
Brigas
Fandom: Vida pessoal
Criado: 17/07/2026
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O Tempero do Ciúme e o Silêncio da Cozinha
O vapor das panelas industriais subia, embaçando as janelas do Restaurante Popular de Juiz de Fora. O som era uma sinfonia caótica de talheres batendo em pratos de alumínio, o chiado da carne na chapa e o burburinho constante das pessoas que buscavam ali o sustento diário. Karinna, com sua touca branca bem ajustada, mexia um caldeirão de feijão com uma colher de pau que parecia um remo. Seus olhos, no entanto, não estavam no tempero, mas sim na porta de entrada do refeitório.
Ela procurava por Karen.
O relacionamento das duas, que já durava alguns meses, era o assunto favorito nos bastidores do restaurante. O começo não fora fácil. Karinna, sempre muito pé no chão, insistia que queria apenas amizade. Karen, com aquele sorriso que iluminava até o corredor mais escuro da limpeza e um jeito persistente de oferecer ajuda, não desistiu. A beleza de Karen, misturada ao seu charme natural de mulher bissexual segura de si, acabou derrubando as defesas de Karinna. A auxiliar de cozinha, lésbica assumida e decidida, viu-se completamente rendida.
Mas o turno de hoje estava sendo um pesadelo silencioso.
— Você vai acabar queimando esse feijão, Karinna — Janaína, uma das colegas de trabalho que sempre torceu pelo casal, aproximou-se com um sorriso cúmplice. — Onde está sua cabeça?
— No mesmo lugar de sempre, Jana — Karinna suspirou, largando a colher por um momento. — Mas a Karen nem olhou na minha cara desde que bateu o ponto.
— Eu vi ela passando o pano no setor B com uma cara de poucos amigos — comentou Juliana, que também era lésbica e formava, com Janaína, a rede de apoio das duas. — O que você aprontou dessa vez?
Karinna bufou, sentindo o peso da culpa misturado com a irritação.
— Ontem à noite eu saí com o pessoal do meu antigo vôlei. Só amigas, Ju. Postei uma foto no Instagram, nós quatro abraçadas, rindo. A Karen detesta que eu tenha tantas amizades lésbicas fora daqui. Ela diz que não é ciúme, que é "zêlo", mas a gente sabe o nome disso.
— É, amiga... — Juliana cruzou os braços. — Você sabe que ela é insegura com esse seu círculo social. Para ela, toda "amiguinha" é uma ameaça em potencial.
— Mas eu amo ela! — Karinna exclamou um pouco alto demais, atraindo olhares de alguns usuários do restaurante. — Eu não dou motivo.
O dia seguiu arrastado. Cada vez que Karen passava pela cozinha para recolher o lixo ou repor o material de limpeza, o ar parecia congelar. Ela passava como um furacão silencioso: olhos baixos, movimentos mecânicos e uma expressão de mágoa que cortava o coração de Karinna. Karen, sendo bissexual, muitas vezes sentia que Karinna preferia o conforto de estar entre "iguais", entre mulheres que compartilhavam a mesma vivência exclusiva, e aquela foto, cercada de mulheres bonitas e sorridentes, fora o estopim para sua insegurança.
Na hora do intervalo, Karinna decidiu que não aguentaria mais aquele gelo. Ela encontrou Karen no fundo do depósito, organizando alguns galões de desinfetante.
— Karen, a gente precisa conversar — disse Karinna, encostando a porta atrás de si.
Karen nem sequer levantou a cabeça. Continuou alinhando os galões com uma precisão desnecessária.
— Tenho muito trabalho, Karinna. O refeitório está lotado hoje.
— Não faz assim. Você está sem falar comigo desde as sete da manhã. É por causa da foto, não é?
Karen parou o que estava fazendo e finalmente olhou para ela. Seus olhos estavam marejados, mas a voz saiu firme, carregada de um sarcasmo defensivo.
— A foto estava ótima. Vocês pareciam muito íntimas. Especialmente com a mão daquela garota de cabelo curto na sua cintura.
— Aquela é a Roberta, Karen! Ela é como uma irmã para mim. Eu já te falei mil vezes sobre ela.
— Engraçado que todas as suas "irmãs" olham para você como se quisessem te devorar — Karen deu um passo à frente, o rosto tenso. — Eu sou sua namorada, mas parece que eu sou a última a saber da sua vida social. Você posta, todo mundo comenta, e eu fico aqui, limpando o chão e imaginando o que acontece quando eu não estou por perto.
