
Amor doentio
Fandom: Estilhaça-me
Criado: 18/07/2026
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O Peso das Sombras e do Silêncio
O corredor do Setor 45 parecia mais estreito naquela noite, as paredes de metal frio pressionando os ombros de Clara enquanto ela caminhava com pressa. O uniforme do Restabelecimento, sempre impecável e ajustado às suas curvas, parecia sufocá-la. Ela odiava o modo como a luz fluorescente denunciava o cansaço em seu rosto, mas odiava ainda mais o motivo daquele cansaço.
Faziam duas semanas desde que Juliette Ferrars fora trazida para a base. Duas semanas desde que o mundo de Clara, meticulosamente construído sobre segredos e promessas sussurradas no escuro, começara a desmoronar.
Ela parou diante da porta blindada dos aposentos privados do Comandante Supremo. O painel de acesso brilhou em verde quando ela inseriu o código que apenas três pessoas no mundo conheciam. Ao entrar, o cheiro de sândalo e chuva — o cheiro de Aaron — a atingiu como um soco no estômago, trazendo de volta memórias de noites em que o sigilo era um jogo excitante, e não uma prisão.
Aaron Warner estava de pé junto à janela, de costas para ela. Seus ombros estavam tensos sob a farda perfeitamente passada.
— Você demorou — disse ele, a voz fria e cortante como uma lâmina de gelo.
Clara sentiu uma pontada de irritação. Ela fechou a porta atrás de si, o clique metálico ecoando no silêncio do quarto.
— Peço desculpas, senhor — ironizou ela, a voz carregada de uma mágoa que ela não conseguia mais esconder. — Estive ocupada organizando os relatórios que seus soldados negligenciaram enquanto você estava ocupado... em outros setores.
Aaron se virou lentamente. Seus olhos verdes, geralmente tão impenetráveis, brilharam com uma faísca de algo que Clara não soube identificar. Cansaço? Irritação? Ou talvez apenas a frieza que ele agora reservava para o mundo inteiro.
— Clara, não comece — ele suspirou, passando a mão pelos cabelos loiros perfeitamente alinhados.
— Não comece? — Ela deu um passo à frente, as mãos cerradas ao lado do corpo. — Aaron, nós mal nos vemos. Quando nos vemos, você mal olha para mim. E quando olha, sinto que está procurando por outra pessoa através dos meus olhos.
— Isso é ridículo — ele retrucou, embora não tenha se aproximado.
— É mesmo? — Clara sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, mas ela se recusou a deixá-las cair. — Eu ouvi, Aaron. Eu estava no corredor hoje cedo quando você a levou para a ala de treinamento. Eu ouvi como você falou com ela.
O silêncio que se seguiu foi denso. Clara sentia o peso do próprio corpo, a insegurança que sempre a rondava por ser tão diferente das mulheres que o Restabelecimento idealizava, agora amplificada pela presença daquela garota letal e etérea que Aaron mantinha sob sua proteção.
— Você a chamou de "meu amor" — a voz de Clara quebrou no final, um sussurro dolorido. — O termo que você jurou que era apenas meu. O nome que você usa quando estamos sozinhos, quando o resto do mundo não existe.
Aaron deu um passo em direção a ela, a expressão suavizando-se por um breve segundo antes de se tornar uma máscara de controle novamente.
— Foi um recurso, Clara. Uma tática para ganhar a confiança dela. Juliette é instável, ela precisa sentir que tem um aliado, que tem alguém que a entende.
— E para isso você precisa dar a ela o que é meu? — Clara soltou uma risada amarga. — O nosso casamento já é um fantasma, Aaron. Nós nos casamos em segredo para que seu pai não me matasse ou me usasse contra você. Vivemos em sombras. Mas agora, as sombras estão ficando frias demais.
— Eu estou fazendo isso por nós! — Aaron exclamou, a voz subindo de tom pela primeira vez. Ele encurtou a distância entre eles, segurando os ombros de Clara com firmeza. — Se eu conseguir controlar o poder dela, se eu conseguir consolidar meu lugar aqui sem a interferência constante do meu pai, nós poderemos finalmente parar de nos esconder.
— Você acredita mesmo nisso? — Ela olhou para as mãos dele em seus ombros. — Ou você está apenas encantado por ter encontrado alguém que é tão quebrado quanto você?
Aaron recuou como se tivesse sido queimado. O silêncio voltou a reinar, mas desta vez era carregado de uma tensão insuportável. Clara sentia que o espaço entre eles, uma vez preenchido por paixão e promessas de um futuro melhor, agora estava cheio de segredos que nenhum dos dois queria confessar.
— Eu não posso continuar assim — disse Clara, limpando uma lágrima solitária que escapou. — Eu vou pedir transferência para a base no Setor 4.
Os olhos de Aaron se arregalaram, e uma sombra de pânico cruzou suas feições antes de ele retomar a postura autoritária.
