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Rio e Itália

Fandom: La casa de papel

Criado: 17/07/2026

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CrimeSuspenseRomanceDramaAngústiaDor/ConfortoEstudo de PersonagemCiúmesCenário CanônicoPsicológicoSobrevivênciaAçãoViolência Gráfica
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O Fantasma de Toledo

O som da chuva batendo contra a cabine telefônica era o único ritmo que minha ansiedade permitia processar. Minhas mãos tremiam tanto que o cartão telefônico quase escorregou entre meus dedos suados. Eu estava ofegante, o peito subindo e descendo num ritmo errático que parecia querer quebrar minhas costelas. Atrás de mim, a rua deserta de Madrid parecia uma boca de lobo pronta para me engolir.

Eu era Maia Lins, mas naquele momento, eu era apenas um animal acuado. O assalto em Alicante tinha sido um desastre sangrento. O cheiro de pólvora e o som do último suspiro de Lucas ainda estavam impregnados em minha pele. Ele morreu nos meus braços, e eu tive que correr. Correr até os pulmões queimarem.

Disquei o número da minha mãe. Eu só precisava ouvir a voz dela uma última vez antes de desaparecer ou ser presa.

— Alô? Mãe? — Minha voz saiu num sussurro quebrado.

— Maia? Filha, onde você está? A polícia... a polícia esteve aqui, eles disseram que você...

— Não fala nada, mãe. Só escuta. Eu amo você. Eu sinto muito por tudo, eu só...

Um clique seco na linha me fez congelar. Não era a queda do sinal. Era uma interceptação. Olhei para o retrovisor da cabine e vi os faróis de uma viatura dobrando a esquina, as luzes azuis e vermelhas ainda apagadas, mas a aproximação era predatória. O pânico subiu pela minha garganta como ácido. Eu ia ser pega. Eu ia apodrecer em uma cela pensando no rosto sem vida de Lucas.

De repente, um carro cinza, comum demais para ser notado, parou bruscamente ao lado da cabine. O vidro do carona baixou. Um homem de óculos, com uma expressão estranhamente calma e uma barba bem aparada, me encarou.

— Se terminar essa ligação, eles te pegam em trinta segundos — disse ele. A voz era firme, mas não agressiva. — Se entrar no carro, eu te dou uma vida nova. E dois bilhões de euros para não ter que se preocupar com a velha nunca mais.

Eu não pensei. A impulsividade que sempre foi meu veneno foi, naquele segundo, minha salvação. Bati o telefone no gancho e me atirei para dentro do veículo.

— Quem é você? — perguntei, sentindo meu coração martelar contra o esterno.

Ele ajeitou os óculos com o dedo indicador, um gesto meticuloso.

— Pode me chamar de Professor.


Cinco meses depois. Toledo.

A propriedade rural onde estávamos isolados cheirava a poeira, papel antigo e café forte. O Professor era um homem de rituais. Ele nos tratava como alunos em um internato de luxo, ou talvez como soldados de um exército invisível. Eu me sentia estranhamente em casa ali, talvez porque Sergio — eu sabia que esse era o nome dele, embora seguíssemos a regra dos codinomes — tinha se tornado o mais próximo de um pai que eu já tive. Ele não me julgava pelas minhas crises de ansiedade; ele me dava tarefas de infiltração que exigiam foco absoluto, canalizando minha energia explosiva para algo útil.

— Itália, você está dispersa — a voz do Professor me trouxe de volta à realidade da sala de aula improvisada.

Eu estava sentada em uma das mesas de madeira, balançando a perna freneticamente. Olhei para o quadro-negro, onde o plano da Casa da Moeda estava desenhado com uma precisão cirúrgica.

— Só estou pensando no tempo de resposta da polícia, Sergio... digo, Professor — corrigi rapidamente, sentindo o olhar de Berlim queimar em mim do outro lado da sala.

Berlim era um desgraçado elegante, mas eu não confiava nele nem um centímetro.

— O tempo de resposta é de dois minutos e vinte segundos. Já passamos por isso — disse uma voz jovem e animada ao meu lado.

Virei a cabeça e encontrei Rio me observando. Aníbal Cortés. Ele era o hacker, o prodígio tecnológico do bando, e possivelmente a pessoa mais irritantemente adorável que eu já conhecera. Ele tinha um sorriso que parecia não pertencer a um bando de criminosos. Era inocente demais, brilhante demais.

