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Itália - lcdp

Fandom: La casa de papel

Criado: 17/07/2026

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Tinta, Sangue e o Som de uma Risada Estranha

O ar na propriedade de Toledo era denso, carregado com o cheiro de madeira velha, mofo e a promessa perigosa de milhões de euros. O Professor, com sua postura impecável e aquele tique nervoso de ajustar os óculos, movia-se diante do quadro-negro como um maestro regendo uma orquestra de desajustados. Mas, para Itália, o que realmente importava não eram os números ou as plantas da Casa da Moeda, mas as pessoas que compartilhariam aquele destino com ela.

Sentada em uma das cadeiras de madeira rangentes, ela observava. Era o que fazia de melhor. Seus dedos, finos e manchados por anos lidando com tintas de segurança e papéis-moeda falsificados, tamborilavam na mesa. Ela era a rede de segurança; se um documento falhasse, se uma identidade precisasse ser criada do nada sob o fogo cruzado, Itália era a solução.

Ao seu lado, um rapaz de cabelos cacheados e olhos inquietos parecia prestes a explodir. Denver. Ele não conseguia ficar parado. Suas pernas balançavam freneticamente, e ele bufava a cada cinco minutos, claramente entediado com a explicação técnica sobre os dutos de ventilação.

— Puta que pariu, Professor... — Denver resmungou, alto o suficiente para Berlim, que bebia um vinho em um canto da sala, erguer uma sobrancelha elegantemente entediada. — A gente vai entrar lá pra roubar ou pra fazer um doutorado em engenharia? Minha cabeça já tá fritando com tanto número, caralho!

Moscou, o pai de Denver, deu um tapa leve na nuca do filho, um gesto carregado de um carinho bruto que não passou despercebido por Itália.

— Cala a boca e escuta, Daniel. É por isso que você se mete em encrenca, não tem paciência pra porra nenhuma — repreendeu o mais velho, com a voz rouca de quem já tinha visto poeira demais em minas de carvão.

— Eu tenho paciência, pai! O que eu não tenho é saco pra esse papo de duto. A gente entra, pega a grana e sai, não é? — Denver retrucou, gesticulando com as mãos de forma exagerada.

Itália inclinou a cabeça para o lado, observando o perfil de Denver. Ele era explosivo, uma granada sem pino, mas havia algo em seus olhos — uma urgência de provar seu valor, um medo mascarado de bravata.

— O plano depende dos detalhes, Denver — disse Itália, sua primeira intervenção real desde que chegaram à casa. Sua voz era calma, firme, com uma cadência que fez o rapaz parar de balançar a perna por um segundo. — Se você não souber onde o ar circula, você morre sufocado antes mesmo de ver a cor do dinheiro. E eu não pretendo morrer por causa da sua preguiça intelectual.

Denver virou-se para ela, os olhos semicerrados.

— Preguiça o quê? Olha só a nova, cheia de palavras difíceis — ele soltou um riso nasalado, desafiador. — E você é o quê? A rainha do papelzinho? O Professor disse que você faz passaporte, mas aqui a gente vai precisar de colhão, não de caneta.

— Coragem sem estratégia é só um jeito rápido de acabar num caixão — rebateu ela, sem desviar o olhar. — E eu garanto que minha caneta é mais útil para o grupo do que a sua incapacidade de ficar sentado por dez minutos.

Tóquio, sentada mais atrás, soltou um assobio baixo. Rio deu um sorriso de canto, enquanto Nairóbi soltou uma gargalhada vibrante.

— Ih, Denver! A garota te jantou e nem precisou de garfo! — gritou Nairóbi, batendo na mesa. — Gostei de você, Itália!

Denver ficou vermelho, a veia do pescoço saltando. Ele abriu a boca para retrucar, mas o Professor pigarreou, trazendo o silêncio de volta à sala.


As semanas em Toledo passaram entre sessões exaustivas de estudo e momentos raros de descontração. O plano era uma máquina complexa, e cada um deles era uma engrenagem. Itália passava horas em um pequeno escritório improvisado, cercada por lupas, luzes ultravioletas e solventes químicos. Ela estava criando as identidades que eles usariam para desaparecer após o assalto.

Uma noite, enquanto o resto do grupo bebia e comemorava o aniversário de Moscou na sala principal, Itália permaneceu trabalhando. O som da música e das risadas chegava abafado pelas paredes grossas de pedra. A porta rangeu.

— Você não cansa, não? — A voz de Denver ecoou, menos agressiva do que de costume.

Ele entrou segurando duas garrafas de cerveja, caminhando com aquele jeito desengonçado, como se seus membros fossem grandes demais para o próprio corpo.

— O Professor quer as identidades prontas para revisão amanhã cedo — respondeu Itália, sem tirar os olhos do documento que examinava. — E você? Não deveria estar celebrando com seu pai?

— O velho já tá capotado. Bebeu demais e começou a contar história de quando eu era pequeno e caí do telhado tentando voar — Denver soltou aquela risada estranha, aguda e rítmica, que parecia uma metralhadora engasgada. — A-ha-ha-ha-ha!