— Você não vai a lugar nenhum — afirmou ele, a voz baixa e perigosa.
— Você não pode me impedir. Eu sou uma oficial técnica, tenho direitos de solicitação de transferência como qualquer outra pessoa.
— Eu sou o Comandante deste Setor, Clara! — Ele se aproximou novamente, desta vez cercando-a contra a parede fria. Suas mãos espalmaram-se no metal, uma de cada lado da cabeça dela. — Eu não dou permissão. Você não sai deste complexo. Você não me deixa.
— Por que, Aaron? — Ela o encarou, desafiando a autoridade que emanava dele. — Para que eu possa assistir você se apaixonar por ela enquanto eu mofo nos arquivos? Para que eu possa ser a sua esposa de conveniência que só existe entre as duas e as quatro da manhã?
— Porque eu preciso de você! — O grito dele foi abafado pelo rosto que ele mergulhou na curva do pescoço dela. Clara sentiu a respiração quente dele contra sua pele, o tremor leve em suas mãos. — Juliette é uma arma. Ela é uma peça em um tabuleiro. Mas você... você é a única coisa real que eu tenho. Se você for embora, não sobrará nada do homem que você diz amar.
Clara fechou os olhos, sentindo o conflito rasgar seu peito. Ela queria acreditar nele. Queria acreditar que o modo como ele a segurava, quase com desespero, era prova de que ela ainda era a prioridade. Mas a imagem de Juliette, com seus olhos grandes e assustados e o modo como Aaron a olhava, não saía de sua mente.
— Você a chamou de meu amor — repetiu ela, as palavras saindo como um lamento.
— Eu errei — sussurrou ele contra a pele dela. — Foi um erro estratégico. Eu estava exausto, eu não pensei...
— Você nunca erra estrategicamente, Aaron. Você é perfeito demais para isso.
Ele se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. A frieza havia sumido, substituída por uma vulnerabilidade que ele só mostrava a ela, no silêncio daquele quarto.
— Ela me assusta, Clara. O que ela pode fazer, o que ela representa... isso me distrai. Mas não é amor. Nunca poderia ser. Como eu poderia amar uma destruição que eu mesmo ajudei a criar?
Clara tocou o rosto dele, os dedos traçando a linha forte de sua mandíbula. Ela amava aquele homem com uma intensidade que a assustava. Amava o Aaron que lia poesia escondido, o Aaron que se preocupava com a pressão que ela sofria no trabalho, o Aaron que a fazia se sentir a mulher mais bonita do mundo, apesar de todos os padrões cruéis do Restabelecimento.
— Mas você não tem tempo para mim — disse ela, a voz baixa. — Com ela aqui, tudo piorou. As reuniões duram a noite toda, os testes, as simulações... nós mal conseguimos nos tocar sem que alguém bata à porta.
— Eu vou dar um jeito — prometeu ele, a intensidade em seu olhar quase dolorosa. — Eu vou criar espaço. Mas você tem que ficar. Prometa-me que não vai assinar aqueles papéis de transferência.
Clara olhou para a porta, pensando na liberdade que o Setor 4 poderia oferecer. Uma vida comum, longe da guerra, longe da sombra de Juliette Ferrars. Mas então olhou de volta para Aaron, o homem que carregava o peso do mundo nos ombros e que, naquele momento, parecia implorar por sua alma.
— Eu não posso prometer para sempre, Aaron — disse ela, a voz firme apesar da dor. — Mas eu vou ficar por enquanto. No entanto, as coisas precisam mudar. Eu não sou uma sombra, e não vou ser tratada como um segredo vergonhoso enquanto você desfila com ela pelos corredores.
Aaron assentiu, a tensão em seus ombros relaxando minimamente. Ele a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto em seus cabelos.
— Eu te amo — sussurrou ele, e desta vez as palavras soaram verdadeiras, carregadas com o peso de tudo o que eles haviam passado. — Você é a minha esposa. Nada, nem Juliette, nem meu pai, nem este mundo quebrado vai mudar isso.
Clara retribuiu o abraço, mas seus olhos permaneceram abertos, fitando a escuridão do quarto. Ela queria acreditar, mas sabia que, no Restabelecimento, as promessas eram tão frágeis quanto o vidro. E com a chegada de Juliette, o vidro já estava começando a trincar.
— É melhor que não mude mesmo — murmurou ela contra o peito dele. — Porque se mudar, Aaron... eu não vou apenas embora. Eu vou garantir que você se lembre exatamente do que perdeu.
Ele estremeceu levemente, apertando-a ainda mais. Ali, naquele pequeno refúgio de metal e segredos, eles eram apenas dois jovens tentando sobreviver ao caos. Mas do lado de fora daquela porta, a tempestade chamada Juliette Ferrars estava apenas começando, e Clara temia que, quando ela finalmente eclodisse, não sobraria pedra sobre pedra do casamento que eles tanto lutaram para esconder.
