
MHA
Fandom: Boku no Hero Academy
Criado: 17/07/2026
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Silêncio Blindado
Katsuki Bakugou odiava muitas coisas. Odiava café fraco, odiava pessoas que não davam o sangue nos treinos, odiava a voz persistente de Deku e, acima de tudo, odiava ter seu sono interrompido. Mas o que estava acontecendo naquela manhã de terça-feira ultrapassava todos os níveis de sua tolerância já limitada.
O som não era um despertador comum. Era uma sirene estridente, um uivo mecânico que parecia vibrar dentro de seus canais auditivos e ricochetear nas paredes do quarto. Antes mesmo de abrir os olhos, ele sentiu o peso metálico das janelas blindadas se fechando automaticamente. O sistema de segurança da U.A. — aprimorado após a guerra para transformar os dormitórios em bunkers impenetráveis — havia sido ativado.
— Mas que porra é essa agora?! — Katsuki rosnou para o teto escuro, sua voz rouca de sono e carregada de uma fúria incandescente.
Ele saltou da cama, os pés descalços batendo no chão frio. Vestiu apenas uma calça de moletom cinza, sem se dar ao trabalho de procurar uma camiseta ou calçar os chinelos. Se a escola estava sob ataque ou se era apenas mais um teste idiota de Nezu, ele ia explodir a cara de alguém por causa do barulho.
Ao abrir a porta do quarto e sair para o corredor, o som da sirene ficou ainda mais insuportável. As luzes de emergência vermelhas piscavam ritmicamente, dando ao ambiente um aspecto de filme de terror barato. Ele desceu as escadas pisando forte, cada passo uma promessa de violência.
Quando chegou à sala comum do dormitório da Classe 2-A, o cenário era de puro caos sonolento. A maioria de seus colegas já estava lá, espalhada pelos sofás e pelo tapete. O ar estava pesado com o cheiro de suor, sono e a leve eletricidade que sempre pairava quando o sistema de segurança era acionado.
No sofá principal, Kirishima estava jogado, os cabelos vermelhos totalmente desgrenhados e sem o gel habitual. Ele mantinha os braços em volta de Izuku Midoriya, que parecia estar em um estado de transe, murmurando algo sobre protocolos de segurança enquanto tentava manter os olhos abertos.
— Bakugou! — Kirishima exclamou, sua voz quase sendo engolida pelo barulho da sirene. — Você também acordou com esse inferno?
— Não, idiota, eu vim aqui porque adoro ver a cara de sono de vocês no escuro! — Katsuki rebateu, cruzando os braços e revirando os olhos.
Foi então que ele o viu.
Sentado no braço do sofá onde o casal "Kirideku" se aninhava, estava Tenya Iida.
Katsuki parou por um segundo, seus olhos se estreitando enquanto processava a imagem à sua frente. Tenya estava sem óculos, o que era uma visão rara por si só. Seus olhos azuis pareciam mais profundos sem as lentes, embora estivessem nublados pelo cansaço extremo. Ele também estava sem camisa, exibindo ombros largos e uma musculatura definida que contava a história de anos de treinamento físico rigoroso e as cicatrizes que a guerra havia deixado como herança.
Eles não eram namorados. Pelo menos, não oficialmente. Não havia tido um pedido formal, nem um anel, nem uma declaração pública no meio do pátio da escola. Mas havia um "algo". Um "algo" que começou com conversas silenciosas na biblioteca após o toque de recolher e evoluiu para beijos roubados atrás das estufas e abraços que duravam mais do que o necessário.
Tenya não era mais o robô rígido que Katsuki conhecera no primeiro ano. A guerra tinha quebrado suas engrenagens de perfeccionismo e as remontado de uma forma mais humana, mais resiliente. E Katsuki... bem, Katsuki tinha aprendido que o silêncio de Tenya era o único que conseguia acalmar o ruído constante em sua própria cabeça.
Katsuki nunca admitiria, nem sob tortura, que ficou encarando o peito largo de Tenya e a linha de seu abdômen por mais tempo do que o socialmente aceitável. O representante de classe parecia estar em meio a um "download da alma", olhando fixamente para a parede oposta, com os braços cruzados e as pernas esticadas. Ele nem parecia notar o caos ao redor ou o fato de que metade da turma estava vendo sua forma física impecável.
