
Karinna minha
Fandom: Vida pessoal
Criado: 18/07/2026
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Entre o Tempero e o Brilho do Chão
O relógio de parede do Restaurante Popular de Juiz de Fora parecia correr em um ritmo próprio, indiferente ao caos organizado que dominava o salão e a cozinha. Eram onze e meia da manhã, o pico do movimento. O cheiro de feijão recém-temperado e arroz soltinho pairava no ar, misturando-se ao som metálico das conchas batendo nas cubas de inox. Karinna, com sua dólmã branca já levemente manchada de molho de tomate, trabalhava freneticamente na área de apoio.
Como auxiliar de cozinha, suas mãos não paravam. Ela picava salsinha com uma precisão cirúrgica, mas seus olhos, quase por instinto, buscavam a figura esguia que se movia pelo salão. Karen, vestida com o uniforme azul de auxiliar de limpeza, passava o pano úmido em uma mesa que acabara de ser desocupada. Ela sorria para um senhor idoso que agradecia a rapidez, e aquele sorriso — aquele maldito sorriso gentil — fazia o estômago de Karinna dar voltas que nada tinham a ver com fome.
— Karinna, foca aqui! — exclamou a cozinheira-chefe, entregando-lhe uma bacia de batatas. — O purê não vai se fazer sozinho.
— Desculpa, Dona Cida. Já estou terminando aqui — respondeu Karinna, sentindo o rosto esquentar.
Ela voltou a atenção para as batatas, mas a lateral de sua visão ainda captava Karen. Viu quando um rapaz jovem, provavelmente um estudante da UFJF que aproveitava o preço acessível do restaurante, parou Karen para pedir uma informação. O rapaz não apenas perguntou; ele esticou a conversa, sorrindo de um jeito que Karinna classificou imediatamente como "excessivo". Karen, sendo a personificação da simpatia, riu de algo que ele disse enquanto ajeitava o cabelo atrás da orelha.
Karinna apertou o descascador de legumes com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Ela sabia que Karen era bissexual, sabia que ela a amava, mas o ciúme era uma chama difícil de apagar, especialmente quando sua namorada era, sem sombra de dúvida, a mulher mais radiante daquele centro de cidade.
Do outro lado do balcão, Karen sentia o peso do olhar de Karinna. Ela conhecia bem aquela intensidade. Mesmo sem olhar diretamente para a cozinha, ela sabia que a namorada estava em seu posto, exalando aquela aura de "mulher mais atraente do mundo" que sempre a deixava desconcertada. Karinna, com os cabelos presos em uma rede, os braços fortes trabalhando com agilidade e aquele olhar sério de quem leva a vida com garra, era tudo o que Karen sempre quis.
— Com licença, moça, você sabe onde fica o banheiro? — perguntou o rapaz, ainda tentando manter o contato visual.
— É logo ali no corredor à esquerda, depois do bebedouro — respondeu Karen, educada, mas já começando a se afastar.
— Obrigado. Você é muito gentil. Trabalha aqui há muito tempo?
Karen percebeu a intenção, mas antes que pudesse responder, seus olhos encontraram os de Karinna através do vidro que separava a cozinha do salão. Karinna não estava sorrindo. Ela apenas sustentou o olhar por dois segundos antes de voltar a esmagar as batatas com uma energia renovada.
— Um tempinho já — disse Karen, cortando o assunto. — Bom almoço para o senhor.
Ela se afastou rapidamente, o coração batendo um pouco mais rápido. Elas tinham um acordo: nada de demonstrações de afeto no trabalho. O Restaurante Popular era um ambiente público, profissional e, por vezes, conservador. Manter a discrição era uma questão de sobrevivência e respeito ao emprego que ambas tanto precisavam. Mas o intervalo... ah, o intervalo era o território delas.
Finalmente, o relógio marcou treze horas. O fluxo de pessoas começou a diminuir e a equipe de escala começou a se retirar para o descanso. Karinna lavou as mãos apressadamente, tirou o avental e saiu pelos fundos, em direção ao pequeno pátio onde os funcionários costumavam descansar.
Karen já estava lá, sentada em um banco de madeira sob a sombra de uma mangueira antiga. Ela segurava uma garrafa de água e parecia esperar ansiosamente. Assim que Karinna cruzou a porta, a tensão que acumulou durante toda a manhã pareceu evaporar, sendo substituída por aquela saudade aguda que sentiam mesmo passando o dia no mesmo prédio.
Karinna aproximou-se, sentando-se ao lado dela, mas mantendo uma distância segura caso alguém aparecesse de repente.
— Aquele cara no salão estava bem animado, não acha? — começou Karinna, tentando manter o tom casual, mas falhando miseravelmente.
Karen soltou uma risadinha baixa e balançou a cabeça.
— Ele só estava perdido, Ka. Você sabe que eu só tenho olhos para uma auxiliar de cozinha brava e cheirosa de tempero.
— Eu não sou brava — rebateu Karinna, embora um sorriso começasse a brincar nos cantos de sua boca. — Só não gosto de ver gente se engraçando para cima do que é meu.