— Você está sendo injusta — Karinna sentiu o ciúme dela começar a borbulhar também. — Eu também sinto ciúmes de você, lembra? Daquele rapaz da entrega que vive te dando risadinha? Mas eu confio em você! Por que você não pode fazer o mesmo?
— Porque é diferente! — Karen alterou o tom de voz. — Você tem um exército de mulheres ao seu redor. Eu me sinto... substituível.
— Substituível? — Karinna deu um passo para mais perto, diminuindo a distância entre as duas. — Karen, olha para mim. Eu demorei meses para aceitar que o que eu sentia por você era mais que amizade. Eu lutei contra isso porque eu tinha medo de me entregar. Você acha que eu faria tudo isso por qualquer uma?
Karen desviou o olhar, o lábio inferior tremendo levemente. O silêncio do depósito era quebrado apenas pelo som distante do exaustor da cozinha.
— Você postou a foto e nem me mandou uma mensagem antes — murmurou Karen, a raiva dando lugar à tristeza. — Eu me senti excluída da sua felicidade.
Karinna suspirou, sentindo a raiva se esvair. Ela segurou as mãos de Karen, que estavam frias e cheiravam a sabão de limão.
— Eu sinto muito. Eu não pensei que fosse te machucar. Para mim, era só um registro de um momento com amigas, mas eu entendo que para você pareceu outra coisa. Eu sou ciumenta, você é ciumenta... a gente é um desastre nesse ponto, não é?
Karen soltou um riso curto, sem humor, e finalmente olhou nos olhos de Karinna.
— Um desastre completo.
— Mas eu amo esse desastre — Karinna sorriu, puxando-a para um abraço apertado. — Eu não quero nenhuma daquelas meninas. Eu quero a mulher que me conquistou com o sorriso mais lindo de Juiz de Fora, mesmo que ela seja uma teimosa que me dá gelo no serviço.
Karen relaxou nos braços dela, escondendo o rosto no pescoço da auxiliar de cozinha. O cheiro de tempero e de pele quente de Karinna sempre a acalmava.
— Promete que vai me avisar da próxima vez? — pediu Karen, a voz abafada. — Não precisa parar de sair, eu só... eu só quero sentir que faço parte do seu mundo fora daqui também.
— Eu prometo. E prometo que, no próximo domingo, a foto vai ser nossa. Só nossa.
Elas se afastaram o suficiente para que os lábios se encontrassem. Foi um beijo lento, carregado de saudade de um dia inteiro de silêncio forçado. Era um beijo que selava a paz, mas que também carregava a intensidade de um amor maduro, que estava aprendendo a lidar com as arestas das inseguranças de cada uma.
De repente, a porta do depósito se abriu um pedaço.
— Epa! — Janaína colocou a cabeça para dentro, rindo. — O feijão já está quase secando e a supervisora está vindo aí. É melhor vocês voltarem para os postos antes que o "clima" vire advertência.
As duas se separaram rapidamente, rindo e limpando os rostos. Karen ajeitou o uniforme de limpeza e Karinna arrumou a touca.
— A gente se vê na saída? — perguntou Karen, com um brilho renovado nos olhos.
— Com certeza — respondeu Karinna, dando um selinho rápido nela antes de sair. — E hoje eu faço o jantar. Sem amigas, sem celular, só eu e você.
Karen sorriu, pegando seu carrinho de limpeza com uma disposição que não tinha desde que acordara. O trabalho no restaurante popular de Juiz de Fora era pesado, mas com Karinna ao seu lado, até o silêncio da cozinha se tornava uma melodia de esperança. Elas sabiam que as brigas por ciúmes não seriam as últimas — afinal, ambas tinham personalidades fortes e corações protetores —, mas enquanto houvesse aquela disposição de se olharem nos olhos e admitirem suas fraquezas, o relacionamento delas seria o prato principal de suas vidas.
Karinna voltou para o seu caldeirão, adicionando uma pitada extra de louro e muito carinho. O feijão daquele dia, diziam os frequentadores mais tarde, foi o melhor que o restaurante já servira. Talvez fosse o tempero, ou talvez fosse apenas o sabor da reconciliação que transbordava do coração da auxiliar de cozinha.