Kirishima notou a chegada de Bakugou e o olhar fixo do loiro. O ruivo deu um sorriso cúmplice, mas Katsuki apenas bufou e caminhou em direção ao sofá.
Tenya não disse nada quando ele se aproximou. Apenas desviou o olhar da parede para Katsuki por alguns segundos. Não havia o brilho habitual de autoridade em seus olhos; havia apenas uma exaustão crua que combinava com a sirene irritante que ainda gritava nos ouvidos de todos.
Katsuki parou ao lado dele. Sem pensar muito, ou talvez pensando demais, ele estendeu a mão e afundou os dedos nos cabelos azul-escuros de Tenya, que estavam curtos nas laterais e na nuca.
Tenya soltou um resmungo baixo, quase um rosnado de irritação, e finalmente focou sua atenção totalmente em Katsuki.
— O que foi? — Tenya perguntou, sua voz soando mais grave e áspera do que o normal devido ao sono.
— Você tá com uma cara de merda, Quatro-Olhos — Katsuki disse, embora seus dedos continuassem a acariciar suavemente a nuca do outro.
Tenya inclinou levemente a cabeça para trás, fechando os olhos por um momento sob o toque de Katsuki. Era um contraste interessante. Tenya Iida não era um homem de toques. No dia a dia, ele mantinha uma distância profissional, expressando afeto através de ações: trazendo o chá favorito de Katsuki quando ele estudava demais, organizando as anotações que o loiro fingia não precisar ou simplesmente estando presente. Toques físicos, para Tenya, eram raros e geralmente reservados para momentos de extrema intimidade.
Já Katsuki era o oposto, embora escondesse isso sob camadas de agressividade. Ele precisava do contato. Precisava sentir a solidez de alguém para saber que ainda estava ali, que o mundo não estava desmoronando novamente. E, por algum motivo, ele sempre era quem iniciava.
— A sirene... — Tenya murmurou, passando a mão pelo rosto, sentindo falta de seus óculos. — É o protocolo de segurança de nível três. Bloqueio total. Provavelmente um erro no sistema de sensores do perímetro externo.
— Eu não quero saber o motivo técnico, eu quero que essa merda pare antes que eu exploda o painel de controle! — Katsuki rosnou, mas não afastou a mão.
— Você não vai explodir nada, Bakugou — Tenya respondeu, abrindo os olhos e olhando-o de baixo para cima. — Estamos em modo de segurança. Qualquer explosão dentro do dormitório agora acionaria o sistema de supressão de incêndio e nos deixaria encharcados.
Katsuki soltou um estalido com a língua, descontente por Tenya estar certo, mesmo estando visivelmente grogue.
— Você está sem camisa — Katsuki observou, baixando a voz para que Kirishima e Midoriya, que pareciam ter voltado a cochilar um no ombro do outro, não ouvissem.
Tenya olhou para o próprio corpo, como se só agora percebesse sua nudez parcial. Ele deu de ombros, um movimento que fez seus músculos do ombro saltarem.
— Estava calor no quarto quando o sistema fechou as ventilações. Eu não pensei em me vestir quando o alarme tocou. Minha prioridade era verificar se todos estavam na sala comum.
— Sempre o representante exemplar, hein? — O tom de Katsuki era sarcástico, mas havia uma suavidade subjacente.
Tenya esticou um braço e, em um movimento raro de iniciativa, segurou o pulso de Katsuki, puxando-o levemente para mais perto.
— Você está tenso — comentou Tenya.
— Eu odeio barulho, você sabe disso.
— Eu sei.
Eles ficaram ali por alguns minutos, um oásis de estranha normalidade no meio de uma sala cheia de adolescentes sonolentos e uma sirene ensurdecedora. O toque de Katsuki nos cabelos de Tenya tornou-se mais rítmico, quase hipnótico. Ele gostava da textura, gostava do jeito que Tenya parecia relaxar minimamente sob seus dedos, apesar de toda a rigidez de sua postura.
— Você viu meus óculos? — Tenya perguntou depois de um tempo, a voz quase um sussurro.
— Devem estar no seu quarto, gênio. Você saiu correndo como um louco.