— O que é seu? — provocou Karen, inclinando-se um centímetro para mais perto. — Achei que aqui dentro fôssemos apenas "colegas de trabalho".
— E somos. Mas meus olhos não deixam de ser seus só porque bati o ponto — Karinna suspirou, olhando para os lados antes de esticar a mão e tocar rapidamente a ponta dos dedos de Karen. — Você está linda hoje. Esse azul do uniforme destaca seus olhos.
— E você está maravilhosa com esse cabelo preso — retribuiu Karen, a voz descendo para um sussurro carregado de desejo. — Às vezes é difícil, sabia? Ficar limpando mesas e vendo você lá dentro, toda decidida, mandando em tudo... dá vontade de largar o rodo e ir lá te dar um beijo na frente de todo mundo.
Karinna sentiu um calafrio percorrer sua espinha. A atração que sentiam era magnética, uma força que as puxava constantemente uma para a outra, desafiando as regras que elas mesmas haviam imposto.
— Nem brinca com isso — disse Karinna, embora seus olhos brilhassem. — A Dona Cida teria um síncope. E eu morreria de vergonha.
— Eu sei, eu sei. Mas falta muito para as seis horas? — perguntou Karen, suspirando.
— Falta o turno da limpeza pesada e a organização do estoque para amanhã. Por que a pressa?
— Porque eu quero você só para mim. Sem balcões, sem jalecos, sem o cheiro de desinfetante ou de fritura. Só a gente no nosso sofá.
Karinna sentiu o peito apertar de amor. Ela amava a dualidade de Karen: a mulher forte que encarava o trabalho pesado de limpeza sem reclamar, e a namorada doce que só queria um dengo no final do dia.
— Sabe o que eu estava pensando? — Karinna mudou de assunto, tentando aliviar a tensão. — O pessoal da cozinha comentou que vai ter um happy hour na sexta, ali no Calçadão.
Karen arqueou uma sobrancelha.
— E você quer ir? Com todo mundo do restaurante?
— Não sei. Acho que seria bom para a gente parar de se esconder tanto. Não precisamos chegar de mãos dadas, mas... eu queria poder sentar do seu lado sem parecer que estou cometendo um crime.
Karen suavizou o olhar. Ela sabia o quanto Karinna, sendo lésbica e tendo passado por muito mais preconceito ao longo da vida, valorizava os espaços onde podia ser ela mesma. Para Karen, como bissexual, o processo de autoaceitação fora diferente, mas o amor que sentia por Karinna era o solo firme onde ela pisava.
— Se você estiver confortável, eu estou — disse Karen com firmeza. — Mas se alguém falar gracinha, eu não respondo por mim.
— Olha só quem é a brava agora — brincou Karinna.
O momento de paz foi interrompido pelo som do sinal indicando o fim do intervalo. Ambas suspiraram em uníssono. A bolha de intimidade se dissolveu, dando lugar novamente às personas profissionais.
— De volta ao trabalho? — perguntou Karen, levantando-se e ajeitando o uniforme.
— De volta ao trabalho — confirmou Karinna.
Antes de entrarem, Karen parou na porta e olhou por cima do ombro.
— Ei, Ka?
— Oi?
— Aquele rapaz de mais cedo? Ele não chega aos seus pés. Ninguém chega.
Karinna sentiu o coração disparar. Ela ficou parada por um momento, observando Karen entrar no prédio com aquele andar confiante que atraía olhares por onde passava. Sim, Karen era bonita e simpática, e isso sempre causaria um pouco de ciúme, mas a segurança de ser amada por ela era maior do que qualquer insegurança.
De volta à cozinha, o ritmo era ainda mais intenso. O jantar precisava começar a ser preparado. Karinna agora estava encarregada de refogar uma quantidade industrial de carne moída. O calor das bocas de fumaça era intenso, o suor começava a brotar em sua testa, mas ela trabalhava com um sorriso discreto nos lábios.
Cerca de uma hora depois, Karen passou pela porta lateral da cozinha para buscar um balde de água quente. O olhar das duas se cruzou novamente. Não houve palavras, não houve flerte óbvio. Apenas uma troca de olhares profunda, um reconhecimento mútuo de que, apesar do cansaço e da rotina exaustiva no coração de Juiz de Fora, elas tinham uma à outra.
Karinna observou Karen se afastar, o brilho do chão que ela deixava para trás refletindo as luzes do teto. Ela era o brilho na vida de Karinna, e Karinna era o tempero que dava sabor aos dias de Karen.
— Karinna! O sal! — gritou Dona Cida.
— Já vai, Dona Cida! Já vai! — respondeu ela, rindo sozinha, sentindo-se a mulher mais sortuda do mundo, mesmo entre panelas gigantes e o barulho incessante da cidade lá fora.
O final do expediente chegaria, o sol se poria atrás do Morro do Imperador, e finalmente, elas poderiam caminhar juntas pelas ruas do centro, deixando de ser apenas a auxiliar de cozinha e a auxiliar de limpeza, para serem apenas Karinna e Karen. E para as duas, isso era tudo o que importava.