— Eu sei, gênio. Mas dois minutos podem ser uma eternidade se o alarme silencioso for acionado antes da hora — respondi, tentando manter o tom ríspido que eu usava com todo mundo.

— Comigo no comando do sistema? — Rio piscou para mim, exibindo aquela autoconfiança juvenil que me dava vontade de socá-lo ou de rir. — Eles não vão nem saber que as portas fecharam até que seja tarde demais.

— Menos conversa e mais atenção — interrompeu Tokyo, encostada na parede com os braços cruzados.

Tokyo era o meu oposto e, ao mesmo tempo, meu espelho. Ela era volátil, perigosa e exalava uma sensualidade agressiva. Eu sentia uma pontada de irritação toda vez que ela se aproximava de Rio com aquele jeito de quem sabe que é irresistível. Não que eu me importasse com quem Rio falava, claro que não. Era apenas... uma questão de foco no plano. Sim, era isso.

— Deixa os garotos, Tokyo — interveio Nairóbi, rindo enquanto organizava um maço de notas falsas para o treinamento. — A Itália só está com os nervos à flor da pele. Vem cá, querida, vamos tomar uma cerveja depois que o mestre terminar o sermão.

Nairóbi era minha âncora ali dentro. Ela tinha uma energia que preenchia o vazio daquela casa velha.

O Professor pigarreou, retomando a autoridade.

— Como eu dizia... as três regras de ouro. Nada de nomes reais, nada de perguntas pessoais e, acima de tudo, nada de relações afetivas. O amor é um erro de cálculo que não podemos nos dar ao luxo de cometer.

Senti o olhar de Rio em mim novamente. Eu desviei o meu para a janela, onde o sol de Toledo começava a se pôr.


Mais tarde naquela noite, a ansiedade voltou a me cobrar o preço. O silêncio da casa era pesado demais. Saí para o pátio, buscando o ar frio da noite para acalmar meus pulmões que pareciam estar diminuindo de tamanho. Sentei-me em um banco de pedra, abraçando meus joelhos, tentando controlar a tremedeira nas mãos.

— Respira fundo. Pelo nariz, solta pela boca.

Olhei para o lado e vi Denver. Ele estava com um cigarro apagado na boca e aquela expressão de quem já viu muita confusão na vida. Denver era bruto, mas tinha um coração que não cabia no peito. Tornou-se meu melhor amigo naquele isolamento, o tipo de cara que me fazia rir quando eu só queria gritar.

— É a porra da ansiedade de novo, Denver — murmurei, escondendo o rosto entre os braços.

— Relaxa, Italiazinha — ele se sentou ao meu lado, dando um tapinha desajeitado no meu ombro. — O velho tá cuidando de tudo. O Professor é um gênio, e meu pai tá lá dentro cavando o buraco mais bonito que você já viu. A gente vai sair de lá podre de rico.

— E se algo der errado? Se a gente acabar como o... — Minha voz falhou.

— Não vai. A gente é uma família agora, não é? Uma família de loucos, mas ainda assim uma família.

Ficamos em silêncio por um tempo, até que Denver se levantou.

— Vou lá ver se o Moscou precisa de ajuda com as ferramentas. Tenta dormir, tá? Você fica mais feia que o Berlim quando não dorme.

— Vai se ferrar, Denver! — gritei, com um pequeno sorriso surgindo.

— Hahaha! Boa noite!

Fiquei sozinha por mais alguns minutos até ouvir passos leves sobre o cascalho. Eu não precisei olhar para saber quem era. O perfume dele era algo limpo, quase infantil, misturado com o cheiro de eletrônicos aquecidos.

— O Denver é um bom terapeuta, mas eu acho que tenho algo melhor — disse Rio, aproximando-se.

Ele segurava um pequeno console portátil. Sentou-se ao meu lado, mantendo uma distância segura, mas perto o suficiente para que eu sentisse o calor do seu corpo.

— Um videogame? Sério, Rio? — debochei, embora sentisse meu coração acelerar de um jeito diferente.

— Não é só um videogame. É Tetris. É matemático, rítmico e ajuda a organizar o cérebro durante crises de pânico. Li isso em um fórum de psicologia enquanto hackeava o servidor da polícia de Madrid.

Eu o encarei. Ele estava sendo sincero. Não havia malícia, apenas aquela preocupação dócil que me desarmava.

— Você é um nerd muito estranho — eu disse, pegando o aparelho da mão dele.

— E você é a mulher mais intensa que eu já vi na vida — ele respondeu, a voz baixando de tom.