— Provavelmente. Tudo está um borrão.
Katsuki soltou um riso curto e seco.
— Pelo menos assim você não vê o quanto a cara do Deku está ridícula babando no ombro do Cabelo de Espinho.
Tenya esboçou um sorriso mínimo, o canto dos lábios subindo apenas o suficiente para que Katsuki notasse. Era o tipo de sorriso que ele guardava apenas para aqueles momentos.
— Eles parecem em paz, apesar de tudo.
— Eles são dois idiotas — Katsuki retrucou, mas não havia veneno em suas palavras.
De repente, a sirene parou. O silêncio que se seguiu foi tão abrupto que chegou a doer nos ouvidos. Alguns segundos depois, as luzes vermelhas de emergência se apagaram e a iluminação normal, suave e amarelada, retornou ao ambiente. A voz metálica do sistema de segurança ecoou: "Falso alarme. Sensores normalizados. Modo de segurança desativado em cinco minutos."
Um suspiro coletivo de alívio varreu a sala. Ashido, que estava deitada no chão, soltou um gemido dramático.
— Finalmente! Eu achei que meus ouvidos iam sangrar!
Katsuki sentiu que deveria se afastar. O "show" de intimidade não era algo que ele gostasse de exibir para a plateia da Classe 2-A. No entanto, sua mão hesitou nos cabelos de Tenya. E, para sua surpresa, a mão de Tenya em seu pulso apertou um pouco mais antes de soltar.
— Eu vou buscar meus óculos — disse Tenya, embora não tenha feito menção de se levantar imediatamente.
— É, vai lá. Você fica parecendo um peixe fora d'água sem eles.
Tenya finalmente se levantou do braço do sofá. Ao ficar de pé, a diferença de altura e a proximidade fizeram com que Katsuki tivesse que inclinar a cabeça para trás. Por um breve instante, os olhos azuis e os olhos vermelhos se encontraram com uma intensidade que ignorava completamente os outros dezoito alunos na sala.
Não houve palavras de amor, nem promessas. Apenas o entendimento mútuo de que, no meio de qualquer caos, eles haviam encontrado um ponto de equilíbrio.
Tenya inclinou-se para frente, o movimento tão sutil que ninguém mais notaria.
— Obrigado, Katsuki — ele sussurrou, tão baixo que apenas o loiro pôde ouvir.
— Pelo quê, porra?
— Por me trazer de volta. Eu estava... um pouco perdido no barulho.
Katsuki sentiu o rosto esquentar, uma reação que ele rapidamente mascarou com uma carranca.
— Tanto faz. Só não esquece a porra da camisa da próxima vez. Eu não quero o resto desses extras cobiçando o que é... — Ele parou, a palavra "meu" morrendo em sua garganta antes de ser proferida.
Tenya soltou uma risada baixa, um som rico e genuíno que fez o coração de Katsuki dar um solavanco traidor.
— Entendido.
O representante de classe começou a caminhar em direção às escadas, sua postura voltando gradualmente ao habitual eixo de retidão, embora houvesse uma leveza em seus passos que não existia dez minutos atrás.
Katsuki ficou parado ali, observando as costas largas de Tenya desaparecerem no andar superior. Ele sentiu o olhar de Kirishima sobre ele e virou-se bruscamente.
— O que você está olhando, Cabelo de Merda?
Kirishima sorriu, limpando o canto da boca de Midoriya, que ainda dormia profundamente.
— Nada, Bakugou. Só acho que o modo de segurança não foi tão ruim assim para todo mundo.
— Vai se ferrar! — Katsuki resmungou, mas não explodiu nada.
Ele caminhou até a cozinha, decidido a fazer o café mais forte que a U.A. já tinha visto. Afinal, se ele ia ficar acordado àquela hora da manhã, precisava de cafeína. E talvez, apenas talvez, ele fizesse uma caneca extra para um certo representante de classe que, em breve, desceria as escadas devidamente vestido e de óculos, pronto para organizar o dia de todos.
Katsuki odiava acordar cedo. Mas, enquanto sentia o cheiro do café começando a passar e lembrava da sensação dos cabelos de Tenya entre seus dedos, ele decidiu que, apenas por hoje, ele poderia abrir uma exceção.