Itália parou o que estava fazendo e olhou para ele. O riso dele era contagiante, de um jeito bizarro. Ela sentiu os cantos da boca subirem levemente.

— Você tentou voar? Isso explica muita coisa sobre o seu cérebro, Denver.

— Ah, vai se ferrar! — Ele se aproximou, deixando uma das cervejas na mesa dela. — Eu tinha cinco anos, tá legal? Eu achava que era o Super-Homem. O problema é que a capa era um lençol velho e a gravidade é uma filha da puta.

Ele se sentou em um caixote de madeira próximo, observando o trabalho minucioso dela. Por um momento, o silêncio não foi desconfortável.

— Por que você tá aqui? — perguntou ele, de repente, a voz mais baixa. — Digo, você parece ter estudo. Não parece o tipo de gente que se mete com o Professor e com loucos como o Berlim.

Itália suspirou, largando a caneta.

— O sistema não perdoa erros, Denver. Eu cometi um. Usei meu talento para ajudar a pessoa errada e acabei sem nada, com a polícia na minha cola e uma dívida que eu nunca conseguiria pagar honestamente. O Professor me ofereceu um recomeço. E você?

Denver desviou o olhar, mexendo no rótulo da cerveja.

— Eu sou um desastre, Itália. Sempre fui. Meu pai... ele deu a vida por mim, sabe? Trabalhou naquelas minas de merda, perdeu a saúde pra me dar comida. E o que eu fiz? Me meti com droga, com briga, com gente que não vale o que o gato enterra. — Ele deu um gole longo na cerveja. — Eu só quero que o velho tenha uma vida de rei. Quero que ele pare de tossir aquele pó preto e possa morar numa praia, bebendo do bom e do melhor. Se eu falhar com ele nesse assalto... eu não tenho mais nada.

Havia uma vulnerabilidade crua naquelas palavras. Denver não era apenas o cara explosivo que gritava e fazia piadas; ele era um filho desesperado para ser o orgulho de um pai que já o amava incondicionalmente.

Itália estendeu a mão e tocou suavemente o braço dele. A pele dele estava quente contra a dela.

— Você não vai falhar, Denver. Você é impulsivo e fala muita merda, sim — ela deu um sorrisinho —, mas você tem um coração que não cabe nesse macacão que a gente vai usar. E no meio daquele caos, é o coração que mantém a gente vivo.

Denver olhou para a mão dela e depois para os olhos dela. Por um segundo, a tensão entre eles mudou. Não era mais a fricção de dois estranhos forçados a conviver, mas algo mais profundo, um reconhecimento.

— Você é estranha — ele disse, a voz rouca. — Fala como se me conhecesse há anos.

— Eu observo, lembra? É o meu trabalho.

Denver soltou outro riso, dessa vez mais contido.

— Pois é. Só não observa demais, senão vai acabar descobrindo que eu sou um cara legal. E isso estragaria minha reputação de bandido perigoso.

— Tarde demais para isso — provocou ela.


Os meses de treinamento chegaram ao fim. O dia do assalto amanheceu cinzento, o ar frio de Toledo cortando a pele. Eles estavam todos diante da van, vestindo os macacões vermelhos, as máscaras de Dalí penduradas no pescoço. A atmosfera era elétrica, uma mistura de medo puro e adrenalina.

Berlim verificava as armas com um sorriso sádico. Tóquio e Rio trocavam olhares furtivos. O Professor deu as instruções finais, sua voz estável, embora suas mãos tremessem levemente ao ajustar os óculos pela milésima vez.

Antes de subirem no veículo, Denver se aproximou de Itália. Ele parecia uma corda esticada ao máximo, prestes a arrebentar.

— Ei — ele chamou, a voz tensa. — Se as coisas ficarem feias lá dentro... se eu começar a fazer merda...

Itália colocou a mão no peito dele, sentindo o coração dele martelando contra as costelas. Ela o olhou fixamente, a calma dela servindo de âncora para a tempestade dele.

— Você não vai fazer merda, Denver. Você vai seguir o plano. E eu vou estar logo atrás de você, cuidando da retaguarda. Entendeu?

Denver respirou fundo, fechando os olhos por um segundo e inclinando a testa contra a dela.

— Entendi. Mas se eu morrer, eu te assombro por ter me chamado de burro naquele primeiro dia.

— É um trato — ela sussurrou.

— Vamos lá, porra! — gritou Nairóbi, batendo na lateral da van. — É hora de ganhar o mundo!

Eles entraram. O som das portas se fechando foi o último ruído do mundo exterior que ouviriam por muito tempo. A van arrancou, deixando para trás a tranquilidade de Toledo em direção ao coração de Madri.

Dentro do veículo, no escuro, Itália sentiu a mão de Denver buscar a sua. Ele apertou os dedos dela com força, um gesto silencioso de promessa e medo. Ali, entre o cheiro de pólvora e o metal frio das armas, a conexão que começara com insultos e observações silenciosas se selava. Eles não eram apenas assaltantes; eram dois náufragos agarrados ao mesmo bote, prestes a mergulhar no maior assalto da história.

A Casa da Moeda da Espanha os esperava, e com ela, o caos que testaria se o coração de Denver era realmente o escudo que Itália acreditava ser.

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