava sem esforço.

Ele estava sentado no estúdio, com a cabeça baixa sobre o teclado, quando a porta se abriu. Era Namjoon.

— Ela recebeu alta ontem — disse o líder do grupo, sem rodeios.

Jungkook levantou a cabeça instantaneamente.

— Para onde ela foi? Para o apartamento dela? Eu vou lá agora mesmo...

— Jungkook, pare — Namjoon o segurou pelos ombros, forçando-o a se sentar. — Ela não foi para casa. Ela pegou um voo de volta para o Brasil.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O ar parecia ter sido sugado da sala.

— Ela foi embora? Sem se despedir? — a voz de Jungkook tremeu.

— Ela deixou um envelope com a Sra. Doria. Estava endereçado a você.

Namjoon entregou um papel levemente amassado. Jungkook o pegou como se fosse feito de vidro quebradiço. Com as mãos trêmulas, ele abriu a carta. Não havia muitas palavras, apenas uma caligrafia trêmula que ele reconheceria em qualquer lugar.

"Jungkook,

Eu não estou fugindo de você. Estou fugindo da versão de mim que morreu naquele hospital.

Você me disse uma vez que a música era a sua verdade. Mas a sua verdade me custou tudo o que eu tinha de mais precioso. Eu não te culpo pela fama, nem pela perseguição da mídia, nem pela traição da minha amiga que vendeu nossa localização para os tabloides. Mas eu te culpo por me deixar acreditar que éramos apenas nós dois, quando, na verdade, havia um mundo inteiro entre a gente.

Não venha atrás de mim. Não use sua influência para me encontrar. Se você realmente me amou, deixe que eu me torne um fantasma na sua memória, assim como você agora é um fantasma na minha.

Adeus, JK."

Jungkook amassou o papel contra o peito, soltando um soluço que parecia rasgar seus pulmões. Ele queria gritar, queria correr para o aeroporto, queria cruzar o oceano e implorar de joelhos. Mas as palavras dela — "Se você realmente me amou, deixe-me ir" — eram as correntes que o prendiam ao chão.

— O que eu faço, Namjoon? — perguntou ele, entre lágrimas. — Como eu continuo sem o ar que eu respiro?

Namjoon suspirou, sentando-se ao lado do amigo mais novo.

— Você faz o que nós sempre fazemos, Jungkook. Você coloca essa dor em algo que não possa ser destruído. Você canta. Não para as fãs, não para os charts. Canta para ela, mesmo que ela nunca ouça.


Um ano depois.

O Rio de Janeiro brilhava sob um sol intenso. Alyssa caminhava pela areia de Copacabana, o vento bagunçando seus cabelos agora mais curtos. Ela carregava uma câmera fotográfica no pescoço — um hábito que levara muito tempo para retomar.

Ela havia se reconstruído. Trabalhava como tradutora freelancer e fazia ensaios fotográficos para pequenas marcas locais. A dor da perda do bebê ainda era uma cicatriz profunda, mas já não sangrava todos os dias. Sobre Jungkook, ela não buscava notícias. Bloqueara sites de entretenimento coreano e evitava as seções de música pop.

No entanto, o destino tinha um senso de humor cruel.

Ao passar por uma banca de jornais, ela viu uma revista internacional. Na capa, o rosto dele. Mas não era o Jungkook que ela lembrava. Ele parecia mais velho, os olhos carregavam uma melancolia que nenhuma maquiagem conseguia esconder. A manchete dizia: "O Retorno triunfal de Jeon: O álbum solo que parou o mundo".

Alyssa sentiu um aperto no peito, mas continuou caminhando. Ela entrou em um pequeno café para fugir do calor. No rádio ao fundo, uma melodia suave começou a tocar. Era um piano dedilhado com delicadeza, seguido por uma voz que fez o sangue de Alyssa congelar.

Era ele.

A letra não era em coreano, nem em inglês. Ele estava cantando em um português hesitante, mas carregado de uma emoção crua.

— "Ainda sinto o perfume das flores que não colhemos... o silêncio que você deixou é o barulho mais alto que eu já ouvi..."

Alyssa sentou-se em uma cadeira, sentindo as pernas fraquejarem. Os clientes ao redor continuavam suas conversas, sem saber que aquela canção era um pedido de socorro, uma carta de amor enviada através das ondas de rádio para uma única pessoa no mundo.

— "Eu respeitei o seu adeus" — a voz de Jungkook subiu em um falsete doloroso — "mas meu coração nunca aprendeu a dizer 'tchau'. Se algum dia o vento soprar meu nome em seus ouvidos, saiba que eu ainda sou o JK que você amou naquela tarde de chuva."

Lágrimas quentes e pesadas começaram a cair sobre o balcão de madeira do café. Alyssa cobriu a boca com a mão para abafar um soluço. Ele não viera atrás dela fisicamente, como ela pedira. Ele respeitara seu espaço. Mas ele encontrara uma maneira de estar ali, no meio de uma tarde comum no Rio de Janeiro, lembrando-a de que algumas feridas nunca fecham completamente porque são feitas de algo eterno.

O celular de Alyssa vibrou na bolsa. Era uma mensagem de Doria-Ji, que ainda morava na Coreia.

"Ele está aqui, Alyssa. No parque onde vocês costumavam ir. Ele vem aqui todas as semanas, senta no mesmo banco e olha para o nada por horas. Ele cumpriu a promessa dele. Ele não foi atrás de você. Mas ele está morrendo aos poucos, querida. E eu acho que você também está."

Alyssa olhou para o mar através da janela do café. O azul do oceano parecia uma ponte infinita. Ela pensou na traição da amiga, no ex-namorado que a usara, na dor insuportável de perder um filho. Mas depois, pensou nos olhos de Jungkook quando ele a olhava sem as câmeras por perto. No jeito que ele cozinhava para ela tentando aprender receitas brasileiras.

Ela pegou o celular e, com os dedos trêmulos, abriu o navegador. Digitou o nome dele. Milhares de fotos apareceram. Em todas elas, ele usava um pequeno pingente que ela lhe dera: uma pedra de quartzo verde, símbolo de cura no Brasil. Ele nunca o tirara.

— Você é um idiota, Jeon Jungkook — sussurrou ela, limpando as lágrimas.

Ela se levantou, deixou o dinheiro do café sobre a mesa e saiu. Ela não sabia se estava pronta para perdoar o mundo, ou se a dor da perda algum dia desapareceria. Mas ela sabia que o silêncio entre as batidas do seu coração tinha um nome. E esse nome estava chamando por ela do outro lado do planeta.

Alyssa caminhou em direção ao seu apartamento. Ela precisava arrumar as malas. Não para fugir outra vez, mas para enfrentar o único fantasma que ainda tinha o poder de fazê-la se sentir viva.

Enquanto cruzava a rua, a música de Jungkook ainda ecoava na sua mente, uma promessa de que, talvez, entre as cinzas do que eles foram, algo novo e mais forte pudesse finalmente florescer. O medo ainda estava lá, mas o amor, agora ela entendia, era o único motivo pelo qual valia a pena sentir medo.

Ela parou diante do espelho antes de sair de casa e viu uma mulher que não era mais a jovem traída de um ano atrás. Era uma sobrevivente. E sobreviventes sabiam que, às vezes, a única forma de se salvar é voltando para o lugar onde tudo começou.

— Espere por mim, JK — disse ela para o reflexo. — Só mais um pouco.

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