Nossos dedos se tocaram durante a troca do console. Foi um toque breve, mas senti como se um curto-circuito tivesse atravessado meu braço. Puxei a mão rapidamente, lembrando-me da voz do Professor: O amor é um erro de cálculo.

— Você não deveria estar aqui, Rio. O Professor...

— O Professor não está aqui fora agora — ele me interrompeu, aproximando-se um pouco mais. — E eu não consigo parar de olhar para você durante as aulas, Itália. É um problema sistêmico. Meu processador entra em pane.

Eu queria ser explosiva. Queria gritar com ele, dizer que ele era apenas um garoto que não sabia nada da vida e que eu era uma mulher quebrada por um passado sangrento. Mas quando olhei naqueles olhos castanhos, vi uma aceitação que me assustou.

— Você vai nos matar, sabia? — sussurrei, minha mão tremendo sobre o videogame.

— Ou vamos ser os únicos vivos naquele lugar — ele retrucou, com um meio sorriso.

A tensão entre nós era palpável, uma corda esticada prestes a arrebentar. Eu via o desejo nele, uma curiosidade quase inocente, mas profunda. E em mim, a barreira que eu tinha construído ao redor do meu coração estava começando a apresentar rachaduras perigosas.

— Ei, olha lá — ele apontou para a janela do andar de cima.

Tokyo estava observando da varanda, fumando um cigarro, os olhos fixos em nós como um falcão. Ela não parecia feliz. A rivalidade silenciosa entre nós estava apenas começando, e eu sabia que a impulsividade dela, somada à minha, seria um barril de pólvora.

— Ela vai contar para o Berlim — eu disse, sentindo o medo voltar.

— Deixa ela olhar — Rio deu de ombros, voltando a atenção para mim. — Ela só tem inveja porque não tem ninguém que a olhe do jeito que eu olho para você.

Senti minhas bochechas arderem. Eu, a mulher que já tinha enfrentado tiroteios e fugas desesperadas, estava sendo desarmada por um hacker de vinte e poucos anos com um videogame na mão.

— Vai dormir, Rio — eu disse, tentando manter a voz firme. — Amanhã o Professor vai nos ensinar sobre a entrada de ar, e eu não quero você bocejando.

Ele se levantou, mas antes de sair, inclinou-se e sussurrou perto do meu ouvido:

— Boa noite, Itália. Tenta não sonhar com o plano. Sonha comigo.

Ele saiu caminhando com as mãos nos bolsos, assobiando uma melodia qualquer. Eu fiquei lá, sentada no escuro, o console de Tetris ainda quente em minhas mãos. Meu peito não estava mais apertado pela ansiedade, mas por algo muito mais perigoso.

O assalto à Casa da Moeda ainda nem tinha começado, e eu já tinha quebrado a regra mais importante. Eu estava começando a me importar. E no mundo do Professor, se importar era o primeiro passo para a morte.

Olhei para a lua sobre Toledo e respirei fundo. Se o destino queria que eu fosse para o inferno, que fosse com dois bilhões de euros no bolso e aquele sorriso de Rio na memória. Mas antes disso, eu teria que sobreviver a Tokyo, ao Berlim e, principalmente, a mim mesma.

A porta da casa rangeu e a silhueta do Professor apareceu na entrada, observando o horizonte. Ele parecia um guardião, ou um carrasco. Levantei-me e caminhei em direção a ele.

— Não consegue dormir, Maia? — perguntou ele, usando meu nome real, algo que ele só fazia quando estávamos a sós e ele sentia que minha mente estava prestes a colapsar.

— Só pensando no futuro, Sergio — respondi, parando ao lado dele.

Ele colocou a mão no meu ombro, um gesto paternal que me deu um breve conforto.

— O futuro é uma construção de variáveis, minha querida. Se você seguir o plano, o futuro será brilhante.

— E se as variáveis mudarem? — perguntei, pensando no toque de Rio.

O Professor ajeitou os óculos e olhou para a escuridão.

— Então teremos que improvisar. E você sabe que o improviso é onde a maioria das pessoas falha. Não falhe, Itália.

— Eu não vou — menti, sentindo o peso do segredo começar a crescer.

Entramos na casa, deixando o silêncio de Toledo para trás. O assalto estava chegando. E nada, nem o Professor, nem as regras, nem o medo, poderia impedir o desastre emocional que estava prestes a explodir entre as paredes de mármore da Casa da Moeda.

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